Sua respiração era ofegante. Os vários corredores pareciam um labirinto onde ele desesperadamente corria sem saber ao certo onde queria chegar. Seu coração batia acelerado e aumentava de frequência conforme seu desespero aumentava. Ao final daquele corredor havia uma porta de madeira, “poderia estar lá?”, pensava ele enquanto partia em disparada para verificar mais uma sala. Um chute colocou a porta abaixo e logo ele pode ver, deitada na cama, com uma espada cravada em seu peito, ela ainda sangrava, mas já estava morta. Dentro da sua cabeça, Shaladiel gargalhava com prazer.
-
Alice! - esse foi o grito que ele soltou no meio da noite silenciosa
ao acordar daquele terrível e realista pesadelo.
Matheus
suava muito e em seu peito seu coração palpitava descompassado.
Olhou na janela e viu Selene ainda reinando sozinha no céu escuro.
Resolveu que seria melhor levantar logo, definitivamente não
conseguiria mais dormir depois daquele sonho. Iria arrumar sua
bagagem, preparar seu material, poderia até aproveitar para praticar
mais um pouco com sua wakizashi. Afinal de contas, aquele seria o dia
decisivo e ele não poderia falhar. Foi no banheiro e jogou água no
rosto. Olhou no espelho e ficou encarando seu reflexo como se
procurasse lá dentro do seu íntimo a
resposta
para os seus medos. Novamente pensou no sonho, no desespero que ele
sentiu, na cena de Alice sangrando morta sobre a cama. Fechou os
olhos e buscou afastar aquele quadro medonho de sua cabeça. Aquele
era o dia decisivo e ele não se permitiria falhar.
**********
O
sol ainda nem tinha aparecido, apenas seus raios dourados começavam
a manchar a escuridão do céu e todos já estavam de pé prontos
para partir. Morrison tinha designado cinco de seus subordinados para
prestarem apoio ao grupo de dissidentes. Todos eram homens jovens e
estavam sob a liderança de Vicente, o mesmo licantropo que no dia
anterior os havia abordado no posto de gasolina. Ele era um bom
rastreador e homem de confiança de Morrison. Seus outros quatro
companheiros faziam parte da guarda particular de Morrison e gozavam
de prestígio entre os licantropos daquele vilarejo. O grupo estava
reforçado, agora possuía doze amaldiçoados.
Em
pouco tempo todos já estavam na estrada, sendo que os cinco
subordinados de Morrison seguiam os outros dois veículos um pouco
mais de trás em uma pick-up. Apesar de ser bem vinda a ajuda
prestada, o grupo de dissidentes ainda não estava totalmente
convencido da sinceridade dos atos do governante Lican. Era de se
estranhar que ele os deixasse partir sem problemas. Amizade não era
uma coisa comum no mundo licantropo.
No
primeiro carro, Izabelle continuava seu trabalho de rastreio. Pela
intensidade das vibrações da alma de Alice eles deveriam estar bem
próximos agora. Ainda aquele dia estariam diante da base Gadol.
Matheus continuava muito irrequieto, mas tentava não perder seu
foco, queria que tudo desse certo, que eles realizassem seus
objetivos sem que perdessem nenhum de seus aliados. Estava chegando a
hora que ele há tanto tempo vinha aguardando, estaria novamente
frente aos sequestradores de Alice. Desta vez ele não lhes daria
chance de reagir. Seria rápido e implacável.
**********
Dentro
de uma das inúmeras salas da base Gadol, uma jovem era preparada
para seu ritual de iniciação. Todas as atenções dos
guerreiros-sacerdotes estavam, naquele momento, voltadas para aquela
cerimônia solene. Alice seria ordenada noviça-guerreira, o primeiro
passo dentro dos vários níveis hierárquicos do mundo Gadol. Depois
daquela noite, ela estaria oficialmente inserida naquela ordem
milenar, não sendo mais possível para ela desvencilhar-se daquele
compromisso, sendo punida com a morte qualquer traição àquela
organização secreta. Essa era a lei, uma vez ordenada Gadol, ela
estaria eternamente comprometida.
Benjamim
cuidava de todos os preparativos pessoalmente. Ele era o seu mentor.
