sexta-feira, 26 de março de 2010

LdS - Livro I - Capítulo 15 - Reforços



Demétrius teve que procurar suporte e ajuda para ele e seus companheiros entre outros dissidentes licantropos. Entre esses amaldiçoados que preferiram viver como dissidentes, e que escolheram aquela região de Minas para “esconderem-se” dos clãs em guerra, havia um pacto de cooperação que, em momentos de grande necessidade, era invocado por quem estivesse em dificuldade. Foi à esse pacto que Demétrius apelou e obteve rapidamente apoio e abrigo para ele e seu grupo.

Quando algum acontecimento mais grave tinha a possibilidade de se estender em complexidade ao ponto de ameaçar à paz e tranquilidade de todos os licantropos que viviam naquela região, era uma prática aceita entre aquela pequena comunidade underground a convocação de todos os dissidentes para uma assembleia onde se faria a exposição do problema para que se buscasse a sua solução. Demétrius, Nicole e Elizabeth, também conhecidos como “os três lobos gêmeos”por serem um caso raro de coesão e trabalho em grupo, acharam que essa era uma situação onde a assembleia deveria ser convocada. E foi isso que Demétrius fez, convocou a assembleia em caráter de urgência. Apesar de não ser obrigatória a presença dos dissidentes a essas convocações, eles tinham a esperança que seu chamado fosse prontamente atendido, tendo em vista a grande divulgação que o vídeo do ataque dos Nightkillers ao casarão de Demétrius na internet havia tido.

Infelizmente, a tal grande disseminação das imagens do ataque dos Nightkillers funcionou de forma inversa ao que eles esperavam, fazendo com que a maioria dos dissidentes optassem por manterem-se o mais longe possível de tais problemas. Somente sete amaldiçoados atenderam ao chamado de Demétrius, apesar de muitos outros terem sido convocados. Os nomes desses licantropos eram Arthur, Ulisses, Suzana, Gilbert, Hector, Izabelle e Sebastian. Os quatro primeiros eram dissidentes vindos dentre os Licans, os demais tinham servido nas tropas Nightkillers. Todos viviam conforme suas próprias leis e só se reuniam quando a sua existência pacífica era ameaçada por um dos dois grandes clãs de licantropos. Mas desta vez o inimigo era uma novidade nas terras brasileiras. Por essa razão a grande maioria dos dissidentes convocados achou por bem não se envolver, torcendo para que essa repentina aparição dos Gadols fosse um acontecimento isolado e sem maiores consequências para os demais licantropos radicados em Minas.

Demétrius e suas duas companheiras esforçaram-se para convencer os outros setes amaldiçoados a se unirem a eles na busca por Alice. Prometeram a todos uma possível libertação da presença e influência dos demônios obsessores e defenderam a tese de que Alice era a chave para essa conquista. Os outros amaldiçoados ouviram a todos os argumentos explanados por Demétrius e, ao final dos discursos dos três aliados de Matheus, entraram em uma discussão sobre as reais possibilidades de sucesso nessa empreitada. Arthur era o mais experiente licantropo presente no local e, por conta disso, presidia a reunião tomando sempre a palavra nos momentos em que os ânimos se exaltavam. Suzana, Hector e Sebastian, apesar de reconhecerem que a colaboração de uma Gadol era algo inédito na história dessa guerra entre amaldiçoados e seus caçadores, achavam que seria arriscar demais tentar um resgate dentro do covil de seus mortais inimigos, por mais que esse plano fosse algo totalmente inesperado e por isso mesmo passível de dar certo. Já Ulisses e Izabelle acreditavam que um ataque surpresa bem arquitetado teria grandes chances de sucesso em seu objetivo e que a possível libertação de suas maldições valia os ricos. Por horas os dois grupos debateram sem que chegassem a um consenso. No final da reunião Demétrius só havia conseguido três novos reforços nesse seu esforço de tentar resgatar Alice. Eram eles Arthur, Ulisses e Izabelle. Os demais limitaram-se em apoiá-los logisticamente no que fosse possível desde que não trouxessem como consequência a sua exposição aos seus inimigos, ou seja, não queriam que em hipótese alguma tivessem sua existência revelada ao grupo Gadol.

