quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

LdS - Livro I - Capítulo 25 - Novamente juntos



Depois de algumas horas, eles já haviam se acalmado. Matheus ainda chorou muito a morte de Izabelle. Ficou por vários minutos acariciando os cabelos macios de sua companheira, olhando o corpo inerte daquela que ajudou-o a reencontrar-se quando estava perdido. Foi doloroso para ele sepultá-la ali naquele local, sozinha. Ele despediu-se com um beijo antes de deitá-la em sua cova e, juntamente com Alice, cobriu-a de terra. Matheus, como há muito tempo não fazia, ainda orou pela alma de sua querida e amada amiga e amante. Sabia que tinha um dívida com ela que ainda teria que ser paga. Ele, ao seu modo, a amou e não se deixaria esquecer os momentos que passou ao seu lado. Izabelle ensinou-o a ter esperanças, ensinou-o a ver que por mais que a vida seja cheia de duros golpes, não podemos simplesmente fugir de nossas responsabilidades e que devemos lutar sempre para que as coisas melhorem.

Alice também sepultou o corpo de seu mestre Benjamim. Por mais que ela soubesse que havia sido usada por ele para benefício de sua causa Gadol, ainda supria amor e gratidão por aquele que a instruíra em suas artes de combate e magia. Não fosse por Benjamim, possivelmente ela já estaria morta pelas mãos dos próprios Gadols. Foi ele quem viu seu potencial e investiu, ensinando-a tudo o que sabia sobre as artes dos caçadores. Alice agora era uma das maiores guerreiras dentre os de sua geração e possuía em suas veias o antigo e raro sangue da nobreza Gadol do oriente. Com certeza seu desaparecimento e de seu mestre seria rapidamente percebido pelas lideranças de sua ordem. Ela deveria pensar rapidamente numa forma de sumir sem deixar rastros. Apesar de agora conhecer sua origem, ela não queria mais continuar seguindo aquelas pessoas que só conseguiam enxergar a ameaça dentro das pobres pessoas assoladas pela maldição de Licaon. Havia reencontrado seu grande amor e lutaria com todas as suas forças por ele.

**********

Depois de tantos desencontros que o destino armara, agora os dois estavam novamente unidos. E ambos haviam passado por grandes transformações. Já não eram mais os mesmos de antes do desaparecimento de Alice. Agora eram guerreiros experientes em batalhas, adquiriram conhecimento de suas naturezas sobrenaturais. A dor os havia endurecido os semblantes, mas ambos conseguiram sobreviver a tudo e submergiram do mais profundo de suas almas ainda com alguma luz em seus corações. Não tinham sucumbido totalmente à escuridão e ao ódio, antes o amor os salvou de tornarem-se pessoas sem alma movidas somente pela busca da destruição. O amor que um nutria pelo outro os aproximou novamente e seria o combustível que os ajudaria a completar a missão que o destino reservara para ambos.
A semana seguinte ao reencontro de Matheus e Alice passou de forma lenta. Matheus não conseguira embarcar em seu voo na noite do confronto com Benjamim. O ataque surpresa dos Gadols acabou por obrigá-lo a reformular seus planos. E Matheus não teve pressa para reorganizar-se. Por mais que a situação na Europa pedisse o seu rápido envolvimento, ele ainda prateou o luto por Izabelle por mais alguns dias, precisava daquele tempo para reorganizar seus sentimentos, para novamente se reerguer frente a mais um duro golpe da vida. Tratou desta vez de deixar as coisas acertadas na empresa. Elegeu um dos diretores para substituí-lo durante sua ausência e informou seus amigos que iria viajar e que não teria data para retorno. Acabou entrando em contato com os três lobos gêmeos pedindo-lhes perdão pela demora em parti-lhes em auxílio e informando-os do ocorrido naqueles últimos dias. Os três acabaram entendendo-o e aceitaram o seu pedido de perdão. Haviam ficado também tocados pela morte de sua amiga Izabelle. Ela era realmente uma grande perda para o meio licantropo, uma amiga que faria falta. Respeitaram o pedido de Matheus para ficar mais uma semana no Brasil para reorganizar-se, para recompor seu emocional. Ele deveria estar inteiro, precisaria estar em condições de agir prontamente quando chegasse ao seu destino na Europa, não tendo espaço nem tempo para prantear por mais ninguém.

