quinta-feira, 16 de junho de 2011

LdS - Livro I - Capítulo 22 - Revanche




Ela entra na sala onde Matheus está trabalhando. Seus olhos transparecem a decepção que ela sente após descobrir que ele vem escondendo dela inúmeros chamados de ajuda de seus aliados. Ela fica ali parada, estática. Seu semblante é perturbado, ela sabe o tipo de ofensa e traição que ele cometera. Respira fundo mais uma vez, fecha os olhos por uns segundos tentando organizar seus sentimentos, e só então começa a falar:

- Eu ainda estou custando a acreditar. Não sei como você pode ter escondido uma coisa importante como esta de mim! - ela joga sobre a mesa dele algumas folhas de papel.

Ele, sem entender ainda sobre o que ela estava falando, pega as folhas jogadas sobre a mesa e se espanta ao ver que enfim os intermináveis chamados de Demétrius também a alcançaram.

- Deixa eu me explicar. É que eu pensei que estávamos tão bem longe de toda essa guerra, nossa vida anda se ajeitando. Estamos felizes, Belle...

- Estamos felizes?! O que você acha que está fazendo ao ignorar um chamado de seu mentor, Matheus? Acha que se nós fingirmos que essa guerra não existe vamos conseguir ficar distantes de tudo? Não acredito que você virou as costas para as pessoas que o ajudaram quando você precisou de auxílio... - seus olhos estavam molhados. Ela realmente havia se decepcionado com aquela atitude egoísta dele. - Por que você não me falou nada? Você não confia em mim? É isso!?

- Não, Belle. Eu só não queria mais esse assunto de guerra no nosso meio, atormentando a nossa vida. Achei que precisávamos de paz para nos concentramos na nossa relação. Demétrius tem muitos contatos, as garotas são incríveis também, eles sabem se virar muito bem sem mim. Eu não sou necessário.

- Olha aqui, ouça bem o que eu vou te falar. Preste bastante atenção porque é a única vez que quero ter de conversar isso contigo. Existe uma lei entre os licantropos, uma ordenança, que diz que aquele que ignora um chamado de auxílio de seu criador é culpado de traição e deve ser morto como um cão sem lar e família. Se Demétrius resolveu que precisa de sua ajuda é porque realmente eles estão necessitando de todos os que possam contar. Eu nunca, nunca pensei que você pudesse ser capaz de uma atitude tão covarde como esta, Matheus. Eles arriscaram as vidas buscando ajudá-lo, como pode agora simplesmente virar as costas para eles e continuar levando sua vida como se estivesse tudo bem? Olhe, eu também odeio essa guerra, odeio tudo o que tem relação com o mundo licantropo. Mas não consigo me omitir de coisas tão importantes assim que estão para acontecer. Matheus, a guerra vai estourar nos quatro cantos do globo e dessa vez não será algo oculto, mas todos saberão a verdade sobre os amaldiçoados. É uma ilusão pensar que vamos conseguir ficar a parte de tudo isso. Quando a matança se iniciar, a guerra virá nos buscar onde quer que estivermos. Eu não quero mais ver mortes, mas também não vou me omitir de fazer algo para evitar essa catástrofe. Se você acha que não vale a pena lutar por esse mundo, continue aí sentado fingindo que não é com você, mas eu estou partindo hoje ainda para Dublin me encontrar com os seus amigos. Se resolver ir comigo, estarei saindo para o aeroporto às duas da manhã desta madrugada.

Ela virou-se e, da mesma forma irrequieta como entrou, partiu em direção à saída. Matheus ficou parado, sem saber o que dizer. Ele estava envergonhado, sabia que Izabelle estava correta e que ele traíra seus amigos ao negar-lhes auxílio. Havia fechado-se em seu mundo, queria esquecer tudo aquilo exatamente por ser doloroso de mais ter que recordar tudo o que vivera, a morte de seu irmão, a separação de Alice. Nessa sua tentativa de evitar o sofrimento, preferiu se alienar de tudo, como se só existisse aquela empresa, seus antigos amigos e o amor de Izabelle. Mas em seu íntimo ele sempre soube que aquilo era um erro, que era impossível esquecer aquele pedaço de sua vida. Na verdade, não contara nada a Izabelle sobre os e-mails porque sabia que ela não concordaria em ficarem os dois de fora da guerra. Ele já conhecia relativamente bem sua garota para saber que ela não ficaria de braços cruzadas esperando que outros morressem para que sua vida continuasse caminhado em perfeita tranquilidade. E por saber disso e saber também que, ao ter escondido dela tais informações, a tinha decepcionado tanto, foi que ele não teve coragem de falar nada no momento em que Izabelle saiu chorando de sua sala.

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Eram nove da noite, o voo partiria dali a cinco horas. Ele ainda estava na empresa, tinha ficado até mais tarde para terminar de ler alguns relatórios. Tentava de toda forma distrair-se com o trabalho, mas era inútil. Não conseguia esquecer aquela conversa nervosa com sua namorada. Não conseguira na verdade esquecer a expressão de decepção no rosto dela. Aquele afeto foi o que lhe deu forças para buscar de volta a sua identidade que ele pensara ter se perdido na noite de seu primeiro chamado de Selene. Agora ele era o presidente da empresa que um dia fora de seu pai. Tinha voltado ao seu antigo círculo de amizades. Até chegara a ensaiar algumas vezes com sua banda. E estavam pedindo que ele jogasse tudo de volta no lixo para embarcar numa viagem para a Europa para lutar em uma guerra contra inimigos poderosíssimos. Por mais que soubesse que era o correto a se fazer, ele não conseguia tomar essa decisão e correr ao encontro de Izabelle. Tinha medo de perdê-la nessa guerra. Tinha medo de não conseguir voltar com ela daquela loucura. E agora ela estava embarcando sozinha para a guerra, sem ele. Teria algo mais desesperador que isto? Não havia outra escolha, ele teria que se envolver. E se o destino fosse tão cruel ao ponto de tirar-lhe mais este amor, ele teria que mais uma vez buscar forças para superar este outro obstáculo, conviver com mais esta dor e continuar a caminhar em sua trilha que parecia sempre levá-lo pelos caminhos mais espinhosos.

Não era fácil encarar seus medos, mas era preciso. Antes lutar que deixar as coisas andarem por si mesmas. Então decidira-se, iria ouvir seu coração, viajaria com Izabelle. Tinha que ser rápido, precisava correr, já perdera muito tempo com aquela indecisão e ainda precisava desculpar-se com ela. Não poderia deixá-la partir sozinha, ele iria acompanhá-la naquela guerra. Levantou-se da poltrona, pegou a chave de seu carro e partiu ao encontro da garota que mostrou-lhe que a paz de espírito tem que ser conquistada ao custo do seu próprio sangue.

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Ele parou seu carro na garagem do apartamento. Fazia só uma semana que Matheus mudara para um apartamento próprio, bem maior, esperando que ela posteriormente o acompanhasse em sua mudança. Saiu rápido do carro e foi logo ter com Izabelle para falar-lhe que decidira-se ir com ela. Estava tão preocupado com o pouco tempo até a saída do voo que não percebeu que, desde de sua saída da empresa, estava sendo observado. Seus seguidores sabiam se manter imperceptíveis. Utilizavam toda sorte de subterfúgios para ocultarem sua presença. Há muito tempo que o procuravam e agora o acompanhavam com cuidado para não desperdiçar a oportunidade de destruí-lo sem lhe dar a menor chance de reação. A jovem caçadora e seu velho mestre estavam decididos a acabar com ele naquela noite ainda.

