quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

LdS - Livro I - Capítulo 14 - Clausura



O lugar era estranho. Ela não tinha a mínima ideia de onde estava ou de quem a colocara naquele quarto. As últimas lembranças que vinham em sua mente eram os terríveis momentos de terror no chalé, quando do ataque dos Nightkillers, e os minutos anteriores dela ser atacada por Edgar. O quarto onde estava era limpo e arrumado, mas nem um pouco luxuoso. Parecia com aqueles quartos de mosteiros onde os religiosos que optaram por uma vida de clausura e simplicidade vivem. De móveis, apenas uma cama com um colchão duro, uma pequena cômoda com um espelho na parede e um criado mudo. O silêncio era perturbador. Onde quer que estivesse, aquele não deveria ser o covil dos Nightkillers, isso ela tinha certeza. Suas roupas haviam sido trocadas. Ela agora trajava uma bata vermelha com detalhes prateados. Um desenho de uma lua minguante bem no centro de seu busto orlava sua veste. Não sabia o que acontecera a Matheus e isso a perturbava muito. Era como se toda aquela louca aventura que vivera não tivesse acontecido, como se tudo não passasse de um sonho e que, ao acordar, ela se visse imersar em outro sonho estranho e inquietante. Mas, por mais que os dias com Matheus tivessem sido dias perigosos, ela ainda desejava, do fundo de sua alma, estar novamente do lado dele. Ela sentia como se ele fosse o complemento dela, era assim que sentia. E era verdade, os dois estavam, de alguma forma sobrenatural, ligados, e aquele amor fulminante que ardia forte dentro do seu peito era a força que os mantinha juntos mesmo diante de tantos problemas e perigos. As horas solitárias naquele quarto a espera de algum contato foram todas preenchidas por Matheus. Ela não conseguia se preocupar consigo mesma, o que a angustiava era a falta de informações sobre ele. Seu medo era que Matheus não tivesse sobrevivido àquela noite. E as lembranças dos momentos que os dois passaram juntos naquele chalé insistiam em sempre rondar-lhe a mente, como um inseto teimoso que não para de rodopiar ao redor de sua cabeça mesmo quando tenta-se espantá-lo para longe.

De súbito uma portinhola foi aberta e um jovem senhor falou quebrando aquele silêncio incômodo:

- Enfim você está consciente. - falou o homem com uma voz que transparecia tranquilidade, mas que também impunha respeito. - Estou muito feliz que já tenha se recuperado dos ferimentos que você sofreu. Tivemos muito trabalho para salvar-lhe a vida, saiba disso e aprenda a ser grata.

- Onde estou? E quem é você? - perguntou-lhe, Alice. - Onde estão meus amigos? Onde está Matheus? Ele sobreviveu?

- Não sei quem são esses que você chama de amigos. E não tenho informações para dar-lhe a cerca desse Matheus que você procura. Quanto as suas duas primeiras perguntas, eu posso respondê-las. Você está em um local conhecido como “Mosteiro dos Guerreiros da Lua” e o meu nome é Benjamim. Eu e meus irmãos de ordem temos muito interesse em saber quem é você e o que você fazia em companhia daqueles licantropos dissidentes que se escondiam no meio da mata.

- Eu me chamo Alice e aqueles licantropos eram meus amigos.

No momento que ela pronunciou a palavra “amigos” o semblante do homem tornou-se sombrio. Não passava pela cabeça do grupo de Gadols que Alice estivesse em companhia dos amaldiçoados por vontade própria. Achavam antes que ela estivesse sendo mantida prisioneira.

O homem não falou mais nada, simplesmente fechou a brecha na porta e saiu, deixando Alice sozinha mais uma vez. Ela, por sua vez, já sabia na companhia de quem estava porque ouvira anteriormente, pela boca do próprio Demétrius, que os Gadols Orientais possuíam postos em vários países e que os denominavam de “mosteiros”, apesar de se tratar apenas de centros táticos onde eles organizavam suas ações. Estranhamente o fato de saber que estava na companhia de Gadols não a tranquilizou de forma alguma, pelo contrário, agora seus medos só aumentavam. A mesma inquietação insistia em tomar-lhe novamente os pensamentos: “o que haveria acontecido com Matheus?...”