Desde a sua captura que Benjamim assumira o compromisso de
“resgatá-la” das garras dos amaldiçoados. A alta cúpula
espanhola relutara, em princípio, em aceitar que Alice tão
rapidamente se unisse à organização, mas seu excelente desempenho,
sendo ela considerada como uma verdadeira prodígio, fez com que essa
primeira desconfiança se transformasse em uma euforia com as
possíveis possibilidades que se apresentavam. Alice era a única
descendente conhecida da extinta ordem Gadol do oriente. Suas
habilidades naturais no uso da magia eram extraordinárias, sem falar
que ela também destacara-se no manuseio do armamento Gadol. Dentro
de poucas horas dar-se-ia início a cerimônia e os amaldiçoados
eram os penetras que tentariam estragar a festa.
**********
Duas
da tarde era o que indicava o relógio de Matheus quando seu grupo
parou seus veículos ao sinal dado por Izabelle de que haviam chegado
ao seu destino. Não restavam dúvidas, aquela velha edificação,
que reinava sozinha no meio da caatinga, era a tão procurada base
Gadol, o “Mosteiro dos Guerreiros da Lua”. Possuía altas
muralhas e apenas um local de entrada visível. Os licantropos
deixaram seus carros a uma distância considerável do lugar e
passaram a deslocar-se a pé esgueirando-se pela vegetação seca e
espinhosa. Esperaram que o sol desaparecesse para que montassem
acampamento nas proximidades da muralha do mosteiro. Matheus, Nicole
e Ulisses foram designados para realizarem uma patrulha de
reconhecimento visando levantar dados sobre a segurança do lugar. O
mosteiro possuía um sistema de monitoramento eletrônico com várias
câmeras de vigilância ao longo de toda a muralha. Também possuía,
na entrada principal, dois seguranças Gadols que fiscalizavam a
entrada e saída de pessoas, além de uma equipe com quatro
guerreiros-sacerdotes que realizavam constantes rondas ao redor da
área do mosteiro. Como eles haviam previsto, seria difícil entrar
naquela base sem serem percebidos.
Enquanto
o trio de licantropos levantava dados sobre as vulnerabilidades do
local, Demétrius, Elizabeth e Izabelle, cada um utilizando sua
habilidade, buscavam dados sobre o contingente de Gadols que
encontrava-se na parte interna do mosteiro e sobre a localização de
Alice. Elizabeth não conseguiu levantar informação alguma.
Helendril, seu obsessor, não obtivera sucesso em quebrar as
barreiras espirituais que protegiam aquele lugar. Era totalmente
impossível para qualquer demônio transpor aqueles vários níveis
espirituais de segurança. Haviam vários círculos de proteção
rodeando todo o mosteiro de forma a bloquear o acesso por qualquer
direção. Estava claro que, dentro daquele lugar, eles dependeriam
unicamente de suas habilidades individuais, sendo que seus obsessores
não conseguiriam acompanhá-los uma vez que estivessem todos dentro
da base Gadol. Para a grande maioria dos licantropos, dentre eles
incluía-se Matheus, essa era uma boa notícia, já que era um grande
fardo ter que resistir permanentemente às investidas de seus
obsessores pelo controle sobre seus próprios corpos, lutando para
não cederem à tentação de entrarem em frenesi. Mas para
Elizabeth, que possuía uma relação de colaboração com seu
obsessor, não seria possível invocar sua total capacidade de
destruição.
Izabelle
também pouca coisa conseguiu levantar sobre o paradeiro de Alice.
Ela também dependia de parte do poder de seu demônio interior para
rastrear as vibrações espirituais de Alice. Todas as vezes que
buscava sentir o “cheiro da alma” de Alice para dentro das
muralhas, encontrava o rastro descontinuado, como se uma linha
invisível que a levava até a localização exata de Alice estivesse
“partida”. Izabelle sabia que Alice encontrava-se dentro daquele
mosteiro, mas não conseguia descobrir em que parte daquele complexo
de salas ela estava. Demétrius fora o único que obtivera, de certo
modo, algum sucesso em sua investida. Ele rastreou telepaticamente
toda a área do mosteiro, levantando um contingente de sessenta e
cinco pessoas dentro daquele local, mas curiosamente não conseguira
entrar em contato telepático com Alice. Para ele, a mente de Alice
fora selada, de forma que agora somente o criador do selo podia ter o
acesso. Os Gadols eram bem prevenidos e sabiam como ninguém manter
seus segredos muito bem guardados.
