quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

LdS - Livro I - Capítulo 25 - Novamente juntos



Depois de algumas horas, eles já haviam se acalmado. Matheus ainda chorou muito a morte de Izabelle. Ficou por vários minutos acariciando os cabelos macios de sua companheira, olhando o corpo inerte daquela que ajudou-o a reencontrar-se quando estava perdido. Foi doloroso para ele sepultá-la ali naquele local, sozinha. Ele despediu-se com um beijo antes de deitá-la em sua cova e, juntamente com Alice, cobriu-a de terra. Matheus, como há muito tempo não fazia, ainda orou pela alma de sua querida e amada amiga e amante. Sabia que tinha um dívida com ela que ainda teria que ser paga. Ele, ao seu modo, a amou e não se deixaria esquecer os momentos que passou ao seu lado. Izabelle ensinou-o a ter esperanças, ensinou-o a ver que por mais que a vida seja cheia de duros golpes, não podemos simplesmente fugir de nossas responsabilidades e que devemos lutar sempre para que as coisas melhorem.

Alice também sepultou o corpo de seu mestre Benjamim. Por mais que ela soubesse que havia sido usada por ele para benefício de sua causa Gadol, ainda supria amor e gratidão por aquele que a instruíra em suas artes de combate e magia. Não fosse por Benjamim, possivelmente ela já estaria morta pelas mãos dos próprios Gadols. Foi ele quem viu seu potencial e investiu, ensinando-a tudo o que sabia sobre as artes dos caçadores. Alice agora era uma das maiores guerreiras dentre os de sua geração e possuía em suas veias o antigo e raro sangue da nobreza Gadol do oriente. Com certeza seu desaparecimento e de seu mestre seria rapidamente percebido pelas lideranças de sua ordem. Ela deveria pensar rapidamente numa forma de sumir sem deixar rastros. Apesar de agora conhecer sua origem, ela não queria mais continuar seguindo aquelas pessoas que só conseguiam enxergar a ameaça dentro das pobres pessoas assoladas pela maldição de Licaon. Havia reencontrado seu grande amor e lutaria com todas as suas forças por ele.

**********

Depois de tantos desencontros que o destino armara, agora os dois estavam novamente unidos. E ambos haviam passado por grandes transformações. Já não eram mais os mesmos de antes do desaparecimento de Alice. Agora eram guerreiros experientes em batalhas, adquiriram conhecimento de suas naturezas sobrenaturais. A dor os havia endurecido os semblantes, mas ambos conseguiram sobreviver a tudo e submergiram do mais profundo de suas almas ainda com alguma luz em seus corações. Não tinham sucumbido totalmente à escuridão e ao ódio, antes o amor os salvou de tornarem-se pessoas sem alma movidas somente pela busca da destruição. O amor que um nutria pelo outro os aproximou novamente e seria o combustível que os ajudaria a completar a missão que o destino reservara para ambos.
A semana seguinte ao reencontro de Matheus e Alice passou de forma lenta. Matheus não conseguira embarcar em seu voo na noite do confronto com Benjamim. O ataque surpresa dos Gadols acabou por obrigá-lo a reformular seus planos. E Matheus não teve pressa para reorganizar-se. Por mais que a situação na Europa pedisse o seu rápido envolvimento, ele ainda prateou o luto por Izabelle por mais alguns dias, precisava daquele tempo para reorganizar seus sentimentos, para novamente se reerguer frente a mais um duro golpe da vida. Tratou desta vez de deixar as coisas acertadas na empresa. Elegeu um dos diretores para substituí-lo durante sua ausência e informou seus amigos que iria viajar e que não teria data para retorno. Acabou entrando em contato com os três lobos gêmeos pedindo-lhes perdão pela demora em parti-lhes em auxílio e informando-os do ocorrido naqueles últimos dias. Os três acabaram entendendo-o e aceitaram o seu pedido de perdão. Haviam ficado também tocados pela morte de sua amiga Izabelle. Ela era realmente uma grande perda para o meio licantropo, uma amiga que faria falta. Respeitaram o pedido de Matheus para ficar mais uma semana no Brasil para reorganizar-se, para recompor seu emocional. Ele deveria estar inteiro, precisaria estar em condições de agir prontamente quando chegasse ao seu destino na Europa, não tendo espaço nem tempo para prantear por mais ninguém.

Apesar da triste notícia da perda de sua aliada e amiga, os três lobos gêmeos não ficaram incessíveis à notícia do retorno de Alice. Aquela era realmente uma das poucas notícias que mereciam comemoração naqueles dias de dúvidas e apreensão. Os adversários estavam se articulando rapidamente. Dentro de poucos meses a guerra iria explodir e eles eram os únicos que poderiam fazer algo para evitá-la. E a presença de Alice lhes trazia um novo ânimo, como se o som da corneta da cavalaria estivesse sendo entoada em seu auxílio.

Alice também utilizou daquele tempo para reestruturar sua vida e resolver seus problemas que não eram poucos. Havia sido dada como desaparecida por sua família já fazia um ano. Teria que revê-los antes de partir para uma possível guerra de onde talvez nunca voltaria. Resolveu então procurar seus pais para tentar explicar-lhes o ocorrido. O reencontro foi emocionante e difícil. Seus pais já haviam dado a filha como morta e ela teve que esforça-se muito para contar-lhes com calma tudo o que se passou com ela naquele período de seu desaparecimento. Alice não omitiu-lhes nada. Contou sobre o que acontecera com Matheus e da maldição, contou de seu sequestro realizado pelos Gadols, contou de como teve sua memória apagada e de como recobrou-a. Enfim, ao longo de duras horas de conversa, Alice convencera seus pais de que seu avô Hilal não era louco e que ela também tornara-se uma Gadol.

E não foi somente Alice quem fez revelações durante aquele dia. O pai de Alice acabou por confessar que sempre soubera da razão pela qual seus pais fugiram da Turquia para o Brasil. Confessou saber que seus ascendentes eram Gadols e que ele também possuía o sangue dos guerreiros-sacerdotes em suas veias, mas que preferira a ignorância por medo do que poderia vir a acontecer com ele e sua família. Essa também fora a razão real pela qual ele proibira seu velho pai de ensinar tais coisas à Alice. Ele não queria que sua garotinha vivesse uma vida de sacrifícios, privações e sofrimentos. Tinha ainda vivo em sua memória a dor de perder praticamente todos os seus familiares em um único ataque Lican. Apesar de ainda ser uma criança quando do ocorrido, ele ainda trazia vivo em sua alma o trauma que aquela experiência produzira. Agora seu medo concretizara-se e sua filha teria que partir para combater numa guerra que ele sabia que poderia acabar com a civilização conhecida transformando o mundo em um caos. Como a vida era dura, enfim a filha desaparecida retornara, mas não para ficar definitivamente. Teria que sair em uma jornada perigosa e sem certeza do sucesso.

**********

Os dois estavam novamente frente à frente. A sala de embarque estava lotada. Várias pessoas andavam de um lado ao outro à procura de acentos, banheiros, comida ou simplesmente um local para recarregar o celular, quem sabe?

Eles sabiam que poderiam não mais retornar às suas casas, aos seus entes queridos. Mas não havia mais volta, o destino os reuniu mais uma vez para que eles colocassem em prática aquilo que foram treinados para fazer. Matheus e Alice se uniram novamente para realizarem a viagem que ambos estavam destinados.

- Espero que as coisas tenham ficado bem entre você e sua família. - ele realmente estava sendo sincero em seu comentário. Sabia o quanto a família era importante.

- Realmente bem eu acho que não ficou. Quais pais ficariam tranquilos com tudo o que aconteceu? Mas pelo menos agora eles sabem para onde estou indo, Matheus. Só não sei se isto é mais reconfortante para eles. - ela estava pensativa, sabia que havia deixado seus pais bastante preocupados.

- Não gosto quando você fica séria assim. Seu rosto não combina com esta expressão tão dura. Deixe que eu seja o rabugento do casal, certo? - ele tentava esboçar um sorriso.

Ela toca-lhe os lábios. Sua expressão se suaviza ante o olhar de carinho dele. Enfim ela o tem novamente ao seu alcance. Parece um sonho como aqueles que ela tinha quando ainda era uma menina. Depois de tudo, de todo o sofrimento, os dois estão novamente juntos.

- Não sei como pude ficar tanto tempo longe de você... - ela tenta dar um sorriso, está com a mente longe, perdida em seus pensamentos, navegando em suas lembranças. - Não sei como você pôde voltar a confiar em mim depois de tudo o que aconteceu. - seu olhar é de remorso, uma expressão de preocupação forma-se em seu semblante.

- Alice, eu te amo. Nunca deixei de amar. Só lamento não poder viver em paz agora que tenho você de novo ao meu lado. Sei que você está embarcando por vontade própria, atendendo a um convite de Demétrius, mas não queria te envolver em mais este problema...

