O
lugar era estranho. Ela não tinha a mínima ideia de onde estava ou
de quem a colocara naquele quarto. As últimas lembranças que vinham
em sua mente eram os terríveis momentos de terror no chalé, quando
do ataque dos Nightkillers, e os minutos anteriores dela ser atacada
por Edgar. O quarto onde estava era limpo e arrumado, mas nem um
pouco luxuoso. Parecia com aqueles quartos de mosteiros onde os
religiosos que optaram por uma vida de clausura e simplicidade vivem.
De móveis, apenas uma cama com um colchão duro, uma pequena cômoda
com um espelho na parede e um criado mudo. O silêncio era
perturbador. Onde quer que estivesse, aquele não deveria ser o covil
dos Nightkillers, isso ela tinha certeza. Suas roupas haviam sido
trocadas. Ela agora trajava uma bata vermelha com detalhes prateados.
Um desenho de uma lua minguante bem no centro de seu busto orlava sua
veste. Não sabia o que acontecera a Matheus e isso a perturbava
muito. Era como se toda aquela louca aventura que vivera não tivesse
acontecido, como se tudo não passasse de um sonho e que, ao acordar,
ela se visse imersar em outro sonho estranho e inquietante. Mas, por
mais que os dias com Matheus tivessem sido dias perigosos, ela ainda
desejava, do fundo de sua alma, estar novamente do lado dele. Ela
sentia como se ele fosse o complemento dela, era assim que sentia. E
era verdade, os dois estavam, de alguma forma sobrenatural, ligados,
e aquele amor fulminante que ardia forte dentro do seu peito era a
força que os mantinha juntos mesmo diante de tantos problemas e
perigos. As horas solitárias naquele quarto a espera de algum
contato foram todas preenchidas por Matheus. Ela não conseguia se
preocupar consigo mesma, o que a angustiava era a falta de
informações sobre ele. Seu medo era que Matheus não tivesse
sobrevivido àquela noite. E as lembranças dos momentos que os dois
passaram juntos naquele chalé insistiam em sempre rondar-lhe a
mente, como um inseto teimoso que não para de rodopiar ao redor de
sua cabeça mesmo quando tenta-se espantá-lo para longe.
De
súbito uma portinhola foi aberta e um jovem senhor falou quebrando
aquele silêncio incômodo:
-
Enfim você está consciente. - falou o homem com uma voz que
transparecia tranquilidade, mas que também impunha respeito. - Estou
muito feliz que já tenha se recuperado dos ferimentos que você
sofreu. Tivemos muito trabalho para salvar-lhe a vida, saiba disso e
aprenda a ser grata.
-
Onde estou? E quem é você? - perguntou-lhe, Alice. - Onde estão
meus amigos? Onde está Matheus? Ele sobreviveu?
-
Não sei quem são esses que você chama de amigos. E não tenho
informações para dar-lhe a cerca desse Matheus que você procura.
Quanto as suas duas primeiras perguntas, eu posso respondê-las. Você
está em um local conhecido como “Mosteiro dos Guerreiros da Lua”
e o meu nome é Benjamim. Eu e meus irmãos de ordem temos muito
interesse em saber quem é você e o que você fazia em companhia
daqueles licantropos dissidentes que se escondiam no meio da mata.
-
Eu me chamo Alice e aqueles licantropos eram meus amigos.
No
momento que ela pronunciou a palavra “amigos” o semblante do
homem tornou-se sombrio. Não passava pela cabeça do grupo de Gadols
que Alice estivesse em companhia dos amaldiçoados por vontade
própria. Achavam antes que ela estivesse sendo mantida prisioneira.
O
homem não falou mais nada, simplesmente fechou a brecha na porta e
saiu, deixando Alice sozinha mais uma vez. Ela, por sua vez, já
sabia na companhia de quem estava porque ouvira anteriormente, pela
boca do próprio Demétrius, que os Gadols Orientais possuíam postos
em vários países e que os denominavam de “mosteiros”, apesar de
se tratar apenas de centros táticos onde eles organizavam suas
ações. Estranhamente o fato de saber que estava na companhia de
Gadols não a tranquilizou de forma alguma, pelo contrário, agora
seus medos só aumentavam. A mesma inquietação insistia em
tomar-lhe novamente os pensamentos: “o que haveria acontecido com
Matheus?...”
**********
Nove
dias haviam se passado desde o incidente no chalé. No apartamento de
Viviane, Matheus procurava por alguma pista que pudesse ser útil em
sua busca pelo paradeiro de Alice.
