A
garotinha brincava sentada com sua boneca enquanto seu avô terminava
de esculpir a figura de um querubim em uma tora de madeira. O velho
homem, apesar da debilidade nos movimentos e da dificuldade em
enxergar através de seus olhos cansados, ainda possuía habilidade
para desenvolver tal atividade. Havia aprendido este ofício assim
que chegara ao Brasil vindo da Turquia. Seu nome era Hilal.
Ele
vivia sozinho. Seu único filho, que nascera ainda na Turquia, vinha
visitá-lo esporadicamente e só algumas vezes trazia consigo sua
filha de cinco anos. Ela era a única neta de Hilal e ele a amava com
todas as suas forças. Gostaria de ter mais contato com a menina,
queria contar-lhe algumas coisas que ele julgava importantes para sua
vida. Ele queria falar-lhe das suas origens, da origem de sua
linhagem. Queira que ela soubesse que era uma pessoa especial e que
tinha um chamado na Terra. Queria também contar-lhe histórias
grandiosas de guerreiros antigos e de monstros aterrorizantes. Mas,
apesar desse desejo, ele limitava-se a falar pouco sobre essas
coisas, pois sabia da total desaprovação de seu filho. Sabia que,
se o pai da sua garotinha descobrisse que ele a estava ensinando
coisas sobre seus antepassados, ele provavelmente nunca mais a veria.
Assim
Hilal falava com ela como se contasse lendas, contos de fadas, e
pedia que ela guardasse segredo de seus pais porque eles poderiam
brigar por se tratarem de histórias de monstros. E a netinha de
Hilal adorava ouvir as histórias de seu avô. Ela se transportava
para dentro dos contos do velho artesão e se imaginava uma guerreira
como nas suas histórias. Queria viver aquelas aventuras, queria
possuir aqueles poderes, poder fazer magia.
Todas
as vezes que ela visitava seu velho avô pedia que ele lhe contasse
mais contos. E ele adorava ver o interesse da menina pelas suas
histórias. Sabia que ela tinha o mesmo temperamento aventureiro que
ele. E assim ele aproveitava as oportunidades para passar-lhes tudo o
que achava que era importante para sua menininha. Ele não lhe falava
de coisas complexas por ser ela ainda muito criança e não possuir o
entendimento da vida necessário para absorver coisas desse nível.
Mas ele tinha paciência, saberia esperar o amadurecimento de sua
netinha. Sabia que o destino dela era o de ser como ele. Seria ela
quem iria manter seu legado vivo.
No
dia dessa visita, enquanto ele trabalhava na escultura do anjo e sua
pequena visitante o fazia companhia sentada ao seu lado brincado de
boneca, ele resolveu falar-lhe sobre as duas forças que movem a vida
humana.
-
Torun (que quer dizer netinha em turco), você sabe qual são as duas
forças mais poderosas nesse mundo? - ela continuava brincando
sentada com sua boneca.
-
Não, vovô. Você sabe? - os olhinhos dela procuram o velho homem,
curiosos.
-
Sei, Torun. As duas forças mais poderosas nesse mundo e que movem
todos os guerreiros são o ódio e o amor. Engraçado que elas são
opostas, sendo uma o inverso da outra. - ela ouvia atentamente as
palavras do homem tentando entender o que seria inverso.
Notando
o que se passava, o velho busca esclarecer suas dúvidas:
-
Acho que posso explicar-lhe melhor, meu bem. O amor e o ódio são
como a luz e a escuridão, um não existe onde o outro está. Ou
melhor, onde um aparece o outro vai embora, deixa de existir.
Entendeu agora?
-
Acho que entendi, vovô. Mas qual desses dois é mais forte? Os dois
são fortes do mesmo jeito? - a pergunta fez o velho parar de talhar
a madeira para observar sua neta.
-
Tem algumas pessoas que acreditam que sim, meu bem. Mas eu acredito
que o amor sempre vai vencer. E você sabe por quê? - a garotinha
balança a cabeça negativamente. - Você já viu escuridão tão
grande que não vá embora com a mais frágil chama de uma vela? O
amor pode tudo, meu bem, não esqueça disso. Acho que, de tudo que
eu já lhe contei, isto é o mais importante. Nunca deixe o ódio
dominar o seu coração, meu anjo. Você deve estar sempre cheia de
amor, esse sentimento é o que vai fazer de você uma pessoa
realmente forte. Com ele você conseguirá superar tudo. Promete que
não vai esquecer disso? É importante.