Apesar da triste notícia da perda de sua aliada e amiga, os três lobos gêmeos não ficaram incessíveis à notícia do retorno de Alice. Aquela era realmente uma das poucas notícias que mereciam comemoração naqueles dias de dúvidas e apreensão. Os adversários estavam se articulando rapidamente. Dentro de poucos meses a guerra iria explodir e eles eram os únicos que poderiam fazer algo para evitá-la. E a presença de Alice lhes trazia um novo ânimo, como se o som da corneta da cavalaria estivesse sendo entoada em seu auxílio.

Alice também utilizou daquele tempo para reestruturar sua vida e resolver seus problemas que não eram poucos. Havia sido dada como desaparecida por sua família já fazia um ano. Teria que revê-los antes de partir para uma possível guerra de onde talvez nunca voltaria. Resolveu então procurar seus pais para tentar explicar-lhes o ocorrido. O reencontro foi emocionante e difícil. Seus pais já haviam dado a filha como morta e ela teve que esforça-se muito para contar-lhes com calma tudo o que se passou com ela naquele período de seu desaparecimento. Alice não omitiu-lhes nada. Contou sobre o que acontecera com Matheus e da maldição, contou de seu sequestro realizado pelos Gadols, contou de como teve sua memória apagada e de como recobrou-a. Enfim, ao longo de duras horas de conversa, Alice convencera seus pais de que seu avô Hilal não era louco e que ela também tornara-se uma Gadol.

E não foi somente Alice quem fez revelações durante aquele dia. O pai de Alice acabou por confessar que sempre soubera da razão pela qual seus pais fugiram da Turquia para o Brasil. Confessou saber que seus ascendentes eram Gadols e que ele também possuía o sangue dos guerreiros-sacerdotes em suas veias, mas que preferira a ignorância por medo do que poderia vir a acontecer com ele e sua família. Essa também fora a razão real pela qual ele proibira seu velho pai de ensinar tais coisas à Alice. Ele não queria que sua garotinha vivesse uma vida de sacrifícios, privações e sofrimentos. Tinha ainda vivo em sua memória a dor de perder praticamente todos os seus familiares em um único ataque Lican. Apesar de ainda ser uma criança quando do ocorrido, ele ainda trazia vivo em sua alma o trauma que aquela experiência produzira. Agora seu medo concretizara-se e sua filha teria que partir para combater numa guerra que ele sabia que poderia acabar com a civilização conhecida transformando o mundo em um caos. Como a vida era dura, enfim a filha desaparecida retornara, mas não para ficar definitivamente. Teria que sair em uma jornada perigosa e sem certeza do sucesso.

**********

Os dois estavam novamente frente à frente. A sala de embarque estava lotada. Várias pessoas andavam de um lado ao outro à procura de acentos, banheiros, comida ou simplesmente um local para recarregar o celular, quem sabe?

Eles sabiam que poderiam não mais retornar às suas casas, aos seus entes queridos. Mas não havia mais volta, o destino os reuniu mais uma vez para que eles colocassem em prática aquilo que foram treinados para fazer. Matheus e Alice se uniram novamente para realizarem a viagem que ambos estavam destinados.

- Espero que as coisas tenham ficado bem entre você e sua família. - ele realmente estava sendo sincero em seu comentário. Sabia o quanto a família era importante.

- Realmente bem eu acho que não ficou. Quais pais ficariam tranquilos com tudo o que aconteceu? Mas pelo menos agora eles sabem para onde estou indo, Matheus. Só não sei se isto é mais reconfortante para eles. - ela estava pensativa, sabia que havia deixado seus pais bastante preocupados.

- Não gosto quando você fica séria assim. Seu rosto não combina com esta expressão tão dura. Deixe que eu seja o rabugento do casal, certo? - ele tentava esboçar um sorriso.

Ela toca-lhe os lábios. Sua expressão se suaviza ante o olhar de carinho dele. Enfim ela o tem novamente ao seu alcance. Parece um sonho como aqueles que ela tinha quando ainda era uma menina. Depois de tudo, de todo o sofrimento, os dois estão novamente juntos.