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Já na porta do apartamento de Izabelle, Matheus toca impacientemente a campainha. Ela demora para responder, não esperava ninguém. Estava deitada na cama, ainda pensava em desistir. Levantou-se devagar e foi, sem ânimo, abrir a porta. Surpreendeu-se ao ver pelo olho mágico que era Matheus quem tocava tão nervosamente sua campainha. Izabelle estava com os olhos inchados, havia chorado o dia todo. Tinha medo que Matheus não acordasse para o que ele estava fazendo, tinha medo de viajar sozinha para aquela guerra e nunca mais vê-lo. Respirou fundo e então abriu a porta. Ao vê-lo parado em frente a sua porta, sua feição melhorou. Ela havia entendido aquela visita repentina. Ele olhava para ela com um sorriso no rosto e os com os olhos marejados.

Nenhum do dois falou palavra alguma, somente se abraçaram, um abraço demorado. Naquele silêncio, somente se ouviam os soluços de Izabelle e os beijos que Matheus distribuía por todo o seu rosto. Ela estava aliviada, enfim ele acordara. Não precisaria mais enfrentar tudo aquilo sozinha, ele estava de novo do seu lado.

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Demorou-se pouco para que os dois descessem do apartamento para pegarem o carro. Como Matheus decidira-se em cima da hora partir com Izabelle, precisariam ainda passar no apartamento dele para buscarem sua bagagem antes de dirigirem-se para o aeroporto.

Izabelle era Irlandesa de nascença e possuía passaporte de seu país natal. Já Matheus não conseguiria embarcar para Dublin com a mesma facilidade, por isso optou por comprar sua passagem para Lisboa, seus avós maternos eram portugueses e ele possuía dupla cidadania. De Portugal ele partiria então para o Reino Unido. Seu voo sairia duas horas e meia depois do de Izabelle.

Matheus agora estava consciente que fizera a opção correta. Não poderia abandonar seus companheiros, muito menos deixar que Izabelle sumisse daquela forma de sua vida. Por mais que fosse assustador partir naquela empreitada, ele sabia que não conseguiria viver em paz se não o fizesse.

Chegaram em seu apartamento novo e logo colocaram-se a separar sua bagagem. Rapidamente ele arrumou suas malas e tratou de colocá-las no bagageiro do carro. Não levara muita coisa, somente o que julgava ser importante. Estavam indo para uma guerra, não para uma viagem de férias.

Em pouco tempo já estavam dirigindo na MG-110 em direção ao aeroporto de Confins. Ele olhou rapidamente para o relógio, ainda tinham duas horas antes que o voo saísse. Nesse exato momento, uma bola de energia imensa atingiu o carro de Matheus jogando o veículo vários metros fora da estrada. O carro capotou quatro vezes antes de parar de cabeça para baixo num barranco. Os dois conseguiram sair com dificuldade do veículo destruído. Por sorte não sofreram ferimentos graves, somente arranhões. Ele perguntava insistentemente para Izabelle se ela estava bem. E ela tentava acalmá-lo dizendo que não havia acontecido nada de mais grave.

Os dois ainda tentavam entender o que acontecera quando os caçadores que os seguiam resolveram se revelar. Matheus ficou paralisado de surpresa ao ver, em pé na sua frente, as pessoas que ele sabia serem as causadoras de seu acidente. Novamente ele tinha ao seu alcance Benjamim e Alice.

- Veja, minha querida, que conseguimos pegá-los desprevenidos. Dessa vez nós estamos em vantagem. Agora é a hora de nossa revanche. Hoje você terá a sua vingança!

- Pode crer que sim, mestre. Hoje nós acabaremos com esses bastardos...

Matheus colocou-se a frente de Izabelle como que tentando protegê-la. Seus olhos tinham de novo aquele ódio que ele tanto tentara esquecer. Aquela seria a revanche para ele também. E a morte teria novamente sua fome saciada.

LdS - Livro I - Capítulo 21 – Recomeço




Os dias passaram-se de forma rápida. Matheus aos poucos foi aprendendo a amar Izabelle. Depois de tudo o que ele passara, o apoio vindo dela foi de suma importância para que ele reorganizasse sua vida. Agora eram apenas os dois tentando viver uma vida em conjunto longe de toda aquela guerra, de toda aquela loucura. E Matheus sentia-se realmente bem ao lado de sua nova companhia. Izabelle era uma mulher incrível e amava verdadeiramente Matheus. Seria uma vida feliz não fosse uma lembrança que teimava em atormentar a mente e o coração dele. Por mais que ele tentasse apagar o passado de suas lembranças, Alice continuava entranhada em seu íntimo, como uma tatuagem, não o deixando em paz um só momento. Era um fantasma que ele simplesmente não conseguia exorcizar. Izabelle percebia as súbitas mudanças de humor dele e tentava não se abalar com o poder que Alice ainda tinha sobre o coração de Matheus.

Depois daquela despedida no aeroporto de seus companheiros licantropos que retornavam para a Europa em busca de respostas e de alianças a fim de enfrentar as dificuldades que já se anunciavam grandes, os dois jovens decidiram por começarem um relacionamento. Matheus mudou-se de vez para a casa de Izabelle e ambos iniciaram um romance. No prazo de apenas dois meses os dois já sentiam-se ligados. Dentro do coração de Matheus já havia um lugar separado somente para ela. Foi um período agradável para ambos, sendo que até a guerra e a maldição pareciam apenas como uma lembrança antiga de uma vida passada. Na verdade, ambos desejavam esquecer todos aqueles problemas. Preferiam fingir que eram pessoas normais vivendo vidas normais, totalmente ignorantes do que se passava no submundo licantropo. Quem poderia condená-los por desejarem esquecer toda essa confusão que só lhes causava sofrimento?

Seus pesadelos com Shaladiel haviam sessado, agora ele que usava pendurado em seu pescoço o amuleto Gadol que pertencera a Alice. Em princípio Izabelle não gostou de ver que ele usava a joia, mas ela acabou se conformando por entender que aquele amuleto deixava o maior inimigo de seu amado bem distante.

Esse momento de tranquilidade foi importante para que Matheus achasse seu ponto de equilíbrio. Muitas coisas haviam acontecido em pouquíssimo tempo, sua vida tinha sido colocada de cabeça para baixo. Aquela trégua e a segurança que Izabelle lhe proporcionara foram essenciais para que ele tomasse uma decisão que mudaria completamente a sua vida. Ao fim do segundo mês que Matheus e Izabelle estavam juntos, ele resolveu que regressaria ao seu antigo mundo e que retomaria sua vida de volta. Apesar de ainda se culpar pela morte de Henrique, Matheus sabia que era o desejo tanto de seu irmão quanto de seu pai que ele assumisse os negócios da família. Ele pensou muito, ponderou bastante para tomar esta decisão e o apoio de Izabelle foi essencial para que se decidisse por voltar ao seu lar e enfrentar os problemas que lhe esperavam.

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Curiosamente as coisas se desenrolaram de uma forma mais simples do que Matheus imaginara. Contrariamente ao que ele pensava, a polícia não fizera ligação alguma entre ele e o assassinato de Henrique. Não haviam testemunhas que ligassem Matheus ao local do crime, já que todos os seus amigos pensavam que Matheus apenas tomara uma carona com o irmão até seu apartamento, sendo que, posteriormente, Henrique teria retornado sozinho para casa. Por questão de pura sorte - ou talvez fosse o destino - o sistema de monitoramento eletrônico da mansão estava danificado na noite do chamado de Selene, não registrando a entrada nem a saída de Matheus do local do crime.