-
Prometo, vozinho. - ela agora fingia pentear os cabelos vermelhos de
sua pequena boneca.
Tendo
acabado de conversarem isso, uma voz chama a garotinha ao longe:
-
Alice, meu amor, vamos indo! Já está na hora. Despeça-se de seu
avô e venha que ainda precisamos passar no mercado antes de
voltarmos pra casa. - era o pai da garotinha quem a chamava para irem
embora.
A
menina se levanta, abraça o velho homem e dá-lhe um beijo na
bochecha.
-
Tchau, vovô. Eu amo você. - ao terminar de dizer tais palavras,
Alice sai correndo em direção ao seu pai deixando para trás seu
velho avô a observá-la com lágrimas nos olhos.
**********
Sua
expressão é de puro ódio. Ela enfim está novamente cara a cara
com o monstro responsável pela matança em sua cerimônia de
iniciação. Ele é o alvo que deseja eliminar. Seu coração está
inflado de cólera que ela julga ser causada por ele, mas está
enganada. Toda a sua revolta e frustração são causadas pelo vazio
de seu peito. Ela não entende, mas sempre que pensa naquele homem,
sempre que lembra de seu rosto, seu coração dói e, em seu mais
profundo interior, seus sentimentos adormecidos gritam para se
libertar. Não é a ele que Alice odeia. Ela odeia o vazio que a sua
falta lhe traz. Um buraco existe em suas memórias e um abismo dentro
de sua alma. E a este turbilhão que ela não entende, preferiu
julgar tratar-se de ódio. Uma
grande piada de mau gosto do destino, ódio pelo homem que ela mais
amou nesta vida.
Ele não consegue ficar imune à
presença daquela garota. Afinal de contas, ele ainda a ama, ainda
deseja tê-la de volta. Achou que não a veria mais, que ela era
passado, apesar de seu coração teimar em não acreditar nisto. Com
todas as suas forças ele tentou esquecê-la, tentou enterrá-la. Mas
ela sempre insistia em ressurgir assim como a lendária fênix, e
consumia sua alma com uma dor que o deixava sem ar. Ela fora feita
para ser dele, ele sabia disso. Era o destino dos dois que ficassem
juntos. E foi com angústia que ele a olhou. Pensou que fosse um
fantasma de seu passado que ressurgia para cobrar-lhe o preço pelo
seu abandono. Sabia que aquele encontro lhe traria ainda mais dor e
sofrimento. Mas mesmo assim, seu coração estava acelerado frente a
imagem daquela moça. Ele lembrava-se do que um significara ao outro,
ainda sentia aquilo vivo pulsando em suas veias. Ainda conseguia
lembrar com uma clareza impressionante o perfume do corpo dela.
Lembrava-se, não sem sofrer, do período que passaram juntos no
chalé de Demétrius. Ainda conseguia ouvir em sua mente o sorriso
dela ao acordar ao seu lado todas as manhãs. Lembrava-se do sabor de
seu beijo, da maciez de seus lábios, do seu toque em seu corpo.
Agora
os dois estão de lados opostos. Matheus lembra-se de sua nova
companheira a quem ele deve muito e que ele esforça-se para
defender. Ele está preocupado com Izabelle, teme pela sua segurança.
Ele sabe que se seus inimigos resolveram atacá-los é porque devem
estar mais fortes e preparados. Ele, ao contrário de seus
adversários, tinha relaxado em seu treinamento e possivelmente não
conseguiria ter um desempenho como o que teve no mosteiro Gadol.
Sentia medo, medo por Izabelle, medo pelo que poderia acontecer a
ela.
Nem bem os dois Gadols se revelaram e
o velho guerreiro-sacerdote tratou de conjurar um feitiço criando
uma barreira que aprisionava todos os quatro em seu interior. Tal
barreira impedia que eles saíssem de dentro de uma espécie de
redoma que possuía vários metros de diâmetro e que também os
tornava invisíveis a possíveis olhos curiosos que viessem a passar
por aquela autoestrada. O cenário estava montado para o grande
acerto de contas entre Benjamim e Matheus. O ódio dos dois era
genuíno e o destino reservara aquela noite para que ali eles
encerrassem as suas diferenças.
