Enfim
o amanhecer chega. Matheus manteve segredo sobre seus sonhos não
comentando nada com Alice. Ele esperou calmamente que ela
despertasse. Matheus não conseguiu dormir mais nada naquela noite,
seus pensamentos e medos não deixaram ele se desligar da realidade.
Ele acariciava os cabelos de Alice enquanto mais uma vez pensava
sobre seus sonhos estranhos dos últimos dias. Resistia com todas as
suas forças a possibilidade de acreditar em toda aquela loucura. Era
muito racional para isso.
O
despertar de Alice foi tranquilo. Matheus a saudou com um sorriso.
Conversaram um pouco, riram, combinaram de continuar se vendo sempre
que possível. A fome os fez levantar da cama. Em pouco tempo os dois
já estavam no refeitório da pousada tomando café acompanhados dos
amigos. Matheus teve a oportunidade de conhecer Miguel e André, os
dois que ajudaram Alice no seu socorro. Estavam também com eles
Adriana e Viviane, amigas e colegas de faculdade de Alice. Os amigos
tinham viajado para passar o fim de semana naquela cidade por ideia
de Viviane, melhor amiga e confidente de Alice. Agora estavam prontos
para sua viagem de retorno. O grupo já estava terminando o seu café,
quando Diogo e Alberto chegaram. Todos foram apresentados e
rapidamente criou- se um ambiente agradável entre eles. Alice estava
visivelmente feliz. Matheus tentava desviar sua mente de suas
preocupações, não queria estragar aquele momento.
-
Henrique já deve estar chegando. Ele me ligou tem uns vinte minutos
avisando que já estava na cidade. – informou Diogo enquanto
conferia as horas em seu celular.
-
Só assim para ele largar o trabalho... - responde Matheus
visivelmente desanimado. Ele e o irmão não tinham uma boa relação.
-
Cara, vê se vocês não brigam dessa vez. Ele estava muito
preocupado contigo. – aconselhou Diogo.
-
Diogo, quem procura briga é ele. Eu só quero viver minha vida em
paz. Ele é quem não se conforma com o estilo de vida que eu levo e
quer me obrigar a fazer o que ele acha ser o melhor para mim. Ele
acha, por ser mais velho, que tem que cuidar de mim. Sempre foi assim
e piorou ainda mais depois da morte dos nossos pais. Henrique ficou
muito carrancudo, muito chato. Ele deveria levar a vida de forma mais
leve.
-
Se é isso que você acha, irmãozinho... - Henrique acabara de
entrar no refeitório à procura do irmão. Eram quase onze da manhã.
– Mas eu jurei pro nosso pai que iria cuidar de você. A questão é
que você ainda é muito imaturo, Matheus. E isso já me fez cansar
de tentar ajudá-lo. Estou aqui somente pela promessa que fiz ao
papai.
-
Pois eu libero você dessa promessa, Henrique! – respondeu Matheus
já irritado com o irmão. – Eu também já cansei de ter você se
metendo na minha vida, tentando me moldar. Eu já estou muito bem,
não preciso da sua ajuda. Pode ir embora.
O
clima ficou pesado muito rapidamente. Alice não imaginara que os
irmãos não se suportassem daquela forma. Tinha errado em tê-lo
chamado, pensava.
-
Pois essa é a última vez que eu faço algo por você, Matheus. Você
é um egoísta e ingrato. Fica levando essa vidinha de músico falido
enquanto eu sozinho carrego a empresa nas costas. Nosso pai ficaria
muito decepcionado vendo o seu desleixo com o que ele construiu com
tanto esforço...
-
Não venha querer me dar lição de moral! E eu não admito que você
coloque a memória de nosso pai nessa discussão! – Matheus deu um
soco na mesa. – Eu não admito!
-
Calma galera que a gente não vai dar vexame aqui, não é? –
levanta-se Alberto tentando jogar panos quentes na situação. –
Olha, eu e Diogo levamos Matheus para casa, pode deixar. Só não
temos como transportar a moto dele. Se desse para você levá-la na
sua pick-up...
