sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

LdS - Livro I - Capítulo 6 - O chamado de Selene



Enfim o amanhecer chega. Matheus manteve segredo sobre seus sonhos não comentando nada com Alice. Ele esperou calmamente que ela despertasse. Matheus não conseguiu dormir mais nada naquela noite, seus pensamentos e medos não deixaram ele se desligar da realidade. Ele acariciava os cabelos de Alice enquanto mais uma vez pensava sobre seus sonhos estranhos dos últimos dias. Resistia com todas as suas forças a possibilidade de acreditar em toda aquela loucura. Era muito racional para isso.

O despertar de Alice foi tranquilo. Matheus a saudou com um sorriso. Conversaram um pouco, riram, combinaram de continuar se vendo sempre que possível. A fome os fez levantar da cama. Em pouco tempo os dois já estavam no refeitório da pousada tomando café acompanhados dos amigos. Matheus teve a oportunidade de conhecer Miguel e André, os dois que ajudaram Alice no seu socorro. Estavam também com eles Adriana e Viviane, amigas e colegas de faculdade de Alice. Os amigos tinham viajado para passar o fim de semana naquela cidade por ideia de Viviane, melhor amiga e confidente de Alice. Agora estavam prontos para sua viagem de retorno. O grupo já estava terminando o seu café, quando Diogo e Alberto chegaram. Todos foram apresentados e rapidamente criou- se um ambiente agradável entre eles. Alice estava visivelmente feliz. Matheus tentava desviar sua mente de suas preocupações, não queria estragar aquele momento.

- Henrique já deve estar chegando. Ele me ligou tem uns vinte minutos avisando que já estava na cidade. – informou Diogo enquanto conferia as horas em seu celular.

- Só assim para ele largar o trabalho... - responde Matheus visivelmente desanimado. Ele e o irmão não tinham uma boa relação.

- Cara, vê se vocês não brigam dessa vez. Ele estava muito preocupado contigo. – aconselhou Diogo.

- Diogo, quem procura briga é ele. Eu só quero viver minha vida em paz. Ele é quem não se conforma com o estilo de vida que eu levo e quer me obrigar a fazer o que ele acha ser o melhor para mim. Ele acha, por ser mais velho, que tem que cuidar de mim. Sempre foi assim e piorou ainda mais depois da morte dos nossos pais. Henrique ficou muito carrancudo, muito chato. Ele deveria levar a vida de forma mais leve.

- Se é isso que você acha, irmãozinho... - Henrique acabara de entrar no refeitório à procura do irmão. Eram quase onze da manhã. – Mas eu jurei pro nosso pai que iria cuidar de você. A questão é que você ainda é muito imaturo, Matheus. E isso já me fez cansar de tentar ajudá-lo. Estou aqui somente pela promessa que fiz ao papai.

- Pois eu libero você dessa promessa, Henrique! – respondeu Matheus já irritado com o irmão. – Eu também já cansei de ter você se metendo na minha vida, tentando me moldar. Eu já estou muito bem, não preciso da sua ajuda. Pode ir embora.

O clima ficou pesado muito rapidamente. Alice não imaginara que os irmãos não se suportassem daquela forma. Tinha errado em tê-lo chamado, pensava.

- Pois essa é a última vez que eu faço algo por você, Matheus. Você é um egoísta e ingrato. Fica levando essa vidinha de músico falido enquanto eu sozinho carrego a empresa nas costas. Nosso pai ficaria muito decepcionado vendo o seu desleixo com o que ele construiu com tanto esforço...

- Não venha querer me dar lição de moral! E eu não admito que você coloque a memória de nosso pai nessa discussão! – Matheus deu um soco na mesa. – Eu não admito!

- Calma galera que a gente não vai dar vexame aqui, não é? – levanta-se Alberto tentando jogar panos quentes na situação. – Olha, eu e Diogo levamos Matheus para casa, pode deixar. Só não temos como transportar a moto dele. Se desse para você levá-la na sua pick-up...