Também Alberto não se manifestara sobre o fato de ter conseguido fazer contato com seu companheiro por telefone informando da morte de Henrique e da necessidade de sua presença para ajudar nas investigações do crime. Preferiu deixar a polícia pensar que Matheus havia desaparecido ou que estava, por alguma razão, incomunicável.

Matheus só tivera o trabalho de justificar junto a polícia o seu desaparecimento e a sua demora em apresentar-se, o que era de se estranhar, já que a morte de seu irmão tivera certa repercussão na mídia. Nessa questão Izabelle o ajudou afirmando que ambos haviam viajando de carro para o Uruguai para visitar sua família e que passaram um tempo realizando uma excursão de aventura pela região. Os dois apresentaram documentação e recibos falsificados, bem como contatos no Uruguai que confirmaram a história. Toda a farsa fora combinada por Izabelle com alguns amigos licantropos radicados no Uruguai que deviam-lhe favores. Afirmaram também que haviam combinado de não levarem equipamentos eletrônicos, principalmente celulares, para que isso não os atrapalhasse em sua viagem de harmonização com a natureza. Ela afirmara que, como na época Matheus estava se recuperando de uma acidente, aquela viagem havia sido feita para ajudar-lhe na recuperação do corpo e da alma. Tentava soar como uma jovem desmiolada e espiritualizada, meio “desplugada” da civilização.

Apesar de certa desconfiança inicial, a polícia acabou por aceitar o álibi de Matheus, afinal de contas a história batia. Acabaram deixando-o livre para prosseguir com a retomada de sua vida. Ele agora poderia concentrar-se em tentar assumir o controle dos negócios da família.

O mais difícil para Matheus foi justificar-se junto aos seus amigos Diogo e Alberto sobre o seu desaparecimento. Eles tinham algumas informações que a polícia não teve acesso, sabiam que ele estivera com Henrique horas antes do ocorrido. Sabiam também que Matheus fora informado, por eles mesmos até, dos crimes ainda na época das investigações. E, principalmente, nunca haviam visto antes na vida o rosto de Izabelle. Portanto, sabiam que era mentira a história dele ter viajado com aquela garota para outro país, ainda mais estando ele ainda machucado se recuperando de um ataque de animal selvagem.

Como Matheus era muito reservado com sua vida, eles acharam por bem, naquele momento, não o interrogar sobre o seu sumiço. Esperavam que ele resolvesse se abrir sobre esse hiato que ocorrera justamente após a morte do irmão. Eles sabiam que os dois irmãos, apesar de todas as brigas, se gostavam e que provavelmente Matheus sofrera muito com a morte do único parente que ele ainda tinha. Na verdade não acreditavam que Matheus tivesse algum envolvimento com o crime, mas acharam estranho de mais o fato dele ter demorado tanto tempo para aparecer e retomar sua vida. De qualquer forma queriam o amigo próximo deles novamente e por isso engoliram toda aquela farsa.

Outro problema apresentara-se logo no seu retorno. O desaparecimento de Alice agora era um fato consumado, estando as autoridades investigando os fatos. Viviane não conseguira mais esconder a verdade dos pais de sua amiga e acabara por contar que a garota estava desaparecida. Matheus fora mais uma vez procurado para dar informações sobre o paradeiro da jovem, mas o álibe forjado por Izabelle servira também para afastar os holofotes dele. Alice sumira sem deixar rastros, mas ele não poderia ser culpado. Ele ainda chegou a ser acusado pela família da moça pelo desaparecimento, mas não houve o seu indiciamento por falta de provas.

Viviane ajudou-o como pôde omitindo tudo o que sabia, deixando todo o assunto de licantropos fora do conhecimento da polícia. Sabia que não lhe dariam crédito. Ela ainda ajudara Matheus ao confirmar que, pelo que sabia, os dois jovens não encontraram-se mais desde o acidente dele com o lobo. Afirmara ainda que a história contada à família da moça s obre Alice ter viajado com Matheus para passar um tempo longe, em alguma cidadezinha do sul de Minas, fora informada pela amiga enquanto as duas conversavam pelo telefone. Dessa forma ela não tinha como assegurar que os dois estavam realmente juntos. Assim Matheus conseguiu livrar-se da polícia.

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Apesar de ser o herdeiro de direito da empresa de sua família, o processo para assumir o controle dos negócios mostrou-se muito complicado. Os demais sócios, sem exceção, desaprovaram a presença de Matheus na frente da administração argumentando que ele não possuía experiência nem tampouco competência para tal trabalho. Apesar de Matheus deter 51% das ações, sua posição ficou altamente fragilizada. Ele até esperava por aquela resistência dos demais sócios em aceitá-lo como presidente, já que nunca se interessara pelos negócios da família e sua fama era a pior possível entre os conhecidos de seus pais. Mas ele não se abateu e mesmo contra todas as pressões assumiu o cargo de diretor geral. Aquilo foi algo que nem ele mesmo acreditava ser possível algum dia acontecer.

Com penas alguns meses que Matheus resolvera recomeçar sua vida ao lado de Izabelle, ele já havia reconquistado tudo o que havia perdido por anos de inconsequente rebeldia adolescente. Os fatos posteriores ao ataque de Demétrius que lhe transferiu a maldição de Licaon serviram para que ele enfim amadurecesse e aprendesse a aceitar a vida como ela se apresentava para ele. Era incrível como as coisas pareciam estar dando certo. Ele tinha razões de sobra para estar feliz. Ele verdadeiramente deveria estar feliz.

Só que ele não se sentia feliz. E aquilo o angustiava muito. Matheus se culpava por não conseguir se desligar de Alice. Por mais que ele quisesse esquecê-la, que quisesse ser inteiramente de Izabelle, que buscasse fazer sua companheira feliz, por mais que ele tentasse a todo custo fazer para Izabelle o mesmo bem que ela o estava fazendo, ele sabia em seu íntimo que não estava cem por cento entregue naquele relacionamento. E aquilo o desagradava terrivelmente. Ele não se perdoava por ainda pensar naquela que outrora tentou matá-lo. Matheus não se conformava em não conseguir amar Izabelle com a mesma intensidade que era amado por ela.

Mas até nisso ela se mostrava amável e compreensiva, deixando claro que já era feliz em poder expressar seu afeto e em ter a companhia de seu amado. Era uma mulher linda, ponderada, sensata e madura. Sabia como ninguém enlouquecer um homem na cama e se esforçava para agradar seu amante em tudo. De algum jeito Izabelle sabia entrara em sua vida com uma missão. Seria este o destino reservado para eles?

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As coisas pareciam estar bem, com os dois levando uma vida aparentemente normal, até que um simples e-mail resolveu por um fim naquela aparente tranquilidade. Tratava-se de uma mensagem de Demétrius pedindo aos dois que partissem para a Europa a fim de ajudá-los a organizar uma terceira força licantropa. Essa força alternativa teria o intuito de dar termo aquela guerra insana entre os dois grandes clãs de amaldiçoados antes que aquela disputa acabasse por trazer a ruína ao mundo todo.

Matheus preferiu ignorar aquela convocação de seu amigo e mestre. Estava farto de sangue, queria apenas ser um homem comum, com uma vida comum. Ele manteve aquela mensagem em segredo não participando a Izabelle o seu conteúdo. Seus antigos aliados que o perdoassem, mas aquela não era a guerra dele, pensou Matheus em seu egoísmo humano. Assim sendo, continuou levando sua vida como se nada estivesse acontecendo.

