O
vento forte tocava seu rosto. Estavam à 180 km/h. A noite estava
acabando e os primeiros raios de sol começavam a surgir no
horizonte. Alice se agarrava com força ao corpo dele. Na sua frente,
Demétrius os guiava para outra cidade que eles não conheciam. Não
conseguia imaginar como seria sua vida de agora em diante. Mesmo com
toda aquela confusão, ainda vinha em sua mente a lembrança do corpo
de Henrique morto no chão. Essa era uma culpa que ele não se
permitia esquecer. Curiosamente Shaladiel não o incomodara mais.
Agora sabia que, enquanto estivesse na companhia de Alice, estaria
livre da influência do demônio. Aquilo era um pequeno conforto em
meio ao turbilhão de coisas que agora o envolviam. Seu coração
estava apertado, uma angústia fina tomava conta de seu ser. Como
seria possível conseguir sua antiga vida de volta? Conseguiria ele
ser feliz novamente mesmo carregando aquela maldição? Um frio na
barriga vinha toda vez que pensava que agora estavam sendo caçados
por outros monstros como aqueles. O sol já começava a aparecer
agora. Seus raios laranja-amarelados iluminavam a estrada que eles
rasgavam numa velocidade incrível. O calor de Alice, seus beijos, o
medo de perdê-la, o medo do inesperado, tudo se misturava em sua
cabeça enquanto ele acelerava e deixava toda a sua vida para trás.
Alice
não entendia o que acontecera com ela. Por que aquelas pessoas a
chamavam de Gadol? Que poder era aquele que emanara de seu corpo e
que atordoara de tal maneira aquela criatura? Por mais que ela amasse
Matheus e que realmente quisesse ajudá-lo, agora ela não conseguia
achar a mesma coragem de outrora. Ela estava confusa e com medo. De
uma hora para outra sua vida passou a correr perigo. Estava na garupa
de uma moto, partindo para um lugar desconhecido, sem saber quando
poderia retornar para casa, para junto dos seus. Os fatos ocorridos
naquela noite voltavam sempre a rondar seus pensamentos juntamente
com a lembrança de seu avô. Aquela tatuagem que salvou sua vida era
o desenho do tal amuleto que ela recebera, quando criança ainda, de
presente de seu velho avô. Ela não usava mais o pingente, havia
guardado como joia de família, mas tatuara sua forma no corpo para
cumprir a promessa feita ao avô de jamais se separar daquele
amuleto. Agora ela descobrira que tudo o que ele havia contado sobre
os demônios era verdade. A forma como agora Alice via o mundo havia
mudado, nada mais era como antes.
Depois
de aproximadamente quatro horas de viagem, o sol já brilhava forte
no céu. Eles pararam na entrada de uma reserva ambiental, um local
ermo no meio do nada. A mata nativa ainda era intocada e não se
tinha sinais da presença humana nas proximidades. Demétrius
estacionou o carro e os três licantropos desceram do Jeep. Matheus e
Alice fizeram o mesmo e foram na direção do trio aguardando suas
orientações:
-
Devemos prosseguir agora sem os veículos. Vamos continuar nossa
viagem mata adentro. - falou Demétrius. - Nosso rastro será mais
difícil de seguir se formos por dentro da floresta. Nossos inimigos
são especialistas em rastrear suas presas, precisamos ser
extremamente cautelosos em nossa fuga.
-
Matheus,... - Nicole aproximou-se do jovem casal. - nessa parte da
viagem precisaremos nos transmutar. É preciso que você também
torne-se um lobo. A viagem será muito mais rápida dessa forma. É
preciso que você se esforce. Agora irremediavelmente é necessário
que comece seu treinamento nas habilidades dos amaldiçoados. Você
terá que evoluir rapidamente em conhecimento se quiser continuar
vivo.
-
Tudo bem. - respondeu Matheus. - Eu entendi que agora não posso me
dar ao luxo de ignorar os poderes vindos dessa maldição. Tenho que
conseguir meios para proteger a mim e a Alice. Mas antes nós temos
uma pergunta que gostaríamos que fosse respondida.
-
Pois então sejam breves em suas perguntas. - falou Demétrius. - Não
podemos perder tempo. Não sabemos quantos Nightkillers estavam
rodeando aquela região, nem quais as reais consequências dos
acontecimentos dessa noite. É provável que alguém tenha visto o
que aconteceu e acabe contando para as autoridades. Por mais que seja
difícil de acreditar, se essas informações de alguma forma forem
difundidas nos meios de comunicação, estaremos muito mais
encrencados. Os dois grupos de licantropos terão a certeza de nossa
presença nessa área e então passaremos a ser caçados de forma
mais intensa ainda.