- Não sei como pude ficar tanto tempo longe de você... - ela tenta dar um sorriso, está com a mente longe, perdida em seus pensamentos, navegando em suas lembranças. - Não sei como você pôde voltar a confiar em mim depois de tudo o que aconteceu. - seu olhar é de remorso, uma expressão de preocupação forma-se em seu semblante.

- Alice, eu te amo. Nunca deixei de amar. Só lamento não poder viver em paz agora que tenho você de novo ao meu lado. Sei que você está embarcando por vontade própria, atendendo a um convite de Demétrius, mas não queria te envolver em mais este problema...

- Meu amor, - ela apertou suas mãos nas dele – este é um problema meu também. Não se esqueça que estamos lutando por este mundo, pelas pessoas que amamos. Eu vim porque não quero mais ficar um dia que seja longe de você.

Ele a abraça. Em seu peito o medo do que os espera assombra seu coração. Não há mais o que se fazer. Agora ambos terão que realizar o que lhes foi reservado. A porta de embarque enfim se abre, as pessoas começam a se dirigir para o avião. Eles seguram seus cartões de embarque e saem em direção ao desconhecido, rumo ao “Velho Mundo”. O jovem casal era a peça que faltava para que a engrenagem do destino pudesse agora trabalhar à todo vapor. O amor daquele casal seria suficientemente forte para vencer os desafios que os dois teriam que enfrentar?

Ele aperta a mão dela com força. Ela abraça-lhe o braço e encosta a cabeça em seu ombro. Nada mais os irá separar. Os dois nasceram para ficarem juntos.





Fim do livro I.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

LdS - Livro I - Capítulo 24 - Amor



Eles estremeceram ao ver Matheus em seu pleno poder. Definitivamente não estavam preparados para enfrentar aquilo. Ele era assustador, sabiam que seu poder havia aumentado exponencialmente. Ondas de energia emanavam de seu corpo, como se pequenas explosões de poder tivessem como origem aquele licantropo postado bem à sua frente. Benjamim, em toda a sua experiência de guerreiro, nunca vira nada parecido com aquilo e pensava numa forma de fugirem antes que fossem destruídos por aquele demônio.

- Nem pense em fugir, maldito! - Matheus os encarava com uma confiança perturbadora. - Quando tiver terminado com você não vai restar nem um pedaço pra servir de alimento pros vermes da terra. Eu peço a você, Alice, que não se intrometa nesta luta, porque não pouparei nem mesmo você, caso queira me impedir de esfolar vivo esse criminoso que você chama de mestre. - ele falava sério ao alertar Alice.

- Eu vim aqui para vingar-me. - respondeu intrepidamente Alice. - Sua luta é comigo!

- Não. Não tenho porque lutar contra você. Aliás, não conseguiria machucá-la mortalmente em combate, eu sei disso. Peço que se afaste, pois não sei o que pode acontecer se você tentar colocar-se entre nós. Você não tem o direito de tentar impedir-me de matá-lo. A vida dele é minha e hoje tratarei de ceifá-la para que mais ninguém sofra com seus atos covardes.

- Pois se pensa que me esconderia atrás de uma garota está muito enganado, seu infeliz. Ainda que seu poder tenha se intensificado sobremaneira, tenho comigo o poder dos deuses para exterminá-lo da face da Terra. Venha e verá que os Gadols não correm da batalha! - Benjamim colocava-se em posição de combate preparando-se para defender-se de Matheus.

Mas, antes que Matheus se lançasse ao ataque, Alice adiantou-se e partiu contra seu oponente. A jovem era impetuosa e corajosa, mas nem um pouco prudente. Achava que seu poder era superior ao de qualquer licantropo, mas logo pôde constatar, ao atacar Matheus, que estava enganada.