-
Mas como assim ela foi raptada? Gente, que loucura toda é essa!? -
Viviane tremia enquanto olhava Matheus vasculhar os pertences de sua
amiga.
-
Nem eu sei te explicar como isso aconteceu, Viviane, mas eu juro a
você que eu vou atrás dela onde ela estiver, nem que eu tenha que
enfrentar o próprio demônio pra conseguir tê-la de volta conosco.
- ele ainda estava muito machucado. O ferimento feito por Edgar
causara grande estrago e exigiu um grande trabalho para curá-lo. Ele
mal conseguia ficar em pé e ainda sentia dores intensas em seu
corpo, mas Matheus não se importava com isso, seu pensamento estava
fixamente concentrado em sua missão.
-
E como você pretende achá-la já que nem sabe ao menos quem a
raptou?!
-
Alice tinha me falado de uma joia de família que havia sido dada a
ela por seu avô. Ela me falou várias vezes desse amuleto. Era um
objeto muito importante para ela e meus aliados acreditam que nele
está armazenado parte da energia e dos sentimentos de Alice. É como
se parte da alma dela estivesse depositada dentro do talismã. De
alguma forma que eu desconheço eles acham que Alice pode ser
rastreada se tivermos a frequência exata em que o seu espírito
vibra. Ela é descendente de Gadols, não é uma pessoa comum,
portanto seu espírito se destaca no meio da multidão e é bem
possível que um grande obsessor consiga rastrear a energia que ela
irradia. - Matheus continuava a procurar enquanto conversavam.
-
Mas que conversa mais doida é essa, Matheus!? Eu juro que não
acredito nem na metade da história que você me contou e só estou
deixando você entrar aqui e fuçar nas coisas dela porque sei o
quanto ela te ama e eu também vejo que você sente o mesmo por ela.
Alice mesma me falou alguma coisa no telefone sobre esse papo de
Gadol, mas ainda não consigo acreditar que toda essa loucura é
realmente verdade. Meus Deus! O que eu vou falar pros pais dela
quando ligarem atrás de notícias da filha?! Não posso omitir isso
deles. E com certeza a polícia será chamada para tentar
encontrá-la. Nossa mãe do céu!...
-
Calma, Viviane. Eu não sei o que você vai falar pra família dela.
Me desculpe, mas esta é a menor das minhas preocupações no
momento. Fala qualquer coisa! Fala que ela viajou comigo pra uma
dessas serras qualquer pra passar umas semanas. Sei que a faculdade
de vocês está praticamente entrando em recesso por fim de período.
Eles vão acreditar.
-
Mas ela está incomunicável, Matheus! E se eles ligarem para a filha
pra ter notícias? Nossa, eles vão pirar sem saber do paradeiro
dela!
-
Em algumas dessas cidades do interior de Minas o sinal de celular é
péssimo. Eles não vão ficar tão preocupados assim, acho. Afinal
de contas, Alice é maior de idade e sei que o relacionamento dela
com os pais não estava lá grandes coisas. Ela me contou da pressão
que vinha tendo que suportar por não ter escolhido a profissão dos
pais. No fundo, acho que não se surpreenderão tanto assim com um
breve sumiço da filha.
-
Não sei não... Estou com medo do que ainda pode vir a acontecer. -
Viviane estava com os olhos marejados.
-
Olha, eu agradeço muito que você ainda confie em mim. Mas nesse
momento preciso ainda mais da sua ajuda. Achar o amuleto de Alice é
muito importante e é a única esperança que temos de encontrá-la,
portanto tente lembrar de alguma coisa que possa me ajudar a achar
essa joia.
-
Eu sei que Alice tinha prometido ao avô que jamais se apartaria do
amuleto, foi por isso mesmo que ela tatuou no pulso a figura do
pingente. Aliás, aquela foi a última vez que vi aquela joia com
ela. Foi no dia em que fomos fazer nossas tatuagens!
-
Então tente se lembrar com detalhes daquele dia, Viviane. Nós temos
que encontrar essa joia de qualquer forma! Meus aliados foram em
busca de ajuda em outra cidade e me deixaram a incumbência de achar
o amuleto de Alice. Eles estão entrando em contato com outros
licantropos dissidentes, tentando uma aliança, já que agora existem
Gadols nas proximidades e isto é uma ameaça para todos. Difícil
vai ser convencê-los que Alice não é outra de seus inimigos. Mas
não quero me preocupar com isto agora, meu principal problema é
descobrir onde ela está.