-
Então vou ser breve e direta. O que vocês quiseram dizer quando me
chamaram de Gadol? - Alice lançara uma pergunta fundamental.
-
Bem, íamos explicar para vocês do que se tratava, mas fomos
interrompidos bruscamente. - enquanto falava, Demétrius ajudava suas
companheiras a espalhar gasolina em todo o Jeep. - Como contamos na
lenda de Licaon, um grupo de sacerdotes uniu-se para combatê-lo em
sua loucura, estando Licaon sob o domínio de Gautargh. Reuniu-se um
verdadeiro exército. Muitos morreram na luta, mas um pequeno grupo
conseguiu sobreviver e afugentar o monstro. Esse grupo de guerreiros
sacerdotes que lutou contra o maior dos licantropos é que deu origem
aos que hoje são chamados de Gadols. Eles são, na verdade, nada
mais nada menos que caçadores de demônios. No princípio era um
único grupo. Só que, ao que parece, houve um cisma entre dois de
seus líderes e o grupo original foi rachado ao meio, criando-se dois
novos grupos, um radicado no ocidente e outro no oriente. Os Gadols
ocidentais eram mais belicosos, perseguiam e matavam os amaldiçoados
de forma implacável. Eles usavam como símbolo e amuleto o Ankh,
conhecido também como Cruz Ansata. Já os Gadols orientais estavam
mais interessados em dominar os mistérios do sobrenatural e até
chegaram a estudar com mais afinco a magia. Eles usavam a Chamsa como
símbolo. Os dois grupos combateram e mataram muitos licantropos no
passado, quando ainda eram fortes. Mas na grande batalha conhecida
como “Noite dos Demônios”, quando pela última vez os
licantropos lutaram sob uma única liderança, eles foram quase que
totalmente dizimados da face da terra, restando somente pequenos
grupos isolados de sobreviventes. Eu particularmente nunca havia
encontrado um Gadol, até agora. Os poucos que ainda existem
espalhados pelo mundo são odiados, mas também temidos pelos
amaldiçoados.
Alice
escutava tudo com muita atenção. Estava agora lembrando de seu avô,
Hilal. Sabia que ele tinha vindo da Turquia com sua família fugindo
de um grupo que matara todos os seus amigos e que também o estava
perseguindo. O pai de Alice, que ainda era criança quando do
ocorrido, não tocava nunca no assunto e também rejeitava os
ensinamentos de seu pai Hilal. Alice achava que o tal grupo fosse
algum tipo de máfia turca. Agora, depois das informações de
Demétrius, entendeu que seu avô provavelmente fora descoberto e
estava fugindo dos amaldiçoados ao vir fixar residência no Brasil.
Demétrius prosseguia falando sobre os Gadols:
-
Os licantropos que já lutaram contra algum Gadol dizem que
sentiram-se como que combatendo outro ser sobrenatural, já que eles
provavelmente têm o sangue dos lendários sacerdotes e possuem o
conhecimento de magia, usando-a para conseguir vantagem na luta.
Sabe-se que normalmente eles agem em grupo. Notadamente ainda se
encontram Gadols em parte na Europa, no Oriente Médio e no extremo
leste da Ásia em partes dos territórios da Mongólia, Tibete e
China. Devido a carnificina que outrora ocorreram naqueles
territórios, muitos amaldiçoados migraram, para fugir das guerras,
para outras regiões do globo, desde o século XVIII, e em especial
para o continente americano. Tudo indica que alguns Gadols já
estejam por aqui também, mas num número ainda pequeno para ser
significante.
-
Com certeza você tem sangue Gadol, Alice. - interrompeu Elizabeth. -
É por isso que você tem tanta influência sobre os obsessores. Quem
te passou a Chamsa como símbolo de proteção? Ele ainda está vivo?
-
Quem me pediu para sempre usá-la foi meu avô, mas ele faleceu já
faz dez anos. Ele pediu para nunca me apartar do amuleto. Como tinha
medo de ser roubada, acabei guardando-o num cofre e tatuei sua figura
no meu pulso como forma de não quebrar a promessa feita a ele.
-
Mas então seu avô deveria ser um Gadol. Ele te passou algum
ensinamento, alguma coisa que possa ser útil para nos livrar da
maldição? - Elizabeth estava esperançosa.