- Meu amor, - ela apertou suas mãos nas dele – este é um problema meu também. Não se esqueça que estamos lutando por este mundo, pelas pessoas que amamos. Eu vim porque não quero mais ficar um dia que seja longe de você.

Ele a abraça. Em seu peito o medo do que os espera assombra seu coração. Não há mais o que se fazer. Agora ambos terão que realizar o que lhes foi reservado. A porta de embarque enfim se abre, as pessoas começam a se dirigir para o avião. Eles seguram seus cartões de embarque e saem em direção ao desconhecido, rumo ao “Velho Mundo”. O jovem casal era a peça que faltava para que a engrenagem do destino pudesse agora trabalhar à todo vapor. O amor daquele casal seria suficientemente forte para vencer os desafios que os dois teriam que enfrentar?

Ele aperta a mão dela com força. Ela abraça-lhe o braço e encosta a cabeça em seu ombro. Nada mais os irá separar. Os dois nasceram para ficarem juntos.





Fim do livro I.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

LdS - Livro I - Capítulo 24 - Amor



Eles estremeceram ao ver Matheus em seu pleno poder. Definitivamente não estavam preparados para enfrentar aquilo. Ele era assustador, sabiam que seu poder havia aumentado exponencialmente. Ondas de energia emanavam de seu corpo, como se pequenas explosões de poder tivessem como origem aquele licantropo postado bem à sua frente. Benjamim, em toda a sua experiência de guerreiro, nunca vira nada parecido com aquilo e pensava numa forma de fugirem antes que fossem destruídos por aquele demônio.

- Nem pense em fugir, maldito! - Matheus os encarava com uma confiança perturbadora. - Quando tiver terminado com você não vai restar nem um pedaço pra servir de alimento pros vermes da terra. Eu peço a você, Alice, que não se intrometa nesta luta, porque não pouparei nem mesmo você, caso queira me impedir de esfolar vivo esse criminoso que você chama de mestre. - ele falava sério ao alertar Alice.

- Eu vim aqui para vingar-me. - respondeu intrepidamente Alice. - Sua luta é comigo!

- Não. Não tenho porque lutar contra você. Aliás, não conseguiria machucá-la mortalmente em combate, eu sei disso. Peço que se afaste, pois não sei o que pode acontecer se você tentar colocar-se entre nós. Você não tem o direito de tentar impedir-me de matá-lo. A vida dele é minha e hoje tratarei de ceifá-la para que mais ninguém sofra com seus atos covardes.

- Pois se pensa que me esconderia atrás de uma garota está muito enganado, seu infeliz. Ainda que seu poder tenha se intensificado sobremaneira, tenho comigo o poder dos deuses para exterminá-lo da face da Terra. Venha e verá que os Gadols não correm da batalha! - Benjamim colocava-se em posição de combate preparando-se para defender-se de Matheus.

Mas, antes que Matheus se lançasse ao ataque, Alice adiantou-se e partiu contra seu oponente. A jovem era impetuosa e corajosa, mas nem um pouco prudente. Achava que seu poder era superior ao de qualquer licantropo, mas logo pôde constatar, ao atacar Matheus, que estava enganada.

Matheus esperou-a imóvel. Esperou até o momento dela aproximar-se o bastante para tentar golpeá-lo utilizando uma tonfa que ela carregava consigo. A arma era toda construída em prata com uma ponta perfurante em sua extremidade. Ela movimentava rapidamente a tonfa que emanava descargas de energia azuis de sua superfície, semelhante a pequenos relâmpagos, enquanto cortava o ar em movimentos circulares. O zumbido daquela arma era impressionante, era como se milhares de pássaros estivessem em revoada, emitindo ruídos constantemente. Para ele não foi difícil esquivar-se do ataque, sua velocidade – que já era impressionante para um licantropo – dobrara agora que estava sob o efeito do “Luar de Sangue”. Não teve dúvidas, golpeou Alice no estômago com uma potência que a fez voar a vários metros de distância. Uma pessoa normal teria desfalecido instantaneamente, e mesmo Alice, que estava utilizando um encantamento de proteção, ficou deitada sem fôlego, ainda consciente, mas temporariamente fora de combate. Ele a atacara sem a espada, poderia tê-la matado, mas não o fez. Antes deixou-a incapacitada de intrometer-se na luta que estavam prestes a travar.

Alice não entendia seus sentimentos. Seu coração queimava de desespero por querer estar próxima daquele licantropo. Seu rosto a deixava intrigada, como se seu semblante lhe fosse estranhamente familiar. Não entendia porque ficara tão tocada ao vê-lo chorar desesperado a perda de sua companheira. Ela não conseguiu atacá-lo, logo em um momento tão propício, momento em que ele estava totalmente vulnerável, indefeso. Antes seu desejo foi absurdo, ela sentira um impulso de consolá-lo, como se eles fossem amigos, ou pior, como se eles fossem amantes! Alice estava muito perturbada com esse turbilhão de emoções que teimavam em atormentá-la sempre que ela dirigia seus pensamentos para a figura daquele amaldiçoado. Mas agora ela não tinha o que fazer. Lutava desesperadamente para tentar respirar. O golpe recebido no estômago fora muito potente, nem mesmo o encantamento para aumentar sua resistência às lesões foi capaz de protegê-la totalmente daquele golpe. Por mais que se esforçasse para tentar levantar-se, ela estava incapacitada. Precisaria de mais tempo para se recuperar e isto ela sabia que eles não possuíam.

Benjamim, como fizera na última batalha frente a Matheus, conjurara uma barreira de proteção ao seu redor que repeliria a presença de Matheus com a mesma intensidade que viesse o seu ataque. Imediatamente após cuidar de sua defesa, ele pôs-se a entoar outro encantamento, mas este agora seria um movimento ofensivo. Ele iria utilizar seu recurso mais poderoso para tentar defender-se daquela aberração licantropa. Era seu maior trunfo que ele não ensinara a ninguém, nem mesmo a Alice. Esta seria sua cartada final.

Matheus observava seu oponente que preparava mais um encantamento enquanto aproximava-se lentamente da barreira de proteção criada por Benjamim. Ele não via a hora de poder agarrar o pescoço daquele velho entre as suas mãos. Colocou-se frente a barreira e tentou atravessá-la sem sucesso. O velho Gadol era esperto, tentava ganhar tempo, seu próximo feitiço deveria ser algo poderoso, pensava Matheus. Ele viu com indiferença quando o velho Gadol tocou o cano de sua pistola e a arma começou a emitir uma luminosidade pálida de um azul semelhante à cor dos raios de Selene durante a lua cheia. Matheus não estava disposto a recuar por nada.

Benjamim terminara seu feitiço e via com satisfação que seu adversário permanecia estático observando-o frente à barreira de proteção invocada por ele. Daquele modo seria fácil atingi-lo. E ele sabia que licantropo nenhum resistiria a um ataque poderoso como aquele.

Alice tentava por-se de pé para ajudar seu mestre, mas ainda não conseguia respirar normalmente, fazendo um esforço incrível para manter-se consciente. Tentava sem sucesso entoar um mantra de regeneração, mas sem fôlego era impossível conjurar qualquer encantamento que fosse.

Enfim Benjamim puxou o gatilho e do cano de sua arma saiu uma rajada de energia de proporções gigantescas frente ao diâmetro do cano da arma. Era uma verdadeira ogiva de energia de aproximadamente um metro de diâmetro que viajava a uma velocidade alucinante. Àquela distância era totalmente impossível para Matheus desviar-se daquele ataque arrasador. Ele seria atingido e certamente seria aniquilado pelo impacto de tão absurdo poder. Os Gadols eram seres surpreendentemente poderosos.

Benjamim pensara que havia vencido ao ver a ogiva de energia atingir Matheus. Não observara o que ocorrera milésimos de segundos antes de seu ataque chegar em seu adversário. Matheus canalizara todo o seu poder para a lâmina de sua wakizashi. Ela agora era uma espada de pura energia, com sua lâmina sendo coberta pelo poder de um dos mais poderosos demônios do planeta, Shaladiel. Matheus utilizara a wakizashi para literalmente dividir a ogiva de energia de Benjamim ao meio! Usara energia para repelir energia. Colocara toda a sua força de vontade e poder na lâmina de sua espada e isto tornou-a um prolongamento seu. Ambos eram agora um único ser. Matheus e sua lâmina fatiadora vibravam na mesma frequência, partilhavam da mesma essência. Ele sentiu com uma nitidez incrível o momento que a lâmina da wakizashi tocou a ogiva de energia condensada, dividindo-a ao meio, fazendo cada metade mudar de direção para chocarem-se a vários metros dali.

