sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

LdS - Livro I - Capítulo 23 - Ódio


A garotinha brincava sentada com sua boneca enquanto seu avô terminava de esculpir a figura de um querubim em uma tora de madeira. O velho homem, apesar da debilidade nos movimentos e da dificuldade em enxergar através de seus olhos cansados, ainda possuía habilidade para desenvolver tal atividade. Havia aprendido este ofício assim que chegara ao Brasil vindo da Turquia. Seu nome era Hilal.

Ele vivia sozinho. Seu único filho, que nascera ainda na Turquia, vinha visitá-lo esporadicamente e só algumas vezes trazia consigo sua filha de cinco anos. Ela era a única neta de Hilal e ele a amava com todas as suas forças. Gostaria de ter mais contato com a menina, queria contar-lhe algumas coisas que ele julgava importantes para sua vida. Ele queria falar-lhe das suas origens, da origem de sua linhagem. Queira que ela soubesse que era uma pessoa especial e que tinha um chamado na Terra. Queria também contar-lhe histórias grandiosas de guerreiros antigos e de monstros aterrorizantes. Mas, apesar desse desejo, ele limitava-se a falar pouco sobre essas coisas, pois sabia da total desaprovação de seu filho. Sabia que, se o pai da sua garotinha descobrisse que ele a estava ensinando coisas sobre seus antepassados, ele provavelmente nunca mais a veria.

Assim Hilal falava com ela como se contasse lendas, contos de fadas, e pedia que ela guardasse segredo de seus pais porque eles poderiam brigar por se tratarem de histórias de monstros. E a netinha de Hilal adorava ouvir as histórias de seu avô. Ela se transportava para dentro dos contos do velho artesão e se imaginava uma guerreira como nas suas histórias. Queria viver aquelas aventuras, queria possuir aqueles poderes, poder fazer magia.

Todas as vezes que ela visitava seu velho avô pedia que ele lhe contasse mais contos. E ele adorava ver o interesse da menina pelas suas histórias. Sabia que ela tinha o mesmo temperamento aventureiro que ele. E assim ele aproveitava as oportunidades para passar-lhes tudo o que achava que era importante para sua menininha. Ele não lhe falava de coisas complexas por ser ela ainda muito criança e não possuir o entendimento da vida necessário para absorver coisas desse nível. Mas ele tinha paciência, saberia esperar o amadurecimento de sua netinha. Sabia que o destino dela era o de ser como ele. Seria ela quem iria manter seu legado vivo.

No dia dessa visita, enquanto ele trabalhava na escultura do anjo e sua pequena visitante o fazia companhia sentada ao seu lado brincado de boneca, ele resolveu falar-lhe sobre as duas forças que movem a vida humana.
- Torun (que quer dizer netinha em turco), você sabe qual são as duas forças mais poderosas nesse mundo? - ela continuava brincando sentada com sua boneca.

- Não, vovô. Você sabe? - os olhinhos dela procuram o velho homem, curiosos.

- Sei, Torun. As duas forças mais poderosas nesse mundo e que movem todos os guerreiros são o ódio e o amor. Engraçado que elas são opostas, sendo uma o inverso da outra. - ela ouvia atentamente as palavras do homem tentando entender o que seria inverso.

Notando o que se passava, o velho busca esclarecer suas dúvidas:

- Acho que posso explicar-lhe melhor, meu bem. O amor e o ódio são como a luz e a escuridão, um não existe onde o outro está. Ou melhor, onde um aparece o outro vai embora, deixa de existir. Entendeu agora?

- Acho que entendi, vovô. Mas qual desses dois é mais forte? Os dois são fortes do mesmo jeito? - a pergunta fez o velho parar de talhar a madeira para observar sua neta.

- Tem algumas pessoas que acreditam que sim, meu bem. Mas eu acredito que o amor sempre vai vencer. E você sabe por quê? - a garotinha balança a cabeça negativamente. - Você já viu escuridão tão grande que não vá embora com a mais frágil chama de uma vela? O amor pode tudo, meu bem, não esqueça disso. Acho que, de tudo que eu já lhe contei, isto é o mais importante. Nunca deixe o ódio dominar o seu coração, meu anjo. Você deve estar sempre cheia de amor, esse sentimento é o que vai fazer de você uma pessoa realmente forte. Com ele você conseguirá superar tudo. Promete que não vai esquecer disso? É importante.