Pouco
mais de uma hora depois, retornavam ao local do acampamento o trio
que fora enviado para reconhecimento. E eles traziam boas notícias.
Havia um único ponto em toda a muralha onde seria possível uma
invasão sem que suas presenças fossem detectadas. Tratava-se de um
ponto cego na vigilância eletrônica que, a cada período de quinze
minutos, deixava invisível às câmeras de segurança, por quarenta
segundos, um pequeno trecho por onde poderia ser feita a transposição
do muro. Era necessário somente que eles tomassem cuidado para não
serem percebidos pela equipe de ronda do local. Deveriam agir
rapidamente, agir em perfeita sincronia, de modo a aproveitar esses
quarenta segundos para invadir de forma sorrateira a base Gadol. A
primeira brecha fora encontrada.
O
segundo problema estava sendo solucionado por Arthur, que já estava
concluindo a evocação de um feitiço de supressão de presença.
Assim como o amuleto de Alice, que irradiava uma luz azulada na
presença de um amaldiçoado, os Gadols possuíam outros instrumentos
e armas preparados para alertá-los quanto a presença de algum
licantropo. Este era um problema conhecido e Arthur preparara-se para
a sua resolução ainda na véspera de sua viagem, pesquisando em
seus livros por um feitiço capaz de mascarar a presença de seus
companheiros. Tratava-se de um feitiço complexo e que demandava
tempo e concentração, de forma que, quando estivesse concluído,
lhes dariam a vantagem do efeito surpresa. Mas o preço daquele
trunfo era a total dedicação de Arthur na sua manutenção, ficando
ele ocupado exclusivamente em mantê-lo ativo. Seria um homem a menos
na batalha corpo à corpo. Mas tal vantagem valia o preço.
Passados
mais quarenta minutos e enfim o feitiço completara-se. Arthur
permanecia estático, sentado dentro de um círculo, em posição de
lótus, concentrado em suprimir as vibrações espirituais de seus
companheiros. Era a primeira vez que ele usava tal feitiço e aquilo
o estava exigindo bem mais energia do que ele esperava, de tal forma
que ele não conseguiria manter aquilo ativo por muito tempo. O
preparativos haviam terminado, as brechas encontradas. Estava na hora
deles porem em prática seus planos há muito preparados. Eles
deveriam agir rápido, seu tempo era curto.
**********
Todos
já encontravam-se sentados aguardando a entrada da jovem iniciante
no recinto. A alta cúpula da ordem dos Gadols Ocidentais também
acompanhava a cerimônia, da Espanha, por uma videoconferência,
tanta era a importância do acontecimento. Esperando pacientemente em
uma sala, vestida com uma túnica vermelha com detalhes em prata, uma
jovem sente um vazio imenso em seu peito. Ela tenta entender porque,
em seu íntimo, ela está insatisfeita. Apesar de todo aquele
acolhimento e do aparente carinho de seu mestre Benjamim, ela sente
que está incompleta. Em sua mente existe um vácuo, uma nuvem negra
que não se dissipa, por mais que ela se esforce. Ela não consegue
lembrar do que enfim tanto sente falta, somente seu coração agoniza
desesperadamente, reclamando o vazio que agora nele está instaurado.
Se ao menos ela soubesse que a resposta para suas angustias está tão
perto dela agora.
**********
Eles
estão atentos, o momento está próximo. Somente mais alguns
segundos e a brecha irá abrir-se. Matheus está tenso. “Não posso
falhar”, mais uma vez ele pensa. Sua mente está focada, seu
coração irrequieto. Depois de tanto tempo de espera, agora é o
momento de agir. Ele não pode falhar.
Nicole
sinaliza e todos os amaldiçoados correm para explorar a falha no
sistema de monitoramento. Em apenas 30 segundos todos já estão do
lado de dentro do mosteiro. Agora não dá mais para desistir, nem
hesitar. O local, por sorte, está deserto. O plano está correndo
bem, eles entraram sem serem percebidos. Agora todos concentram-se em
achar a garota Gadol, a dona do pingente estranho. São feitas três
equipes de busca. Os homens de Morrison formam uma equipe. Demétrius,
Nicole e Elizabeth formam outra. O terceiro grupo é formado por
Ulisses, Matheus e Izabelle. Agora eles precisam agir com rapidez, a
cada momento Arthur fica mais e mais debilitado. “Meu Deus, não
posso falhar!”, um medo percorre a espinha de Matheus. Ele segura
forte em sua mão o amuleto de sua amada.
