Matheus
reconheceu rapidamente que era Alice ali dormindo do seu lado.
“Realmente é ela”, pensou ainda surpreso. Naquele momento ele
ficou feliz em ver um rosto conhecido, mesmo que a tivesse conhecido
há tão pouco tempo. Fez um esforço enorme para poder observá-la
melhor. Ela dormia sentada com os braços cruzados sobre as pernas.
Tinha um travesseiro apoiando sua cabeça que se recostava na parede.
Parecia dormir um sono tranquilo. A luz avermelhada do crepúsculo
entrava no quarto do hospital. Agora, com calma, Matheus podia
observar como Alice era inegavelmente linda. Ela tinha feições
delicadas e equilibradas, um nariz afilado, olhos brandos. O que se
destacava nesse cenário suave eram seus lábios carnudos, melhor
dizendo, abusadamente carnudos. Eles davam à Alice o ar provocador
que tanto seduzia Matheus. Ele foi atraído pela beleza de Alice e
agora aquela beleza o estava mais uma vez hipnotizando. Matheus
olhava cada detalhe do corpo de Alice, suas mãos, suas pernas, tudo
nela o agradava. Só agora notara a tatuagem que ela possuía no
punho direito, a figura de uma mão estilizada com vários desenhos
menores em seu interior, concluiu que deveria ser algum tipo de
amuleto. Alice era muito alva e seus cabelos bem negros e lisos, um
contraste marcante. Ainda mais agora que uma mexa desse cabelo
pousava sobre seu rosto acentuando a brancura de sua pele.
De
repente uma enfermeira entra no quarto:
-
Oh! Que bom que você acordou! – fala a enfermeira surpresa com o
despertar de Matheus. – Desde ontem que você dorme. Como está se
sentindo? Está com dor? Vou informar logo ao doutor que você
acordou.
Ao
ouvir a voz da enfermeira Alice acorda e também fica surpresa ao ver
Matheus desperto.
-
Nossa, Matheus! Até que enfim você acordou! Eu estava tão
preocupada. – fala Alice enquanto se levanta e aproxima-se de
Matheus. Seus olhos já estavam marejados. – Eu fiquei sem saber o
que fazer. Olhei alguns números no seu celular e tentei ligar para a
sua família e para alguns dos seus amigos. Só consegui contato
ontem à noite com seu irmão Henrique. Ele disse que estava viajando
e que só conseguiria chegar aqui amanhã pela manhã. Avisei também
seus amigos da banda, Diogo e Alberto. Eles estiveram agora pouco
aqui te visitando. Estão hospedados na mesma pousada que eu.
-
A sua namorada estava muito preocupada com você. Não saiu daqui um
instante sequer. – ao ouvir essas palavras da enfermeira, Alice
corou. – Foi muita sorte a sua o animal que o atacou não ter
atingido sua jugular, foi por muito pouco mesmo, rapaz.
Matheus
estava confuso. Não sabia o que tinha acontecido realmente nem
quanto tempo ele estava naquele hospital, tampouco quem o havia
socorrido e porque Alice estava ali com ele. Só depois de alguns
segundos tentando entender o que estava acontecendo é que Matheus
conseguiu falar:
-
Eu não lembro de praticamente nada após o ataque do lobo. Só o que
ainda consigo lembrar é de ouvir Alice correr atrás de socorro, só
isso e nada mais. Como cheguei aqui? Foi você quem me trouxe, Alice?
Olha, eu quero sair daqui, quero ir pra casa. – Matheus queria sair
de lá o mais rápido possível. Ele não gostava de hospitais.
-
Bem, vou chamar o doutor. - respondeu a enfermeira. - Ele poderá lhe
dizer se você está em condições de receber alta. Só um momento
enquanto o chamo, sim? Com licença.
A
enfermeira saiu da sala deixando Matheus e Alice a sós. A garota
estava visivelmente nervosa com aquela situação. Ainda corava ao
lembrar das palavras da enfermeira: “A sua namorada estava muito
preocupada com você”. Evitava olhar nos olhos de Matheus que a
fitava fixamente esperando pelas respostas de suas perguntas. Decidiu
então que aqueles sentimentos de timidez não cabiam naquele
momento:
-
Fui eu, com ajuda de alguns amigos, que te trouxe aqui pro hospital.
Quando vi você deitado no chão todo ensanguentado eu fiquei
apavorada. Corri pra dentro da pousada gritando atrás de meus
amigos. Sorte a minha que Miguel e André já haviam voltado pra
pousada. Foram eles que te colocaram no carro e nos trouxeram para
cá. Você deu entrada aqui por volta de quatro e cinquenta da manhã
de sábado. Hoje é domingo, devem ser dezoito horas agora. Seu irmão
Henrique deve chegar amanhã pela manhã. – enfim ela o conseguiu
encarar. Seu rosto transparecia alívio e também gratidão. – Você
foi muito corajoso em ter pulado na frente daquele lobo pra me
salvar. Nem sei como te agradecer. Se você não tivesse sido tão
corajoso, seria eu quem estaria neste leito de hospital ou talvez nem
isso. – seus olhos tornaram a marejar.