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Em outra cidade, um noticiário de TV dá um novo rumo aos acontecimentos na vida de Matheus. O destino quis que Alice assistisse a uma reportagem onde seu ex-namorado era entrevistado como o mais novo empreendedor e incentivador da cultura na cidade de Belo Horizonte.

Aquilo era tudo o que Alice estava buscando durante aqueles dias que se seguiram ao massacre de seus companheiros Gadols no “Mosteiro dos Cavaleiros da Lua”. Agora enfim ela descobrira o paradeiro de seu alvo. Não perderia mais nenhum minuto sequer, aquele amaldiçoado iria se arrepender amargamente pelo dia que ousara cruzar o seu caminho. Ele não sabia o que lhe estava reservado.

LdS - Livro I - Capítulo 20 – Mudanças




A semana que se passou após o fiasco da missão no “Mosteiro dos Cavaleiros da Lua” foi de mudanças. Demétrius conseguira recuperar-se satisfatoriamente e já estava fora de perigo. Mas a situação para os três lobos gêmeos não era das melhores. Tanto o casarão de Demétrius quanto o chalé que eles haviam construído como um refúgio estavam agora com suas localizações reveladas. Estavam alojados todo aquele período na propriedade de Izabelle. Possuíam em sua cola os Nightkillers, os Licans e agora também os Gadols. Parte de seus aliados foi morta e, dos que ainda estavam vivos, somente Izabelle parecia ainda estar disposta a colaborar. Definitivamente eles estavam com problemas e a nova revelação que Licans e Gadols trabalhavam juntos os deixava ainda mais preocupados.

Matheus ainda desejava continuar sua busca por Alice, afinal ele ainda a amava e não conseguia aceitar sua perda. Mas ele sabia que seus amigos precisavam também pensar neles, em refugiarem-se por um tempo a fim de poderem se reestruturar e levantar mais informações a cerca dos acontecimentos recentes e suas possíveis consequências. Ele estava disposto a partir sozinho em sua busca.

Demétrius sentia essa inquietação em seu amigo, mas não poderia deixar de cuidar de sua segurança e do bem estar de suas companheiras. Este não era o momento de se expor, eles deveriam sumir, isto era o mais sensato a se fazer.

Sabendo do que se passava com Matheus, seus três amigos o deixaram à vontade para sair em sua busca, não pedindo que ele os acompanhasse em sua fuga. Eles haviam decidido voltar para a Europa, queriam regressar às suas origens, buscar forças para sobreviver à nova fase da guerra que estava prestes a se iniciar. Lá tentariam formar novos pactos e, quem sabe, criar uma espécie de aliança de dissidentes para fazer frente aos três grandes grupos que ameaçavam todo o mundo. Era um objetivo nobre e ambicioso.

O coração de Matheus o impelia a não desistir de Alice e seus amigos o compreendiam nesta sua espécie de obsessão. Parecia que essa era a missão que o destino reservara à Matheus, ele deveria resgatá-la. Todos sentiam que, de alguma forma, seus destinos dependiam do sucesso de Matheus. Havia algo, um laço entre ele e Alice, que parecia ter o poder de influenciar toda a história desta guerra. Como se ambos estivessem predestinados a uma grande e espinhosa missão.

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Foi com tristeza que os três despediram-se de seu amigo. Apenas um mês após todos aqueles acontecimentos com os Gadols e os três lobos gêmeos viajavam em fuga para a Europa. Matheus não poderia mais contar naquele momento com aqueles aliados. Sentia-se só. Ele agora só tinha a Izabelle. Era estranha a relação que unira os dois. Matheus, apesar de continuar amando Alice, sentia-se intensamente atraído por Izabelle. E ela não escondia o desejo que sentia em ser dele, em tê-lo em seus braços. Os dois sentiam um forte desejo que, mais cedo ou mais tarde, iria tomar as rédeas. Agora ele não tinha como fugir, teria que encarar seu sentimento por Izabelle, teria que aprender a conviver com isso.

Na volta do aeroporto, logo após terem deixado seus amigos na área de embarque internacional de Confins, enquanto caminhavam no estacionamento para pegarem o carro, Izabelle resolveu colocar as cartas na mesa:

- O que você pretende fazer agora, Matheus? Ainda pensa em partir em busca daquela garota Gadol? - Izabelle queria respostas para suas dúvidas.

- Nós já havíamos conversado sobre isto. Eu tenho que ir, não posso deixar de fazê-lo. - ele respondeu. Estava triste, cabisbaixo.

- Por que você não esquece isso de uma vez e fica comigo? Você sabe que eu te quero comigo. Eu sei que posso te fazer feliz! - ela era sincera em suas palavras.

- Eu não duvido disso, Izabelle. - ele olhava para frente, um olhar distante. - Uma parte de mim deseja isto também. Eu gostaria de esquecer tudo, de esquecer esta guerra idiota, de esquecer esta maldição, de esquecer todo o sofrimento que passei, até mesmo de esquecer Alice para viver intensamente uma história com você. Mas só que eu não consigo! Alice está gravada com fogo aqui dentro de uma forma que eu não consigo apagar. Ela não desaparece dos meus pensamentos, me atrai de uma forma que nem eu consigo entender. Eu não conseguiria te fazer feliz vivendo assim...

Ela parou em frente a ele. Seus olhares se encontraram. Ela pegou em seu rosto de uma forma carinhosa.

- Eu sei que você pode me fazer feliz, Matheus. Eu sei disso! O que eu te peço é somente uma chance, uma chance para nós dois. - falando isso, ela o beijou.

Os dois ficaram um momento assim, com seus lábios unidos, respirações ofegantes, batimentos acelerados, sentindo o característico frio no estômago produto do nervosismo. Foi um beijo nervoso, tenso, cheio de desejo e expectativas da parte de Izabelle.

Matheus foi surpreendido tanto pelo gesto de Izabelle como também por ter saboreado intensamente aquele beijo, sentido, por um breve momento, que não era mais necessário resistir. Fazia tempo que ele desejava não mais fugir daquilo que sentia por ela.

Passados os duradouros segundos daquele íntimo contato, os dois se abraçaram. Matheus sentia-se confuso, queria se entregar nos braços de Izabelle, mas sentia culpa por causa de Alice. Sem se afastar daquele abraço aconchegante, ele sussurrou no ouvido dela:

- Eu sei o quanto vou me odiar se vier a te fazer sofrer, - ele a apertou ainda mais forte. - mas não aguento mais ter que resistir à atração que sinto. Eu te quero, Izabelle. Nesse exato momento, o que eu mais quero é ter você...

Ela sorriu. Sabia que podia estar embarcando numa furada, mas ela não se permitia não tentar, não se permitia dar as costas para seus sentimentos. Ela era corajosa e queria pagar para ver.

**********

Era madrugada. A cidade era enorme e incrivelmente movimentada. Em um beco escuro, dois caçadores encurralavam a sua presa. Estavam em mais uma noite de intenso treinamento. O homem com aparência nobre queria fazer de sua linda discípula a mais mortal e eficiente caçadora de demônios. O alvo, um lobisomem.

Eles agiram de foma rápida e eficiente. Utilizando de um feitiço, Benjamim criou uma barreira que impediu o licantropo de fugir. Estavam agora limitados àquele beco escuro e fétido. Ela nem ao menos esperou pelo comando de seu mestre e partiu para cima de sua presa com um ferocidade incrível. Alice usava uma vestimenta especial, um macacão confeccionado especialmente para ela, em couro preto, totalmente ajustado as formas de seu corpo escultural, que possuía proteções reforçadas com kevlar nos pontos críticos como tórax, abdômen, braços e pernas. Ela utilizava também uma pistola toda confeccionada em prata, calibre nove milímetros, com munição especial, feita com uma liga de chumbo e prata, e que trazia gravada nos projéteis o Ankh, o símbolo sagrado dos Gadols ocidentais. Ela realizou dois disparos, acertando seu alvo nas duas pernas e avançou em direção ao seu oponente – queria testar sua nova habilidade.