**********

Nove dias haviam se passado desde o incidente no chalé. No apartamento de Viviane, Matheus procurava por alguma pista que pudesse ser útil em sua busca pelo paradeiro de Alice.

- Mas como assim ela foi raptada? Gente, que loucura toda é essa!? - Viviane tremia enquanto olhava Matheus vasculhar os pertences de sua amiga.

- Nem eu sei te explicar como isso aconteceu, Viviane, mas eu juro a você que eu vou atrás dela onde ela estiver, nem que eu tenha que enfrentar o próprio demônio pra conseguir tê-la de volta conosco. - ele ainda estava muito machucado. O ferimento feito por Edgar causara grande estrago e exigiu um grande trabalho para curá-lo. Ele mal conseguia ficar em pé e ainda sentia dores intensas em seu corpo, mas Matheus não se importava com isso, seu pensamento estava fixamente concentrado em sua missão.

- E como você pretende achá-la já que nem sabe ao menos quem a raptou?!

- Alice tinha me falado de uma joia de família que havia sido dada a ela por seu avô. Ela me falou várias vezes desse amuleto. Era um objeto muito importante para ela e meus aliados acreditam que nele está armazenado parte da energia e dos sentimentos de Alice. É como se parte da alma dela estivesse depositada dentro do talismã. De alguma forma que eu desconheço eles acham que Alice pode ser rastreada se tivermos a frequência exata em que o seu espírito vibra. Ela é descendente de Gadols, não é uma pessoa comum, portanto seu espírito se destaca no meio da multidão e é bem possível que um grande obsessor consiga rastrear a energia que ela irradia. - Matheus continuava a procurar enquanto conversavam.

- Mas que conversa mais doida é essa, Matheus!? Eu juro que não acredito nem na metade da história que você me contou e só estou deixando você entrar aqui e fuçar nas coisas dela porque sei o quanto ela te ama e eu também vejo que você sente o mesmo por ela. Alice mesma me falou alguma coisa no telefone sobre esse papo de Gadol, mas ainda não consigo acreditar que toda essa loucura é realmente verdade. Meus Deus! O que eu vou falar pros pais dela quando ligarem atrás de notícias da filha?! Não posso omitir isso deles. E com certeza a polícia será chamada para tentar encontrá-la. Nossa mãe do céu!...

- Calma, Viviane. Eu não sei o que você vai falar pra família dela. Me desculpe, mas esta é a menor das minhas preocupações no momento. Fala qualquer coisa! Fala que ela viajou comigo pra uma dessas serras qualquer pra passar umas semanas. Sei que a faculdade de vocês está praticamente entrando em recesso por fim de período. Eles vão acreditar.

- Mas ela está incomunicável, Matheus! E se eles ligarem para a filha pra ter notícias? Nossa, eles vão pirar sem saber do paradeiro dela!

- Em algumas dessas cidades do interior de Minas o sinal de celular é péssimo. Eles não vão ficar tão preocupados assim, acho. Afinal de contas, Alice é maior de idade e sei que o relacionamento dela com os pais não estava lá grandes coisas. Ela me contou da pressão que vinha tendo que suportar por não ter escolhido a profissão dos pais. No fundo, acho que não se surpreenderão tanto assim com um breve sumiço da filha.

- Não sei não... Estou com medo do que ainda pode vir a acontecer. - Viviane estava com os olhos marejados.

- Olha, eu agradeço muito que você ainda confie em mim. Mas nesse momento preciso ainda mais da sua ajuda. Achar o amuleto de Alice é muito importante e é a única esperança que temos de encontrá-la, portanto tente lembrar de alguma coisa que possa me ajudar a achar essa joia.

- Eu sei que Alice tinha prometido ao avô que jamais se apartaria do amuleto, foi por isso mesmo que ela tatuou no pulso a figura do pingente. Aliás, aquela foi a última vez que vi aquela joia com ela. Foi no dia em que fomos fazer nossas tatuagens!

- Então tente se lembrar com detalhes daquele dia, Viviane. Nós temos que encontrar essa joia de qualquer forma! Meus aliados foram em busca de ajuda em outra cidade e me deixaram a incumbência de achar o amuleto de Alice. Eles estão entrando em contato com outros licantropos dissidentes, tentando uma aliança, já que agora existem Gadols nas proximidades e isto é uma ameaça para todos. Difícil vai ser convencê-los que Alice não é outra de seus inimigos. Mas não quero me preocupar com isto agora, meu principal problema é descobrir onde ela está.

