quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

LdS - Livro I - Capítulo 3 - Despertar



Matheus reconheceu rapidamente que era Alice ali dormindo do seu lado. “Realmente é ela”, pensou ainda surpreso. Naquele momento ele ficou feliz em ver um rosto conhecido, mesmo que a tivesse conhecido há tão pouco tempo. Fez um esforço enorme para poder observá-la melhor. Ela dormia sentada com os braços cruzados sobre as pernas. Tinha um travesseiro apoiando sua cabeça que se recostava na parede. Parecia dormir um sono tranquilo. A luz avermelhada do crepúsculo entrava no quarto do hospital. Agora, com calma, Matheus podia observar como Alice era inegavelmente linda. Ela tinha feições delicadas e equilibradas, um nariz afilado, olhos brandos. O que se destacava nesse cenário suave eram seus lábios carnudos, melhor dizendo, abusadamente carnudos. Eles davam à Alice o ar provocador que tanto seduzia Matheus. Ele foi atraído pela beleza de Alice e agora aquela beleza o estava mais uma vez hipnotizando. Matheus olhava cada detalhe do corpo de Alice, suas mãos, suas pernas, tudo nela o agradava. Só agora notara a tatuagem que ela possuía no punho direito, a figura de uma mão estilizada com vários desenhos menores em seu interior, concluiu que deveria ser algum tipo de amuleto. Alice era muito alva e seus cabelos bem negros e lisos, um contraste marcante. Ainda mais agora que uma mexa desse cabelo pousava sobre seu rosto acentuando a brancura de sua pele.

De repente uma enfermeira entra no quarto:

- Oh! Que bom que você acordou! – fala a enfermeira surpresa com o despertar de Matheus. – Desde ontem que você dorme. Como está se sentindo? Está com dor? Vou informar logo ao doutor que você acordou.

Ao ouvir a voz da enfermeira Alice acorda e também fica surpresa ao ver Matheus desperto.

- Nossa, Matheus! Até que enfim você acordou! Eu estava tão preocupada. – fala Alice enquanto se levanta e aproxima-se de Matheus. Seus olhos já estavam marejados. – Eu fiquei sem saber o que fazer. Olhei alguns números no seu celular e tentei ligar para a sua família e para alguns dos seus amigos. Só consegui contato ontem à noite com seu irmão Henrique. Ele disse que estava viajando e que só conseguiria chegar aqui amanhã pela manhã. Avisei também seus amigos da banda, Diogo e Alberto. Eles estiveram agora pouco aqui te visitando. Estão hospedados na mesma pousada que eu.

- A sua namorada estava muito preocupada com você. Não saiu daqui um instante sequer. – ao ouvir essas palavras da enfermeira, Alice corou. – Foi muita sorte a sua o animal que o atacou não ter atingido sua jugular, foi por muito pouco mesmo, rapaz.

Matheus estava confuso. Não sabia o que tinha acontecido realmente nem quanto tempo ele estava naquele hospital, tampouco quem o havia socorrido e porque Alice estava ali com ele. Só depois de alguns segundos tentando entender o que estava acontecendo é que Matheus conseguiu falar:

- Eu não lembro de praticamente nada após o ataque do lobo. Só o que ainda consigo lembrar é de ouvir Alice correr atrás de socorro, só isso e nada mais. Como cheguei aqui? Foi você quem me trouxe, Alice? Olha, eu quero sair daqui, quero ir pra casa. – Matheus queria sair de lá o mais rápido possível. Ele não gostava de hospitais.

- Bem, vou chamar o doutor. - respondeu a enfermeira. - Ele poderá lhe dizer se você está em condições de receber alta. Só um momento enquanto o chamo, sim? Com licença.

A enfermeira saiu da sala deixando Matheus e Alice a sós. A garota estava visivelmente nervosa com aquela situação. Ainda corava ao lembrar das palavras da enfermeira: “A sua namorada estava muito preocupada com você”. Evitava olhar nos olhos de Matheus que a fitava fixamente esperando pelas respostas de suas perguntas. Decidiu então que aqueles sentimentos de timidez não cabiam naquele momento:

- Fui eu, com ajuda de alguns amigos, que te trouxe aqui pro hospital. Quando vi você deitado no chão todo ensanguentado eu fiquei apavorada. Corri pra dentro da pousada gritando atrás de meus amigos. Sorte a minha que Miguel e André já haviam voltado pra pousada. Foram eles que te colocaram no carro e nos trouxeram para cá. Você deu entrada aqui por volta de quatro e cinquenta da manhã de sábado. Hoje é domingo, devem ser dezoito horas agora. Seu irmão Henrique deve chegar amanhã pela manhã. – enfim ela o conseguiu encarar. Seu rosto transparecia alívio e também gratidão. – Você foi muito corajoso em ter pulado na frente daquele lobo pra me salvar. Nem sei como te agradecer. Se você não tivesse sido tão corajoso, seria eu quem estaria neste leito de hospital ou talvez nem isso. – seus olhos tornaram a marejar.