-
O que é isso, eu não sou tão corajoso assim. Só tentei
protegê-la. Nem pensei em mim na hora, só queria tirá-lo de perto
de você. Por falar nisso, você está bem? Ele chegou a te morder?
-
Não,... e-eu estou bem. Você foi muito rápido, Matheus.
Praticamente se antecipou ao lobo, eu me feri, mas foi na queda. E
não foi nada grave, só uma leve escoriação no cotovelo, já estou
bem...
-
Você ficou todo esse tempo aqui comigo? Por quê?...
-
Eu estava muito preocupada com você. Afinal eu sabia que você
estava sozinho. Eu me senti responsável por você. Não ia te deixar
sozinho nesse hospital sem ninguém. Você se machucou tentando me
proteger. O mínimo que eu poderia fazer era cuidar de você por esse
período.
Nesse
momento o Dr. Juarez entra na sala com o prontuário de Matheus nas
mãos.
-
Muito bem, senhor Matheus Carvalho,... como está se sentindo? Foi
grande o estrago no seu pescoço, hein rapaz? Sorte que a sua
namorada estava junto e trouxe você aqui rapidamente pro
pronto-socorro. Nós tivemos um trabalho reconstituindo a área
atacada pelo animal, mas imagino que ficará bem, não sem algumas
cirurgias plásticas para remover a cicatriz que irá se formar, isso
se o incomodar. Creio que em breve você estará em condições de
retomar suas atividades.
-
Doutor, eu quero sair daqui, quero ir para a minha casa.
-
Mas por que tanta pressa, rapaz? Não está sendo bem atendido aqui?
-
Não é por isso. Eu só não desejo mais ficar aqui nesse leito de
hospital. Prefiro repousar em casa, se isso for possível.
-
Bem, não vejo nenhum empecilho para que eu não lhe dê a sua alta.
Na verdade, agora você precisa simplesmente cuidar da cicatrização
dessa área, mas é algo simples que pode ser feito em casa. Vou
receitar uma medicação em caso de dor. A sua namorada mesmo pode
tomar conta de você. – Alice se encolhia envergonhada cada vez que
o Doutor Juarez se referia a ela como namorada de Matheus.
-
Sendo assim, doutor, por favor me libere. Já estou cansado de ficar
aqui, quero ir para casa. Alice, você pode me levar para a pousada
onde você está hospedada? Nem sei onde anda minha moto...
-
Claro que sim, Matheus. Teus amigos também estão hospedados lá. Eu
te levo, sem problemas. – Alice tentava soar natural para não
deixar transparecer sua total falta de jeito com a situação.
-
Pois então, Matheus, considere-se liberado para deixar o hospital.
Só não esqueçam de assinar alguns papéis de seu plano de saúde
na recepção, por favor. Com licença, mas meu plantão ainda está
só no começo. Melhoras, meu jovem. – se despedindo o médico
deixou o quarto.
Em
poucos minutos Matheus e Alice já estavam no carro se dirigindo para
a pousada. Alice mal olhava para Matheus. Estava sem saber o que
falar, como agir. Esperava que chegassem logo à pousada e que
pudessem ter mais pessoas junto deles para que o clima ficasse menos
tenso ou pelo menos ela se sentisse menos tensa. Já Matheus
conservara-se calado lembrando daquele delírio tão real e ao mesmo
tempo tão surreal que tivera naquele leito de hospital. Algo o
incomodava, apesar de não saber o quê. Um medo tomava conta de sua
alma.
Vinte
minutos de trajeto e Alice já estava estacionando seu carro na
frente da pousada. Já era noite. Ela saiu do carro e foi abrir a
porta do carona para ajudar Matheus a sair do veículo. Ele estava
com sua mobilidade prejudicada por causa dos ferimentos. Os
companheiros da banda, Diogo e Alberto, já esperavam por ele na
porta da pousada.
Ao
sair do veículo, Matheus sentiu um frio na espinha e subitamente seu
ferimento, que até então não o incomodara, começou a doer
intensamente. Ele teve uma leve impressão de que alguém o observava
e ouviu em sua mente uma voz o chamando: “Olhe para mim”,
“Vire-se para cá”, “Veja quem é o culpado por passar-te essa
triste maldição.”
Matheus
não conseguia entender o que estava acontecendo. Ele estava
desnorteado com aquilo. De súbito um impulso lhe veio. Matheus foi
impelido a olhar para uma das janelas de um casarão que estava nas
proximidades da pousada. E então, logo que colocou seus olhos em uma
janela, ele pôde observar. Estavam fitando-o lá de cima um homem
com ar grave e duas belas jovens com semblantes preocupados. Mais uma
vez o frio na espinha o acometeu.
Matheus
não sabia o porquê, mas sentiu que, naquela noite ainda, eles iriam
se encontrar.

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