Rapidamente ela entoou um pequeno mantra e retirou a luva que cobria seu punho direito. A Chamsa que ela trazia tatuada estava brilhando em vermelho vivo como lava incandescente. Ela encaixou um soco no peito do licantropo. O impacto do golpe fez com que o peito da besta explodisse em vários pedaços, deixando ainda um rombo na parede da edificação que estava centímetros atrás do amaldiçoado.

Ao ver o estrago que sua discípula causara com um único golpe, Benjamim sorriu. Ele desfez a barreira, não havia mais ninguém que pudesse fugir, o mostro estava morto.

- Vejo que sua evolução foi impressionante, minha filha. Em breve você estará em condições de entrar na elite de guerreiros Gadols. Continue nesse ritmo!

- Obrigada, mestre! Mas meu objetivo principal é outro. Eu quero vingança e vou caçar aquele que arruinou minha cerimônia de iniciação.

- Bem, querida, se é isto que você realmente deseja, creio que já é chegada a hora. Vamos nos preparar para a caçada.

LdS - Livro I - Capítulo 19 – Traição




O mosteiro estava deserto. Com exceção dos cinco licantropos que haviam invadido o local, todo o contingente de Gadols que até outrora ocupava aquele lugar não existia mais. Uma base de ação Gadol havia sido destruída e os responsáveis por aquilo, que parecia ser algo impossível de se realizar, não estavam felizes com a sua façanha, antes lamentavam-se. O objetivo principal não tinha sido alcançado. Alice não fora resgatada. Eles haviam falhado.

Elizabeth e Nicole prestavam socorro a Demétrius enquanto Izabelle tentava acalmar o inconsolável Matheus. Não havia mais o que fazer naquele local, era hora de partir. Eles certamente deveriam virar lenda entre os licantropos, mas não era este o objetivo. O seu desejo era, tão somente, conseguir a liberdade de suas maldições. E aquele fiasco era desanimador. Não sabiam agora que passo tomar ou o que fazer.

Matheus estava inconformado pois sabia que não havia mais como solicitar o apoio daqueles licantropos que tanto já haviam sacrificado nessa sua busca por Alice. Agora que todos sabiam que ela estava sendo controlada pelos Gadols e que seu paradeiro era novamente desconhecido, ninguém mais se lançaria nessa empreitada. Por mais que desejasse a ajuda daqueles companheiros que agora ele já considerava seus amigos, sabia que era pedir demais que eles continuassem com essa busca infrutífera. Demétrius quase morrera naquela missão. Nicole e Elizabeth estavam visivelmente transtornadas com a possibilidade de perderem seu companheiro de longa data e amante. Aquele não era o momento nem o local para discutirem o próximo passo a se tomar. Eles deveriam partir, voltar para casa, essa era a melhor coisa a se fazer.

Diferentemente da forma como entraram, agora eles saiam pela porta principal, não havia razão para esconderem-se, todos os seus inimigos estavam mortos. Matheus usava as vestes de uma de suas vítimas já que seus trajes haviam se rasgado durante sua transmutação. Lenta e calmamente eles dirigiram-se até o acampamento improvisado, para reencontrarem Arthur e procurar um local descente para sepultarem Ulisses. Era a última homenagem que poderiam oferecer ao seu companheiro.

Mesmo com toda a carnificina que houvera dentro daquelas muralhas do mosteiro, eles ainda conseguiram ficar atônitos quando chegaram no acampamento e descobriram que Arthur estava morto. Alguém o assassinara enquanto eles estavam lutando. O corpo do experiente licantropo estava dilacerado. Haviam esquartejado Arthur como se ele fosse um animal. Eles não entenderam nada. Como os Gadols descobriram a posição de Arthur? Eles tinham certeza absoluta que haviam entrado sem serem percebidos e que só foram detectados no momento em que Arthur não conseguiu mais manter seu feitiço ativo. Demétrius ainda manteve contato telepático com Arthur até pouco antes do início do combate, portanto ele tinha plena convicção que seu companheiro não tinha sido abatido até o momento que eles começaram aquela carnificina. Com certeza, toda a segurança do local imediatamente dirigiu-se ao auditório onde toda a confusão estava ocorrendo, não havendo contingente disponível para se realizar, naquela hora, uma busca nas redondezas do lugar. Sendo assim, quem havia matado Arthur?

A resposta para esta pergunta não tardou muito para ser respondida. Enquanto eles ainda juntavam os pedaços do corpo de seu outro aliado morto, os responsáveis por aquela atrocidade resolveram revelar-se. Os cinco guerreiros sobreviventes foram cercados por outros cinco licantropos. Tratava-se do grupo liderado por Vicente. Eles cercavam os sobreviventes com armas em punho, os haviam rendido. Estava claro agora que o apoio de Morrison era uma grande farsa. Eles foram traídos.

Vicente sorria. Trazia em seu rosto um sorriso sínico. Ele sabia o tamanho da surpresa que aquele golpe havia causado em seus falsos aliados, tinha conseguido enganar completamente aqueles dissidentes. Sua traição fora perfeita! Escondera seus pensamentos até mesmo de Demétrius. Agora ele curtia o efeito que causara ao grupo de forasteiros. Foi praticamente irresistível o desejo de zombar da ingenuidade deles:

- Vejo que foram mais longe do que imaginávamos. Eu poderia jurar que vocês seriam massacrados lá dentro, mas acabei me enganando. Afinal de contas, o poder dos Gadols não era tão grande assim como pensávamos. Foram vencidos por um grupinho liderado por um velho imprestável que já perdera o tino para o combate. - falava isso referindo-se a Arthur. - Isso é uma verdadeira piada! Hahahaha!... - Vicente gargalhava da queda dos Gadols e do resultado inesperado, mas muito bem vindo, conseguido pelos forasteiros.

- E-eu não entendi a causa da graça, Vicente. - Demétrius esforçava-se para falar, estava muito ferido. - Qual o motivo de sua traição? Se esperavam que fossemos destruídos, por que se deram o trabalho de nos trazerem até aqui para isso? Por que não acabaram conosco lá mesmo no seu vilarejo?

- Meu caro, Demétrius, não me decepcione com uma pergunta tão idiota como esta. Mas é de se esperar que não tenham entendido completamente nossos planos. Existem algumas peças do quebra-cabeças que vocês ainda não conhecem. Deixem então que eu revele a vocês toda a verdade, antes de destruí-los, para que vocês entendam como foram usados por nós para nosso proveito e morram com esse sentimento de indignação.

Vicente estava saboreando intensamente cada minuto. Seus olhos cintilavam de contentamento:

- Este é um segredo compartilhado entre os principais de nosso clã. Morrison nos revelou, somente a nós cinco, o que se passa entre os altos círculos hierárquicos de nossa organização. - fazendo uma breve pausa, ele começou a revelar toda a podridão que agora assolava a alta cúpula Lican. - Os novos líderes dos Licans, vendo que nosso clã estava perdendo poder em detrimento do rápido crescimento dos Nightkillers, achou por bem aliar-se a um outro grupo poderosíssimo para conseguir acabar de uma vez por todas com essa corja deprimente. Estamos prestes a presenciar algo que jamais aconteceu antes na história: Licans e Gadols, juntos, planejam varrer a escória Nightkillers da face da Terra! Esta é a chave para resolver todo o quebra-cabeças.

