Demétrius
teve que procurar suporte e ajuda para ele e seus companheiros entre
outros dissidentes licantropos. Entre esses amaldiçoados que
preferiram viver como dissidentes, e que escolheram aquela região de
Minas para “esconderem-se” dos clãs em guerra, havia um pacto de
cooperação que, em momentos de grande necessidade, era invocado por
quem estivesse em dificuldade. Foi à esse pacto que Demétrius
apelou e obteve rapidamente apoio e abrigo para ele e seu grupo.
Quando
algum acontecimento mais grave tinha a possibilidade de se estender
em complexidade ao ponto de ameaçar à paz e tranquilidade de todos
os licantropos que viviam naquela região, era uma prática aceita
entre aquela pequena comunidade underground a convocação de todos
os dissidentes para uma assembleia onde se faria a exposição do
problema para que se buscasse a sua solução. Demétrius, Nicole e
Elizabeth, também conhecidos como “os três lobos gêmeos”por
serem um caso raro de coesão e trabalho em grupo, acharam que essa
era uma situação onde a assembleia deveria ser convocada. E foi
isso que Demétrius fez, convocou a assembleia em caráter de
urgência. Apesar de não ser obrigatória a presença dos
dissidentes a essas convocações, eles tinham a esperança que seu
chamado fosse prontamente atendido, tendo em vista a grande
divulgação que o vídeo do ataque dos Nightkillers ao casarão de
Demétrius na internet havia tido.
Infelizmente,
a tal grande disseminação das imagens do ataque dos Nightkillers
funcionou de forma inversa ao que eles esperavam, fazendo com que a
maioria dos dissidentes optassem por manterem-se o mais longe
possível de tais problemas. Somente sete amaldiçoados atenderam ao
chamado de Demétrius, apesar de muitos outros terem sido convocados.
Os nomes desses licantropos eram Arthur, Ulisses, Suzana, Gilbert,
Hector, Izabelle e Sebastian. Os quatro primeiros eram dissidentes
vindos dentre os Licans, os demais tinham servido nas tropas
Nightkillers. Todos viviam conforme suas próprias leis e só se
reuniam quando a sua existência pacífica era ameaçada por um dos
dois grandes clãs de licantropos. Mas desta vez o inimigo era uma
novidade nas terras brasileiras. Por essa razão a grande maioria dos
dissidentes convocados achou por bem não se envolver, torcendo para
que essa repentina aparição dos Gadols fosse um acontecimento
isolado e sem maiores consequências para os demais licantropos
radicados em Minas.
Demétrius
e suas duas companheiras esforçaram-se para convencer os outros
setes amaldiçoados a se unirem a eles na busca por Alice. Prometeram
a todos uma possível libertação da presença e influência dos
demônios obsessores e defenderam a tese de que Alice era a chave
para essa conquista. Os outros amaldiçoados ouviram a todos os
argumentos explanados por Demétrius e, ao final dos discursos dos
três aliados de Matheus, entraram em uma discussão sobre as reais
possibilidades de sucesso nessa empreitada. Arthur era o mais
experiente licantropo presente no local e, por conta disso, presidia
a reunião tomando sempre a palavra nos momentos em que os ânimos se
exaltavam. Suzana, Hector e Sebastian, apesar de reconhecerem que a
colaboração de uma Gadol era algo inédito na história dessa
guerra entre amaldiçoados e seus caçadores, achavam que seria
arriscar demais tentar um resgate dentro do covil de seus mortais
inimigos, por mais que esse plano fosse algo totalmente inesperado e
por isso mesmo passível de dar certo. Já Ulisses e Izabelle
acreditavam que um ataque surpresa bem arquitetado teria grandes
chances de sucesso em seu objetivo e que a possível libertação de
suas maldições valia os ricos. Por horas os dois grupos debateram
sem que chegassem a um consenso. No final da reunião Demétrius só
havia conseguido três novos reforços nesse seu esforço de tentar
resgatar Alice. Eram eles Arthur, Ulisses e Izabelle. Os demais
limitaram-se em apoiá-los logisticamente no que fosse possível
desde que não trouxessem como consequência a sua exposição aos
seus inimigos, ou seja, não queriam que em hipótese alguma tivessem
sua existência revelada ao grupo Gadol.
Apesar
da pequena adesão ao seu chamado, Demétrius estava satisfeito com o
resultado final. Havia conseguido o apoio, mesmo que indiretamente,
de todos os presentes e tinham agora reforçado o seu grupo com a
presença de três poderosos aliados.