Os
grupos separam-se. O laço telepático de Demétrius será essencial
agora. As ordens são claras, não podem haver testemunhas, todos os
que cruzarem seus caminhos devem ser eliminados. Alice é o alvo,
nada mais importa. Eles não podem vacilar, seus inimigos são
poderosos. Uma falha e todos podem morrer. Não é hora para dúvidas.
Matheus parte na frente de seu grupo, a mão segura firme sua
wakizashi ainda na bainha. O medo que antes o assombrava agora dá
lugar a uma determinação sem tamanho, uma verdadeira vontade de
ferro. Nada irá pará-lo.
**********
No
salão onde está sendo realizada a cerimônia, Benjamim faz seu
discurso inicial felicitando sua pupila pela sua conquista. Alice
está atrás duma cortina esperando ser chamada para realizar seu
juramento. Seu coração parece que vai explodir tamanha a angústia
que agora ela sente. Como se sentisse o que estava por acontecer, sem
saber o porquê, ela chora.
**********
Já
é o terceiro quarto que ele abre em busca dela. “Mas onde será
que eles a colocaram?”, pensa ele enquanto corre rumo à outra
sala. Do nada ele lembra do sonho daquela noite. Seu coração
aperta, sua garganta fica seca. Será que aquilo foi uma premonição?
Nicole
consegue ouvir de um Gadol que passava conversando despreocupadamente
pelo corredor com seu companheiro que a cerimônia de inicialização
já deveria ter começado. Ela é rápida e mortal, os dois caem no
chão decapitados. Demétrius trata de esconder os corpos em mais uma
sala vazia. “Todos devem estar na tal cerimônia”, pensa
Demétrius. Ele repassa a informação para os demais grupos. Se
Alice estiver lá, eles terão que agir em conjunto. Não poderia ser
pior, a luta será sangrenta e implacável. A ordem de Demétrius é
para que todos se dirijam para o local da cerimônia. Lá é que será
reavaliada a situação e serão tomadas as decisões dos próximos
passos. O tempo estava esgotando-se, Arthur não conseguiria resistir
por muito mais tempo.
O
salão onde a cerimônia realizava-se era enorme. Havia um auditório
e, na parte superior, arquibancadas. Matheus e seu grupo foram os
primeiros a chegar no local. Em pouco tempo o grupo de Demétrius
também achara a localização do cerimonial. Os dois grupos
encontraram-se na parte superior do salão, que estava vazia. Todos
os Gadols presentes acomodavam-se junto ao altar, no centro do salão.
Presidindo a cerimônia estava um homem de aproximadamente sessenta
anos de idade, trajando vestes sacerdotais e portando em sua mão
direita um cetro de prata. Todos, em silêncio, ouviam o que o homem
dizia:
-
É chegado o momento que traremos ao mundo mais um irmão de nossa
ordem. Hoje nascerá mais um que buscará cumprir a nobre missão de
proteger a humanidade da ameaça das trevas que nos assola. É sempre
uma alegria quando um filho descobre sua vocação para este
sacerdócio tão perigoso. - O homem falava compassadamente, sua voz
era serena.
Na
parte superior, Demétrius e seus companheiros confabulavam a melhor
estratégia para contornar a situação crítica. Matheus estava
impaciente, queria logo rever Alice:
-
Não podemos perder mais tempo aguardando o grupo de Vicente. Temos
que agir logo, Demétrius, enquanto ainda temos o elemento surpresa
ao nosso favor. - Matheus sabia que o tempo era seu adversário
naquele momento.
-
Ainda não temos certeza se Alice encontra-se nesse salão. Não
podemos nos precipitar. Quero que todos saiam vivos deste lugar,
Matheus. Uma atitude impensada pode nos custar muito caro, garoto. -
Retrucou Demétrius já irritado com a demora de Vicente e seu grupo.
Ele também sabia que não tinham mais tempo. A situação estava
ficando crítica.
Na
parte de baixo, no altar, o velho homem conclamava todos a ficarem de
pé para receberem sua nova irmã de missão:
-
Vamos agora todos tomarmos uma postura de respeito para realizarmos a
consagração de nossa nova membra. Abram as cortinas! Deixem que
nossa companheira acesse nosso meio e possa se jubilar conosco!