Matheus já esperara demais. Dera a oportunidade de seu inimigo tomar a iniciativa e ele falhara em seu intento. Agora era a sua vez de atacar e ele não se daria ao lixo de falhar também. Matheus avançou com o toda a convicção contra a barreira de proteção de Benjamim, iria atravessá-la a qualquer custo. Ele penetrou-a com extrema velocidade e resistiu à força de repulsão que ela gerava. Sua roupa, no entanto, não resistiu e foi totalmente desintegrada. O corpo de Matheus estava resistindo a uma força incrível e em consequência pedaços de sua pele começaram a se esfacelar. Ele todo se desintegrava enquanto avançava convicto contra Benjamim. Esta seria a hora de sua vingança e feitiço algum o impediria de concretizá-la.

Benjamim não acreditou ao ver que Matheus sobrevivera ao seu ataque e que invadia sua barreira de proteção. O licantropo avançou sobre ele como um lobo ataca um coelho indefeso. No próximo instante Matheus já inçava Benjamim pelo pescoço, sua mão pressionava a garganta do Gadol com uma força que quase quebrou-lhe o pescoço.

- Agora chegou a tua hora, homem. Você não sabe como desejei tê-lo em minhas mãos. - Benjamim sufocava. Ele urinava-se de medo. - Reze para que, onde a tua alma for, não existam mais de nós esperando para torturá-lo. - Matheus falou estas palavras sem qualquer esboço de emoção. Estava frio como a lâmina de sua espada.

O licantropo zumbiu sua wakizashi e penetrou o ventre de Benjamim, rasgando-o de baixo para cima até atingir-lhe a caixa torácica. O velho debateu-se e sangrou até a morte olhando desesperado para os olhos implacáveis de Matheus. Ao dar seu último suspiro, a barreira de energia desapareceu.

Alice assistiu a tudo impotente. Seu mestre estava morto. O demônio que atendia pelo nome de Matheus ceifara a vida de mais um Gadol. Ela não poderia deixar que isso continuasse. Teria que fazer algo. Alice não sabia, mas pertencia a uma nobre linhagem de guerreiros Gadols. Dentro dela havia o sangue dos príncipes sacerdotes que combateram Licaon em sua loucura e sobreviveram. Ela possuía um talento inato para a magia e um potencial enorme para o uso de seu poder espiritual na batalha. Não era à toa que Benjamim, um dos grandes guerreiros Gadols, pertencente à elite de sua ordem, orgulhava-se de sua discípula. Ela tinha o sangue nobre que outrora pensava-se que havia sido extinto. Possuía todas as condições de tornar-se a maior guerreira Gadol de seu tempo. E ela sabia disso. Não iria deixar a honra Gadol ser destruída por aquele licantropo. Ela teria que agir, teria que destruir aquela ameaça.

O corpo de Matheus regenerara-se completamente. Sob o “Luar de Sangue” ele possuía os poderes de Shaladiel e sua capacidade de regeneração. Ele ainda observava o corpo inerte de sua vítima no chão quando Alice colocou-se mais uma vez em posição de ataque. Aquele seria também o confronto final entre ambos. O mal que Benjamim criou teria que ser aniquilado completamente.

Matheus empunhou mais uma vez sua wakizashi e partiu em direção à Alice. Em sua cabeça um turbilhão de lembranças. Não conseguia pensar nela como sua inimiga, antes sabia que aquela era uma Alice fabricada pelo poder da magia Gadol. Mas mesmo assim, não se deixaria perecer e com isso morrer o sonho de Izabelle. Teria que sobreviver, deveria ainda lutar ao lado de seus amigos para eliminar a ameaça de uma guerra mundial capaz de aniquilar a raça humana da face da Terra. Ele não tombaria naquele lugar, não tinha este direito. Seus olhos exprimiam sua dor. Aquela Gadol que se lançava contra ele era Alice, sua Alice. Como poderia causá-la mal? Ela, quem ele tanto amava!

Alice corria emitindo um grito de dor. Dor pelo seu mestre morto, dor pelo vazio em sua alma, dor por não conseguir lembrar de seu passado, dor por não conseguir negar o sentimento que sentia por aquele amaldiçoado. Ela conjurou mais um feitiço. Sua tonfa novamente emitia rajadas de energia, sua tatuagem, que ficava no pulso que segurava a arma, brilhava intermitentemente numa frequência de alerta. Ela tentaria algo novo, usaria duas técnicas ao mesmo tempo. Exorcizaria de uma vez por todas aquele mal da Terra. Seu coração doía, seu peito parecia ser capaz de explodir a qualquer momento, seus batimentos eram acelerados. Ela mirou no peito de seu oponente e então golpeou.

Ele não reagiu. Dentro dele ódio e amor lutavam. E o vencedor de sua consciência não deixou que sua arma fosse erguida e atacasse aquela jovem. Por mais que Matheus odiasse os Gadols, o amor que sentia por Alice nunca o abandonou e agora, mais uma vez, gritava alto dentro de seu peito para não desaparecer. Ele não pôde fazer nada. Simplesmente fechou seus olhos e esperou o impacto do golpe de Alice.

Ela o acertou. Sentiu quando a ponta perfurante de sua arma atingiu o corpo de seu oponente. Ela não sabia o porquê, mas fechara os olhos no momento final do ataque. Ao abri-los deparou-se com a imagem de Matheus ajoelhado à sua frente, ensanguentado, com os olhos cheios de lágrimas.

Alice agora o reconhecera. Ele era a pessoa que a tinha feito sentir-se feliz como nunca outro alguém fizera. Ele era o escolhido do seu coração, o seu amado. Agora ela sabia, ele era a dor do vazio que gritava intensamente dentro do seu peito. Ela estava em choque.

- Meu amor... - foi o que saiu da boca de Matheus ao ver que Alice também caía de joelhos à sua frente.

No momento em que ela transpassara-o, tudo o que existia dentro dela que há tempos havia sido escondido fluíra com força para a superfície. O amor que sentia por ele era mais forte que qualquer encantamento. Agora ela lembrava-se de todo o seu passado. Lembrava-se do sentimento que possuía por aquele homem. Seu coração inundou-se de remorso de arrependimento. Ela o machucara, ela o fizera sangrar. E o pior de tudo, ela o fizera sofrer. Agora ela via com clareza, havia sido usada por Benjamim em proveito dos Gadols. Tudo o que aquele velho guerreiro lhe contara a cerca de Matheus era mentira. Ela agora sabia, aquele era o homem por quem se apaixonara e por quem abandonaria tudo. Sua respiração estava ofegante. Ela estava atordoada com tamanha revelação. Alice sentia seus sentimentos emergirem como lava expelida com força por um vulcão. As lembranças se amontoavam em sua mente, chocavam-se desordenadamente numa verdadeira avalanche. Lembranças felizes agora retornavam, sentimentos valiosos que poderiam ter sido perdidos.

Ele mantinha-se ajoelhado, a cabeça baixa. Uma poça de sangue formava-se à sua volta. Estava trêmulo, sentia frio. Filetes de lágrimas escorriam de seu rosto. Ela o abraçou. Apertou-o forte contra o seu corpo.

- Meu amor, me perdoe. Não sabia a loucura que estava fazendo. - ela tentava desculpar-se. Seu coração também sangrava com todo o sofrimento a ele causado. Estava desesperada com a ideia de perdê-lo naquele momento.

- E-eu pensei que tivesse perdido você para eles, Alice... E isto estava me consumindo, me matando dia após dia.

- Não fale mais, meu bem, você está ferido. - ela colocou a mão em seus lábios. - Deixe-me cuidar de você. - ela o beijou, um beijo demorado, um beijo inundado de saudade.

Ele deitou-se no chão. Ela retirou com cuidado o bastão de seu corpo. O sangramento era intenso, algo deveria ser feito rapidamente. Ela pôs-se conjurar um feitiço e colocou a mão sobre o ferimento de seu amado. Aos poucos o ferimento de Matheus foi se fechando até sumir por completo. O sentimento de Alice não deixou-a golpear seu amado fatalmente. Ela atravessara-o, mas seu ataque fora desviado no momento final. Algo a impedira de atingi-lo fatalmente, algo dentro dela, dentro de sua consciência. Atingira a lateral do abdômen de Matheus, não atravessando-lhe nenhum órgão vital. Ele sobreviveria afinal.

Enquanto Matheus se restabelecia deitado sobre as coxas de Alice, os pensamentos da jovem buscavam longe em suas memórias. Iam ao início de sua lembranças quando ela ainda era uma criança. Ela sabia o que havia acontecido, sabia o que fizera com que o feitiço de Benjamim fosse quebrado. Com um pequeno sussurro ela agradeceu, sabia que seria ouvida mesmo que não o fizesse em palavras.