Apesar da pequena adesão ao seu chamado, Demétrius estava satisfeito com o resultado final. Havia conseguido o apoio, mesmo que indiretamente, de todos os presentes e tinham agora reforçado o seu grupo com a presença de três poderosos aliados.

Arthur era um velho conhecido de Demétrius, já havia combatido com ele em batalhas sangrentas nas fileiras dos Licans. Possuía um grande senso de julgamento sendo considerado um sábio entre os amaldiçoados, além de também dominar alguns conhecimentos de magia, agora muito importante para o enfrentamento dos Gadols.

Ulisses era dono de uma força bruta descomunal, sendo sua fama quase uma lenda entre os Licans. Havia desertado recentemente das tropas de seu clã e, apesar de tratar-se de uma perda considerável para o seu grupo, não foi implacavelmente caçado como outros desertores por gozar de grande prestígio e ser um ídolo para muitos dos jovens guerreiros Licans. Demétrius sabia que o poder de destruição de Ulisses seria muito útil numa batalha direta com seus adversários.

Já Izabelle, apesar de ser jovem entre os amaldiçoados, possuía a habilidade que mais interessava a Demétrius dentre todos os presentes naquela reunião. A jovem e bela licantropa era a melhor rastreadora que ele poderia dispor para essa difícil tarefa de encontrar o paradeiro de Alice. Izabelle, assim como Elizabeth, havia lutado nas tropas Nightkillers e destacara-se como uma exímia rastreadora. Apesar de gozar de prestígio e de ser praticamente garantida sua rápida ascensão dentro das matilhas de Nightkillers, Izabelle preferiu uma vida nas sombras, longe das frentes de batalhas por sonhar em conseguir de volta sua humanidade e não suportar a insana luta pelo poder entre os dois clãs. Ela era a peça chave que tornaria possível a concretização dos planos ousados de Demétrius.

Os três licantropos tinham logrado êxito em sua missão de recrutar reforços, agora dependiam unicamente de Matheus e do tão falado amuleto Gadol que pertencia a Alice. Todos agora torciam pelo sucesso de Matheus em sua busca e o aguardavam montando e remontado seu plano de ação e os seus possíveis desdobramentos em reação às dificuldades impostas por seus adversários. Dentre todos os que agora faziam parte daquela aliança que tentaria resgatar Alice, somente Arthur já havia lutado contra Gadols e sua experiência era um trunfo que certamente seria muito explorado por seu grupo. Todos sabiam dos ricos que estavam se expondo, mas mesmo assim o sonho de conquistar a liberdade do domínio de seus obsessores os impelia a continuar em sua empreitada.

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Logo após ter achado o colar que Alice herdara do avô Gadol, Matheus colocou-se à caminho do local combinado para encontrar-se com seus aliados. Ele estava muito angustiado e seus pensamentos não conseguiam se desviar de sua namorada. Nem mesmo as notícias que insistiam em passar nos noticiários acerca das investigações sobre a morte de seu irmão o preocupavam no momento. Havia decidido deixar definitivamente sua antiga vida de lado, abandonando os bens que ele possuía por herança e até mesmo a amizade de seus antigos companheiros de banda. Conversara apenas mais uma vez por telefone com Alberto e pedira que não contasse a ninguém, nem mesmo à polícia que ele estava vivo e que já sabia do acontecido com Henrique. Matheus convencera-se que era melhor para todos que ele simplesmente desaparecesse de suas vidas. Agora seus objetivos resumiam-se em lutar por uma vida sem mortes e dor ao lado de Alice. Seria muito sonhar com isso? Poderia ele desejar novamente ser feliz depois de tudo o que acontecera? Teria ele ao menos o direito de ser feliz? Essa coisa chamada felicidade parecia ser algo surreal na vida de Matheus. Desde a morte prematura de seus pais que ele não se dava uma chance de buscar a sua felicidade, a sua plena realização. A vida para ele era apenas uma sequência de dias sem sentido e perspectiva, nada mais. Nada o satisfazia, nada realmente havia conseguido penetrar a barreira que ele mesmo colocara em seu interior, nada e nem ninguém, exceto Alice. Ela era o ponto luminoso que não deixava mais o íntimo de Matheus afogar-se na escuridão de suas dores e culpas. Agora ele tinha um motivo para continuar lutando por sua vida, agora ele poderia ousar buscar a felicidade. Matheus reencontrara a luz em sua alma, mesmo imerso em um turbilhão de acontecimentos, e lutava com todas as suas forças para que a causadora de toda essa incrível mudança não fosse arrancada de sua vida como foram arrancados no seu passado os seus pais.