- Eu quero ir com a minha moto! Já estou bem, eu posso levá-la.

- Não, Matheus... - Alice resolveu interferir. – Você ainda está muito machucado, não tem condições de levar a moto. Deixe o seu irmão levá-la para você. Eu estou com um mau pressentimento. Esfria a sua cabeça, por favor... - ela pegou-o pelo braço e virou o rosto dele em direção ao dela. – Faz isso. Eu te peço, por favor...

- Você deve ser Alice? – perguntou Henrique. – Ao menos você encontrou uma garota sensata, Matheus. Quem sabe ela não te coloca algum juízo na cabeça. Deixe que eu levo a sua moto. Não vai me custar nada.

- Eu não confio em você. – respondeu Matheus. – Não vou deixar minha moto nas suas mãos. Eu vou junto! Mas você fica na sua que eu também fico tranquilo na minha. A viagem não deve ser tão longa assim.

- Pois então vamos logo cuidando com isso que eu não tenho o dia todo. – falou Henrique, sempre querendo dar a palavra final.

Já fora da pousada, o grupo despediu-se. Matheus e Alice se abraçaram, beijaram-se. Ele prometeu ligar para ela mais tarde quando estivesse chegado em casa. Ela não conseguiu disfarçar a emoção, seus olhos estavam marejados. Por impulso Alice o abraçou com força e sussurrou no seu ouvido:

- Ainda nessa semana quero te ver. Promete que vem?

- Claro. – ele sorriu.

Matheus saiu com o irmão deixando Alice com seus colegas a observá-los. Viviane chegou-se à amiga abraçando-a e beijando seu rosto:

- Ele parece ser um cara legal, amiga. Espero que você saiba o que está fazendo. – falou Viviane preocupada com o rápido envolvimento de Alice com Matheus.

**********

Na estrada, os irmãos não se falam. Cada um permanece calado desejando que a viagem termine o mais rápido possível. De uma forma estranha o pescoço de Matheus volta a incomodá-lo. Mesmo assim o cansaço da noite anterior passada em claro fez com que Matheus adormecesse.

Henrique, apesar da forma dura de tratar o irmão, estava muito preocupado com ele. Não conseguia entender como um garoto com um futuro tão brilhante deixou sua vida se perder daquele jeito. A morte dos pais havia mexido muito com Matheus. Henrique tentou ajudar o irmão, mas era inútil. Matheus estava sem motivação para voltar aos estudos. Havia largado o curso de engenharia civil no último período e não tinha planos de retomá-lo. Henrique também o convidou várias vezes para que ele o ajudasse na administração do patrimônio herdado dos pais, mas nada mais tinha importância para Matheus além de sua moto e daquela sua banda que nunca conseguia emplacar nada. Vivia bêbado. Morava sozinho em um apartamento velho e acabado. Era muito orgulhoso para aceitar qualquer ajuda do irmão, mesmo que fosse fruto da empresa que pertencia a ambos. Henrique estava preocupado. Seu irmão estava perdido.

Já estava escurecendo quando chegaram em Belo Horizonte. Durante toda a viagem os dois não trocaram uma palavra sequer. Matheus queria ir logo para seu apartamento, mas Henrique insistiu que, pelo menos naquela noite, ele dormisse no seu antigo quarto, na casa da família. Ele argumentou que o irmão não tinha condições ainda de se cuidar sozinho e que Maria, a empregada que cuidara de Matheus desde a sua infância, trataria dele muito bem. Não sem resistência Matheus aceitou o convite de Henrique. Um mal estar o acometera subitamente de forma que ele achou mais sensato não passar aquela noite sozinho.