Venha, minha filha! Apareça para este novo mundo que a espera... -
Ao dizer isto a cortina atrás do altar se abriu e de lá todos viram
aparecer Alice em vestes de sacerdotisa.
Matheus
não acreditou quando olhou e reconheceu Alice ali em pé junto do
velho mestre Gadol. Ela lentamente caminhou até a frente do altar e
ajoelhou-se. Os licantropos ficaram por um momento desnorteados.
Aquilo era totalmente inesperado. O que iriam fazer agora? A única
alternativa era lutar. Fariam aquilo que fora acordado como última
opção, partiriam para o confronto direto. Rapidamente Ulisses e
Matheus partiram para posicionarem-se o mais próximo possível do
palco. Seriam eles que deveriam, ao início do ataque do grupo
licantropo à plateia Gadol, saltar naquele palco, eliminar o velho
mestre Gadol e resgatar Alice daquele lugar, partindo rapidamente
para fora daquele mosteiro.
Toda
a assembleia Gadol estava de pé, com exceção de Alice que
continuava ajoelhada como sinal de respeito. O velho mestre sacerdote
aproximou-se da jovem e ergueu seu cetro que trazia o Ankh em seu
topo para sinalizar a realização de um ato solene. Neste momento
todos na assembleia começaram a falar desordenadamente, um
burburinho tomou conta do salão. Erguido sobre a cabeça do
sacerdote Gadol, o cetro estava emitindo uma luz azulada. Arthur
enfim tombara exausto, os licantropos foram detectados.
Ao
perceber o motivo da desordem, Nicole, Izabelle, Demétrius e
Elizabeth começaram uma verdadeira chacina em meio ao auditório
Gadol. Antes que eles entendessem o quê ou quem os estava atacando,
os amaldiçoados trataram de exterminá-los sem dar-lhes chance de
reação. Por sorte o primeiro movimento dos invasores ainda teve
como utilizar-se do elemento surpresa. Mas em pouco tempo a segurança
Gadol tratou de cercar as saídas do auditório.
Ulisses
e Matheus não puderam aproveitar-se o elemento surpresa por ainda
estarem buscando posicionamento quando o caos havia se iniciado.
Quando percebeu o que havia acontecido, Matheus não pensou duas
vezes, sacou sua wakizashi e saiu retalhando todos os que encontrava
pela frente que se punham em seu caminho em direção ao altar onde
estava Alice. Ulisses, percebendo o que Matheus tentava fazer, tratou
de dar-lhe cobertura. Utilizando-se de sua maça de prata, ele
tratava de conter os grupos de Gadols que tentavam partir em socorro
ao seu mestre.
A
ação da segurança foi incrivelmente rápida e, antes que Matheus
conseguisse chegar ao altar, eles já estavam ao redor do velho
sacerdote, fazendo sua escolta. Alice estava junta do velho e
agarrava as suas vestes. Ela estava totalmente desorientada, não
entendia o que estava acontecendo, não reconhecia seus
ex-companheiros licantropos.
Matheus
não se intimidou e partiu para cima da guarda Gadol. Os seguranças
usavam armas de fogo com balas de prata, de forma que qualquer
ferimento em um local mais crítico seria fatal para Matheus. Ele
tinha decidido-se, não poderia falhar, aquele era o momento dele
colocar para fora toda a fúria que por tanto tempo ele guardara
dentro de si. Como um predador ele partiu contra os seguranças
Gadols. A cada disparo de uma arma de fogo da segurança ele
respondia com movimentos incrivelmente rápidos e imprevisíveis.
Saltando como um verdadeiro ginasta, ele foi eliminando um por um os
seguranças que se apresentavam à sua frente. Utilizando-se de
técnicas incríveis, Matheus fatiava quem ousasse colocar-se a sua
frente.
Enquanto
isso, seus companheiros ocupavam-se em enfrentar os
guerreiros-sacerdotes que sobreviveram ao primeiro ataque e que agora
já estavam em igualdade de condições na batalha. A cada ataque
licantropo eles respondiam com um contra-ataque vigoroso,
utilizando-se de técnicas milenares de combate, magia e armas de
fogo com balas de prata. Cada conjuração de um encantamento dava a
eles um tipo diferente de habilidade sobre-humana. Era uma batalha
intensa e sangrenta a que estava se travando no interior daquele
salão. Nicole estava ensandecida, quanto mais sangrenta era a luta,
mais ela se entregava. Grande foi a carnificina promovida por ela.