-
Infelizmente meu pai não deixava que meu avô me falasse sobre essas
coisas. Em segredo, ele me contou algumas poucas coisas, mas somente
quando estávamos a sós. Eu mesma era muito criança na época e não
lembro de muita coisa. Sinto um pouco de remorso agora em saber que
meu avô falava a verdade quando me contava todas aquelas história.
Depois que cresci, achei que fosse tudo apenas invenção dele para
me impressionar. Agora vejo que ele estava tentando me ensinar coisas
importantes e não dei a devida atenção... - Os olhos de Alice
encheram-se de lágrimas.
-
Bem, agora não é momento para sentir remorso. - Demétrius cortou o
silêncio. - Precisamos primeiro garantir nossa segurança. Vamos, me
ajudem aqui.
Logo
os três licantropos empurraram o carro para um grande desnível
próximo à pista. Demétrius acendeu um isqueiro e ateou fogo no
Jeep. Em pouco tempo o carro todo estava em chamas.
-
Sua moto também deve ser queimada para apagar nosso rastro. O cheiro
de vocês agora também deve ser conhecido de nossos perseguidores. -
falava Nicole, tentando esclarecer os motivos para tudo aquilo.
-
Se não há outra forma... - Matheus arrastou sua moto até as chamas
e a jogou para também ser queimada.
Enquanto
eles observavam os veículos serem consumidos pelas chamas o celular
de Matheus tocou. Era Alberto que ligava. Matheus primeiramente não
quis atender, mas a curiosidade foi mais forte:
-
Alô, é Matheus. Por que você está me ligando tão cedo, Alberto?
-
Cara, que loucura! Onde você está, Matheus?! Graças a Deus você
está vivo! Eu não acredito que você ainda não sabe de nada!
Aconteceu uma tragédia com o teu irmão, cara. Acho melhor você se
sentar que o negócio é muito sério.
-
O que aconteceu, Alberto? Desembucha logo! - Matheus fazia-se de
desentendido.
-
Eu acho melhor contar para você pessoalmente. Onde você está? A
gente precisa conversar. A polícia quer que você entre em contato
com eles o mais rápido possível. Eles precisam da tua ajuda. Eu não
disse nada pra eles, mas acredito que você deve ter sido a última
pessoa que falou com Henrique. Ele não te falou nada estranho? Não
comentou nada que te chamou atenção?
-
Como assim a última pessoa que falou com Henrique?! O que aconteceu
com meu irmão, Alberto?
-
Cara, o teu irmão tá morto! Invadiram a casa da tua família e
mataram todo mundo! Os corpos dos empregados foram encontrados todos
destruídos. Parece que usaram animais, talvez cachorros, para
mutilar os corpos. Tá todo mundo desesperado atrás de você, cara.
A polícia veio aqui em casa para saber se você estava por aqui.
Eles precisam que você ajude nas investigações. Querem saber se
teu irmão tinha algum inimigo que poderia fazer alguma coisa do tipo
contra ele.
-
Olha, Alberto, agora não tem como eu aparecer por aí...
-
Como assim não tem como? Cara, você tá doido?! Porra! O teu irmão
morreu, foi assassinado, você entendeu?! Não é brincadeira, o
negócio é sério, velho! Entraram na casa da tua família e fuderam
com tudo!
-
Olha, cara, agora não dá pra falar. Assim que puder eu te ligo,
tudo bem?
-
Como assim tudo bem?! Você endoid...
Matheus
desligou o telefone. Não conseguia mais falar sobre isso com
Alberto. Ele ainda estava muito abalado. Mas, ao que parecia pela
conversa, ainda não era o principal suspeito pelos crimes. Ele
sentiu uma forte tontura como se fosse desmaiar e um embrulho no
estômago o fez vomitar. Alice percebeu que o assunto tratado no
telefonema o abalara bastante e foi tentar acalmá-lo. Ela abraçou-o
forte e beijou seu rosto. Todos ficaram um momento em silêncio
enquanto Matheus chorava no colo de Alice.
-
Esperamos demais. Me desculpe Matheus, mas já é hora de irmos. -
falando isso, Demétrius , após ter retirado suas roupas,
transmutou-se no grande lobo negro que, dias atrás, havia atacado o
jovem amaldiçoado.
Nicole
e Elizabeth também se despiram e aproximaram-se de Matheus. Ele
deveria aprender rápido a dominar suas novas habilidades.