- Obrigada, Vovô, por me ensinar a não ter medo de amar e a não desistir dele para ser forte. Não fosse por isto, agora eu estaria totalmente perdida...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

LdS - Livro I - Capítulo 23 - Ódio


A garotinha brincava sentada com sua boneca enquanto seu avô terminava de esculpir a figura de um querubim em uma tora de madeira. O velho homem, apesar da debilidade nos movimentos e da dificuldade em enxergar através de seus olhos cansados, ainda possuía habilidade para desenvolver tal atividade. Havia aprendido este ofício assim que chegara ao Brasil vindo da Turquia. Seu nome era Hilal.

Ele vivia sozinho. Seu único filho, que nascera ainda na Turquia, vinha visitá-lo esporadicamente e só algumas vezes trazia consigo sua filha de cinco anos. Ela era a única neta de Hilal e ele a amava com todas as suas forças. Gostaria de ter mais contato com a menina, queria contar-lhe algumas coisas que ele julgava importantes para sua vida. Ele queria falar-lhe das suas origens, da origem de sua linhagem. Queira que ela soubesse que era uma pessoa especial e que tinha um chamado na Terra. Queria também contar-lhe histórias grandiosas de guerreiros antigos e de monstros aterrorizantes. Mas, apesar desse desejo, ele limitava-se a falar pouco sobre essas coisas, pois sabia da total desaprovação de seu filho. Sabia que, se o pai da sua garotinha descobrisse que ele a estava ensinando coisas sobre seus antepassados, ele provavelmente nunca mais a veria.

Assim Hilal falava com ela como se contasse lendas, contos de fadas, e pedia que ela guardasse segredo de seus pais porque eles poderiam brigar por se tratarem de histórias de monstros. E a netinha de Hilal adorava ouvir as histórias de seu avô. Ela se transportava para dentro dos contos do velho artesão e se imaginava uma guerreira como nas suas histórias. Queria viver aquelas aventuras, queria possuir aqueles poderes, poder fazer magia.

Todas as vezes que ela visitava seu velho avô pedia que ele lhe contasse mais contos. E ele adorava ver o interesse da menina pelas suas histórias. Sabia que ela tinha o mesmo temperamento aventureiro que ele. E assim ele aproveitava as oportunidades para passar-lhes tudo o que achava que era importante para sua menininha. Ele não lhe falava de coisas complexas por ser ela ainda muito criança e não possuir o entendimento da vida necessário para absorver coisas desse nível. Mas ele tinha paciência, saberia esperar o amadurecimento de sua netinha. Sabia que o destino dela era o de ser como ele. Seria ela quem iria manter seu legado vivo.

No dia dessa visita, enquanto ele trabalhava na escultura do anjo e sua pequena visitante o fazia companhia sentada ao seu lado brincado de boneca, ele resolveu falar-lhe sobre as duas forças que movem a vida humana.
- Torun (que quer dizer netinha em turco), você sabe qual são as duas forças mais poderosas nesse mundo? - ela continuava brincando sentada com sua boneca.

- Não, vovô. Você sabe? - os olhinhos dela procuram o velho homem, curiosos.

- Sei, Torun. As duas forças mais poderosas nesse mundo e que movem todos os guerreiros são o ódio e o amor. Engraçado que elas são opostas, sendo uma o inverso da outra. - ela ouvia atentamente as palavras do homem tentando entender o que seria inverso.

Notando o que se passava, o velho busca esclarecer suas dúvidas:

- Acho que posso explicar-lhe melhor, meu bem. O amor e o ódio são como a luz e a escuridão, um não existe onde o outro está. Ou melhor, onde um aparece o outro vai embora, deixa de existir. Entendeu agora?

- Acho que entendi, vovô. Mas qual desses dois é mais forte? Os dois são fortes do mesmo jeito? - a pergunta fez o velho parar de talhar a madeira para observar sua neta.

- Tem algumas pessoas que acreditam que sim, meu bem. Mas eu acredito que o amor sempre vai vencer. E você sabe por quê? - a garotinha balança a cabeça negativamente. - Você já viu escuridão tão grande que não vá embora com a mais frágil chama de uma vela? O amor pode tudo, meu bem, não esqueça disso. Acho que, de tudo que eu já lhe contei, isto é o mais importante. Nunca deixe o ódio dominar o seu coração, meu anjo. Você deve estar sempre cheia de amor, esse sentimento é o que vai fazer de você uma pessoa realmente forte. Com ele você conseguirá superar tudo. Promete que não vai esquecer disso? É importante.

- Prometo, vozinho. - ela agora fingia pentear os cabelos vermelhos de sua pequena boneca.

Tendo acabado de conversarem isso, uma voz chama a garotinha ao longe:

- Alice, meu amor, vamos indo! Já está na hora. Despeça-se de seu avô e venha que ainda precisamos passar no mercado antes de voltarmos pra casa. - era o pai da garotinha quem a chamava para irem embora.

A menina se levanta, abraça o velho homem e dá-lhe um beijo na bochecha.

- Tchau, vovô. Eu amo você. - ao terminar de dizer tais palavras, Alice sai correndo em direção ao seu pai deixando para trás seu velho avô a observá-la com lágrimas nos olhos.

**********

Sua expressão é de puro ódio. Ela enfim está novamente cara a cara com o monstro responsável pela matança em sua cerimônia de iniciação. Ele é o alvo que deseja eliminar. Seu coração está inflado de cólera que ela julga ser causada por ele, mas está enganada. Toda a sua revolta e frustração são causadas pelo vazio de seu peito. Ela não entende, mas sempre que pensa naquele homem, sempre que lembra de seu rosto, seu coração dói e, em seu mais profundo interior, seus sentimentos adormecidos gritam para se libertar. Não é a ele que Alice odeia. Ela odeia o vazio que a sua falta lhe traz. Um buraco existe em suas memórias e um abismo dentro de sua alma. E a este turbilhão que ela não entende, preferiu julgar tratar-se de ódio. Uma grande piada de mau gosto do destino, ódio pelo homem que ela mais amou nesta vida.

Ele não consegue ficar imune à presença daquela garota. Afinal de contas, ele ainda a ama, ainda deseja tê-la de volta. Achou que não a veria mais, que ela era passado, apesar de seu coração teimar em não acreditar nisto. Com todas as suas forças ele tentou esquecê-la, tentou enterrá-la. Mas ela sempre insistia em ressurgir assim como a lendária fênix, e consumia sua alma com uma dor que o deixava sem ar. Ela fora feita para ser dele, ele sabia disso. Era o destino dos dois que ficassem juntos. E foi com angústia que ele a olhou. Pensou que fosse um fantasma de seu passado que ressurgia para cobrar-lhe o preço pelo seu abandono. Sabia que aquele encontro lhe traria ainda mais dor e sofrimento. Mas mesmo assim, seu coração estava acelerado frente a imagem daquela moça. Ele lembrava-se do que um significara ao outro, ainda sentia aquilo vivo pulsando em suas veias. Ainda conseguia lembrar com uma clareza impressionante o perfume do corpo dela. Lembrava-se, não sem sofrer, do período que passaram juntos no chalé de Demétrius. Ainda conseguia ouvir em sua mente o sorriso dela ao acordar ao seu lado todas as manhãs. Lembrava-se do sabor de seu beijo, da maciez de seus lábios, do seu toque em seu corpo.

Agora os dois estão de lados opostos. Matheus lembra-se de sua nova companheira a quem ele deve muito e que ele esforça-se para defender. Ele está preocupado com Izabelle, teme pela sua segurança. Ele sabe que se seus inimigos resolveram atacá-los é porque devem estar mais fortes e preparados. Ele, ao contrário de seus adversários, tinha relaxado em seu treinamento e possivelmente não conseguiria ter um desempenho como o que teve no mosteiro Gadol. Sentia medo, medo por Izabelle, medo pelo que poderia acontecer a ela.

Nem bem os dois Gadols se revelaram e o velho guerreiro-sacerdote tratou de conjurar um feitiço criando uma barreira que aprisionava todos os quatro em seu interior. Tal barreira impedia que eles saíssem de dentro de uma espécie de redoma que possuía vários metros de diâmetro e que também os tornava invisíveis a possíveis olhos curiosos que viessem a passar por aquela autoestrada. O cenário estava montado para o grande acerto de contas entre Benjamim e Matheus. O ódio dos dois era genuíno e o destino reservara aquela noite para que ali eles encerrassem as suas diferenças.

Matheus não portava sua espada que estava bem guardada dentro de uma mala no carro. Izabelle também encontrava-se desarmada e não possuía o mesmo treinamento em artes marciais que Matheus. Era evidente que eles estavam em desvantagem. Ao menos Selene brilhava cheia no céu, deixando-os mais poderosos, mas também mais suscetíveis ao domínio de seus obsessores. Ele ainda portava o amuleto que pertencera a Alice e aquele objeto o protegia da influência maligna de Shaladiel.

