sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

LdS - Livro I - Capítulo 11 - Em disparada



O vento forte tocava seu rosto. Estavam à 180 km/h. A noite estava acabando e os primeiros raios de sol começavam a surgir no horizonte. Alice se agarrava com força ao corpo dele. Na sua frente, Demétrius os guiava para outra cidade que eles não conheciam. Não conseguia imaginar como seria sua vida de agora em diante. Mesmo com toda aquela confusão, ainda vinha em sua mente a lembrança do corpo de Henrique morto no chão. Essa era uma culpa que ele não se permitia esquecer. Curiosamente Shaladiel não o incomodara mais. Agora sabia que, enquanto estivesse na companhia de Alice, estaria livre da influência do demônio. Aquilo era um pequeno conforto em meio ao turbilhão de coisas que agora o envolviam. Seu coração estava apertado, uma angústia fina tomava conta de seu ser. Como seria possível conseguir sua antiga vida de volta? Conseguiria ele ser feliz novamente mesmo carregando aquela maldição? Um frio na barriga vinha toda vez que pensava que agora estavam sendo caçados por outros monstros como aqueles. O sol já começava a aparecer agora. Seus raios laranja-amarelados iluminavam a estrada que eles rasgavam numa velocidade incrível. O calor de Alice, seus beijos, o medo de perdê-la, o medo do inesperado, tudo se misturava em sua cabeça enquanto ele acelerava e deixava toda a sua vida para trás.

Alice não entendia o que acontecera com ela. Por que aquelas pessoas a chamavam de Gadol? Que poder era aquele que emanara de seu corpo e que atordoara de tal maneira aquela criatura? Por mais que ela amasse Matheus e que realmente quisesse ajudá-lo, agora ela não conseguia achar a mesma coragem de outrora. Ela estava confusa e com medo. De uma hora para outra sua vida passou a correr perigo. Estava na garupa de uma moto, partindo para um lugar desconhecido, sem saber quando poderia retornar para casa, para junto dos seus. Os fatos ocorridos naquela noite voltavam sempre a rondar seus pensamentos juntamente com a lembrança de seu avô. Aquela tatuagem que salvou sua vida era o desenho do tal amuleto que ela recebera, quando criança ainda, de presente de seu velho avô. Ela não usava mais o pingente, havia guardado como joia de família, mas tatuara sua forma no corpo para cumprir a promessa feita ao avô de jamais se separar daquele amuleto. Agora ela descobrira que tudo o que ele havia contado sobre os demônios era verdade. A forma como agora Alice via o mundo havia mudado, nada mais era como antes.

Depois de aproximadamente quatro horas de viagem, o sol já brilhava forte no céu. Eles pararam na entrada de uma reserva ambiental, um local ermo no meio do nada. A mata nativa ainda era intocada e não se tinha sinais da presença humana nas proximidades. Demétrius estacionou o carro e os três licantropos desceram do Jeep. Matheus e Alice fizeram o mesmo e foram na direção do trio aguardando suas orientações:

- Devemos prosseguir agora sem os veículos. Vamos continuar nossa viagem mata adentro. - falou Demétrius. - Nosso rastro será mais difícil de seguir se formos por dentro da floresta. Nossos inimigos são especialistas em rastrear suas presas, precisamos ser extremamente cautelosos em nossa fuga.

- Matheus,... - Nicole aproximou-se do jovem casal. - nessa parte da viagem precisaremos nos transmutar. É preciso que você também torne-se um lobo. A viagem será muito mais rápida dessa forma. É preciso que você se esforce. Agora irremediavelmente é necessário que comece seu treinamento nas habilidades dos amaldiçoados. Você terá que evoluir rapidamente em conhecimento se quiser continuar vivo.

- Tudo bem. - respondeu Matheus. - Eu entendi que agora não posso me dar ao luxo de ignorar os poderes vindos dessa maldição. Tenho que conseguir meios para proteger a mim e a Alice. Mas antes nós temos uma pergunta que gostaríamos que fosse respondida.

- Pois então sejam breves em suas perguntas. - falou Demétrius. - Não podemos perder tempo. Não sabemos quantos Nightkillers estavam rodeando aquela região, nem quais as reais consequências dos acontecimentos dessa noite. É provável que alguém tenha visto o que aconteceu e acabe contando para as autoridades. Por mais que seja difícil de acreditar, se essas informações de alguma forma forem difundidas nos meios de comunicação, estaremos muito mais encrencados. Os dois grupos de licantropos terão a certeza de nossa presença nessa área e então passaremos a ser caçados de forma mais intensa ainda.