Matheus não portava sua espada que
estava bem guardada dentro de uma mala no carro. Izabelle também
encontrava-se desarmada e não possuía o mesmo treinamento em artes
marciais que Matheus. Era evidente que eles estavam em desvantagem.
Ao menos Selene brilhava cheia no céu, deixando-os mais poderosos,
mas também mais suscetíveis ao domínio de seus obsessores. Ele
ainda portava o amuleto que pertencera a Alice e aquele objeto o
protegia da influência maligna de Shaladiel.
Alice sentia seu peito apertado, era
uma dor sufocante. Ela correu logo na direção dos dois licantropos
para atacá-los, a tatuagem em sua mão direita emitia uma luz
vermelha, parecia esta em chamas. Tentaria acabar com os dois com um
só golpe. Não queria mais sentir aquela dor dentro de seu coração.
Benjamim limitava-se a manter seu
feitiço ativo enquanto observava sua discípula atacar com seu maior
trunfo, sua mais avançada técnica. Ela já era mais poderosa que
seu mestre, seu poder de destruição era assustador. Havia nascido
para aquilo, sua linhagem Gadol deveria ser de alguma casta superior.
Ele orgulhava-se de ter sido o homem que a salvara das garras
licantropas e a treinara em suas artes bélicas. Agora ele veria o
fruto de seu trabalho, veria sua discípulas esmagar seus inimigos.
Matheus lançara-se a frente para
defender Izabelle. Iria tentar interceptar o ataque de sua adversária
sozinho. Sua companheira estava confusa, não sabia ao certo o que
fazer. Fora pega totalmente desprevenida. Ele então fez-lhe um
pedido:
- Minha wakizashi! Preciso dela,
Belle. - gritou enquanto usava sua velocidade para interceptar sua
atacante.
Izabelle correu para junto do carro
atrás da espada de Matheus e de seu gancho duplo de prata. Haviam
sido guardados em uma mala apropriada para o seu transporte, ficando
dentro de fundos falsos com proteção contra detectores de metais e
raios-X. Ela conseguira aquela bagagem com Ighor, um aliado
licantropo excessivamente prevenido que nunca se apartava de seu
armamento. O porta-malas estava emperrado, o que lhe deu trabalho e
tomou-lhe tempo para retirar a bagagem.
Enquanto isso, Matheus conseguira
defender-se do primeiro ataque de Alice usando sua velocidade para
esquivar-se de seu soco e contra-atacou-a com uma rasteira que quase
a derrubou. A jovem era ágil e habilidosa, rapidamente recuperou-se
e estava novamente na ofensiva tratando de conjurar um feitiço. Seus
lábio pronunciavam palavras antigas de um idioma desconhecido e seu
corpo emitia uma onda de energia que chegava até Matheus. Após ela
selar seus lábios, partiu novamente para a ofensiva, só que agora
com uma velocidade impressionante, movimentava-se como se fosse um
licantropo. Por sorte de Matheus, ele ainda era mais rápido que sua
adversária, pois se assim não fosse, agora estaria estraçalhado no
chão pelo golpe desferido por Alice. Ele sentiu o som do braço de
Alice rasgar o ar numa velocidade e força absurdas bem próximo de
seu rosto. Acabou recuando com receio de ser atingido pelo punho
incandescente de sua inimiga. Aquilo era realmente amedrontador,
podia-se sentir as ondas de calor que o punho dela emitia. A Chamsa
ardia gravada em sua pele.
Enfim Izabelle encontrara as armas e,
tratando logo de juntar-se a Matheus, correu para perto de seu amado.
Agora as coisas estavam mais interessantes, pois novamente Matheus
empunhava sua espada, a mesma lâmina que outrora havia se banhado em
sangue Gadol. Izabelle empunhava seu gancho duplo e sentia a
influência de seu obsessor tentando tomar-lhe o controle. Nessas
horas de tensão os licantropos mais fracos não conseguem resistir à
tentação de deixar-se dominar pelo poder de seus demônios
interiores, mas Izabelle era forte, não iria ceder àquela noite.
- Vejo que andam sempre preparados
para um confronto. - falava Alice em um tom de deboche. - Pois
vejamos se estas armas realmente serão úteis quando eu mandá-los
para o inferno!