Mal chegaram e Maria foi logo tratando de alojar Matheus em seu antigo quarto. Fazia tempo desde a última vez que o vira e estava também preocupada com a saúde dele. Enfim Matheus aliviou seu semblante fechado no momento que reviu Maria. Ela era uma lembrança agradável do tempo em que sua família era completa e feliz. Matheus foi para o quarto, agradeceu a Maria e deitou-se na cama lembrando da época que morara ali. Ficou melancólico ao lembrar de seus pais.

O mal estar agora estava muito forte. Ele não conseguia entender como era possível ter piorado tanto tão rapidamente. Sentia um forte enjoo e dores no estômago, além de fortes tonturas. Ele sentiu-se mais fraco como se fosse desfalecer. E de repente uma forte dor de cabeça tomou-lhe a mente. Matheus já estava se levantando para pedir ajuda quando uma voz o chamou:

- Matheus,... deixe-me devorar sua alma! Eu vou aliviá-lo de suas dores. Entregue-se ao meu controle!” – uma voz estava falando na mente de Matheus. Uma voz gutural e sombria. “- Não existe esperança para você. Deixe-me tomar o controle, deixe-me mostrar o meu poder!”

- Que é isso?! Quem é você? Será que é outro sonho?... – Matheus estava assustado.

- Enfim você pode ouvir minha voz, garoto? Está na hora de você adormecer permanentemente. Eu vou possuí-lo, vou me apossar de seu corpo. Sua pequena alma humana irá perecer em minhas mãos.” – uma risada desesperadoramente sinistra ecoou na cabeça de Matheus.

- Pare com isso! Deixe-me em paz! Saia daqui!... – Ele estava confuso, sentia-se tonto. As paredes do quarto estavam girando.

- Você não sabe como esperei pelo momento de nosso encontro. Eu deveria tê-lo subjugado há mais tempo não fosse aquela sua companhia desagradável. Agora que você está totalmente indefeso, vou consumi-lo completamente e assumir minha verdadeira e completa forma. Deixe de lutar contra mim, Matheus! Você não tem a mínima chance. Eu, Shaladiel, sou um dos mais poderosos demônios desse mundo! Sucumba e deixe-me ter minha vingança contra esses infelizes humanos!”

A dor de Matheus passou a ser insuportável. Seu corpo todo começou a contorcer-se. Seus músculos estavam tensos, rijos. Ele todo tremia. Gradativamente ele foi perdendo o controle de seus movimentos. E em sua cabeça acontecia uma verdadeira luta de espíritos pelo controle daquele corpo.

“– Entregue-se, garoto! Não há como me vencer nessas condições. Selene brilha intensa e completa em seus esplendor! A sua luz me dá ainda mais força e poder! Veja...”

Matheus já não conseguia controlar os movimentos de seu corpo. Shaladiel o tinha dominado completamente. O demônio os conduziu até a janela do quarto e abriu-a completamente, deixando a luz clara e azulada da lua cheia que pairava naquele céu limpo encher todo o quarto. Nesse momento Shaladiel soltou um urro infernal. Matheus já não tinha o que fazer, seu corpo estava transformando-se. Ele sentia seus ossos se partirem para emendarem-se novamente, mas em novas formas. Sua pele parecia ser rasgada pelos pelos que brotavam de todo o seu corpo. Seu rosto foi se alongando e suas presas crescendo até dar a ele uma feição de animal. Já não possuía nem mãos ou pés, mas patas com garras afiadíssimas. Ele sentia as mudanças por todo o seu corpo e uma dor intensa como se ele todo estivesse queimando vivo. Por fim, não era mais Matheus quem estava naquele quarto, mas um bestial lobo-demônio iluminado pela luz da lua. De repente, batidas na porta. Era Maria que ouvira o barulho do que ocorria no quarto e tinha ido ver o que estava acontecendo com Matheus.

O lobo demoníaco que agora atendia pelo nome de Shaladiel sorriu. Acabava de encontrar sua primeira vítima. Dentro daquela fera, em algum lugar perdido, Matheus sofria em desespero observando tudo e sem forças para poder impedi-lo.

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