Alice sentia seu peito apertado, era uma dor sufocante. Ela correu logo na direção dos dois licantropos para atacá-los, a tatuagem em sua mão direita emitia uma luz vermelha, parecia esta em chamas. Tentaria acabar com os dois com um só golpe. Não queria mais sentir aquela dor dentro de seu coração.

Benjamim limitava-se a manter seu feitiço ativo enquanto observava sua discípula atacar com seu maior trunfo, sua mais avançada técnica. Ela já era mais poderosa que seu mestre, seu poder de destruição era assustador. Havia nascido para aquilo, sua linhagem Gadol deveria ser de alguma casta superior. Ele orgulhava-se de ter sido o homem que a salvara das garras licantropas e a treinara em suas artes bélicas. Agora ele veria o fruto de seu trabalho, veria sua discípulas esmagar seus inimigos.

Matheus lançara-se a frente para defender Izabelle. Iria tentar interceptar o ataque de sua adversária sozinho. Sua companheira estava confusa, não sabia ao certo o que fazer. Fora pega totalmente desprevenida. Ele então fez-lhe um pedido:

- Minha wakizashi! Preciso dela, Belle. - gritou enquanto usava sua velocidade para interceptar sua atacante.

Izabelle correu para junto do carro atrás da espada de Matheus e de seu gancho duplo de prata. Haviam sido guardados em uma mala apropriada para o seu transporte, ficando dentro de fundos falsos com proteção contra detectores de metais e raios-X. Ela conseguira aquela bagagem com Ighor, um aliado licantropo excessivamente prevenido que nunca se apartava de seu armamento. O porta-malas estava emperrado, o que lhe deu trabalho e tomou-lhe tempo para retirar a bagagem.

Enquanto isso, Matheus conseguira defender-se do primeiro ataque de Alice usando sua velocidade para esquivar-se de seu soco e contra-atacou-a com uma rasteira que quase a derrubou. A jovem era ágil e habilidosa, rapidamente recuperou-se e estava novamente na ofensiva tratando de conjurar um feitiço. Seus lábio pronunciavam palavras antigas de um idioma desconhecido e seu corpo emitia uma onda de energia que chegava até Matheus. Após ela selar seus lábios, partiu novamente para a ofensiva, só que agora com uma velocidade impressionante, movimentava-se como se fosse um licantropo. Por sorte de Matheus, ele ainda era mais rápido que sua adversária, pois se assim não fosse, agora estaria estraçalhado no chão pelo golpe desferido por Alice. Ele sentiu o som do braço de Alice rasgar o ar numa velocidade e força absurdas bem próximo de seu rosto. Acabou recuando com receio de ser atingido pelo punho incandescente de sua inimiga. Aquilo era realmente amedrontador, podia-se sentir as ondas de calor que o punho dela emitia. A Chamsa ardia gravada em sua pele.

Enfim Izabelle encontrara as armas e, tratando logo de juntar-se a Matheus, correu para perto de seu amado. Agora as coisas estavam mais interessantes, pois novamente Matheus empunhava sua espada, a mesma lâmina que outrora havia se banhado em sangue Gadol. Izabelle empunhava seu gancho duplo e sentia a influência de seu obsessor tentando tomar-lhe o controle. Nessas horas de tensão os licantropos mais fracos não conseguem resistir à tentação de deixar-se dominar pelo poder de seus demônios interiores, mas Izabelle era forte, não iria ceder àquela noite.

- Vejo que andam sempre preparados para um confronto. - falava Alice em um tom de deboche. - Pois vejamos se estas armas realmente serão úteis quando eu mandá-los para o inferno!

Ela levou as mãos nas cochas para sacar suas pistolas nove milímetros enquanto Matheus e Izabelle separavam-se e corriam para atacarem simultaneamente pelos dois flancos. Matheus tratou de acelerar para atacá-la primeiro com o intuito de distraí-la para um posterior ataque de Izabelle. E seu plano quase obteve sucesso. Alice virara-se em sua direção, mirando suas duas pistolas para ele, estava tão perturbada pela presença de Matheus que esquecera-se de uma lição básica de seu mestre, nunca descuidar de sua retaguarda durante um ataque. Izabelle iria pegá-la desprevenida, aquele seria o seu fim.

Foi então que a única testemunha daquela luta resolveu deixar seu lugar de mero espectador para interferir de uma forma decisiva. Vendo que sua discípula descuidara-se e que seria golpeada pela retaguarda, Benjamim rapidamente tratou de protegê-la. Matheus não soube depois explicar com clareza o que aconteceu. Só conseguiu ver, entre os vários saltos que realizava para desviar das balas de prata disparadas por Alice, Benjamim aparecer como que por mágica nas costas de Izabelle e disparar sem misericórdia várias vezes até ela cair prostrada no chão. Depois disso, as únicas lembranças de Matheus resumem-se a dor.

Ele correu como nunca correra em toda sua vida. Nem mesmo Alice pôde acompanhar com o olhar todos os seus movimentos. Num instante ele estava na sua frente, no outro acertava um soco violento em Benjamim que o fez voar por vários metros. Estava ensandecido. Ele pranteava e gritava intensamente agarrado ao corpo ensanguentado de sua companheira.

Izabelle ainda estava consciente, mas seu corpo estava irremediavelmente debilitado, fora alvejado por várias balas de prata. Ele agarrou-lhe a mão com força como se assim pudesse impedi-la de partir e deixá-lo mais uma vez sozinho. Seus olhos buscavam os dela, queria mantê-la consciente. Ela já não conseguia respirar com qualidade, seus pulmões estavam inundados de sangue. Sabendo que chegara a sua hora, ela num último esforço levou sua mão ao rosto de seu amado para despedir-se:

- Não chore, meu amor. Agora vou poder descansar e velarei por você onde quer que esteja. - Seu olhar era de uma ternura abundante. - Seja corajoso, não desista de lutar, Matheus.

- Não tente falar, Belle, você está muito machucada. - Matheus mal conseguia fazer sua voz sair da garganta. Ele soluçava enquanto suas lágrimas corriam pelo seu rosto.

- Eu pensei que nossa história fosse durar mais, mas me enganei. - ela já lutava sobremaneira para manter seus olhos abertos. - Prometa que você lutará por sua vida, prometa que lutará para livrar-se dessa maldição, meu amor. Seja feliz por nós dois...

Ao dizer estas últimas palavras, Izabelle deixou-se adormecer para nunca mais acordar.

Alice não conseguiu entender o que acontecera com ela, mas, ao ver o desespero no choro inconsolável de Matheus, ficou estática. Não pôde atacar, nem ao menos correr em socorro de seu mestre que ainda estava inconsciente no chão. Algo dentro dela a fez parar. Não conseguia fazer nada, apenas assistir o sofrimento daquele rapaz.

Semelhantemente ao que acontecera no mosteiro, a alma de Matheus cobriu-se de uma escuridão imprescrutante. Já não queria mais sentir qualquer outro sentimento que não o ódio. Seu coração sangrava de dor, uma dor desesperadora. Mais uma vez perdera a pessoa amada. Ele sabia que era perigoso deixar-se dominar pelas sombras, mas naquele momento seria possível para ele até mesmo vender sua alma ao demônio para não sentir-se completamente esfacelado daquela maneira. Ele iria vingar-se. Mesmo que isso não lhe aliviasse a dor de sua perda, ainda assim ele queria sangue.

Benjamim enfim recobrara a consciência e colocava-se lentamente de pé. Ao ver seu velho mestre movimentar-se, Alice enfim partira em seu auxílio. O mestre Gadol ainda estava em condições de combater apesar de sentir-se ainda desorientado. Agora seriam dois contra um.

Matheus deitou com cuidado e ternura o corpo inerte de Izabelle no chão. Ainda beijou-lhe uma última vez na testa antes de partir em busca de sua vingança. Ele apanhou sua espada que estava caída ao seu lado e levantou-se apertando a bainha com toda a força que seu ódio produzia. Selene brilhava cheia e imponente no céu. Não teve dúvidas, com um rápido movimento arrancou o colar Gadol que pendia-lhe no pescoço. Queria utilizar toda a força de que pudesse dispor, até mesmo o poder de Shaladiel. Aquela seria uma luta de vida ou morte e não seria ele quem deveria morrer.

Instantaneamente à remoção do amuleto, Shaladiel investiu faminto contra a alma de Matheus. Ele estava fragilizado e suscetível ao seu poder, o demônio sabia disso. Aquela era a chance que ele tanto aguardara para consumir definitivamente a alma humana de Matheus e tornar-se dono daquele corpo. Shaladiel queria ressurgir mais insano que nunca e seu poder opressor era enlouquecedor.

- Deixe-me usar seu corpo para vingá-lo, garoto. Não é isso que você deseja? Ver o corpo de seus inimigos em pedaços? Eu sou o único capaz de fazê-lo para você. Deixe-me assumir o controle e cuidarei de tudo.” - o demônio sabia ser convincente. Sua voz era puro mal.