-
Eu quero ir com a minha moto! Já estou bem, eu posso levá-la.
-
Não, Matheus... - Alice resolveu interferir. – Você ainda está
muito machucado, não tem condições de levar a moto. Deixe o seu
irmão levá-la para você. Eu estou com um mau pressentimento.
Esfria a sua cabeça, por favor... - ela pegou-o pelo braço e virou
o rosto dele em direção ao dela. – Faz isso. Eu te peço, por
favor...
-
Você deve ser Alice? – perguntou Henrique. – Ao menos você
encontrou uma garota sensata, Matheus. Quem sabe ela não te coloca
algum juízo na cabeça. Deixe que eu levo a sua moto. Não vai me
custar nada.
-
Eu não confio em você. – respondeu Matheus. – Não vou deixar
minha moto nas suas mãos. Eu vou junto! Mas você fica na sua que eu
também fico tranquilo na minha. A viagem não deve ser tão longa
assim.
-
Pois então vamos logo cuidando com isso que eu não tenho o dia
todo. – falou Henrique, sempre querendo dar a palavra final.
Já
fora da pousada, o grupo despediu-se. Matheus e Alice se abraçaram,
beijaram-se. Ele prometeu ligar para ela mais tarde quando estivesse
chegado em casa. Ela não conseguiu disfarçar a emoção, seus olhos
estavam marejados. Por impulso Alice o abraçou com força e
sussurrou no seu ouvido:
-
Ainda nessa semana quero te ver. Promete que vem?
-
Claro. – ele sorriu.
Matheus
saiu com o irmão deixando Alice com seus colegas a observá-los.
Viviane chegou-se à amiga abraçando-a e beijando seu rosto:
-
Ele parece ser um cara legal, amiga. Espero que você saiba o que
está fazendo. – falou Viviane preocupada com o rápido
envolvimento de Alice com Matheus.
**********
Na
estrada, os irmãos não se falam. Cada um permanece calado desejando
que a viagem termine o mais rápido possível. De uma forma estranha
o pescoço de Matheus volta a incomodá-lo. Mesmo assim o cansaço da
noite anterior passada em claro fez com que Matheus adormecesse.
Henrique,
apesar da forma dura de tratar o irmão, estava muito preocupado com
ele. Não conseguia entender como um garoto com um futuro tão
brilhante deixou sua vida se perder daquele jeito. A morte dos pais
havia mexido muito com Matheus. Henrique tentou ajudar o irmão, mas
era inútil. Matheus estava sem motivação para voltar aos estudos.
Havia largado o curso de engenharia civil no último período e não
tinha planos de retomá-lo. Henrique também o convidou várias vezes
para que ele o ajudasse na administração do patrimônio herdado dos
pais, mas nada mais tinha importância para Matheus além de sua moto
e daquela sua banda que nunca conseguia emplacar nada. Vivia bêbado.
Morava sozinho em um apartamento velho e acabado. Era muito orgulhoso
para aceitar qualquer ajuda do irmão, mesmo que fosse fruto da
empresa que pertencia a ambos. Henrique estava preocupado. Seu irmão
estava perdido.
Já
estava escurecendo quando chegaram em Belo Horizonte. Durante toda a
viagem os dois não trocaram uma palavra sequer. Matheus queria ir
logo para seu apartamento, mas Henrique insistiu que, pelo menos
naquela noite, ele dormisse no seu antigo quarto, na casa da família.
Ele argumentou que o irmão não tinha condições ainda de se cuidar
sozinho e que Maria, a empregada que cuidara de Matheus desde a sua
infância, trataria dele muito bem. Não sem resistência Matheus
aceitou o convite de Henrique. Um mal estar o acometera subitamente
de forma que ele achou mais sensato não passar aquela noite sozinho.
