quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

LdS - Livro I - Capítulo 2 - Delírio



Tudo escuro...

Estava tudo negro. Matheus não conseguia ver nada. Ele estava imerso no vazio e seu corpo parecia flutuar. Ele não sabia onde era esquerda ou direita, cima ou baixo,... estava no vazio. De repente a gravidade pareceu voltar a funcionar e Matheus sentiu seus pés tocarem o chão. Mas ele ainda não conseguia ver nada, a escuridão ainda persistia. Lentamente ele foi caminhando sem direção. Matheus andou uma enorme distância à procura de luz. Acreditava que já caminhava a ermo por cerca de uma hora quando dois pontos vermelhos, na verdade duas pequenas chamas vermelhas, apareceram bem mais à frente. Sem pestanejar, ele correu em direção às chamas. Não sabia o que esperar, mas qualquer coisa era melhor que o vazio e a escuridão.

Correu ainda por cerca de dez minutos. Assombrou-se quando chegou próximo das chamas vermelhas. Na verdade, o que Matheus avistara ainda longe eram os dois olhos em brasa da criatura que outrora havia lhe dilacerado o pescoço e rasgado todo o corpo. Aquele enorme lobo amaldiçoado estava novamente na sua frente e continuava rosnando para ele. Mas algo nele estava diferente da última vez que Matheus o tinha encontrado. Logo atrás do lobo, Matheus percebeu uma presença maligna, um vulto sombrio que parecia controlar o animal. Aos poucos o vulto foi se fundindo ao lobo e ambos ganharam a forma de um demônio. Seus olhos também eram como brasa viva e seu rosto parecia humano, mas estava desfigurado como se tivesse sofrido várias queimaduras. Mesmo assim Matheus conseguiu perceber que ele sorria. Tinha grandes orelhas pontudas e peludas. Possuía uma arcada dentária semelhante à de um crocodilo, com presas sobressaltando umas sobre as outras. Seu corpo era de alguma forma desproporcional com longos braços e pernas curtas. Ele era todo coberto de pelos espessos e negros como um macaco demoníaco. Matheus estremeceu ao ver o demônio revelado em toda a sua natureza brutal e animalesca.

Definitivamente o demônio sorria enquanto olhava para Matheus, ele não tinha mais dúvida. Era um riso nervoso, quase demente. De súbito o demônio falou:

- Então foi você quem feri há pouco? Teve muita sorte por ainda viver, já que estava faminto e, não fosse o chamado do bando, teria vencido a batalha contra meu hospedeiro e alimentado-me das suas entranhas. Aliás, penso agora que seria melhor para você se tivesse morrido. Saiba disso, agora sua vida será um inferno na terra. Você foi ferido por um servo de Licaon e agora a nossa maldição a você também pertence.

Matheus estava paralisado pelo medo, mas arranjou forças para conseguir falar com a besta:

- Como assim estou amaldiçoado?! Quem é você e quem é Licaon? - a aflição o consumia.

- Saiba que Licaon foi o primeiro entre os amaldiçoados e o mais poderoso ser que este mundo já viu. O seu poder supera em muito o poder dos mais fortes príncipes deste século. Ele é o verdadeiro rei dos amaldiçoados. Todo aquele que é atacado por um de seus servos e sobrevive torna-se igual ao seu algoz, uma besta brutal e sanguinária, sem consciência, que possui somente como guia o desejo por sangue.

- Que absurdo é esse que está me falando?

- Cale-se, garoto! Em pouco tempo você receberá o chamado de Selene e conhecerá a verdadeira agonia! Saberá o que é sucumbir à besta e provará da insanidade pela primeira vez. - o demônio pôs-se de novo a sorrir e, pouco depois de ter dito essas últimas palavras, desapareceu ante os olhos desesperados de Matheus.

Ele estava novamente só.

Matheus fechou seus olhos, levou as mãos ao rosto como gesto de autêntico desespero e começou a gemer de agonia ajoelhado no chão. Ao abrir os olhos, ele sentiu-se agora como se estivesse fora de seu corpo, flutuando. Era uma sensação estranha aquela. Ele ouviu um choro logo abaixo de onde estava. Com espanto, ao olhar para baixo, conseguiu observar seu próprio corpo encolhido no chão em agonia. Matheus esforçou-se para se aproximar e assim poder observar-se mais de perto chorando. Com algum esforço, chegou-se mais próximo do seu outro “eu” que gemia encolhido no chão e, quando esse outro Matheus revelou o rosto, ele pôde ver algo terrivelmente assustador. O rosto dele agora era o de um demoníaco homem-lobo e seus olhos queimavam de fúria.

Exatamente nesse momento, Matheus despertou de seu delírio. Estava agitado, muito suado, seu coração batia bem acelerado. Primeiramente viu somente um teto branco. Aos poucos foi percebendo o ambiente ao seu redor. As paredes do quarto eram de um verde delicado, tranquilo. Percebeu que tinha uma bandagem em seu pescoço. Com facilidade deduziu que estava em um quarto de hospital. Com muito esforço conseguiu erguer um pouco a cabeça para observar melhor o ambiente em que estava. Grande foi a sua surpresa quando olhou para a sua esquerda e avistou uma garota dormindo em uma poltrona posta ao lado do seu leito.

A garota que dormia era Alice.

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