- Prometo, vozinho. - ela agora fingia pentear os cabelos vermelhos de sua pequena boneca.

Tendo acabado de conversarem isso, uma voz chama a garotinha ao longe:

- Alice, meu amor, vamos indo! Já está na hora. Despeça-se de seu avô e venha que ainda precisamos passar no mercado antes de voltarmos pra casa. - era o pai da garotinha quem a chamava para irem embora.

A menina se levanta, abraça o velho homem e dá-lhe um beijo na bochecha.

- Tchau, vovô. Eu amo você. - ao terminar de dizer tais palavras, Alice sai correndo em direção ao seu pai deixando para trás seu velho avô a observá-la com lágrimas nos olhos.

**********

Sua expressão é de puro ódio. Ela enfim está novamente cara a cara com o monstro responsável pela matança em sua cerimônia de iniciação. Ele é o alvo que deseja eliminar. Seu coração está inflado de cólera que ela julga ser causada por ele, mas está enganada. Toda a sua revolta e frustração são causadas pelo vazio de seu peito. Ela não entende, mas sempre que pensa naquele homem, sempre que lembra de seu rosto, seu coração dói e, em seu mais profundo interior, seus sentimentos adormecidos gritam para se libertar. Não é a ele que Alice odeia. Ela odeia o vazio que a sua falta lhe traz. Um buraco existe em suas memórias e um abismo dentro de sua alma. E a este turbilhão que ela não entende, preferiu julgar tratar-se de ódio. Uma grande piada de mau gosto do destino, ódio pelo homem que ela mais amou nesta vida.

Ele não consegue ficar imune à presença daquela garota. Afinal de contas, ele ainda a ama, ainda deseja tê-la de volta. Achou que não a veria mais, que ela era passado, apesar de seu coração teimar em não acreditar nisto. Com todas as suas forças ele tentou esquecê-la, tentou enterrá-la. Mas ela sempre insistia em ressurgir assim como a lendária fênix, e consumia sua alma com uma dor que o deixava sem ar. Ela fora feita para ser dele, ele sabia disso. Era o destino dos dois que ficassem juntos. E foi com angústia que ele a olhou. Pensou que fosse um fantasma de seu passado que ressurgia para cobrar-lhe o preço pelo seu abandono. Sabia que aquele encontro lhe traria ainda mais dor e sofrimento. Mas mesmo assim, seu coração estava acelerado frente a imagem daquela moça. Ele lembrava-se do que um significara ao outro, ainda sentia aquilo vivo pulsando em suas veias. Ainda conseguia lembrar com uma clareza impressionante o perfume do corpo dela. Lembrava-se, não sem sofrer, do período que passaram juntos no chalé de Demétrius. Ainda conseguia ouvir em sua mente o sorriso dela ao acordar ao seu lado todas as manhãs. Lembrava-se do sabor de seu beijo, da maciez de seus lábios, do seu toque em seu corpo.

Agora os dois estão de lados opostos. Matheus lembra-se de sua nova companheira a quem ele deve muito e que ele esforça-se para defender. Ele está preocupado com Izabelle, teme pela sua segurança. Ele sabe que se seus inimigos resolveram atacá-los é porque devem estar mais fortes e preparados. Ele, ao contrário de seus adversários, tinha relaxado em seu treinamento e possivelmente não conseguiria ter um desempenho como o que teve no mosteiro Gadol. Sentia medo, medo por Izabelle, medo pelo que poderia acontecer a ela.

Nem bem os dois Gadols se revelaram e o velho guerreiro-sacerdote tratou de conjurar um feitiço criando uma barreira que aprisionava todos os quatro em seu interior. Tal barreira impedia que eles saíssem de dentro de uma espécie de redoma que possuía vários metros de diâmetro e que também os tornava invisíveis a possíveis olhos curiosos que viessem a passar por aquela autoestrada. O cenário estava montado para o grande acerto de contas entre Benjamim e Matheus. O ódio dos dois era genuíno e o destino reservara aquela noite para que ali eles encerrassem as suas diferenças.