- Espere, Matheus! Eu agora me recordo que Alice possuía um pequeno cofre que ela escondia dentro do seu guarda-roupa! Talvez esse talismã esteja guardado lá! Mas acontece que eu mesma dei uma mexida nele esta semana separando algumas roupas dela para levar aonde vocês estavam, assim que ela resolvesse me contar onde ficava o tal esconderijo, mas não vi nada!

- Talvez ela tenha mandado fazer um fundo falso por precaução, quem sabe? Vou revirar aquele guarda-roupas todo de novo. Ele tem que ter um fundo falso!

E foi isso que Matheus fez. Cuidadosamente ele verificou cada compartimento no guarda-roupas e grande foi a sua alegria quando, atrás de uma das gavetas, revelou-se um pequeno buraco na parede onde estava embutido o cofre de Alice. A pressa não dava lugar para que ele fosse cuidadoso. Matheus simplesmente arrombou o cofre de Alice e retirou radiante, juntamente com outras joias, o tão procurado amuleto que tratava-se de um lindo cordão de prata com uma Chamsa em forma de pingente.

Rapidamente ele agradeceu a colaboração de Viviane, despediu-se prometendo mantê-la informada dos acontecimentos e partiu ao encontro de seus companheiros amaldiçoados.

**********

Alice continuava presa no quarto. Naqueles seus dias de isolamento somente colocavam para ela, por entre uma abertura embaixo da porta, comida três vezes ao dia. Fora isso, apenas umas poucas visitas de uma hora de duração com Benjamim, seu único interlocutor até então. Ele vinha sempre uma vez pela manhã e outra à tarde para fazer-lhe perguntas a cerca dela, de sua família, de como obteve o conhecimento da existência daquele amuleto que estava gravado em seu pulso. Aqueles eram os únicos momentos do dia que ela ouvia a voz de outra pessoa naquela sua solitária estadia. Todas as vezes ela fazia perguntas a cerca do paradeiro de Matheus, e sempre ouvia a mesma resposta: Esta é uma informação que não possuo.

Pelos cálculos de Alice aquele deveria ser seu quinto dia de confinamento. Naquele dia em especial seu interlocutor não foi visitá-la àquela tarde. Era o indício para Alice que as coisas estavam na iminência de se modificarem.

Em uma mesa redonda de uma sala ampla no “Mosteiro dos Cavaleiros da Lua”, uma pequena reunião estava sendo realizada:

- Bem, já é sabido que aquela garota estava na companhia de licantropos por vontade própria e que ela mesma refere-se a eles como “seus amigos”. Não vejo como uma descendente de Gadols poderia aliar-se aos nossos inimigos. É uma coisa deveras chocante descobrir que uma descendente dos Gadols do oriente estava trabalhando em conjunto com um grupo de licantropos dissidentes.

- Benjamim foi o único de nós que teve contato com a moça, é justo que ele fale quais as suas impressões a cerca dela...

- Bem, companheiros de ordem e missão, é verdade que ela considera-se amiga desses licantropos, mas eu tive a oportunidade de olhar através de seus olhos e afirmo que aquela jovem não possui chaga em seu espírito. Nada a impede de tornar-se uma de nós, e acho até que seria uma obrigação nossa orientá-la quanto a sua verdadeira missão nesta terra, já que é praticamente certo o fato de que ela ainda vive em uma condição de completa ignorância ao nosso respeito. Não é difícil de se perceber que a nossa hóspede estava sendo enganada e usada por nossos inimigos como fonte de conhecimento sobre a natureza de nosso poder e de nosso sangue. É nossa obrigação como Gadols resgatá-la dos laços amaldiçoados que agora a envolvem!

- Você está querendo nos convencer a aceitar aquela garota dentro de nossa ordem?! Não me faça rir, Benjamim! É verdade que atualmente estamos em crise e que os séculos de guerra foram duros conosco, mas ainda não estamos desesperados a ponto de aceitar uma “amiga dos lupinos” entre nós! Isso soa como uma loucura descabida!

- Eu falei em instruí-la em nossos caminhos, Gabriel. Mas não sem antes apagar de sua mente toda e qualquer lembrança daqueles amaldiçoados que ela ainda insiste em chamar de amigos.

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