- Está nos dizendo que nosso antigo clã resolveu aliar-se aos nossos perseguidores para exterminar os Nightkillers e enfim reinarem absolutos sobre este mundo? Mas isto é loucura! Como é possível uma aliança tão absurda como está?! - Nicole estava indignada. Ela estava muito surpresa e revoltada com tudo aquilo. - Eles não veem que esta aliança é uma farsa? Que mais cedo ou mais tarde serão traídos pelos Gadols e será a vez deles perecerem? Este é um tratado de morte! Um dos dois lados irá sucumbir e deixará de existir após o fim deste acordo absurdo. Eles assinaram a sua própria destruição.

- Claro que nosso líderes tem a consciência que esta aliança, além de improvável, é uma atitude de certo modo insensata. Mas situações drásticas pedem atitudes drásticas. Os Nightkillers já dominam toda a parte oriental do planeta e avançam com uma força impressionante sobre a Europa. Se perdermos o controle daquela parte do globo estaremos fatalmente condenados a destruição. A alternativa encontrada, depois da deserção em massa promovida por covardes como vocês, foi a aliança com os Gadols. Não é de interesse de nenhum do dois grupos que os Nightkillers saiam vencedores nessa guerra. Os dois grupos obrigaram-se a trabalhar em conjunto para exterminarem esta ameaça iminente. Mas claro que nós entendemos que esta aliança é temporária e não esperaremos que os Gadols sejam os primeiros a quebrar este acordo. Nós estaremos prontos para iniciar o extermínio da ordem Gadol tão logo a ameaça Nightkiller esteja sob controle.

- Essa arrogância será a sua destruição. - Elizabeth não conteve-se ante toda aquela presunção Lican. - É sentir-se muito superior pensar que conseguirão destruir a todos tão facilmente.

- E por que deveríamos acreditar no contrário? Nosso plano é perfeito. E somente a alta cúpula conhece os detalhes. Peões estúpidos como vocês são facilmente manipuláveis. Foi muito fácil enganá-los. Nós já sabíamos da existência desta base Gadol. Aliás, eles operavam com nosso consentimento nesta área, apesar disto não nos agradar. Morrison foi praticamente obrigado por seus superiores a permitir que eles construíssem sua base de operações nas proximidades de nosso vilarejo. Já fazia um bom tempo que nós desejávamos expulsá-los deste local, mas nunca tivemos a autorização para isso. O aparecimento de vocês foi muito conveniente. Foi perfeito, na verdade. Vocês queriam invadir esta fortaleza e nós simplesmente permitimos que isso fosse realizado. Na verdade nossa expectativa foi ultrapassada quando vimos a sua vitória. Acho que tínhamos os Gadols em uma estima mais alta do que eles mereciam. Se soubéssemos que era tão fácil assim destruí-los, nós mesmos já teríamos dado um jeito neles, logicamente de uma forma oculta, sem alarde. Por esta razão é que eu acredito que eles não são motivo para preocupação.

- O que mais vocês sabem sobre esse grupo de Gadols? Existem outras bases nas proximidades? - Matheus não resistiu a oportunidade de perguntar sobre outros locais como aquele, sempre na esperança de encontrar Alice. - Um deles conseguiu fugir. Ele usou um feitiço e desapareceu. Para onde ele deve ter ido?

- Mesmo na iminência de sua morte você não consegue esquecer aquela sua namoradinha Gadol, garoto? Saiba que ela agora é uma deles e não exitará um estante que for em matá-lo. Como você gosta de se torturar! Infelizmente não temos acesso a tudo quanto os Gadols fazem, a localização de outras bases ou quais seus atuais planos. Apenas temos um acordo de não agressão e um compromisso de guerra contra os Nightkillers. A forma como eles trabalham é um segredo para nós. Mas soube, por Morrison, que existem outras bases nesse país, e que provavelmente seu quartel general fica em São Paulo, em plena capital. Se ele fugiu de um massacre, é provável que tenha ido para seu QG informar o ocorrido aos seus superiores. Pena que você não terá a oportunidade de tirar essa informação à limpo. - Vicente transparecia confiança.

- Não seja tão arrogante, Vicente! Assim como você está subestimando o clã Nightkiller e os Gadols, também está nos subestimando e eu garanto que você não conhece a nossa força. - falou Elizabeth já preparada para entrar em ação. - Vocês conseguem proteger Demétrius? - perguntou ela para Nicole e Izabelle. As duas acenaram positivamente com a cabeça entendendo o seu gesto. - Mostre a eles o demônio que devastou aquele mosteiro, Matheus. - Elizabeth sorriu confiantemente para ele.

O que se sucedeu logo depois foi um ataque rápido e devastador. Matheus, usando a velocidade que desenvolvera ainda instantes atrás dentro do mosteiro, foi para cima de Vicente. Ele riscou o ar com sua espada fazendo com que Vicente e seus companheiros recuassem assustados com seus movimentos rápidos. Elizabeth não estava mais dentro de domínios Gadols e o ódio misturado com a repulsa que ela sentia de toda aquela sujeirada deu-lhe o desejo de demonstrar aos seus adversários que seu antigo clã não era formado apenas de lixo licantropo. Ela fez o que normalmente só se permitia em momentos críticos, por achar arriscado não retomar seu controle. Elizabeth entrou em modo de simbiose com Helendril e transmutou-se na tão assustadora forma de lobo-demônio. Os guerreiros Licans, apesar de bons combatentes, não tiveram como fazer frente à Elizabeth em sua forma completa de simbiose. Ela apresentava-se como um enorme animal, com pelos castanho-avermelhados e garras enormes. Sua força e velocidade multiplicavam-se por cinco nessas condições – o que era mais que o suficiente para que ela massacrasse sem piedade os quatro Licans que postavam-se à sua frente. E foi isso que ela fez. Com golpes vigorosos de suas garras ela praticamente partiu ao meio suas vítimas. Matheus não teve dificuldades em deixar Vicente prostrado aos seus pés. O líder dos traidores estava ajoelhado com seus pés cortados implorando misericórdia quando Helendril chegou-se para terminar com aquilo. Vicente levantou seu rosto e viu o enorme lobo-demônio baforar uma golfada quente de ar em seu rosto. Os olhos de Vicente exprimiam terror. Helendril sorriu:

- Esse lixo Lican não aprende! Eu tenho nojo de você, verme.

Com uma dentada ele arrancou a cabeça de Vicente. Os traidores tiveram seu castigo. Lentamente Helendril foi deixando Elizabeth reassumir o controle enquanto o lobo-demônio ia diminuindo de tamanho até transformar-se em uma loba de pelos acastanhados. Em pouco tempo Elizabeth estava novamente em sua forma humana, com seus longos cabelos cobrindo seu corpo nu. Ela logo tratou de recompor-se e eles cuidaram de enterrar seus mortos. Sua estadia naquele local havia terminado.

**********

No caminho de volta, Demétrius dormia no banco de trás de um dos carros. Nicole dirigia enquanto Elizabeth observava o estado de saúde de seu companheiro. Matheus viajava no outro veículo, logo atrás, com Izabelle como companhia e comentou com ela sobre o desejo de acerto de contas com Morrison:

- Deveríamos voltar àquele vilarejo para fazê-lo pagar por sua traição. Não vou me perdoar se ele continuar vivo.

- Calma, Matheus. Ainda não é a hora para isto. Primeiramente precisamos nos reorganizar. Eu também quero ajustar minhas contas com ele, mas, como estamos, não conseguiremos concretizar nossos objetivos.