Uma coisa nova acontecera com ele depois do rapto de Alice. Shaladiel retornara à sua mente, tentava persuadi-lo a todo momento. Agora, todas as noites, o demônio vinha visitá-lo em pesadelos cada vez mais sufocantes e realistas. Seu obsessor retornara com força total e ele sentia que, se perdesse o controle novamente, não conseguiria mais retomá-lo. Isso ele guardou para si, não revelando nada para os seus aliados. Resolveu que já era hora dele resolver seus problemas, não queria mais depender da ajuda de ninguém. E principalmente, não queria mais falhar como falhara no chalé. Aquela era uma luta exclusivamente dele que ele não se permitiria perder. Shaladiel nunca mais emergiria de dentro do seu ser.

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Longa foi a viagem até a cidade onde encontravam-se seus aliados, mas Matheus não permitiu-se descansar. Mesmo estando ainda altamente debilitado da luta contra Edgar, ele correu obstinadamente até seus companheiros, não parando na estrada para nada, na esperança de ter novamente Alice junto de si. Essa era uma verdadeira obsessão para ele e nada poderia pará-lo em sua jornada. Ao chegar no local determinado por Demétrius, ele recebeu a boa notícia que agora seu grupo aumentara e novos e poderosos licantropos haviam se unidos a eles nessa louca busca por sua namorada. Demétrius mostrou-se muito satisfeito ao ver que Matheus tinha sido bem sucedido em sua procura e que agora todos os componentes estavam reunidos e poderiam finalmente por em ação os planos tão amplamente discutidos e revisados. Fora marcada uma reunião naquela mesma noite para que os novos aliados conhecessem Matheus e também para que Matheus fosse colocado a par de tudo o que fora discutido e planejado nessa missão que colocaria a vida de todos em perigo. Era de suma importância que todos tivessem o total conhecimento de como tudo iria se passar e qual os seus papéis dentro do plano de ação traçado para a realização daquela operação.

Matheus esperou com toda a ânsia que a juventude e o coração apaixonado podem produzir. Para eles as horas de expectativa pareceram durar o triplo do habitual. Mas enfim, por mais que parecessem demorar mais que o devido, as horas passaram e a reunião finalmente teve seu início:

- Como foi falado anteriormente, estamos reunidos aqui para por em prática os planos expostos por Demétrius para, numa mesma operação, destruirmos nossos caçadores e resgatarmos essa jovem que aparentemente pode ser a chave que nos libertará da perseguição dos nossos demônios obsessores. - Assim abriu Arthur a reunião com todos os sete que se propuseram a ousada missão de invadir os domínios Gadols.

Matheus estava muito nervoso e suas expectativas eram enormes. Grande era a sua esperança de pode estar de novo junto da garota que transformara-se no seu tesouro. Por mais que ele soubesse da dificuldade que era trazê-la de volta ao seu convívio, Matheus não conseguia parar de pensar no momento de seu reencontro, no que ele iria falar para ela, em como seriam suas vidas a partir daquele momento. De súbito ele foi trazido de volta de seus pensamentos longínquos por Demétrius que solicitava-lhe o amuleto encontrado no apartamento de Alice e que supostamente deveria ser um artefato Gadol. Ele, ainda meio desorientado, tratou de apresentar aos outros licantropos o cordão com o pingente de Chamsa que ele encontrara no apartamento onde Alice morava com Viviane.

Grande foi a fascinação que o tal talismã exerceu sobre todos os amaldiçoados que encontravam-se naquela sala. Para todos era uma grande curiosidade observar tão de perto um utensílio Gadol, mesmo que tratando-se simplesmente de uma inocente joia de família.

Mesmo que não fosse dito aos outros licantropos que a tal joia tratava-se de um instrumento utilizado por caçadores, todos os presentes reconheceriam que aquela peça de prata continha algum tipo de magia que influenciava seus obsessores de uma forma ainda desconhecida. Havia uma estranha e curiosa habilidade na joia de Alice que agora era portada por Matheus: na presença daquele considerável grupo de licantropos o pingente emanava um singelo, mas contínuo brilho, uma luz fria de um azul pálido. Todos também perceberam que seus obsessores distanciaram-se, trazendo-lhes uma súbita e bem vinda trégua momentânea. Sem dúvida aquele pequeno objeto tratava-se de uma autêntica joia Gadol.