Mal
chegaram e Maria foi logo tratando de alojar Matheus em seu antigo
quarto. Fazia tempo desde a última vez que o vira e estava também
preocupada com a saúde dele. Enfim Matheus aliviou seu semblante
fechado no momento que reviu Maria. Ela era uma lembrança agradável
do tempo em que sua família era completa e feliz. Matheus foi para o
quarto, agradeceu a Maria e deitou-se na cama lembrando da época que
morara ali. Ficou melancólico ao lembrar de seus pais.
O
mal estar agora estava muito forte. Ele não conseguia entender como
era possível ter piorado tanto tão rapidamente. Sentia um forte
enjoo e dores no estômago, além de fortes tonturas. Ele sentiu-se
mais fraco como se fosse desfalecer. E de repente uma forte dor de
cabeça tomou-lhe a mente. Matheus já estava se levantando para
pedir ajuda quando uma voz o chamou:
“-
Matheus,... deixe-me devorar sua alma! Eu vou aliviá-lo de suas
dores. Entregue-se ao meu controle!” – uma voz estava falando na
mente de Matheus. Uma voz gutural e sombria. “- Não existe
esperança para você. Deixe-me tomar o controle, deixe-me mostrar o
meu poder!”
-
Que é isso?! Quem é você? Será que é outro sonho?... – Matheus
estava assustado.
“-
Enfim você pode ouvir minha voz, garoto? Está na hora de você
adormecer permanentemente. Eu vou possuí-lo, vou me apossar de seu
corpo. Sua pequena alma humana irá perecer em minhas mãos.” –
uma risada desesperadoramente sinistra ecoou na cabeça de Matheus.
-
Pare com isso! Deixe-me em paz! Saia daqui!... – Ele estava
confuso, sentia-se tonto. As paredes do quarto estavam girando.
“-
Você não sabe como esperei pelo momento de nosso encontro. Eu
deveria tê-lo subjugado há mais tempo não fosse aquela sua
companhia desagradável. Agora que você está totalmente indefeso,
vou consumi-lo completamente e assumir minha verdadeira e completa
forma. Deixe de lutar contra mim, Matheus! Você não tem a mínima
chance. Eu, Shaladiel, sou um dos mais poderosos demônios desse
mundo! Sucumba e deixe-me ter minha vingança contra esses infelizes
humanos!”
A
dor de Matheus passou a ser insuportável. Seu corpo todo começou a
contorcer-se. Seus músculos estavam tensos, rijos. Ele todo tremia.
Gradativamente ele foi perdendo o controle de seus movimentos. E em
sua cabeça acontecia uma verdadeira luta de espíritos pelo controle
daquele corpo.
“–
Entregue-se, garoto! Não há como me
vencer nessas condições. Selene brilha intensa e completa em seus
esplendor! A sua luz me dá ainda mais força e poder! Veja...”
Matheus
já não conseguia controlar os movimentos de seu corpo. Shaladiel o
tinha dominado completamente. O demônio os conduziu até a janela do
quarto e abriu-a completamente, deixando a luz clara e azulada da lua
cheia que pairava naquele céu limpo encher todo o quarto. Nesse
momento Shaladiel soltou um urro infernal. Matheus já não tinha o
que fazer, seu corpo estava transformando-se. Ele sentia seus ossos
se partirem para emendarem-se novamente, mas em novas formas. Sua
pele parecia ser rasgada pelos pelos que brotavam de todo o seu
corpo. Seu rosto foi se alongando e suas presas crescendo até dar a
ele uma feição de animal. Já não possuía nem mãos ou pés, mas
patas com garras afiadíssimas. Ele sentia as mudanças por todo o
seu corpo e uma dor intensa como se ele todo estivesse queimando
vivo. Por fim, não era mais Matheus quem estava naquele quarto, mas
um bestial lobo-demônio iluminado pela luz da lua. De repente,
batidas na porta. Era Maria que ouvira o barulho do que ocorria no
quarto e tinha ido ver o que estava acontecendo com Matheus.
O
lobo demoníaco que agora atendia pelo nome de Shaladiel sorriu.
Acabava de encontrar sua primeira vítima. Dentro daquela fera, em
algum lugar perdido, Matheus sofria em desespero observando tudo e
sem forças para poder impedi-lo.

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