Matheus não portava sua espada que estava bem guardada dentro de uma mala no carro. Izabelle também encontrava-se desarmada e não possuía o mesmo treinamento em artes marciais que Matheus. Era evidente que eles estavam em desvantagem. Ao menos Selene brilhava cheia no céu, deixando-os mais poderosos, mas também mais suscetíveis ao domínio de seus obsessores. Ele ainda portava o amuleto que pertencera a Alice e aquele objeto o protegia da influência maligna de Shaladiel.

Alice sentia seu peito apertado, era uma dor sufocante. Ela correu logo na direção dos dois licantropos para atacá-los, a tatuagem em sua mão direita emitia uma luz vermelha, parecia esta em chamas. Tentaria acabar com os dois com um só golpe. Não queria mais sentir aquela dor dentro de seu coração.

Benjamim limitava-se a manter seu feitiço ativo enquanto observava sua discípula atacar com seu maior trunfo, sua mais avançada técnica. Ela já era mais poderosa que seu mestre, seu poder de destruição era assustador. Havia nascido para aquilo, sua linhagem Gadol deveria ser de alguma casta superior. Ele orgulhava-se de ter sido o homem que a salvara das garras licantropas e a treinara em suas artes bélicas. Agora ele veria o fruto de seu trabalho, veria sua discípulas esmagar seus inimigos.

Matheus lançara-se a frente para defender Izabelle. Iria tentar interceptar o ataque de sua adversária sozinho. Sua companheira estava confusa, não sabia ao certo o que fazer. Fora pega totalmente desprevenida. Ele então fez-lhe um pedido:

- Minha wakizashi! Preciso dela, Belle. - gritou enquanto usava sua velocidade para interceptar sua atacante.

Izabelle correu para junto do carro atrás da espada de Matheus e de seu gancho duplo de prata. Haviam sido guardados em uma mala apropriada para o seu transporte, ficando dentro de fundos falsos com proteção contra detectores de metais e raios-X. Ela conseguira aquela bagagem com Ighor, um aliado licantropo excessivamente prevenido que nunca se apartava de seu armamento. O porta-malas estava emperrado, o que lhe deu trabalho e tomou-lhe tempo para retirar a bagagem.

Enquanto isso, Matheus conseguira defender-se do primeiro ataque de Alice usando sua velocidade para esquivar-se de seu soco e contra-atacou-a com uma rasteira que quase a derrubou. A jovem era ágil e habilidosa, rapidamente recuperou-se e estava novamente na ofensiva tratando de conjurar um feitiço. Seus lábio pronunciavam palavras antigas de um idioma desconhecido e seu corpo emitia uma onda de energia que chegava até Matheus. Após ela selar seus lábios, partiu novamente para a ofensiva, só que agora com uma velocidade impressionante, movimentava-se como se fosse um licantropo. Por sorte de Matheus, ele ainda era mais rápido que sua adversária, pois se assim não fosse, agora estaria estraçalhado no chão pelo golpe desferido por Alice. Ele sentiu o som do braço de Alice rasgar o ar numa velocidade e força absurdas bem próximo de seu rosto. Acabou recuando com receio de ser atingido pelo punho incandescente de sua inimiga. Aquilo era realmente amedrontador, podia-se sentir as ondas de calor que o punho dela emitia. A Chamsa ardia gravada em sua pele.

Enfim Izabelle encontrara as armas e, tratando logo de juntar-se a Matheus, correu para perto de seu amado. Agora as coisas estavam mais interessantes, pois novamente Matheus empunhava sua espada, a mesma lâmina que outrora havia se banhado em sangue Gadol. Izabelle empunhava seu gancho duplo e sentia a influência de seu obsessor tentando tomar-lhe o controle. Nessas horas de tensão os licantropos mais fracos não conseguem resistir à tentação de deixar-se dominar pelo poder de seus demônios interiores, mas Izabelle era forte, não iria ceder àquela noite.

- Vejo que andam sempre preparados para um confronto. - falava Alice em um tom de deboche. - Pois vejamos se estas armas realmente serão úteis quando eu mandá-los para o inferno!