Ela levou as mãos nas cochas para
sacar suas pistolas nove milímetros enquanto Matheus e Izabelle
separavam-se e corriam para atacarem simultaneamente pelos dois
flancos. Matheus tratou de acelerar para atacá-la primeiro com o
intuito de distraí-la para um posterior ataque de Izabelle. E seu
plano quase obteve sucesso. Alice virara-se em sua direção, mirando
suas duas pistolas para ele, estava tão perturbada pela presença de
Matheus que esquecera-se de uma lição básica de seu mestre, nunca
descuidar de sua retaguarda durante um ataque. Izabelle iria pegá-la
desprevenida, aquele seria o seu fim.
Foi então que a única testemunha
daquela luta resolveu deixar seu lugar de mero espectador para
interferir de uma forma decisiva. Vendo que sua discípula
descuidara-se e que seria golpeada pela retaguarda, Benjamim
rapidamente tratou de protegê-la. Matheus não soube depois explicar
com clareza o que aconteceu. Só conseguiu ver, entre os vários
saltos que realizava para desviar das balas de prata disparadas por
Alice, Benjamim aparecer como que por mágica nas costas de Izabelle
e disparar sem misericórdia várias vezes até ela cair prostrada no
chão. Depois disso, as únicas lembranças de Matheus resumem-se a
dor.
Ele correu como nunca correra em toda
sua vida. Nem mesmo Alice pôde acompanhar com o olhar todos os seus
movimentos. Num instante ele estava na sua frente, no outro acertava
um soco violento em Benjamim que o fez voar por vários metros.
Estava ensandecido. Ele pranteava e gritava intensamente agarrado ao
corpo ensanguentado de sua companheira.
Izabelle ainda estava consciente, mas
seu corpo estava irremediavelmente debilitado, fora alvejado por
várias balas de prata. Ele agarrou-lhe a mão com força como se
assim pudesse impedi-la de partir e deixá-lo mais uma vez sozinho.
Seus olhos buscavam os dela, queria mantê-la consciente. Ela já não
conseguia respirar com qualidade, seus pulmões estavam inundados de
sangue. Sabendo que chegara a sua hora, ela num último esforço
levou sua mão ao rosto de seu amado para despedir-se:
- Não chore, meu amor. Agora vou
poder descansar e velarei por você onde quer que esteja. - Seu olhar
era de uma ternura abundante. - Seja corajoso, não desista de lutar,
Matheus.
- Não tente falar, Belle, você está
muito machucada. - Matheus mal conseguia fazer sua voz sair da
garganta. Ele soluçava enquanto suas lágrimas corriam pelo seu
rosto.
- Eu pensei que nossa história fosse
durar mais, mas me enganei. - ela já lutava sobremaneira para manter
seus olhos abertos. - Prometa que você lutará por sua vida, prometa
que lutará para livrar-se dessa maldição, meu amor. Seja feliz por
nós dois...
Ao dizer estas últimas palavras,
Izabelle deixou-se adormecer para nunca mais acordar.
Alice não conseguiu entender o que
acontecera com ela, mas, ao ver o desespero no choro inconsolável de
Matheus, ficou estática. Não pôde atacar, nem ao menos correr em
socorro de seu mestre que ainda estava inconsciente no chão. Algo
dentro dela a fez parar. Não conseguia fazer nada, apenas assistir o
sofrimento daquele rapaz.
Semelhantemente ao que acontecera no
mosteiro, a alma de Matheus cobriu-se de uma escuridão
imprescrutante. Já não queria mais sentir qualquer outro sentimento
que não o ódio. Seu coração sangrava de dor, uma dor
desesperadora. Mais uma vez perdera a pessoa amada. Ele sabia que era
perigoso deixar-se dominar pelas sombras, mas naquele momento seria
possível para ele até mesmo vender sua alma ao demônio para não
sentir-se completamente esfacelado daquela maneira. Ele iria
vingar-se. Mesmo que isso não lhe aliviasse a dor de sua perda,
ainda assim ele queria sangue.
Benjamim enfim recobrara a consciência
e colocava-se lentamente de pé. Ao ver seu velho mestre
movimentar-se, Alice enfim partira em seu auxílio. O mestre Gadol
ainda estava em condições de combater apesar de sentir-se ainda
desorientado. Agora seriam dois contra um.