- Então vou ser breve e direta. O que vocês quiseram dizer quando me chamaram de Gadol? - Alice lançara uma pergunta fundamental.

- Bem, íamos explicar para vocês do que se tratava, mas fomos interrompidos bruscamente. - enquanto falava, Demétrius ajudava suas companheiras a espalhar gasolina em todo o Jeep. - Como contamos na lenda de Licaon, um grupo de sacerdotes uniu-se para combatê-lo em sua loucura, estando Licaon sob o domínio de Gautargh. Reuniu-se um verdadeiro exército. Muitos morreram na luta, mas um pequeno grupo conseguiu sobreviver e afugentar o monstro. Esse grupo de guerreiros sacerdotes que lutou contra o maior dos licantropos é que deu origem aos que hoje são chamados de Gadols. Eles são, na verdade, nada mais nada menos que caçadores de demônios. No princípio era um único grupo. Só que, ao que parece, houve um cisma entre dois de seus líderes e o grupo original foi rachado ao meio, criando-se dois novos grupos, um radicado no ocidente e outro no oriente. Os Gadols ocidentais eram mais belicosos, perseguiam e matavam os amaldiçoados de forma implacável. Eles usavam como símbolo e amuleto o Ankh, conhecido também como Cruz Ansata. Já os Gadols orientais estavam mais interessados em dominar os mistérios do sobrenatural e até chegaram a estudar com mais afinco a magia. Eles usavam a Chamsa como símbolo. Os dois grupos combateram e mataram muitos licantropos no passado, quando ainda eram fortes. Mas na grande batalha conhecida como “Noite dos Demônios”, quando pela última vez os licantropos lutaram sob uma única liderança, eles foram quase que totalmente dizimados da face da terra, restando somente pequenos grupos isolados de sobreviventes. Eu particularmente nunca havia encontrado um Gadol, até agora. Os poucos que ainda existem espalhados pelo mundo são odiados, mas também temidos pelos amaldiçoados.

Alice escutava tudo com muita atenção. Estava agora lembrando de seu avô, Hilal. Sabia que ele tinha vindo da Turquia com sua família fugindo de um grupo que matara todos os seus amigos e que também o estava perseguindo. O pai de Alice, que ainda era criança quando do ocorrido, não tocava nunca no assunto e também rejeitava os ensinamentos de seu pai Hilal. Alice achava que o tal grupo fosse algum tipo de máfia turca. Agora, depois das informações de Demétrius, entendeu que seu avô provavelmente fora descoberto e estava fugindo dos amaldiçoados ao vir fixar residência no Brasil. Demétrius prosseguia falando sobre os Gadols:

- Os licantropos que já lutaram contra algum Gadol dizem que sentiram-se como que combatendo outro ser sobrenatural, já que eles provavelmente têm o sangue dos lendários sacerdotes e possuem o conhecimento de magia, usando-a para conseguir vantagem na luta. Sabe-se que normalmente eles agem em grupo. Notadamente ainda se encontram Gadols em parte na Europa, no Oriente Médio e no extremo leste da Ásia em partes dos territórios da Mongólia, Tibete e China. Devido a carnificina que outrora ocorreram naqueles territórios, muitos amaldiçoados migraram, para fugir das guerras, para outras regiões do globo, desde o século XVIII, e em especial para o continente americano. Tudo indica que alguns Gadols já estejam por aqui também, mas num número ainda pequeno para ser significante.

- Com certeza você tem sangue Gadol, Alice. - interrompeu Elizabeth. - É por isso que você tem tanta influência sobre os obsessores. Quem te passou a Chamsa como símbolo de proteção? Ele ainda está vivo?

- Quem me pediu para sempre usá-la foi meu avô, mas ele faleceu já faz dez anos. Ele pediu para nunca me apartar do amuleto. Como tinha medo de ser roubada, acabei guardando-o num cofre e tatuei sua figura no meu pulso como forma de não quebrar a promessa feita a ele.

- Mas então seu avô deveria ser um Gadol. Ele te passou algum ensinamento, alguma coisa que possa ser útil para nos livrar da maldição? - Elizabeth estava esperançosa.