- Você é sensata, Izabelle. Mas eu confesso que agora não sei mas o que fazer. Perdi totalmente a direção, não sei que rumo eu devo tomar. Meu coração quer continuar minha procura por Alice, mas não tenho condições de mais uma vez solicitar o apoio de meus companheiros numa busca tão inserta e perigosa como esta. Eles já fizeram muito por mim.

- Bem, este não é o momento para se discutir isto com eles. Acho melhor você esperar que Demétrius se restabeleça para que os três possam ponderar sobre ajudá-lo ou não. Eu imagino que, neste momento, a primeira resposta deles seja não, mas também acredito que com o tempo isto pode mudar.

- Eu gostaria muito de acreditar nisto, Izabelle. Mas eu não acredito. Estou pesando numa coisa. Não sei ainda como, mas preciso achar Alice. Estou pensando em partir sozinho em busca dela.

- Hum... difícil. Não acho que você teria sucesso sozinho.

Ela olhou para ele. Estava séria:

- Eu não sei o porquê de estar agindo assim, acho que fiquei louca,... mas se você não se incomodar eu parto com você nesta sua busca. Quem sabe no meio dessa aventura você descubra que o que você precisa está próximo de você. - nesse momento ela sorriu.

**********

Três semana após a chacina, em algum lugar da cidade de São Paulo, uma jovem lindíssima se recompõe após um exaustivo treinamento com armamento:

- Você está evoluindo muito rapidamente. Estou orgulhoso de você, minha filha. - O homem é um experiente guerreiro-sacerdote. Seu nome é Benjamim.

- Eu quero ser a melhor, mestre! Quero deixá-lo feliz assim como o senhor me faz feliz. - Ela sorri para ele sem saber que seu mestre é o culpado pelo vazio que ela não consegue dissipar de seu coração.

- Pois o que acha de treinarmos mais um pouco? Eu sei que você ainda sofre pelo que aconteceu com nossos irmãos, mas precisamos estar preparados para quando a guerra explodir nos quatro cantos da Terra. Nosso tempo está se esvaindo e você será de muita serventia.

- Não se preocupe comigo, mestre. Eu não preciso de descanso, tenho que aprender a dominar este selo o quanto antes. - ela olhava para a tatuagem em seu punho. - Quero estar muito melhor quando reencontrar aquele monstro para matá-lo com minhas próprias mãos. - seu semblante era grave, ela referia-se a Matheus.

Só que, contrário ao que ela pensava, não era o ódio por ele que não deixava aquele rosto sair de seus pensamentos, mas sim o amor que ela ainda sentia e que, lutando para permanecer vivo em seu interior, tentava desesperadamente lembrá-la de seu passado.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

LdS - Livro I - Capítulo 18 – Lamento




A luz no ambiente é uma penumbra de tão fraca. Apesar de ser um chalé localizado em um local ermo, as instalações são confortáveis. No quarto, dois jovens conversam após terem se amado intensamente há alguns minutos atrás. Ela está sentada na cama, ainda nua, com ele deitado ao seu lado. A cabeça dele repousa sobre as pernas dela. Ela afaga-lhe os cabelos.

- No que você está pensado, Matheus? - pergunta ela curiosa com o seu silêncio repentino.

- O quê? Eu?!... deixa eu pensar...

- Para! É sério... - ela insiste.

- Honestamente? Que eu não quero mais sair deste quarto. Nunca mais! O que acha, Alice? A gente tem a cama, TV, frigobar. Vamos ficar aqui e esquecer do resto.

Ela passa a mão delicadamente no rosto dele:

- Isso seria um sonho.

**********

Mesmo sem querer, aquela lembrança veio à mente de Matheus no momento em que ele virou-se e pôde constatar que era mesmo verdade, Alice estava apontado uma arma para ele. Não era possível o que estava acontecendo. “O que fizeram com você, meu amor?!”, pensava ele enquanto, assustado, movimentava-se novamente numa velocidade incrível para conseguir desviar do disparo realizado pela mulher que ele acreditava ser o grande amor de sua vida. Era horrível de mais para ser verdade. O coração dele doía ao observar os olhos de Alice, cheios de ódio, procurando os seus, irradiando um intenso desejo de vingança.

Com um salto Matheus recuou, buscando reorganizar seus pensamentos, entender o que se passava. Ele estava desorientado, sem saber agora o que pensar ou o que fazer. Aquela mulher na sua frente não era a Alice que ele conhecera. Ela estava diferente, seu semblante não lhe passava mais a tranquilidade de outrora. Suas esperanças começavam a querer deixá-lo diante de mais esse duro golpe.

Ao redor dos dois amantes, a luta ainda não tinha se amenizado. Ulisses lutava com sete seguranças ao mesmo tempo, sendo que ele já começava a esboçar sinais de desgaste. Nicole estava no clímax de sua fúria assassina. Via-se claramente que ela regozijava-se ao abater cada um dos guerreiros Gadols que cruzavam o seu caminho. Agora ela só pararia quando não houvesse mais ninguém em pé. Elizabeth e Izabelle tentavam abrir caminho frente os seguranças para liberar uma saída para que seu grupo pudesse fugir daquele auditório que agora era uma arena de batalha.

Enquanto isso, Demétrius, já exausto, não conseguia mais conter a incrível força de Benjamim que já o estava dominando. Foi então que o amaldiçoado deixou uma brecha em sua defesa. O guerreiro Gadol aproveitou-se aquele descuido e atravessou o ombro direito de Demétrius com uma fina adaga, arremessando-o contra as poltronas do auditório e correndo logo em seguida na direção de sua pupila. Ele tinha medo que Alice lembrasse do seu passado estando frente à frente com Matheus. Ele tinha que tirá-la dali o mais rápido possível.

Alice tentava acertar, com disparos de pistola, a Matheus. Ele conseguia desviar-se, saltando e esquivando-se, enquanto procurava uma oportunidade de desarmá-la, sem contudo machucá-la. Mas aquilo mostrara-se algo extremamente complicado de se fazer, já que Alice era habilidosa com o armamento e também conjurava feitiços, criando barreiras de energia, a fim de aprisioná-lo no seu interior. Por sorte a velocidade que Matheus desenvolvera dava-lhe condições de evitar tais armadilhas Gadols, mas a situação não era nada boa. Alice não os acompanharia por vontade própria, seria necessário imobilizá-la

Alice tentara mais uma vez atingir Matheus com um disparo, só que o que se ouviu dessa vez foi apenas um estalo seco. Havia acabado sua munição, ela enfim estava desarmada. Matheus esperara pacientemente por isso e agora partiria para cima de Alice. Ele não via outra alternativa a não ser deixar Alice inconsciente. Então Matheus a atacou. Ele a atingiu com um golpe preciso no pescoço fazendo-a desfalecer na mesma hora. Já estava agachado para pegá-la nos braços quando foi atingido nas costas violentamente. Benjamim enfim chegara no socorro de sua discípula. Matheus reconhecera seu adversário, era o mesmo do episódio em que Alice fora raptada no chalé de Demétrius. Enfim achara o homem responsável pela sua separação de Alice. Matheus sorriu, iria atacá-lo sem misericórdia. Ele, mais uma vez, usou de sua velocidade, chegando bem próximo de Benjamim. Quando Matheus zumbiu sua wakizashi pelo o ar visando retalhar o corpo do guerreiro Gadol, ele foi jogando para trás. Ao que parecia, Benjamim, com receio de ser atingido, criara uma barreira de proteção ao redor de si e de Alice. Qualquer um que tentasse atravessá-la seria fortemente repelido com a mesma força de seu ataque. O ódio de Matheus só aumentou ao ver a astúcia de seu oponente. Eles encaravam-se com ódio. Benjamim então o interrogou:

- Por que razão você procura tão desesperadamente resgatar Alice? Não vê que é impossível para vocês ficarem juntos? Ela é uma de nós agora! Desista dela! – ele gritava em alto e bom som.

