No
instante em que toda aquela desgraça estava acontecendo, em outra
cidade há quilômetros de distância, Alice sentia uma agonia
invadir sua alma. Era um estranho sentimento de que alguma coisa
terrível havia acontecido. E, por mais que ela tentasse não dar
importância para isso, seus pensamentos só buscavam Matheus. Alice
já estava em casa, num apartamento próximo ao campus da faculdade,
apartamento este que ela dividia o aluguel com sua amiga Viviane.
Alice esperava ansiosamente um contato de Matheus, pois ele lhe havia
prometido, mais cedo por ocasião de sua despedida, ligar assim que
chegasse no seu destino. “Pelo tempo de viagem ele já deveria ter
chegado”, pensava ela. E quanto mais o tempo passava e Matheus não
ligava, mais Alice ficava aflita com medo do que poderia ter
acontecido com ele.
Enquanto
isso, Matheus, após ficar alguns minutos deitado ao lado do corpo de
Henrique, teve a impressão de ouvir ao longe o som de sirenes. Era
estranho, mas a audição de Matheus melhorara incrivelmente. Logo
percebeu que, dentro de alguns minutos, aquela casa estaria cheia de
policiais e que ele seria fatalmente preso acusado pelo assassinato
de seu irmão. Era esperado que algum vizinho, ao ouvir o barulho de
tiros, chamasse a polícia para averiguar o que estava acontecendo.
Inicialmente
Matheus não quis fugir, estava muito esgotado e nada mais poderia
abalá-lo agora, nem mesmo a prisão. Na verdade ele até desejava
que isso acontecesse, queria ser preso e pagar pelo que causara
àquelas pessoas. Por essa razão Matheus inicialmente não tentou
fugir, simplesmente continuou deitado esperando que a polícia
chegasse para prendê-lo.
Só
que, quando as sirenes já estavam bem mais próximas, Matheus
lembrou-se da única pessoa que importava ainda para ele, Alice. Ele
queria vê-la mais uma vez antes de ser preso, queria ter a chance de
poder explicar-se para ela, queria ser ele a pessoa que contaria a
ela o que havia acontecido. Só quando se lembrou de Alice foi que
Matheus teve forças para se erguer e buscar achar um meio para fugir
daquele local.
Rapidamente
ele correu para dentro da casa e procurou alguma roupa para vestir.
Estranhamente Matheus não possuía mais nenhum machucado em seu
corpo, ele estava totalmente recuperado de todas as lesões que
sofrera no episódio com o lobo e também não sentia resquício
nenhum dos ferimentos que sofreu enquanto estava na forma de
lobo-demônio sob domínio de Shaladiel. Contudo a cicatriz que lhe
transmitira a maldição de Licaon estava presente em seu pescoço,
mas nem isso o incomodava mais.
Matheus
vestiu-se rapidamente, juntou algumas roupas numa mochila, apanhou
seu celular e correu para a garagem a fim de pegar sua moto. As
sirenes agora estavam muito próximas, ele teria que agir rápido.
Era possível que os vizinhos não soubessem ao certo qual a casa
onde ocorreram os tiros, pois a propriedade da família de Matheus
situava-se numa área mais isolada e todas as casas próximas
dispunham de grandes áreas com jardins, de forma que era difícil
para alguém de outra propriedade distinguir exatamente de onde o
disparo havia sido executado. Mas ele perdera muito tempo, era
possível que não conseguisse fugir.
Já
com Matheus em cima da moto, o demônio Shaladiel voltou a buscar o
domínio de seu corpo e aquela voz gutural novamente sussurrou dentro
da mente do rapaz:
“-
Deixe-me cuidar disso para você, seu garoto fraco! Eu acabarei com
todos facilmente. Não deixarei nenhum sobrevivente. Você não
conseguirá escapar agindo sozinho. Deixe comigo, eu resolverei
tudo...”
Era
difícil para Matheus resistir à Shaladiel, por ser o demônio muito
forte. Além de tudo, a Lua continuava brilhando intensamente no céu,
o que dava mais poder ainda para o seu obsessor. Mas ele
concentrou-se em seu irmão e nas pessoas inocentes que foram mortas
devido ao seu descontrole e conseguiu resistir a mais essa investida
do demônio sanguinário. Matheus respirou fundo. Seu coração
estava mais uma vez a ponto de saltar-lhe pela boca. Tinha que
acalmar-se, tinha que se concentrar para não perder o controle.
Pensou novamente em Alice. Nesse exato momento seu celular tocou. Sem
pensar direito no que estava fazendo ele atendeu.
-
Alô,... Matheus? É Alice. Desculpa eu estar ligando, mas é que
estou com um mau pressentimento... Está tudo bem com você?
-
Alice?! Oi, eu estou indo agora te ver! Aconteceu uma coisa terrível
e eu preciso ver você...
-
O que foi que aconteceu, Matheus?! Me fala! Sua voz está estranha...
você estava chorando? Me diz o que está havend...
-
Agora eu não posso conversar! Quando estiver mais tranquilo eu te
ligo. Apenas me espera que estou indo ver você. Até...
Sem
ao menos esperar uma resposta de Alice ele desligou. Não podia mais
perder tempo. Matheus ligou a moto, deu uma última olhada na casa
onde vivera a sua infância ao lado de seus pais e de seu irmão
Henrique. Estava emocionado. Sabia que provavelmente nunca mais
voltaria a entrar naquela casa. Ele colocou o capacete, acelerou sua
moto e saiu em disparada a procura de Alice e de alguma esperança
para sua vida.

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