- Infelizmente meu pai não deixava que meu avô me falasse sobre essas coisas. Em segredo, ele me contou algumas poucas coisas, mas somente quando estávamos a sós. Eu mesma era muito criança na época e não lembro de muita coisa. Sinto um pouco de remorso agora em saber que meu avô falava a verdade quando me contava todas aquelas história. Depois que cresci, achei que fosse tudo apenas invenção dele para me impressionar. Agora vejo que ele estava tentando me ensinar coisas importantes e não dei a devida atenção... - Os olhos de Alice encheram-se de lágrimas.

- Bem, agora não é momento para sentir remorso. - Demétrius cortou o silêncio. - Precisamos primeiro garantir nossa segurança. Vamos, me ajudem aqui.

Logo os três licantropos empurraram o carro para um grande desnível próximo à pista. Demétrius acendeu um isqueiro e ateou fogo no Jeep. Em pouco tempo o carro todo estava em chamas.

- Sua moto também deve ser queimada para apagar nosso rastro. O cheiro de vocês agora também deve ser conhecido de nossos perseguidores. - falava Nicole, tentando esclarecer os motivos para tudo aquilo.

- Se não há outra forma... - Matheus arrastou sua moto até as chamas e a jogou para também ser queimada.

Enquanto eles observavam os veículos serem consumidos pelas chamas o celular de Matheus tocou. Era Alberto que ligava. Matheus primeiramente não quis atender, mas a curiosidade foi mais forte:

- Alô, é Matheus. Por que você está me ligando tão cedo, Alberto?

- Cara, que loucura! Onde você está, Matheus?! Graças a Deus você está vivo! Eu não acredito que você ainda não sabe de nada! Aconteceu uma tragédia com o teu irmão, cara. Acho melhor você se sentar que o negócio é muito sério.

- O que aconteceu, Alberto? Desembucha logo! - Matheus fazia-se de desentendido.

- Eu acho melhor contar para você pessoalmente. Onde você está? A gente precisa conversar. A polícia quer que você entre em contato com eles o mais rápido possível. Eles precisam da tua ajuda. Eu não disse nada pra eles, mas acredito que você deve ter sido a última pessoa que falou com Henrique. Ele não te falou nada estranho? Não comentou nada que te chamou atenção?

- Como assim a última pessoa que falou com Henrique?! O que aconteceu com meu irmão, Alberto?

- Cara, o teu irmão tá morto! Invadiram a casa da tua família e mataram todo mundo! Os corpos dos empregados foram encontrados todos destruídos. Parece que usaram animais, talvez cachorros, para mutilar os corpos. Tá todo mundo desesperado atrás de você, cara. A polícia veio aqui em casa para saber se você estava por aqui. Eles precisam que você ajude nas investigações. Querem saber se teu irmão tinha algum inimigo que poderia fazer alguma coisa do tipo contra ele.

- Olha, Alberto, agora não tem como eu aparecer por aí...

- Como assim não tem como? Cara, você tá doido?! Porra! O teu irmão morreu, foi assassinado, você entendeu?! Não é brincadeira, o negócio é sério, velho! Entraram na casa da tua família e fuderam com tudo!

- Olha, cara, agora não dá pra falar. Assim que puder eu te ligo, tudo bem?

- Como assim tudo bem?! Você endoid...

Matheus desligou o telefone. Não conseguia mais falar sobre isso com Alberto. Ele ainda estava muito abalado. Mas, ao que parecia pela conversa, ainda não era o principal suspeito pelos crimes. Ele sentiu uma forte tontura como se fosse desmaiar e um embrulho no estômago o fez vomitar. Alice percebeu que o assunto tratado no telefonema o abalara bastante e foi tentar acalmá-lo. Ela abraçou-o forte e beijou seu rosto. Todos ficaram um momento em silêncio enquanto Matheus chorava no colo de Alice.

- Esperamos demais. Me desculpe Matheus, mas já é hora de irmos. - falando isso, Demétrius , após ter retirado suas roupas, transmutou-se no grande lobo negro que, dias atrás, havia atacado o jovem amaldiçoado.

Nicole e Elizabeth também se despiram e aproximaram-se de Matheus. Ele deveria aprender rápido a dominar suas novas habilidades. Pediram-lhe que retirasse as roupas e que se colocasse de pé. Cada uma delas segurou em um dos ombros do inexperiente licantropo. Esta seria sua primeira aula:

- Concentre-se. Sinta a essência que exite em você, a essência de um animal escondida. Entre em contato com o lobo que vive no seu interior, Matheus. Vamos, concentre-se!... Nós vamos guiá-lo ao encontro de sua outra forma. - falou Nicole, enquanto entrava em sintonia telepática com Matheus.