Arthur
era um velho conhecido de Demétrius, já havia combatido com ele em
batalhas sangrentas nas fileiras dos Licans. Possuía um grande senso
de julgamento sendo considerado um sábio entre os amaldiçoados,
além de também dominar alguns conhecimentos de magia, agora muito
importante para o enfrentamento dos Gadols.
Ulisses
era dono de uma força bruta descomunal, sendo sua fama quase uma
lenda entre os Licans. Havia desertado recentemente das tropas de seu
clã e, apesar de tratar-se de uma perda considerável para o seu
grupo, não foi implacavelmente caçado como outros desertores por
gozar de grande prestígio e ser um ídolo para muitos dos jovens
guerreiros Licans. Demétrius sabia que o poder de destruição de
Ulisses seria muito útil numa batalha direta com seus adversários.
Já
Izabelle, apesar de ser jovem entre os amaldiçoados, possuía a
habilidade que mais interessava a Demétrius dentre todos os
presentes naquela reunião. A jovem e bela licantropa era a melhor
rastreadora que ele poderia dispor para essa difícil tarefa de
encontrar o paradeiro de Alice. Izabelle, assim como Elizabeth, havia
lutado nas tropas Nightkillers e destacara-se como uma exímia
rastreadora. Apesar de gozar de prestígio e de ser praticamente
garantida sua rápida ascensão dentro das matilhas de Nightkillers,
Izabelle preferiu uma vida nas sombras, longe das frentes de batalhas
por sonhar em conseguir de volta sua humanidade e não suportar a
insana luta pelo poder entre os dois clãs. Ela era a peça chave que
tornaria possível a concretização dos planos ousados de Demétrius.
Os
três licantropos tinham logrado êxito em sua missão de recrutar
reforços, agora dependiam unicamente de Matheus e do tão falado
amuleto Gadol que pertencia a Alice. Todos agora torciam pelo sucesso
de Matheus em sua busca e o aguardavam montando e remontado seu plano
de ação e os seus possíveis desdobramentos em reação às
dificuldades impostas por seus adversários. Dentre todos os que
agora faziam parte daquela aliança que tentaria resgatar Alice,
somente Arthur já havia lutado contra Gadols e sua experiência era
um trunfo que certamente seria muito explorado por seu grupo. Todos
sabiam dos ricos que estavam se expondo, mas mesmo assim o sonho de
conquistar a liberdade do domínio de seus obsessores os impelia a
continuar em sua empreitada.
**********
Logo
após ter achado o colar que Alice herdara do avô Gadol, Matheus
colocou-se à caminho do local combinado para encontrar-se com seus
aliados. Ele estava muito angustiado e seus pensamentos não
conseguiam se desviar de sua namorada. Nem mesmo as notícias que
insistiam em passar nos noticiários acerca das investigações sobre
a morte de seu irmão o preocupavam no momento. Havia decidido deixar
definitivamente sua antiga vida de lado, abandonando os bens que ele
possuía por herança e até mesmo a amizade de seus antigos
companheiros de banda. Conversara apenas mais uma vez por telefone
com Alberto e pedira que não contasse a ninguém, nem mesmo à
polícia que ele estava vivo e que já sabia do acontecido com
Henrique. Matheus convencera-se que era melhor para todos que ele
simplesmente desaparecesse de suas vidas. Agora seus objetivos
resumiam-se em lutar por uma vida sem mortes e dor ao lado de Alice.
Seria muito sonhar com isso? Poderia ele desejar novamente ser feliz
depois de tudo o que acontecera? Teria ele ao menos o direito de ser
feliz? Essa coisa chamada felicidade parecia ser algo surreal na vida
de Matheus. Desde a morte prematura de seus pais que ele não se dava
uma chance de buscar a sua felicidade, a sua plena realização. A
vida para ele era apenas uma sequência de dias sem sentido e
perspectiva, nada mais. Nada o satisfazia, nada realmente havia
conseguido penetrar a barreira que ele mesmo colocara em seu
interior, nada e nem ninguém, exceto Alice. Ela era o ponto luminoso
que não deixava mais o íntimo de Matheus afogar-se na escuridão de
suas dores e culpas. Agora ele tinha um motivo para continuar lutando
por sua vida, agora ele poderia ousar buscar a felicidade. Matheus
reencontrara a luz em sua alma, mesmo imerso em um turbilhão de
acontecimentos, e lutava com todas as suas forças para que a
causadora de toda essa incrível mudança não fosse arrancada de sua
vida como foram arrancados no seu passado os seus pais.