-
Espere, Matheus! Eu agora me recordo que Alice possuía um pequeno
cofre que ela escondia dentro do seu guarda-roupa! Talvez esse
talismã esteja guardado lá! Mas acontece que eu mesma dei uma
mexida nele esta semana separando algumas roupas dela para levar
aonde vocês estavam, assim que ela resolvesse me contar onde ficava
o tal esconderijo, mas não vi nada!
-
Talvez ela tenha mandado fazer um fundo falso por precaução, quem
sabe? Vou revirar aquele guarda-roupas todo de novo. Ele tem que ter
um fundo falso!
E
foi isso que Matheus fez. Cuidadosamente ele verificou cada
compartimento no guarda-roupas e grande foi a sua alegria quando,
atrás de uma das gavetas, revelou-se um pequeno buraco na parede
onde estava embutido o cofre de Alice. A pressa não dava lugar para
que ele fosse cuidadoso. Matheus simplesmente arrombou o cofre de
Alice e retirou radiante, juntamente com outras joias, o tão
procurado amuleto que tratava-se de um lindo cordão de prata com uma
Chamsa em forma de pingente.
Rapidamente
ele agradeceu a colaboração de Viviane, despediu-se prometendo
mantê-la informada dos acontecimentos e partiu ao encontro de seus
companheiros amaldiçoados.
**********
Alice
continuava presa no quarto. Naqueles seus dias de isolamento somente
colocavam para ela, por entre uma abertura embaixo da porta, comida
três vezes ao dia. Fora isso, apenas umas poucas visitas de uma hora
de duração com Benjamim, seu único interlocutor até então. Ele
vinha sempre uma vez pela manhã e outra à tarde para fazer-lhe
perguntas a cerca dela, de sua família, de como obteve o
conhecimento da existência daquele amuleto que estava gravado em seu
pulso. Aqueles eram os únicos momentos do dia que ela ouvia a voz de
outra pessoa naquela sua solitária estadia. Todas as vezes ela fazia
perguntas a cerca do paradeiro de Matheus, e sempre ouvia a mesma
resposta: Esta é uma informação que não possuo.
Pelos
cálculos de Alice aquele deveria ser seu quinto dia de confinamento.
Naquele dia em especial seu interlocutor não foi visitá-la àquela
tarde. Era o indício para Alice que as coisas estavam na iminência
de se modificarem.
Em
uma mesa redonda de uma sala ampla no “Mosteiro dos Cavaleiros da
Lua”, uma pequena reunião estava sendo realizada:
-
Bem, já é sabido que aquela garota estava na companhia de
licantropos por vontade própria e que ela mesma refere-se a eles
como “seus amigos”. Não vejo como uma descendente de Gadols
poderia aliar-se aos nossos inimigos. É uma coisa deveras chocante
descobrir que uma descendente dos Gadols do oriente estava
trabalhando em conjunto com um grupo de licantropos dissidentes.
-
Benjamim foi o único de nós que teve contato com a moça, é justo
que ele fale quais as suas impressões a cerca dela...
-
Bem, companheiros de ordem e missão, é verdade que ela considera-se
amiga desses licantropos, mas eu tive a oportunidade de olhar através
de seus olhos e afirmo que aquela jovem não possui chaga em seu
espírito. Nada a impede de tornar-se uma de nós, e acho até que
seria uma obrigação nossa orientá-la quanto a sua verdadeira
missão nesta terra, já que é praticamente certo o fato de que ela
ainda vive em uma condição de completa ignorância ao nosso
respeito. Não é difícil de se perceber que a nossa hóspede estava
sendo enganada e usada por nossos inimigos como fonte de conhecimento
sobre a natureza de nosso poder e de nosso sangue. É nossa obrigação
como Gadols resgatá-la dos laços amaldiçoados que agora a
envolvem!
-
Você está querendo nos convencer a aceitar aquela garota dentro de
nossa ordem?! Não me faça rir, Benjamim! É verdade que atualmente
estamos em crise e que os séculos de guerra foram duros conosco, mas
ainda não estamos desesperados a ponto de aceitar uma “amiga dos
lupinos” entre nós! Isso soa como uma loucura descabida!
-
Eu falei em instruí-la em nossos caminhos, Gabriel. Mas não sem
antes apagar de sua mente toda e qualquer lembrança daqueles
amaldiçoados que ela ainda insiste em chamar de amigos.

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