Pediram-lhe que retirasse as roupas e que se colocasse de pé. Cada
uma delas segurou em um dos ombros do inexperiente licantropo. Esta
seria sua primeira aula:
-
Concentre-se. Sinta a essência que exite em você, a essência de um
animal escondida. Entre em contato com o lobo que vive no seu
interior, Matheus. Vamos, concentre-se!... Nós vamos guiá-lo ao
encontro de sua outra forma. - falou Nicole, enquanto entrava em
sintonia telepática com Matheus.
Matheus
entrou em transe. Pareceu estar novamente no vazio. Em pouco tempo
Nicole e Elizabeth também apareceram em sua visão. Matheus sabia
que estavam como em um sonho, as imagens estavam confusas, parecia
que uma espécie de bruma cercava o ambiente. As duas mulheres
estavam seminuas, cobertas apenas por finos vestidos translúcidos.
Nicole era loira, com cabelos de um amarelo bem claro, tinha um corpo
atlético, definido. Era uma guerreira afinal, mas exalava uma
sensualidade natural de seu corpo. Já Elizabeth tinha os cabelos
castanhos de um tom quase avermelhado, era mais alta e elegante que
sua companheira, com uma postura nobre. Tinha seios fartos e seus
cabelos longos e ondulados chegavam a altura da cintura. As duas
caminhavam na sua frente sorrindo e trocando carícias, chamando-o
para que ele as seguisse. Matheus caminhou na direção das duas
lindas moças. De uma hora para outra o vazio foi substituído por
uma planície enorme e verde. No céu era noite, mas as estrelas e a
lua brilhavam intensamente deixando tudo claro. As duas moças
correram em direção a um lago que estava bem mais a frente. Matheus
esforçou-se para acompanhá-las, chegando um pouco depois. Na margem
do lago, estavam as duas garotas inclinadas acariciando um grande
lobo cinza que bebia um pouco de água. As duas olharam para Matheus
e sorriram. Ele entendeu o que elas sinalizavam, aquele era o seu
lobo interior. Ali era o local onde ele aguardava pelo chamado de
Matheus. Lentamente ele se aproximou do lobo. O belo animal ergueu
sua cabeça e partiu calmamente ao seu encontro. Ao chegar um à
frente do outro, os dois pararam. Então Matheus ajoelhou-se e
abraçou o lobo. Depois disso tudo ficou escuro novamente. Ao abrir
seus olhos, Matheus não era mais um homem, mas sim um enorme lobo de
pelo cinza.
Alice
observou a tudo com espanto. As outras duas, Nicole e Elizabeth,
também já tinham transmutado-se. Nicole transformara-se em uma loba
branca e Elizabeth era uma loba de pelos castanhos que clareavam ao
longo da parte inferior do corpo. As lobas chegaram-se para junto de
Demétrius. Matheus aproximou-se de Alice e, inclinando-se, deu a
entender que era para ela montar em suas costas. Alice atendeu ao
pedido de Matheus, montando em seu dorso e segurando firme em seus
longos pelos de cor cinza. Demétrius soltou um uivo demorado. Ao
fim, ele pôs-se em disparada para dentro da mata, sendo seguido por
seus companheiros. Alice teve que agarra-se com força em Matheus,
pois eles corriam e saltavam em grande velocidade. O vento batia no
rosto de Alice agitando seus cabelos. A sensação de liberdade era
única. Eles pareciam voar com o vento. Em pouco tempo já haviam se
deslocado muitos quilômetros à frente. Alice provara algo
totalmente indescritível. Aqueles lobos eram realmente animais
sobrenaturais, muito rápidos e ágeis. Eles facilmente cortavam a
floresta, avançando rapidamente por entre a mata fechada. Demétrius
estava à frente guiando os outros três lobos, queria obstinadamente
chegar ao seu refúgio o quanto antes.
**********
No
casarão destruído pela luta da noite anterior, a polícia
vasculhava o local. Encontraram no chão os corpos dos quatro
Nightkillers e, para sua surpresa, descobriram que um deles não
estava morto. O homem sobrevivente possuía uma tatuagem de um
demônio em seu pescoço. Eles chamaram o socorro médico e agora
aguardavam pela sua chegada.
Poucos
minutos depois, um grupo com seis jovens, quatro rapazes e duas
moças, todos vestindo casacos negros com letras NK gravados em seus
ombros, chegaram ao casarão e, mesmo sem autorização das
autoridades, invadiram o local. Os policiais, ao ver que o grupo
deveria fazer parte da mesma gangue das vítimas mortas, os abordaram
com armas em punho. Em pouco tempo, todos os vinte policiais que
estavam no local foram mortos. Aqueles Nightkillers não queriam
perder tempo. Eles queriam achar suas presas o mais rápido possível.

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