Uma
coisa nova acontecera com ele depois do rapto de Alice. Shaladiel
retornara à sua mente, tentava persuadi-lo a todo momento. Agora,
todas as noites, o demônio vinha visitá-lo em pesadelos cada vez
mais sufocantes e realistas. Seu obsessor retornara com força total
e ele sentia que, se perdesse o controle novamente, não conseguiria
mais retomá-lo. Isso ele guardou para si, não revelando nada para
os seus aliados. Resolveu que já era hora dele resolver seus
problemas, não queria mais depender da ajuda de ninguém. E
principalmente, não queria mais falhar como falhara no chalé.
Aquela era uma luta exclusivamente dele que ele não se permitiria
perder. Shaladiel nunca mais emergiria de dentro do seu ser.
**********
Longa
foi a viagem até a cidade onde encontravam-se seus aliados, mas
Matheus não permitiu-se descansar. Mesmo estando ainda altamente
debilitado da luta contra Edgar, ele correu obstinadamente até seus
companheiros, não parando na estrada para nada, na esperança de ter
novamente Alice junto de si. Essa era uma verdadeira obsessão para
ele e nada poderia pará-lo em sua jornada. Ao chegar no local
determinado por Demétrius, ele recebeu a boa notícia que agora seu
grupo aumentara e novos e poderosos licantropos haviam se unidos a
eles nessa louca busca por sua namorada. Demétrius mostrou-se muito
satisfeito ao ver que Matheus tinha sido bem sucedido em sua procura
e que agora todos os componentes estavam reunidos e poderiam
finalmente por em ação os planos tão amplamente discutidos e
revisados. Fora marcada uma reunião naquela mesma noite para que os
novos aliados conhecessem Matheus e também para que Matheus fosse
colocado a par de tudo o que fora discutido e planejado nessa missão
que colocaria a vida de todos em perigo. Era de suma importância que
todos tivessem o total conhecimento de como tudo iria se passar e
qual os seus papéis dentro do plano de ação traçado para a
realização daquela operação.
Matheus
esperou com toda a ânsia que a juventude e o coração apaixonado
podem produzir. Para eles as horas de expectativa pareceram durar o
triplo do habitual. Mas enfim, por mais que parecessem demorar mais
que o devido, as horas passaram e a reunião finalmente teve seu
início:
-
Como foi falado anteriormente, estamos reunidos aqui para por em
prática os planos expostos por Demétrius para, numa mesma operação,
destruirmos nossos caçadores e resgatarmos essa jovem que
aparentemente pode ser a chave que nos libertará da perseguição
dos nossos demônios obsessores. - Assim abriu Arthur a reunião com
todos os sete que se propuseram a ousada missão de invadir os
domínios Gadols.
Matheus
estava muito nervoso e suas expectativas eram enormes. Grande era a
sua esperança de pode estar de novo junto da garota que
transformara-se no seu tesouro. Por mais que ele soubesse da
dificuldade que era trazê-la de volta ao seu convívio, Matheus não
conseguia parar de pensar no momento de seu reencontro, no que ele
iria falar para ela, em como seriam suas vidas a partir daquele
momento. De súbito ele foi trazido de volta de seus pensamentos
longínquos por Demétrius que solicitava-lhe o amuleto encontrado no
apartamento de Alice e que supostamente deveria ser um artefato
Gadol. Ele, ainda meio desorientado, tratou de apresentar aos outros
licantropos o cordão com o pingente de Chamsa que ele encontrara no
apartamento onde Alice morava com Viviane.
Grande
foi a fascinação que o tal talismã exerceu sobre todos os
amaldiçoados que encontravam-se naquela sala. Para todos era uma
grande curiosidade observar tão de perto um utensílio Gadol, mesmo
que tratando-se simplesmente de uma inocente joia de família.
Mesmo
que não fosse dito aos outros licantropos que a tal joia tratava-se
de um instrumento utilizado por caçadores, todos os presentes
reconheceriam que aquela peça de prata continha algum tipo de magia
que influenciava seus obsessores de uma forma ainda desconhecida.
Havia uma estranha e curiosa habilidade na joia de Alice que agora
era portada por Matheus: na presença daquele considerável grupo de
licantropos o pingente emanava um singelo, mas contínuo brilho, uma
luz fria de um azul pálido. Todos também perceberam que seus
obsessores distanciaram-se, trazendo-lhes uma súbita e bem vinda
trégua momentânea. Sem dúvida aquele pequeno objeto tratava-se de
uma autêntica joia Gadol.
