Tudo
escuro...
Estava
tudo negro. Matheus não conseguia ver nada. Ele estava imerso no
vazio e seu corpo parecia flutuar. Ele não sabia onde era esquerda
ou direita, cima ou baixo,... estava no vazio. De repente a gravidade
pareceu voltar a funcionar e Matheus sentiu seus pés tocarem o chão.
Mas ele ainda não conseguia ver nada, a escuridão ainda persistia.
Lentamente ele foi caminhando sem direção. Matheus andou uma enorme
distância à procura de luz. Acreditava que já caminhava a ermo por
cerca de uma hora quando dois pontos vermelhos, na verdade duas
pequenas chamas vermelhas, apareceram bem mais à frente. Sem
pestanejar, ele correu em direção às chamas. Não sabia o que
esperar, mas qualquer coisa era melhor que o vazio e a escuridão.
Correu
ainda por cerca de dez minutos. Assombrou-se quando chegou próximo
das chamas vermelhas. Na verdade, o que Matheus avistara ainda longe
eram os dois olhos em brasa da criatura que outrora havia lhe
dilacerado o pescoço e rasgado todo o corpo. Aquele enorme lobo
amaldiçoado estava novamente na sua frente e continuava rosnando
para ele. Mas algo nele estava diferente da última vez que Matheus o
tinha encontrado. Logo atrás do lobo, Matheus percebeu uma presença
maligna, um vulto sombrio que parecia controlar o animal. Aos poucos
o vulto foi se fundindo ao lobo e ambos ganharam a forma de um
demônio. Seus olhos também eram como brasa viva e seu rosto parecia
humano, mas estava desfigurado como se tivesse sofrido várias
queimaduras. Mesmo assim Matheus conseguiu perceber que ele sorria.
Tinha grandes orelhas pontudas e peludas. Possuía uma arcada
dentária semelhante à de um crocodilo, com presas sobressaltando
umas sobre as outras. Seu corpo era de alguma forma desproporcional
com longos braços e pernas curtas. Ele era todo coberto de pelos
espessos e negros como um macaco demoníaco. Matheus estremeceu ao
ver o demônio revelado em toda a sua natureza brutal e animalesca.
Definitivamente
o demônio sorria enquanto olhava para Matheus, ele não tinha mais
dúvida. Era um riso nervoso, quase demente. De súbito o demônio
falou:
-
Então foi você quem feri há pouco? Teve muita sorte por ainda
viver, já que estava faminto e, não fosse o chamado do bando, teria
vencido a batalha contra meu hospedeiro e alimentado-me das suas
entranhas. Aliás, penso agora que seria melhor para você se tivesse
morrido. Saiba disso, agora sua vida será um inferno na terra. Você
foi ferido por um servo de Licaon e agora a nossa maldição a você
também pertence.
Matheus
estava paralisado pelo medo, mas arranjou forças para conseguir
falar com a besta:
-
Como assim estou amaldiçoado?! Quem é você e quem é Licaon? - a
aflição o consumia.
-
Saiba que Licaon foi o primeiro entre os amaldiçoados e o mais
poderoso ser que este mundo já viu. O seu poder supera em muito o
poder dos mais fortes príncipes deste século. Ele é o verdadeiro
rei dos amaldiçoados. Todo aquele que é atacado por um de seus
servos e sobrevive torna-se igual ao seu algoz, uma besta brutal e
sanguinária, sem consciência, que possui somente como guia o desejo
por sangue.
-
Que absurdo é esse que está me falando?
-
Cale-se, garoto! Em pouco tempo você receberá o chamado de Selene e
conhecerá a verdadeira agonia! Saberá o que é sucumbir à besta e
provará da insanidade pela primeira vez. - o demônio pôs-se de
novo a sorrir e, pouco depois de ter dito essas últimas palavras,
desapareceu ante os olhos desesperados de Matheus.
Ele
estava novamente só.
Matheus
fechou seus olhos, levou as mãos ao rosto como gesto de autêntico
desespero e começou a gemer de agonia ajoelhado no chão. Ao abrir
os olhos, ele sentiu-se agora como se estivesse fora de seu corpo,
flutuando. Era uma sensação estranha aquela. Ele ouviu um choro
logo abaixo de onde estava. Com espanto, ao olhar para baixo,
conseguiu observar seu próprio corpo encolhido no chão em agonia.
Matheus esforçou-se para se aproximar e assim poder observar-se mais
de perto chorando. Com algum esforço, chegou-se mais próximo do seu
outro “eu” que gemia encolhido no chão e, quando esse outro
Matheus revelou o rosto, ele pôde ver algo terrivelmente assustador.
O rosto dele agora era o de um demoníaco homem-lobo e seus olhos
queimavam de fúria.
Exatamente
nesse momento, Matheus despertou de seu delírio. Estava agitado,
muito suado, seu coração batia bem acelerado. Primeiramente viu
somente um teto branco. Aos poucos foi percebendo o ambiente ao seu
redor. As paredes do quarto eram de um verde delicado, tranquilo.
Percebeu que tinha uma bandagem em seu pescoço. Com facilidade
deduziu que estava em um quarto de hospital. Com muito esforço
conseguiu erguer um pouco a cabeça para observar melhor o ambiente
em que estava. Grande foi a sua surpresa quando olhou para a sua
esquerda e avistou uma garota dormindo em uma poltrona posta ao lado
do seu leito.
A
garota que dormia era Alice.

Macaco demoníaco foi o máximo! XD~
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