De imediato foram repassadas a todos os envolvidos as possíveis dificuldades que seriam encontradas por eles durante a sua tentativa inédita de invasão de um quartel general Gadol. Todos confirmaram estarem conscientes dos perigos que estavam prestes a enfrentar, bem como também as consequências que uma notícia dessa natureza poderia trazer ao mundo dos amaldiçoados. Na verdade, aquele grupo que estava reunido naquele simples salão de uma pequena cidade do interior de Minas estava prestes a tentar o que nenhum outro grupo de licantropos ou qualquer tropa de um dos dois grandes clãs tentou fazer: infiltrar-se no covil de seus caçadores, retirar de lá um importante “trunfo” e ainda por cima tentar eliminar todos os Gadols que fossem interceptados por eles durante a execução das duas primeiras tarefa.

Logo após esse primeiro momento de confirmação do pacto formado por todos os presentes, Matheus foi apresentado aos três novos reforços que os ajudariam nessa sua louca missão. Por mais preocupado e ansioso que estivesse com a ausência de Alice, Matheus não pode deixar de reparar na estonteante beleza de Izabelle e nos insistentes olhares disparados por ela em sua direção. Era perceptível o interesse de Izabelle nele. Durante toda a reunião ele pode perceber aqueles lindos olhos verdes o observando, chegando, em alguns momentos, a encontrar o olhar desconcertado dele, o que não a constrangia de forma alguma, sendo sim motivo para que ela continuasse sua discreta investida. Matheus tentou, em princípio, não dar tanta importância aos olhares de Izabelle, o que acabou posteriormente por tornar-se extremamente difícil de se fazer devido a indescritível beleza daquela jovem dissidente Nightkiller. Era inegável que ela o atraía, apesar de ele amar verdadeiramente Alice.

Já eram transcorridas cerca de duas horas de reunião quando foi chegado o momento mais aguardado por todos, Izabelle tentaria achar naquele amuleto algum resquício da energia de Alice. Aquele era o ponto chave para que os planos deles pudessem ser colocados em prática. E todos ficaram observando com grande expectativa o momento que Izabelle acolheu entre suas mãos o amuleto de prata, levando-o de encontro ao seu peito, e fechando seus olhos numa tentativa de concentrar-se na busca do “cheiro da alma” de Alice, que era como eles chamavam o conhecimento da frequência específica de vibração de um espírito humano. Essa habilidade de Izabelle era algo extremamente raro entre os amaldiçoados. Não era um tipo de habilidade que pudesse ser desenvolvida com treinamento, pelo contrário, era visto entre os licantropos como um tipo de dom, não sendo dado à todos esse verdadeiro privilégio.

Não foi nada fácil para Izabelle conseguir sentir o “cheiro da alma” de Alice. Ela precisava entrar em sintonia com seu demônio obsessor para que juntos tentassem filtrar as vibrações específicas de Alice entre as demais almas mortais, o que tornou-se uma tarefa incrivelmente difícil pelo fato do amuleto Gadol inibir a ação e o poder dos obsessores. Mas o alívio foi geral quando ela, após um enorme esforço e energia desprendidos, anunciou que conseguira achar o rastro do espírito da jovem sequestrada. Agora era possível seguir a energia emanada dela e descobrir a localização do esconderijo Gadol.

A alegria de Matheus foi evidente e agora novamente ele conseguia vislumbrar um desfecho para todo aquele pesadelo que ele estava vivendo. Já podia voltar a sonhar com um futuro junto de Alice. O coração dele palpitava intensamente e a vida parecia voltar-lhe ao corpo. Era totalmente renovador, uma verdadeira injeção de ânimo em suas veias, ter de volta de forma concreta a esperança que a tanto custo ele sustentava viva dentro de si. Essa era a prova de fogo para Matheus e ele sabia que não lhe era permito cometer erros de novo.

Todos prepararam-se rapidamente para a perigosa missão juntando tudo que consideravam ser útil para a execução de seus planos e, ainda naquela mesma madrugada, partiram estrada à fora em busca do esconderijo Gadol.