Ela levou as mãos nas cochas para sacar suas pistolas nove milímetros enquanto Matheus e Izabelle separavam-se e corriam para atacarem simultaneamente pelos dois flancos. Matheus tratou de acelerar para atacá-la primeiro com o intuito de distraí-la para um posterior ataque de Izabelle. E seu plano quase obteve sucesso. Alice virara-se em sua direção, mirando suas duas pistolas para ele, estava tão perturbada pela presença de Matheus que esquecera-se de uma lição básica de seu mestre, nunca descuidar de sua retaguarda durante um ataque. Izabelle iria pegá-la desprevenida, aquele seria o seu fim.

Foi então que a única testemunha daquela luta resolveu deixar seu lugar de mero espectador para interferir de uma forma decisiva. Vendo que sua discípula descuidara-se e que seria golpeada pela retaguarda, Benjamim rapidamente tratou de protegê-la. Matheus não soube depois explicar com clareza o que aconteceu. Só conseguiu ver, entre os vários saltos que realizava para desviar das balas de prata disparadas por Alice, Benjamim aparecer como que por mágica nas costas de Izabelle e disparar sem misericórdia várias vezes até ela cair prostrada no chão. Depois disso, as únicas lembranças de Matheus resumem-se a dor.

Ele correu como nunca correra em toda sua vida. Nem mesmo Alice pôde acompanhar com o olhar todos os seus movimentos. Num instante ele estava na sua frente, no outro acertava um soco violento em Benjamim que o fez voar por vários metros. Estava ensandecido. Ele pranteava e gritava intensamente agarrado ao corpo ensanguentado de sua companheira.

Izabelle ainda estava consciente, mas seu corpo estava irremediavelmente debilitado, fora alvejado por várias balas de prata. Ele agarrou-lhe a mão com força como se assim pudesse impedi-la de partir e deixá-lo mais uma vez sozinho. Seus olhos buscavam os dela, queria mantê-la consciente. Ela já não conseguia respirar com qualidade, seus pulmões estavam inundados de sangue. Sabendo que chegara a sua hora, ela num último esforço levou sua mão ao rosto de seu amado para despedir-se:

- Não chore, meu amor. Agora vou poder descansar e velarei por você onde quer que esteja. - Seu olhar era de uma ternura abundante. - Seja corajoso, não desista de lutar, Matheus.

- Não tente falar, Belle, você está muito machucada. - Matheus mal conseguia fazer sua voz sair da garganta. Ele soluçava enquanto suas lágrimas corriam pelo seu rosto.

- Eu pensei que nossa história fosse durar mais, mas me enganei. - ela já lutava sobremaneira para manter seus olhos abertos. - Prometa que você lutará por sua vida, prometa que lutará para livrar-se dessa maldição, meu amor. Seja feliz por nós dois...

Ao dizer estas últimas palavras, Izabelle deixou-se adormecer para nunca mais acordar.

Alice não conseguiu entender o que acontecera com ela, mas, ao ver o desespero no choro inconsolável de Matheus, ficou estática. Não pôde atacar, nem ao menos correr em socorro de seu mestre que ainda estava inconsciente no chão. Algo dentro dela a fez parar. Não conseguia fazer nada, apenas assistir o sofrimento daquele rapaz.

Semelhantemente ao que acontecera no mosteiro, a alma de Matheus cobriu-se de uma escuridão imprescrutante. Já não queria mais sentir qualquer outro sentimento que não o ódio. Seu coração sangrava de dor, uma dor desesperadora. Mais uma vez perdera a pessoa amada. Ele sabia que era perigoso deixar-se dominar pelas sombras, mas naquele momento seria possível para ele até mesmo vender sua alma ao demônio para não sentir-se completamente esfacelado daquela maneira. Ele iria vingar-se. Mesmo que isso não lhe aliviasse a dor de sua perda, ainda assim ele queria sangue.

Benjamim enfim recobrara a consciência e colocava-se lentamente de pé. Ao ver seu velho mestre movimentar-se, Alice enfim partira em seu auxílio. O mestre Gadol ainda estava em condições de combater apesar de sentir-se ainda desorientado. Agora seriam dois contra um.