Matheus sentiu-se tentando, mas não era aquilo que ele desejava. Queria acabar com Benjamim ele mesmo, o sangue daquele desgraçado pertencia somente a ele e a ninguém mais. Deveria ser ele a pessoa que tiraria a vida daquele velho guerreiro Gadol. Novamente, como acontecera quando da morte de Henrique e no episódio do mosteiro, seu espírito tomou-se de uma força de vontade de ferro. Ninguém, nem mesmo Shaladiel, colocaria-se em seu caminho.

- Vamos, seu covarde! Fuja e deixe-me destruir estes guerreiros odiosos!” - Shaladiel estava nervoso, sua sede de sangue era enorme.

- Cale essa boca, seu demônio de merda! Quem manda aqui sou eu! - Matheus estava fora de si. - Deixei que se aproximasse porque quero algo seu. Hoje serei eu quem irá consumi-lo. Eu quero o seu poder, Shaladiel! - dizendo isto, soltou um longo grito de desafio.

Matheus olhou para o céu para ver o poder que emanava de Selene. E para ele aconteceu um fenômeno. A lua começou a emitir uma luz avermelhada, como se toda a sua superfície estivesse sendo encoberta por sangue. Ele sabia o que estava vendo, aquilo era como um luar de sangue. Seu corpo todo começou a vibrar e ele sentiu o poder de Shaladiel penetrar-lhe a carne. Aquilo era incrível, pensava ele, o poder do lobo-demônio estava sendo drenado por ele. Dentro de sua cabeça ele ouvia os urros de fúria de Shaladiel ao sentir seu poder ser-lhe tomado. Aquilo era loucura, como poderia um simples licantropo subjugar seu obsessor daquela forma? Ele não só o resistia, ele o escravizava. Matheus atraíra Shaladiel para tomar-lhe o poder. Sua musculatura tremia frente ao tremendo poder que agora a alimentava. E dentro de sua alma, parte da natureza demoníaca de Shaladiel penetrou-lhe, encravando-se em seu ser. Ele agora não tinha mais consciência nem sombra misericórdia. Em seu peito somente um abismo de onde brotava ódio. Seus olhos brilhavam o fogo destruidor do lobo-demônio em vermelho fulgurante.

Matheus descobrira seu dom licantropo, ele possuía o “Luar de Sangue”, o poder que somente Licaon conseguira dominar, o poder que era uma lenda entre os amaldiçoados, o poder de escravizar seu demônio obsessor.

Benjamim e Alice observavam Matheus estupefatos. Conseguiam sentir o poder que emanava dele e aquilo era aterrorizante. Ele era a personificação do “deus da morte” e seus olhos que queimavam em vermelho eram sombrios como os de um demônio. Agora era tarde para fugir, teriam que enfrentar aquela aberração.


Matheus segurou sua espada wakizashi colocando-a na sua frente, seu poder também circulava por sobre a lâmina de sua espada que agora assumia uma natureza sombria, com seu metal enegrecido. Ele olhou para Benjamim e sorriu. O ódio por aquele homem mostrara-lhe seu verdadeiro dom. Agora ele estava preparado para a sua vingança.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

LdS - Livro I - Capítulo 22 - Revanche




Ela entra na sala onde Matheus está trabalhando. Seus olhos transparecem a decepção que ela sente após descobrir que ele vem escondendo dela inúmeros chamados de ajuda de seus aliados. Ela fica ali parada, estática. Seu semblante é perturbado, ela sabe o tipo de ofensa e traição que ele cometera. Respira fundo mais uma vez, fecha os olhos por uns segundos tentando organizar seus sentimentos, e só então começa a falar:

- Eu ainda estou custando a acreditar. Não sei como você pode ter escondido uma coisa importante como esta de mim! - ela joga sobre a mesa dele algumas folhas de papel.

Ele, sem entender ainda sobre o que ela estava falando, pega as folhas jogadas sobre a mesa e se espanta ao ver que enfim os intermináveis chamados de Demétrius também a alcançaram.

- Deixa eu me explicar. É que eu pensei que estávamos tão bem longe de toda essa guerra, nossa vida anda se ajeitando. Estamos felizes, Belle...

- Estamos felizes?! O que você acha que está fazendo ao ignorar um chamado de seu mentor, Matheus? Acha que se nós fingirmos que essa guerra não existe vamos conseguir ficar distantes de tudo? Não acredito que você virou as costas para as pessoas que o ajudaram quando você precisou de auxílio... - seus olhos estavam molhados. Ela realmente havia se decepcionado com aquela atitude egoísta dele. - Por que você não me falou nada? Você não confia em mim? É isso!?

- Não, Belle. Eu só não queria mais esse assunto de guerra no nosso meio, atormentando a nossa vida. Achei que precisávamos de paz para nos concentramos na nossa relação. Demétrius tem muitos contatos, as garotas são incríveis também, eles sabem se virar muito bem sem mim. Eu não sou necessário.

- Olha aqui, ouça bem o que eu vou te falar. Preste bastante atenção porque é a única vez que quero ter de conversar isso contigo. Existe uma lei entre os licantropos, uma ordenança, que diz que aquele que ignora um chamado de auxílio de seu criador é culpado de traição e deve ser morto como um cão sem lar e família. Se Demétrius resolveu que precisa de sua ajuda é porque realmente eles estão necessitando de todos os que possam contar. Eu nunca, nunca pensei que você pudesse ser capaz de uma atitude tão covarde como esta, Matheus. Eles arriscaram as vidas buscando ajudá-lo, como pode agora simplesmente virar as costas para eles e continuar levando sua vida como se estivesse tudo bem? Olhe, eu também odeio essa guerra, odeio tudo o que tem relação com o mundo licantropo. Mas não consigo me omitir de coisas tão importantes assim que estão para acontecer. Matheus, a guerra vai estourar nos quatro cantos do globo e dessa vez não será algo oculto, mas todos saberão a verdade sobre os amaldiçoados. É uma ilusão pensar que vamos conseguir ficar a parte de tudo isso. Quando a matança se iniciar, a guerra virá nos buscar onde quer que estivermos. Eu não quero mais ver mortes, mas também não vou me omitir de fazer algo para evitar essa catástrofe. Se você acha que não vale a pena lutar por esse mundo, continue aí sentado fingindo que não é com você, mas eu estou partindo hoje ainda para Dublin me encontrar com os seus amigos. Se resolver ir comigo, estarei saindo para o aeroporto às duas da manhã desta madrugada.

Ela virou-se e, da mesma forma irrequieta como entrou, partiu em direção à saída. Matheus ficou parado, sem saber o que dizer. Ele estava envergonhado, sabia que Izabelle estava correta e que ele traíra seus amigos ao negar-lhes auxílio. Havia fechado-se em seu mundo, queria esquecer tudo aquilo exatamente por ser doloroso de mais ter que recordar tudo o que vivera, a morte de seu irmão, a separação de Alice. Nessa sua tentativa de evitar o sofrimento, preferiu se alienar de tudo, como se só existisse aquela empresa, seus antigos amigos e o amor de Izabelle. Mas em seu íntimo ele sempre soube que aquilo era um erro, que era impossível esquecer aquele pedaço de sua vida. Na verdade, não contara nada a Izabelle sobre os e-mails porque sabia que ela não concordaria em ficarem os dois de fora da guerra. Ele já conhecia relativamente bem sua garota para saber que ela não ficaria de braços cruzadas esperando que outros morressem para que sua vida continuasse caminhado em perfeita tranquilidade. E por saber disso e saber também que, ao ter escondido dela tais informações, a tinha decepcionado tanto, foi que ele não teve coragem de falar nada no momento em que Izabelle saiu chorando de sua sala.

**********
Eram nove da noite, o voo partiria dali a cinco horas. Ele ainda estava na empresa, tinha ficado até mais tarde para terminar de ler alguns relatórios. Tentava de toda forma distrair-se com o trabalho, mas era inútil. Não conseguia esquecer aquela conversa nervosa com sua namorada. Não conseguira na verdade esquecer a expressão de decepção no rosto dela. Aquele afeto foi o que lhe deu forças para buscar de volta a sua identidade que ele pensara ter se perdido na noite de seu primeiro chamado de Selene. Agora ele era o presidente da empresa que um dia fora de seu pai. Tinha voltado ao seu antigo círculo de amizades. Até chegara a ensaiar algumas vezes com sua banda. E estavam pedindo que ele jogasse tudo de volta no lixo para embarcar numa viagem para a Europa para lutar em uma guerra contra inimigos poderosíssimos. Por mais que soubesse que era o correto a se fazer, ele não conseguia tomar essa decisão e correr ao encontro de Izabelle. Tinha medo de perdê-la nessa guerra. Tinha medo de não conseguir voltar com ela daquela loucura. E agora ela estava embarcando sozinha para a guerra, sem ele. Teria algo mais desesperador que isto? Não havia outra escolha, ele teria que se envolver. E se o destino fosse tão cruel ao ponto de tirar-lhe mais este amor, ele teria que mais uma vez buscar forças para superar este outro obstáculo, conviver com mais esta dor e continuar a caminhar em sua trilha que parecia sempre levá-lo pelos caminhos mais espinhosos.

