sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

LdS - Livro I - Capítulo 8 - Sem amanhã



No instante em que toda aquela desgraça estava acontecendo, em outra cidade há quilômetros de distância, Alice sentia uma agonia invadir sua alma. Era um estranho sentimento de que alguma coisa terrível havia acontecido. E, por mais que ela tentasse não dar importância para isso, seus pensamentos só buscavam Matheus. Alice já estava em casa, num apartamento próximo ao campus da faculdade, apartamento este que ela dividia o aluguel com sua amiga Viviane. Alice esperava ansiosamente um contato de Matheus, pois ele lhe havia prometido, mais cedo por ocasião de sua despedida, ligar assim que chegasse no seu destino. “Pelo tempo de viagem ele já deveria ter chegado”, pensava ela. E quanto mais o tempo passava e Matheus não ligava, mais Alice ficava aflita com medo do que poderia ter acontecido com ele.

Enquanto isso, Matheus, após ficar alguns minutos deitado ao lado do corpo de Henrique, teve a impressão de ouvir ao longe o som de sirenes. Era estranho, mas a audição de Matheus melhorara incrivelmente. Logo percebeu que, dentro de alguns minutos, aquela casa estaria cheia de policiais e que ele seria fatalmente preso acusado pelo assassinato de seu irmão. Era esperado que algum vizinho, ao ouvir o barulho de tiros, chamasse a polícia para averiguar o que estava acontecendo.

Inicialmente Matheus não quis fugir, estava muito esgotado e nada mais poderia abalá-lo agora, nem mesmo a prisão. Na verdade ele até desejava que isso acontecesse, queria ser preso e pagar pelo que causara àquelas pessoas. Por essa razão Matheus inicialmente não tentou fugir, simplesmente continuou deitado esperando que a polícia chegasse para prendê-lo.

Só que, quando as sirenes já estavam bem mais próximas, Matheus lembrou-se da única pessoa que importava ainda para ele, Alice. Ele queria vê-la mais uma vez antes de ser preso, queria ter a chance de poder explicar-se para ela, queria ser ele a pessoa que contaria a ela o que havia acontecido. Só quando se lembrou de Alice foi que Matheus teve forças para se erguer e buscar achar um meio para fugir daquele local.

Rapidamente ele correu para dentro da casa e procurou alguma roupa para vestir. Estranhamente Matheus não possuía mais nenhum machucado em seu corpo, ele estava totalmente recuperado de todas as lesões que sofrera no episódio com o lobo e também não sentia resquício nenhum dos ferimentos que sofreu enquanto estava na forma de lobo-demônio sob domínio de Shaladiel. Contudo a cicatriz que lhe transmitira a maldição de Licaon estava presente em seu pescoço, mas nem isso o incomodava mais.

Matheus vestiu-se rapidamente, juntou algumas roupas numa mochila, apanhou seu celular e correu para a garagem a fim de pegar sua moto. As sirenes agora estavam muito próximas, ele teria que agir rápido. Era possível que os vizinhos não soubessem ao certo qual a casa onde ocorreram os tiros, pois a propriedade da família de Matheus situava-se numa área mais isolada e todas as casas próximas dispunham de grandes áreas com jardins, de forma que era difícil para alguém de outra propriedade distinguir exatamente de onde o disparo havia sido executado. Mas ele perdera muito tempo, era possível que não conseguisse fugir.

Já com Matheus em cima da moto, o demônio Shaladiel voltou a buscar o domínio de seu corpo e aquela voz gutural novamente sussurrou dentro da mente do rapaz:

- Deixe-me cuidar disso para você, seu garoto fraco! Eu acabarei com todos facilmente. Não deixarei nenhum sobrevivente. Você não conseguirá escapar agindo sozinho. Deixe comigo, eu resolverei tudo...”

Era difícil para Matheus resistir à Shaladiel, por ser o demônio muito forte. Além de tudo, a Lua continuava brilhando intensamente no céu, o que dava mais poder ainda para o seu obsessor. Mas ele concentrou-se em seu irmão e nas pessoas inocentes que foram mortas devido ao seu descontrole e conseguiu resistir a mais essa investida do demônio sanguinário. Matheus respirou fundo. Seu coração estava mais uma vez a ponto de saltar-lhe pela boca. Tinha que acalmar-se, tinha que se concentrar para não perder o controle. Pensou novamente em Alice. Nesse exato momento seu celular tocou. Sem pensar direito no que estava fazendo ele atendeu.

- Alô,... Matheus? É Alice. Desculpa eu estar ligando, mas é que estou com um mau pressentimento... Está tudo bem com você?

- Alice?! Oi, eu estou indo agora te ver! Aconteceu uma coisa terrível e eu preciso ver você...

- O que foi que aconteceu, Matheus?! Me fala! Sua voz está estranha... você estava chorando? Me diz o que está havend...

- Agora eu não posso conversar! Quando estiver mais tranquilo eu te ligo. Apenas me espera que estou indo ver você. Até...

Sem ao menos esperar uma resposta de Alice ele desligou. Não podia mais perder tempo. Matheus ligou a moto, deu uma última olhada na casa onde vivera a sua infância ao lado de seus pais e de seu irmão Henrique. Estava emocionado. Sabia que provavelmente nunca mais voltaria a entrar naquela casa. Ele colocou o capacete, acelerou sua moto e saiu em disparada a procura de Alice e de alguma esperança para sua vida. 

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