Elizabeth e Izabelle estavam agindo em cooperação, utilizando-se de
táticas e manobras de ataque das linhas de batalha Nightkiller.
Nunca antes as adagas sai de Elizabeth e o gancho duplo de Izabelle
transpassaram tantos corpos como naquela noite. Demétrius tinha um
adversário de respeito à sua frente, era Benjamim, o mestre de
Alice. A luta entre os dois era de alto nível. Benjamim dominava de
tal forma as artes milenares Gadols que se assemelhava aos grandes
licantropos em poder de destruição. Uma desatenção de uma das
partes significaria a sua derrota.
Matheus
foi abatendo seus adversários, diminuindo sua distância entre ele e
seu objetivo: Alice. Em um tempo, só existiam entre ele e sua
desejada paixão a figura do velho mestre acompanhado de mais dois
seguranças. Matheus aproximou-se de um dos seguranças com
velocidade. Num giro rápido cortou-lhe o ventre ao meio. Logo em
sequência, como que sendo guiado por instinto, ele esquivou-se de um
disparo do segundo segurança e cortou-lhe a mão que empunhava a
pistola, que caiu a um metro de Alice que continuava firmemente
agarrada ao velho sacerdote. Só mais um movimento de Matheus e a
cabeça do segurança já rolava pelo chão, decepada pela lâmina
afiada da wakizashi. Agora o único obstáculo era aquele homem
vestido em roupas de sacerdote. Matheus não hesitou, partiu para
cima do velho mestre Gadol. O homem conjurou algumas palavras em um
milenar dialeto desconhecido e uma esfera luminosa, como um pequeno
sol, formou-se em sua mão direita. Ele empurrou aquele pequeno sol
contra o peito de Matheus, que no momento avançava contra ele
erguendo sua espada para golpeá-lo. Matheus foi lançado para trás
com violência. Fora golpeado com aquela esfera de energia que tinha
uma potência tremenda. Outro licantropo qualquer teria desmaiado no
mesmo momento, mas Matheus estava tomado de uma vontade tal que ele
obteve forças para erguer-se. De seu peito saía fumaça devido a
potência do ataque Gadol. “ Não posso falhar”, esse pensamento
não abandonava a mente de Matheus que tirava forças do desejo
intenso de ter Alice de novo ao seu lado. O homem encarava-o com um
semblante sério e confiante esperando pelo próximo passo de seu
adversário. Ele continuava a entoar mantras numa língua estranha.
Matheus enxergou naquele homem a personificação de todas as suas
angústias, frustrações e desesperos.
-
Tomara que você esteja rezando, porque você vai precisar,
desgraçado fodido! - Matheus queimava em ira. Não pararia de lutar
por nada.
Dessa
vez o velho mestre, em resposta às palavras de Matheus, tocou com
seu cetro no chão. Imediatamente passaram a circular pelo cetro
descargas de energia, como pequenos relâmpagos, que percorriam a sua
superfície. Matheus fechou seu semblante, sua expressão tornou-se
sombria. Mas mais uma vez ele partiu para cima do velho homem que
agora girava seu cetro sobre a cabeça, com suas descargas de energia
rasgando o ar e emitindo um som assombroso. Aquela foi a primeira vez
que Matheus superou seus limites. A velocidade de seus movimentos foi
superior a qualquer magia ou encantamento Gadol. Não se viu nada
além de um vulto próximo ao velho mestre e, num
segundo
momento, o pesado cetro voando sem direção pelo ar, levando preso a
ele a mão do pobre homem, enquanto o restante do seu corpo caía
prostrado no chão, decapitado.
Alice
estava ajoelhada no chão quando Matheus pegou-a pelo braço com
força:
-
Vamos embora daqui, Alice! Tenho que tirá-la o quanto antes dessa
loucura. - Ele virou-se para partir em direção à saída principal.
De
repente ele sentiu o frio do metal cromado tocando o seu rosto.
Matheus não acreditou no que estava acontecendo. Alice empunhava a
pistola do segurança e a pressionava contra o rosto de Matheus. Seus
olhos marejados transmitiam ódio:
-
Morra, maldito!
Alice
não reconhecera Matheus. O que se seguiu a isso foi o estampido da
pistola.