Não era fácil encarar seus medos, mas era preciso. Antes lutar que deixar as coisas andarem por si mesmas. Então decidira-se, iria ouvir seu coração, viajaria com Izabelle. Tinha que ser rápido, precisava correr, já perdera muito tempo com aquela indecisão e ainda precisava desculpar-se com ela. Não poderia deixá-la partir sozinha, ele iria acompanhá-la naquela guerra. Levantou-se da poltrona, pegou a chave de seu carro e partiu ao encontro da garota que mostrou-lhe que a paz de espírito tem que ser conquistada ao custo do seu próprio sangue.

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Ele parou seu carro na garagem do apartamento. Fazia só uma semana que Matheus mudara para um apartamento próprio, bem maior, esperando que ela posteriormente o acompanhasse em sua mudança. Saiu rápido do carro e foi logo ter com Izabelle para falar-lhe que decidira-se ir com ela. Estava tão preocupado com o pouco tempo até a saída do voo que não percebeu que, desde de sua saída da empresa, estava sendo observado. Seus seguidores sabiam se manter imperceptíveis. Utilizavam toda sorte de subterfúgios para ocultarem sua presença. Há muito tempo que o procuravam e agora o acompanhavam com cuidado para não desperdiçar a oportunidade de destruí-lo sem lhe dar a menor chance de reação. A jovem caçadora e seu velho mestre estavam decididos a acabar com ele naquela noite ainda.

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Já na porta do apartamento de Izabelle, Matheus toca impacientemente a campainha. Ela demora para responder, não esperava ninguém. Estava deitada na cama, ainda pensava em desistir. Levantou-se devagar e foi, sem ânimo, abrir a porta. Surpreendeu-se ao ver pelo olho mágico que era Matheus quem tocava tão nervosamente sua campainha. Izabelle estava com os olhos inchados, havia chorado o dia todo. Tinha medo que Matheus não acordasse para o que ele estava fazendo, tinha medo de viajar sozinha para aquela guerra e nunca mais vê-lo. Respirou fundo e então abriu a porta. Ao vê-lo parado em frente a sua porta, sua feição melhorou. Ela havia entendido aquela visita repentina. Ele olhava para ela com um sorriso no rosto e os com os olhos marejados.

Nenhum do dois falou palavra alguma, somente se abraçaram, um abraço demorado. Naquele silêncio, somente se ouviam os soluços de Izabelle e os beijos que Matheus distribuía por todo o seu rosto. Ela estava aliviada, enfim ele acordara. Não precisaria mais enfrentar tudo aquilo sozinha, ele estava de novo do seu lado.

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Demorou-se pouco para que os dois descessem do apartamento para pegarem o carro. Como Matheus decidira-se em cima da hora partir com Izabelle, precisariam ainda passar no apartamento dele para buscarem sua bagagem antes de dirigirem-se para o aeroporto.

Izabelle era Irlandesa de nascença e possuía passaporte de seu país natal. Já Matheus não conseguiria embarcar para Dublin com a mesma facilidade, por isso optou por comprar sua passagem para Lisboa, seus avós maternos eram portugueses e ele possuía dupla cidadania. De Portugal ele partiria então para o Reino Unido. Seu voo sairia duas horas e meia depois do de Izabelle.

Matheus agora estava consciente que fizera a opção correta. Não poderia abandonar seus companheiros, muito menos deixar que Izabelle sumisse daquela forma de sua vida. Por mais que fosse assustador partir naquela empreitada, ele sabia que não conseguiria viver em paz se não o fizesse.

Chegaram em seu apartamento novo e logo colocaram-se a separar sua bagagem. Rapidamente ele arrumou suas malas e tratou de colocá-las no bagageiro do carro. Não levara muita coisa, somente o que julgava ser importante. Estavam indo para uma guerra, não para uma viagem de férias.

Em pouco tempo já estavam dirigindo na MG-110 em direção ao aeroporto de Confins. Ele olhou rapidamente para o relógio, ainda tinham duas horas antes que o voo saísse. Nesse exato momento, uma bola de energia imensa atingiu o carro de Matheus jogando o veículo vários metros fora da estrada. O carro capotou quatro vezes antes de parar de cabeça para baixo num barranco. Os dois conseguiram sair com dificuldade do veículo destruído. Por sorte não sofreram ferimentos graves, somente arranhões. Ele perguntava insistentemente para Izabelle se ela estava bem. E ela tentava acalmá-lo dizendo que não havia acontecido nada de mais grave.

Os dois ainda tentavam entender o que acontecera quando os caçadores que os seguiam resolveram se revelar. Matheus ficou paralisado de surpresa ao ver, em pé na sua frente, as pessoas que ele sabia serem as causadoras de seu acidente. Novamente ele tinha ao seu alcance Benjamim e Alice.

- Veja, minha querida, que conseguimos pegá-los desprevenidos. Dessa vez nós estamos em vantagem. Agora é a hora de nossa revanche. Hoje você terá a sua vingança!

- Pode crer que sim, mestre. Hoje nós acabaremos com esses bastardos...

Matheus colocou-se a frente de Izabelle como que tentando protegê-la. Seus olhos tinham de novo aquele ódio que ele tanto tentara esquecer. Aquela seria a revanche para ele também. E a morte teria novamente sua fome saciada.

LdS - Livro I - Capítulo 21 – Recomeço




Os dias passaram-se de forma rápida. Matheus aos poucos foi aprendendo a amar Izabelle. Depois de tudo o que ele passara, o apoio vindo dela foi de suma importância para que ele reorganizasse sua vida. Agora eram apenas os dois tentando viver uma vida em conjunto longe de toda aquela guerra, de toda aquela loucura. E Matheus sentia-se realmente bem ao lado de sua nova companhia. Izabelle era uma mulher incrível e amava verdadeiramente Matheus. Seria uma vida feliz não fosse uma lembrança que teimava em atormentar a mente e o coração dele. Por mais que ele tentasse apagar o passado de suas lembranças, Alice continuava entranhada em seu íntimo, como uma tatuagem, não o deixando em paz um só momento. Era um fantasma que ele simplesmente não conseguia exorcizar. Izabelle percebia as súbitas mudanças de humor dele e tentava não se abalar com o poder que Alice ainda tinha sobre o coração de Matheus.

Depois daquela despedida no aeroporto de seus companheiros licantropos que retornavam para a Europa em busca de respostas e de alianças a fim de enfrentar as dificuldades que já se anunciavam grandes, os dois jovens decidiram por começarem um relacionamento. Matheus mudou-se de vez para a casa de Izabelle e ambos iniciaram um romance. No prazo de apenas dois meses os dois já sentiam-se ligados. Dentro do coração de Matheus já havia um lugar separado somente para ela. Foi um período agradável para ambos, sendo que até a guerra e a maldição pareciam apenas como uma lembrança antiga de uma vida passada. Na verdade, ambos desejavam esquecer todos aqueles problemas. Preferiam fingir que eram pessoas normais vivendo vidas normais, totalmente ignorantes do que se passava no submundo licantropo. Quem poderia condená-los por desejarem esquecer toda essa confusão que só lhes causava sofrimento?

Seus pesadelos com Shaladiel haviam sessado, agora ele que usava pendurado em seu pescoço o amuleto Gadol que pertencera a Alice. Em princípio Izabelle não gostou de ver que ele usava a joia, mas ela acabou se conformando por entender que aquele amuleto deixava o maior inimigo de seu amado bem distante.

Esse momento de tranquilidade foi importante para que Matheus achasse seu ponto de equilíbrio. Muitas coisas haviam acontecido em pouquíssimo tempo, sua vida tinha sido colocada de cabeça para baixo. Aquela trégua e a segurança que Izabelle lhe proporcionara foram essenciais para que ele tomasse uma decisão que mudaria completamente a sua vida. Ao fim do segundo mês que Matheus e Izabelle estavam juntos, ele resolveu que regressaria ao seu antigo mundo e que retomaria sua vida de volta. Apesar de ainda se culpar pela morte de Henrique, Matheus sabia que era o desejo tanto de seu irmão quanto de seu pai que ele assumisse os negócios da família. Ele pensou muito, ponderou bastante para tomar esta decisão e o apoio de Izabelle foi essencial para que se decidisse por voltar ao seu lar e enfrentar os problemas que lhe esperavam.