Matheus entrou em transe. Pareceu estar novamente no vazio. Em pouco tempo Nicole e Elizabeth também apareceram em sua visão. Matheus sabia que estavam como em um sonho, as imagens estavam confusas, parecia que uma espécie de bruma cercava o ambiente. As duas mulheres estavam seminuas, cobertas apenas por finos vestidos translúcidos. Nicole era loira, com cabelos de um amarelo bem claro, tinha um corpo atlético, definido. Era uma guerreira afinal, mas exalava uma sensualidade natural de seu corpo. Já Elizabeth tinha os cabelos castanhos de um tom quase avermelhado, era mais alta e elegante que sua companheira, com uma postura nobre. Tinha seios fartos e seus cabelos longos e ondulados chegavam a altura da cintura. As duas caminhavam na sua frente sorrindo e trocando carícias, chamando-o para que ele as seguisse. Matheus caminhou na direção das duas lindas moças. De uma hora para outra o vazio foi substituído por uma planície enorme e verde. No céu era noite, mas as estrelas e a lua brilhavam intensamente deixando tudo claro. As duas moças correram em direção a um lago que estava bem mais a frente. Matheus esforçou-se para acompanhá-las, chegando um pouco depois. Na margem do lago, estavam as duas garotas inclinadas acariciando um grande lobo cinza que bebia um pouco de água. As duas olharam para Matheus e sorriram. Ele entendeu o que elas sinalizavam, aquele era o seu lobo interior. Ali era o local onde ele aguardava pelo chamado de Matheus. Lentamente ele se aproximou do lobo. O belo animal ergueu sua cabeça e partiu calmamente ao seu encontro. Ao chegar um à frente do outro, os dois pararam. Então Matheus ajoelhou-se e abraçou o lobo. Depois disso tudo ficou escuro novamente. Ao abrir seus olhos, Matheus não era mais um homem, mas sim um enorme lobo de pelo cinza.

Alice observou a tudo com espanto. As outras duas, Nicole e Elizabeth, também já tinham transmutado-se. Nicole transformara-se em uma loba branca e Elizabeth era uma loba de pelos castanhos que clareavam ao longo da parte inferior do corpo. As lobas chegaram-se para junto de Demétrius. Matheus aproximou-se de Alice e, inclinando-se, deu a entender que era para ela montar em suas costas. Alice atendeu ao pedido de Matheus, montando em seu dorso e segurando firme em seus longos pelos de cor cinza. Demétrius soltou um uivo demorado. Ao fim, ele pôs-se em disparada para dentro da mata, sendo seguido por seus companheiros. Alice teve que agarra-se com força em Matheus, pois eles corriam e saltavam em grande velocidade. O vento batia no rosto de Alice agitando seus cabelos. A sensação de liberdade era única. Eles pareciam voar com o vento. Em pouco tempo já haviam se deslocado muitos quilômetros à frente. Alice provara algo totalmente indescritível. Aqueles lobos eram realmente animais sobrenaturais, muito rápidos e ágeis. Eles facilmente cortavam a floresta, avançando rapidamente por entre a mata fechada. Demétrius estava à frente guiando os outros três lobos, queria obstinadamente chegar ao seu refúgio o quanto antes.

**********

No casarão destruído pela luta da noite anterior, a polícia vasculhava o local. Encontraram no chão os corpos dos quatro Nightkillers e, para sua surpresa, descobriram que um deles não estava morto. O homem sobrevivente possuía uma tatuagem de um demônio em seu pescoço. Eles chamaram o socorro médico e agora aguardavam pela sua chegada.

Poucos minutos depois, um grupo com seis jovens, quatro rapazes e duas moças, todos vestindo casacos negros com letras NK gravados em seus ombros, chegaram ao casarão e, mesmo sem autorização das autoridades, invadiram o local. Os policiais, ao ver que o grupo deveria fazer parte da mesma gangue das vítimas mortas, os abordaram com armas em punho. Em pouco tempo, todos os vinte policiais que estavam no local foram mortos. Aqueles Nightkillers não queriam perder tempo. Eles queriam achar suas presas o mais rápido possível.

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