De
imediato foram repassadas a todos os envolvidos as possíveis
dificuldades que seriam encontradas por eles durante a sua tentativa
inédita de invasão de um quartel general Gadol. Todos confirmaram
estarem conscientes dos perigos que estavam prestes a enfrentar, bem
como também as consequências que uma notícia dessa natureza
poderia trazer ao mundo dos amaldiçoados. Na verdade, aquele grupo
que estava reunido naquele simples salão de uma pequena cidade do
interior de Minas estava prestes a tentar o que nenhum outro grupo de
licantropos ou qualquer tropa de um dos dois grandes clãs tentou
fazer: infiltrar-se no covil de seus caçadores, retirar de lá um
importante “trunfo” e ainda por cima tentar eliminar todos os
Gadols que fossem interceptados por eles durante a execução das
duas primeiras tarefa.
Logo
após esse primeiro momento de confirmação do pacto formado por
todos os presentes, Matheus foi apresentado aos três novos reforços
que os ajudariam nessa sua louca missão. Por mais preocupado e
ansioso que estivesse com a ausência de Alice, Matheus não pode
deixar de reparar na estonteante beleza de Izabelle e nos insistentes
olhares disparados por ela em sua direção. Era perceptível o
interesse de Izabelle nele. Durante toda a reunião ele pode perceber
aqueles lindos olhos verdes o observando, chegando, em alguns
momentos, a encontrar o olhar desconcertado dele, o que não a
constrangia de forma alguma, sendo sim motivo para que ela
continuasse sua discreta investida. Matheus tentou, em princípio,
não dar tanta importância aos olhares de Izabelle, o que acabou
posteriormente por tornar-se extremamente difícil de se fazer devido
a indescritível beleza daquela jovem dissidente Nightkiller. Era
inegável que ela o atraía, apesar de ele amar verdadeiramente
Alice.
Já
eram transcorridas cerca de duas horas de reunião quando foi chegado
o momento mais aguardado por todos, Izabelle tentaria achar naquele
amuleto algum resquício da energia de Alice. Aquele era o ponto
chave para que os planos deles pudessem ser colocados em prática. E
todos ficaram observando com grande expectativa o momento que
Izabelle acolheu entre suas mãos o amuleto de prata, levando-o de
encontro ao seu peito, e fechando seus olhos numa tentativa de
concentrar-se na busca do “cheiro da alma” de Alice, que era como
eles chamavam o conhecimento da frequência específica de vibração
de um espírito humano. Essa habilidade de Izabelle era algo
extremamente raro entre os amaldiçoados. Não era um tipo de
habilidade que pudesse ser desenvolvida com treinamento, pelo
contrário, era visto entre os licantropos como um tipo de dom, não
sendo dado à todos esse verdadeiro privilégio.
Não
foi nada fácil para Izabelle conseguir sentir o “cheiro da alma”
de Alice. Ela precisava entrar em sintonia com seu demônio obsessor
para que juntos tentassem filtrar as vibrações específicas de
Alice entre as demais almas mortais, o que tornou-se uma tarefa
incrivelmente difícil pelo fato do amuleto Gadol inibir a ação e o
poder dos obsessores. Mas o alívio foi geral quando ela, após um
enorme esforço e energia desprendidos, anunciou que conseguira achar
o rastro do espírito da jovem sequestrada. Agora era possível
seguir a energia emanada dela e descobrir a localização do
esconderijo Gadol.
A
alegria de Matheus foi evidente e agora novamente ele conseguia
vislumbrar um desfecho para todo aquele pesadelo que ele estava
vivendo. Já podia voltar a sonhar com um futuro junto de Alice. O
coração dele palpitava intensamente e a vida parecia voltar-lhe ao
corpo. Era totalmente renovador, uma verdadeira injeção de ânimo
em suas veias, ter de volta de forma concreta a esperança que a
tanto custo ele sustentava viva dentro de si. Essa era a prova de
fogo para Matheus e ele sabia que não lhe era permito cometer erros
de novo.
Todos
prepararam-se rapidamente para a perigosa missão juntando tudo que
consideravam ser útil para a execução de seus planos e, ainda
naquela mesma madrugada, partiram estrada à fora em busca do
esconderijo Gadol.