- O que é isso, eu não sou tão corajoso assim. Só tentei protegê-la. Nem pensei em mim na hora, só queria tirá-lo de perto de você. Por falar nisso, você está bem? Ele chegou a te morder?

- Não,... e-eu estou bem. Você foi muito rápido, Matheus. Praticamente se antecipou ao lobo, eu me feri, mas foi na queda. E não foi nada grave, só uma leve escoriação no cotovelo, já estou bem...

- Você ficou todo esse tempo aqui comigo? Por quê?...

- Eu estava muito preocupada com você. Afinal eu sabia que você estava sozinho. Eu me senti responsável por você. Não ia te deixar sozinho nesse hospital sem ninguém. Você se machucou tentando me proteger. O mínimo que eu poderia fazer era cuidar de você por esse período.

Nesse momento o Dr. Juarez entra na sala com o prontuário de Matheus nas mãos.

- Muito bem, senhor Matheus Carvalho,... como está se sentindo? Foi grande o estrago no seu pescoço, hein rapaz? Sorte que a sua namorada estava junto e trouxe você aqui rapidamente pro pronto-socorro. Nós tivemos um trabalho reconstituindo a área atacada pelo animal, mas imagino que ficará bem, não sem algumas cirurgias plásticas para remover a cicatriz que irá se formar, isso se o incomodar. Creio que em breve você estará em condições de retomar suas atividades.

- Doutor, eu quero sair daqui, quero ir para a minha casa.

- Mas por que tanta pressa, rapaz? Não está sendo bem atendido aqui?

- Não é por isso. Eu só não desejo mais ficar aqui nesse leito de hospital. Prefiro repousar em casa, se isso for possível.

- Bem, não vejo nenhum empecilho para que eu não lhe dê a sua alta. Na verdade, agora você precisa simplesmente cuidar da cicatrização dessa área, mas é algo simples que pode ser feito em casa. Vou receitar uma medicação em caso de dor. A sua namorada mesmo pode tomar conta de você. – Alice se encolhia envergonhada cada vez que o Doutor Juarez se referia a ela como namorada de Matheus.

- Sendo assim, doutor, por favor me libere. Já estou cansado de ficar aqui, quero ir para casa. Alice, você pode me levar para a pousada onde você está hospedada? Nem sei onde anda minha moto...

- Claro que sim, Matheus. Teus amigos também estão hospedados lá. Eu te levo, sem problemas. – Alice tentava soar natural para não deixar transparecer sua total falta de jeito com a situação.

- Pois então, Matheus, considere-se liberado para deixar o hospital. Só não esqueçam de assinar alguns papéis de seu plano de saúde na recepção, por favor. Com licença, mas meu plantão ainda está só no começo. Melhoras, meu jovem. – se despedindo o médico deixou o quarto.

Em poucos minutos Matheus e Alice já estavam no carro se dirigindo para a pousada. Alice mal olhava para Matheus. Estava sem saber o que falar, como agir. Esperava que chegassem logo à pousada e que pudessem ter mais pessoas junto deles para que o clima ficasse menos tenso ou pelo menos ela se sentisse menos tensa. Já Matheus conservara-se calado lembrando daquele delírio tão real e ao mesmo tempo tão surreal que tivera naquele leito de hospital. Algo o incomodava, apesar de não saber o quê. Um medo tomava conta de sua alma.

Vinte minutos de trajeto e Alice já estava estacionando seu carro na frente da pousada. Já era noite. Ela saiu do carro e foi abrir a porta do carona para ajudar Matheus a sair do veículo. Ele estava com sua mobilidade prejudicada por causa dos ferimentos. Os companheiros da banda, Diogo e Alberto, já esperavam por ele na porta da pousada.

Ao sair do veículo, Matheus sentiu um frio na espinha e subitamente seu ferimento, que até então não o incomodara, começou a doer intensamente. Ele teve uma leve impressão de que alguém o observava e ouviu em sua mente uma voz o chamando: “Olhe para mim”, “Vire-se para cá”, “Veja quem é o culpado por passar-te essa triste maldição.”

Matheus não conseguia entender o que estava acontecendo. Ele estava desnorteado com aquilo. De súbito um impulso lhe veio. Matheus foi impelido a olhar para uma das janelas de um casarão que estava nas proximidades da pousada. E então, logo que colocou seus olhos em uma janela, ele pôde observar. Estavam fitando-o lá de cima um homem com ar grave e duas belas jovens com semblantes preocupados. Mais uma vez o frio na espinha o acometeu.

Matheus não sabia o porquê, mas sentiu que, naquela noite ainda, eles iriam se encontrar.

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