Matheus deitou com cuidado e ternura o
corpo inerte de Izabelle no chão. Ainda beijou-lhe uma última vez
na testa antes de partir em busca de sua vingança. Ele apanhou sua
espada que estava caída ao seu lado e levantou-se apertando a bainha
com toda a força que seu ódio produzia. Selene brilhava cheia e
imponente no céu. Não teve dúvidas, com um rápido movimento
arrancou o colar Gadol que pendia-lhe no pescoço. Queria utilizar
toda a força de que pudesse dispor, até mesmo o poder de Shaladiel.
Aquela seria uma luta de vida ou morte e não seria ele quem deveria
morrer.
Instantaneamente à remoção do
amuleto, Shaladiel investiu faminto contra a alma de Matheus. Ele
estava fragilizado e suscetível ao seu poder, o demônio sabia
disso. Aquela era a chance que ele tanto aguardara para consumir
definitivamente a alma humana de Matheus e tornar-se dono daquele
corpo. Shaladiel queria ressurgir mais insano que nunca e seu poder
opressor era enlouquecedor.
“- Deixe-me usar seu corpo para
vingá-lo, garoto. Não é isso que você deseja? Ver o corpo de seus
inimigos em pedaços? Eu sou o único capaz de fazê-lo para você.
Deixe-me assumir o controle e cuidarei de tudo.” - o demônio sabia
ser convincente. Sua voz era puro mal.
Matheus sentiu-se tentando, mas não
era aquilo que ele desejava. Queria acabar com Benjamim ele mesmo, o
sangue daquele desgraçado pertencia somente a ele e a ninguém mais.
Deveria ser ele a pessoa que tiraria a vida daquele velho guerreiro
Gadol. Novamente, como acontecera quando da morte de Henrique e no
episódio do mosteiro, seu espírito tomou-se de uma força de
vontade de ferro. Ninguém, nem mesmo Shaladiel, colocaria-se em seu
caminho.
“- Vamos, seu covarde! Fuja e
deixe-me destruir estes guerreiros odiosos!” - Shaladiel estava
nervoso, sua sede de sangue era enorme.
- Cale essa boca, seu demônio de
merda! Quem manda aqui sou eu! - Matheus estava fora de si. - Deixei
que se aproximasse porque quero algo seu. Hoje serei eu quem irá
consumi-lo. Eu quero o seu poder, Shaladiel! - dizendo isto, soltou
um longo grito de desafio.
Matheus olhou para o céu para ver o
poder que emanava de Selene. E para ele aconteceu um fenômeno. A lua
começou a emitir uma luz avermelhada, como se toda a sua superfície
estivesse sendo encoberta por sangue. Ele sabia o que estava vendo,
aquilo era como um luar de sangue. Seu corpo todo começou a vibrar e
ele sentiu o poder de Shaladiel penetrar-lhe a carne. Aquilo era
incrível, pensava ele, o poder do lobo-demônio estava sendo drenado
por ele. Dentro de sua cabeça ele ouvia os urros de fúria de
Shaladiel ao sentir seu poder ser-lhe tomado. Aquilo era loucura,
como poderia um simples licantropo subjugar seu obsessor daquela
forma? Ele não só o resistia, ele o escravizava. Matheus atraíra
Shaladiel para tomar-lhe o poder. Sua musculatura tremia frente ao
tremendo poder que agora a alimentava. E dentro de sua alma, parte da
natureza demoníaca de Shaladiel penetrou-lhe, encravando-se em seu
ser. Ele agora não tinha mais consciência nem sombra misericórdia.
Em seu peito somente um abismo de onde brotava ódio. Seus olhos
brilhavam o fogo destruidor do lobo-demônio em vermelho fulgurante.
Matheus descobrira seu dom licantropo,
ele possuía o “Luar de Sangue”, o poder que somente Licaon
conseguira dominar, o poder que era uma lenda entre os amaldiçoados,
o poder de escravizar seu demônio obsessor.
Benjamim e Alice observavam Matheus
estupefatos. Conseguiam sentir o poder que emanava dele e aquilo era
aterrorizante. Ele era a personificação do “deus da morte” e
seus olhos que queimavam em vermelho eram sombrios como os de um
demônio. Agora era tarde para fugir, teriam que enfrentar aquela
aberração.
Matheus segurou sua espada wakizashi
colocando-a na sua frente, seu poder também circulava por sobre a
lâmina de sua espada que agora assumia uma natureza sombria, com seu
metal enegrecido. Ele olhou para Benjamim e sorriu. O ódio por
aquele homem mostrara-lhe seu verdadeiro dom. Agora ele estava
preparado para a sua vingança.