- Você deve ser muito imbecil de achar que eu vou desistir dela assim tão facilmente. Saiba que ela vai embora comigo hoje! – Matheus respondeu com intrepidez. Ele estava decidido em acabar com tudo naquele momento.

- Bem, se você não me deixa escolha, vou matá-lo com prazer! – ao pronunciar isto, Benjamim desfez a barreira de proteção e avançou na direção de Matheus.

Matheus, apesar de ter se esforçado muito até aquele momento, ainda estava cheio de energia, era o ódio em seu peito que o alimentava naquela batalha. Benjamim conjurou algumas palavras rápidas e juntou as mãos em forma de concha junto ao peito enquanto corria na direção do jovem licantropo. Seus braços começaram a emitir uma luz avermelhada. Ele logo, num movimento rápido, abriu seus braços e os uniu logo em seguida, como que batendo palmas, e uma onda de calor saiu de suas mãos lambendo tudo que estava à sua frente. Tratava-se de uma labareda enorme em extensão e largura, sendo que era impossível para Matheus desviar daquele ataque. “Morra enfim, seu infeliz”, pensou Benjamim já certo de sua vitória. Sem saída ou escapatória, Matheus, num lance de puro instinto, transmutou-se na sua forma animal de lobo, e, utilizando-se da força e habilidade vindas de sua forma animal, conseguiu saltar por sobre as chamas de Benjamim, caindo sobre seu adversário violentamente. O guerreiro Gadol rolou alguns metros para trás, parando próximo ao corpo de Alice. Matheus o observava, ainda em forma de lobo, com seus caninos à mostra e rosnando ameaçadoramente.

Benjamim estava impressionado com as habilidades de Matheus. Nunca houvera antes presenciado uma transmutação ser realizada instantaneamente. Aquele licantropo não era como os outros, ele não conhecia limites para suas habilidades. Sabendo que era certa a sua derrota, Benjamim, tratou de conjurar mais um rápido feitiço. Matheus, percebendo o que Benjamim fazia, correu para eliminar de vez seu oponente. Benjamim contou dessa vez com a sorte, pois no momento que Matheus vinha em sua direção para matá-lo, mais dois seguranças transpuseram-se entre eles. Matheus eliminou os dois atacando seus pescoços com suas presas poderosas, mas isso deu a Benjamim o tempo suficiente para que ele terminasse seu feitiço. Mais uma vez, como ocorrera anteriormente no chalé, uma luz ofuscante tomou conta da sala e, quando ela desapareceu, nem Benjamim, nem Alice estavam mais no salão do cerimonial.

Matheus esteve prestes a enlouquecer, tamanho o desespero que o tomara, ao ver que, mais uma vez, Benjamim fugira com Alice. E sua agonia era maior agora porque ele sabia que ela seria usada por aqueles guerreiros perseguir pessoas amaldiçoadas como ele. Provavelmente, mais cedo ou mais tarde, eles voltariam a se encontrar, mas como inimigos. Esse golpe era forte demais para Matheus suportá-lo. Seu desânimo foi tão grande e sua desesperança tão profunda que ele simplesmente parou de lutar. Voltando à forma humana, ele, agora sem roupas, limitou-se a se ajoelhar no local onde tinha visto Alice pela última vez. Estava com os olhos cheios de lágrimas. “Por que continuar com uma vida infeliz como a dele?”, era o que se passava na sua cabeça naquela hora de dor.

Ele estava decidido a entregar-se quando ouviu um grito de sofrimento vindo de perto. Ao levantar seus olhos Matheus viu Ulisses ajoelhado no chão com duas lanças de prata fincadas em seu peito. Ele tinha sido atingido fatalmente e agora agonizava enquanto ainda tentava lutar contra seus algozes. Matheus não acreditava que uma lenda entre os Licans estava sucumbido naquela batalha. Ulisses entrara naquela luta para buscar a liberdade de sua maldição, ele tinha esperança de que fosse possível livrar-se daquela condição infeliz. Agora ele estava caindo frente ao ataque dos vários inimigos que o golpeavam. Matheus ainda pôde ver os olhos de seu companheiro molhados o observando, pedindo por auxílio. Quantos mais teriam que morrer para que esse inferno terminasse?

Ao ver de tão perto a morte de Ulisses, Matheus se encheu de um ódio tão intenso, que seu coração enegreceu-se. Não existia mais espaço para sofrimento, apenas para vingança. Aqueles homens que insistiam em golpear Ulisses, mesmo ele já estando morto no chão, sofreriam por toda a dor que Matheus sentira. Não haveria perdão, ele decidira, todos ali iriam morrer.

Matheus levantou-se, seus olhos estavam sem vida, seu semblante era o da própria morte. Ele correu e apanhou sua espada wakizashi que estava no chão e então começou a sua vingança contra os que roubaram a sua felicidade.

Ele golpeava e eles tombavam. A espada retalhava com uma facilidade incrível. O sangue pintava as paredes do lugar e banhava o corpo nu de Matheus. Um por um, ele foi eliminando-os. Nem mesmo Nicole, no auge de sua ira, conseguia mover-se como ele. Ele era o próprio “deus da morte” bailando a sua dança da colheita enquanto ceifava as vidas daqueles que ousava se colocar em seu caminho. E Matheus não parou enquanto não viu o último Gadol tombar.

Dentro daquele salão não sobrou ninguém, todos foram mortos, um verdadeiro extermínio. Izabelle observava a Matheus espantada. Como ele conseguira fazer aquilo tudo praticamente sozinho? Depois de exterminado o último adversário, ele permanecera parado, estático, com sua cabeça baixa, respiração compassada, a espada ainda em sua mão pingava sangue. Ele era assombroso.

Nicole e Elizabeth estavam prestando socorro a Demétrius que tinha sido gravemente ferido por Benjamim. Os três lobos gêmeos sobreviveram àquela loucura. Mas infelizmente seus objetivos não foram alcançados. Eles falharam.

Izabelle lentamente aproximou-se de Matheus. Sentia medo. Ele não reagiu à sua aproximação, continuava parado como em transe. Ela então, com os olhos cheios de lágrimas, parou na frente dele e tocou no seu rosto. Com a voz trêmula ela o chamou:

- Matheus? Matheus?... Você ainda está aí? Não faça isso com você mesmo, não decaia assim. Você não é assim, eu sei. Eu sinto coisas, sinto o coração das pessoas e sei que você não é assim. Me deixe te ajudar. Eu quero ajudá-lo. Venha, liberte essa dor, esse ódio, me deixe entrar no seu coração, me deixe amá-lo...

Mesmo com todas aquelas mortes a dor não passara. Ele ainda sofria. Parecia que seu peito iria explodir. Ele levantou o rosto e olhou para Izabelle. Ela sorriu, um sorriso terno, um sorriso de compreensão, de cumplicidade. Ele então deixou sua espada cair no chão e começou a chorar copiosamente. Izabelle o abraçou. E ele, deixando toda a mágoa ser lavada por suas lágrimas, retribuiu o abraço.

Num desabafo, ele falava consigo mesmo, entre soluços, ao lembrar de como era antes, como que lamentando-se pelo o que havia acontecido com sua vida:

- Se realmente fosse possível, eu nunca teria saído daquele quarto...