Matheus deitou com cuidado e ternura o corpo inerte de Izabelle no chão. Ainda beijou-lhe uma última vez na testa antes de partir em busca de sua vingança. Ele apanhou sua espada que estava caída ao seu lado e levantou-se apertando a bainha com toda a força que seu ódio produzia. Selene brilhava cheia e imponente no céu. Não teve dúvidas, com um rápido movimento arrancou o colar Gadol que pendia-lhe no pescoço. Queria utilizar toda a força de que pudesse dispor, até mesmo o poder de Shaladiel. Aquela seria uma luta de vida ou morte e não seria ele quem deveria morrer.

Instantaneamente à remoção do amuleto, Shaladiel investiu faminto contra a alma de Matheus. Ele estava fragilizado e suscetível ao seu poder, o demônio sabia disso. Aquela era a chance que ele tanto aguardara para consumir definitivamente a alma humana de Matheus e tornar-se dono daquele corpo. Shaladiel queria ressurgir mais insano que nunca e seu poder opressor era enlouquecedor.

- Deixe-me usar seu corpo para vingá-lo, garoto. Não é isso que você deseja? Ver o corpo de seus inimigos em pedaços? Eu sou o único capaz de fazê-lo para você. Deixe-me assumir o controle e cuidarei de tudo.” - o demônio sabia ser convincente. Sua voz era puro mal.

Matheus sentiu-se tentando, mas não era aquilo que ele desejava. Queria acabar com Benjamim ele mesmo, o sangue daquele desgraçado pertencia somente a ele e a ninguém mais. Deveria ser ele a pessoa que tiraria a vida daquele velho guerreiro Gadol. Novamente, como acontecera quando da morte de Henrique e no episódio do mosteiro, seu espírito tomou-se de uma força de vontade de ferro. Ninguém, nem mesmo Shaladiel, colocaria-se em seu caminho.

- Vamos, seu covarde! Fuja e deixe-me destruir estes guerreiros odiosos!” - Shaladiel estava nervoso, sua sede de sangue era enorme.

- Cale essa boca, seu demônio de merda! Quem manda aqui sou eu! - Matheus estava fora de si. - Deixei que se aproximasse porque quero algo seu. Hoje serei eu quem irá consumi-lo. Eu quero o seu poder, Shaladiel! - dizendo isto, soltou um longo grito de desafio.

Matheus olhou para o céu para ver o poder que emanava de Selene. E para ele aconteceu um fenômeno. A lua começou a emitir uma luz avermelhada, como se toda a sua superfície estivesse sendo encoberta por sangue. Ele sabia o que estava vendo, aquilo era como um luar de sangue. Seu corpo todo começou a vibrar e ele sentiu o poder de Shaladiel penetrar-lhe a carne. Aquilo era incrível, pensava ele, o poder do lobo-demônio estava sendo drenado por ele. Dentro de sua cabeça ele ouvia os urros de fúria de Shaladiel ao sentir seu poder ser-lhe tomado. Aquilo era loucura, como poderia um simples licantropo subjugar seu obsessor daquela forma? Ele não só o resistia, ele o escravizava. Matheus atraíra Shaladiel para tomar-lhe o poder. Sua musculatura tremia frente ao tremendo poder que agora a alimentava. E dentro de sua alma, parte da natureza demoníaca de Shaladiel penetrou-lhe, encravando-se em seu ser. Ele agora não tinha mais consciência nem sombra misericórdia. Em seu peito somente um abismo de onde brotava ódio. Seus olhos brilhavam o fogo destruidor do lobo-demônio em vermelho fulgurante.

Matheus descobrira seu dom licantropo, ele possuía o “Luar de Sangue”, o poder que somente Licaon conseguira dominar, o poder que era uma lenda entre os amaldiçoados, o poder de escravizar seu demônio obsessor.

Benjamim e Alice observavam Matheus estupefatos. Conseguiam sentir o poder que emanava dele e aquilo era aterrorizante. Ele era a personificação do “deus da morte” e seus olhos que queimavam em vermelho eram sombrios como os de um demônio. Agora era tarde para fugir, teriam que enfrentar aquela aberração.


Matheus segurou sua espada wakizashi colocando-a na sua frente, seu poder também circulava por sobre a lâmina de sua espada que agora assumia uma natureza sombria, com seu metal enegrecido. Ele olhou para Benjamim e sorriu. O ódio por aquele homem mostrara-lhe seu verdadeiro dom. Agora ele estava preparado para a sua vingança.