**********

Curiosamente as coisas se desenrolaram de uma forma mais simples do que Matheus imaginara. Contrariamente ao que ele pensava, a polícia não fizera ligação alguma entre ele e o assassinato de Henrique. Não haviam testemunhas que ligassem Matheus ao local do crime, já que todos os seus amigos pensavam que Matheus apenas tomara uma carona com o irmão até seu apartamento, sendo que, posteriormente, Henrique teria retornado sozinho para casa. Por questão de pura sorte - ou talvez fosse o destino - o sistema de monitoramento eletrônico da mansão estava danificado na noite do chamado de Selene, não registrando a entrada nem a saída de Matheus do local do crime.

Também Alberto não se manifestara sobre o fato de ter conseguido fazer contato com seu companheiro por telefone informando da morte de Henrique e da necessidade de sua presença para ajudar nas investigações do crime. Preferiu deixar a polícia pensar que Matheus havia desaparecido ou que estava, por alguma razão, incomunicável.

Matheus só tivera o trabalho de justificar junto a polícia o seu desaparecimento e a sua demora em apresentar-se, o que era de se estranhar, já que a morte de seu irmão tivera certa repercussão na mídia. Nessa questão Izabelle o ajudou afirmando que ambos haviam viajando de carro para o Uruguai para visitar sua família e que passaram um tempo realizando uma excursão de aventura pela região. Os dois apresentaram documentação e recibos falsificados, bem como contatos no Uruguai que confirmaram a história. Toda a farsa fora combinada por Izabelle com alguns amigos licantropos radicados no Uruguai que deviam-lhe favores. Afirmaram também que haviam combinado de não levarem equipamentos eletrônicos, principalmente celulares, para que isso não os atrapalhasse em sua viagem de harmonização com a natureza. Ela afirmara que, como na época Matheus estava se recuperando de uma acidente, aquela viagem havia sido feita para ajudar-lhe na recuperação do corpo e da alma. Tentava soar como uma jovem desmiolada e espiritualizada, meio “desplugada” da civilização.

Apesar de certa desconfiança inicial, a polícia acabou por aceitar o álibi de Matheus, afinal de contas a história batia. Acabaram deixando-o livre para prosseguir com a retomada de sua vida. Ele agora poderia concentrar-se em tentar assumir o controle dos negócios da família.

O mais difícil para Matheus foi justificar-se junto aos seus amigos Diogo e Alberto sobre o seu desaparecimento. Eles tinham algumas informações que a polícia não teve acesso, sabiam que ele estivera com Henrique horas antes do ocorrido. Sabiam também que Matheus fora informado, por eles mesmos até, dos crimes ainda na época das investigações. E, principalmente, nunca haviam visto antes na vida o rosto de Izabelle. Portanto, sabiam que era mentira a história dele ter viajado com aquela garota para outro país, ainda mais estando ele ainda machucado se recuperando de um ataque de animal selvagem.

Como Matheus era muito reservado com sua vida, eles acharam por bem, naquele momento, não o interrogar sobre o seu sumiço. Esperavam que ele resolvesse se abrir sobre esse hiato que ocorrera justamente após a morte do irmão. Eles sabiam que os dois irmãos, apesar de todas as brigas, se gostavam e que provavelmente Matheus sofrera muito com a morte do único parente que ele ainda tinha. Na verdade não acreditavam que Matheus tivesse algum envolvimento com o crime, mas acharam estranho de mais o fato dele ter demorado tanto tempo para aparecer e retomar sua vida. De qualquer forma queriam o amigo próximo deles novamente e por isso engoliram toda aquela farsa.

Outro problema apresentara-se logo no seu retorno. O desaparecimento de Alice agora era um fato consumado, estando as autoridades investigando os fatos. Viviane não conseguira mais esconder a verdade dos pais de sua amiga e acabara por contar que a garota estava desaparecida. Matheus fora mais uma vez procurado para dar informações sobre o paradeiro da jovem, mas o álibe forjado por Izabelle servira também para afastar os holofotes dele. Alice sumira sem deixar rastros, mas ele não poderia ser culpado. Ele ainda chegou a ser acusado pela família da moça pelo desaparecimento, mas não houve o seu indiciamento por falta de provas.

Viviane ajudou-o como pôde omitindo tudo o que sabia, deixando todo o assunto de licantropos fora do conhecimento da polícia. Sabia que não lhe dariam crédito. Ela ainda ajudara Matheus ao confirmar que, pelo que sabia, os dois jovens não encontraram-se mais desde o acidente dele com o lobo. Afirmara ainda que a história contada à família da moça s obre Alice ter viajado com Matheus para passar um tempo longe, em alguma cidadezinha do sul de Minas, fora informada pela amiga enquanto as duas conversavam pelo telefone. Dessa forma ela não tinha como assegurar que os dois estavam realmente juntos. Assim Matheus conseguiu livrar-se da polícia.

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Apesar de ser o herdeiro de direito da empresa de sua família, o processo para assumir o controle dos negócios mostrou-se muito complicado. Os demais sócios, sem exceção, desaprovaram a presença de Matheus na frente da administração argumentando que ele não possuía experiência nem tampouco competência para tal trabalho. Apesar de Matheus deter 51% das ações, sua posição ficou altamente fragilizada. Ele até esperava por aquela resistência dos demais sócios em aceitá-lo como presidente, já que nunca se interessara pelos negócios da família e sua fama era a pior possível entre os conhecidos de seus pais. Mas ele não se abateu e mesmo contra todas as pressões assumiu o cargo de diretor geral. Aquilo foi algo que nem ele mesmo acreditava ser possível algum dia acontecer.

Com penas alguns meses que Matheus resolvera recomeçar sua vida ao lado de Izabelle, ele já havia reconquistado tudo o que havia perdido por anos de inconsequente rebeldia adolescente. Os fatos posteriores ao ataque de Demétrius que lhe transferiu a maldição de Licaon serviram para que ele enfim amadurecesse e aprendesse a aceitar a vida como ela se apresentava para ele. Era incrível como as coisas pareciam estar dando certo. Ele tinha razões de sobra para estar feliz. Ele verdadeiramente deveria estar feliz.

Só que ele não se sentia feliz. E aquilo o angustiava muito. Matheus se culpava por não conseguir se desligar de Alice. Por mais que ele quisesse esquecê-la, que quisesse ser inteiramente de Izabelle, que buscasse fazer sua companheira feliz, por mais que ele tentasse a todo custo fazer para Izabelle o mesmo bem que ela o estava fazendo, ele sabia em seu íntimo que não estava cem por cento entregue naquele relacionamento. E aquilo o desagradava terrivelmente. Ele não se perdoava por ainda pensar naquela que outrora tentou matá-lo. Matheus não se conformava em não conseguir amar Izabelle com a mesma intensidade que era amado por ela.

Mas até nisso ela se mostrava amável e compreensiva, deixando claro que já era feliz em poder expressar seu afeto e em ter a companhia de seu amado. Era uma mulher linda, ponderada, sensata e madura. Sabia como ninguém enlouquecer um homem na cama e se esforçava para agradar seu amante em tudo. De algum jeito Izabelle sabia entrara em sua vida com uma missão. Seria este o destino reservado para eles?

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As coisas pareciam estar bem, com os dois levando uma vida aparentemente normal, até que um simples e-mail resolveu por um fim naquela aparente tranquilidade. Tratava-se de uma mensagem de Demétrius pedindo aos dois que partissem para a Europa a fim de ajudá-los a organizar uma terceira força licantropa. Essa força alternativa teria o intuito de dar termo aquela guerra insana entre os dois grandes clãs de amaldiçoados antes que aquela disputa acabasse por trazer a ruína ao mundo todo.

Matheus preferiu ignorar aquela convocação de seu amigo e mestre. Estava farto de sangue, queria apenas ser um homem comum, com uma vida comum. Ele manteve aquela mensagem em segredo não participando a Izabelle o seu conteúdo. Seus antigos aliados que o perdoassem, mas aquela não era a guerra dele, pensou Matheus em seu egoísmo humano. Assim sendo, continuou levando sua vida como se nada estivesse acontecendo.

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Em outra cidade, um noticiário de TV dá um novo rumo aos acontecimentos na vida de Matheus. O destino quis que Alice assistisse a uma reportagem onde seu ex-namorado era entrevistado como o mais novo empreendedor e incentivador da cultura na cidade de Belo Horizonte.

Aquilo era tudo o que Alice estava buscando durante aqueles dias que se seguiram ao massacre de seus companheiros Gadols no “Mosteiro dos Cavaleiros da Lua”. Agora enfim ela descobrira o paradeiro de seu alvo. Não perderia mais nenhum minuto sequer, aquele amaldiçoado iria se arrepender amargamente pelo dia que ousara cruzar o seu caminho. Ele não sabia o que lhe estava reservado.