Matheus esperou-a imóvel. Esperou até o momento dela aproximar-se o bastante para tentar golpeá-lo utilizando uma tonfa que ela carregava consigo. A arma era toda construída em prata com uma ponta perfurante em sua extremidade. Ela movimentava rapidamente a tonfa que emanava descargas de energia azuis de sua superfície, semelhante a pequenos relâmpagos, enquanto cortava o ar em movimentos circulares. O zumbido daquela arma era impressionante, era como se milhares de pássaros estivessem em revoada, emitindo ruídos constantemente. Para ele não foi difícil esquivar-se do ataque, sua velocidade – que já era impressionante para um licantropo – dobrara agora que estava sob o efeito do “Luar de Sangue”. Não teve dúvidas, golpeou Alice no estômago com uma potência que a fez voar a vários metros de distância. Uma pessoa normal teria desfalecido instantaneamente, e mesmo Alice, que estava utilizando um encantamento de proteção, ficou deitada sem fôlego, ainda consciente, mas temporariamente fora de combate. Ele a atacara sem a espada, poderia tê-la matado, mas não o fez. Antes deixou-a incapacitada de intrometer-se na luta que estavam prestes a travar.

Alice não entendia seus sentimentos. Seu coração queimava de desespero por querer estar próxima daquele licantropo. Seu rosto a deixava intrigada, como se seu semblante lhe fosse estranhamente familiar. Não entendia porque ficara tão tocada ao vê-lo chorar desesperado a perda de sua companheira. Ela não conseguiu atacá-lo, logo em um momento tão propício, momento em que ele estava totalmente vulnerável, indefeso. Antes seu desejo foi absurdo, ela sentira um impulso de consolá-lo, como se eles fossem amigos, ou pior, como se eles fossem amantes! Alice estava muito perturbada com esse turbilhão de emoções que teimavam em atormentá-la sempre que ela dirigia seus pensamentos para a figura daquele amaldiçoado. Mas agora ela não tinha o que fazer. Lutava desesperadamente para tentar respirar. O golpe recebido no estômago fora muito potente, nem mesmo o encantamento para aumentar sua resistência às lesões foi capaz de protegê-la totalmente daquele golpe. Por mais que se esforçasse para tentar levantar-se, ela estava incapacitada. Precisaria de mais tempo para se recuperar e isto ela sabia que eles não possuíam.

Benjamim, como fizera na última batalha frente a Matheus, conjurara uma barreira de proteção ao seu redor que repeliria a presença de Matheus com a mesma intensidade que viesse o seu ataque. Imediatamente após cuidar de sua defesa, ele pôs-se a entoar outro encantamento, mas este agora seria um movimento ofensivo. Ele iria utilizar seu recurso mais poderoso para tentar defender-se daquela aberração licantropa. Era seu maior trunfo que ele não ensinara a ninguém, nem mesmo a Alice. Esta seria sua cartada final.

Matheus observava seu oponente que preparava mais um encantamento enquanto aproximava-se lentamente da barreira de proteção criada por Benjamim. Ele não via a hora de poder agarrar o pescoço daquele velho entre as suas mãos. Colocou-se frente a barreira e tentou atravessá-la sem sucesso. O velho Gadol era esperto, tentava ganhar tempo, seu próximo feitiço deveria ser algo poderoso, pensava Matheus. Ele viu com indiferença quando o velho Gadol tocou o cano de sua pistola e a arma começou a emitir uma luminosidade pálida de um azul semelhante à cor dos raios de Selene durante a lua cheia. Matheus não estava disposto a recuar por nada.

Benjamim terminara seu feitiço e via com satisfação que seu adversário permanecia estático observando-o frente à barreira de proteção invocada por ele. Daquele modo seria fácil atingi-lo. E ele sabia que licantropo nenhum resistiria a um ataque poderoso como aquele.

Alice tentava por-se de pé para ajudar seu mestre, mas ainda não conseguia respirar normalmente, fazendo um esforço incrível para manter-se consciente. Tentava sem sucesso entoar um mantra de regeneração, mas sem fôlego era impossível conjurar qualquer encantamento que fosse.

Enfim Benjamim puxou o gatilho e do cano de sua arma saiu uma rajada de energia de proporções gigantescas frente ao diâmetro do cano da arma. Era uma verdadeira ogiva de energia de aproximadamente um metro de diâmetro que viajava a uma velocidade alucinante. Àquela distância era totalmente impossível para Matheus desviar-se daquele ataque arrasador. Ele seria atingido e certamente seria aniquilado pelo impacto de tão absurdo poder. Os Gadols eram seres surpreendentemente poderosos.

Benjamim pensara que havia vencido ao ver a ogiva de energia atingir Matheus. Não observara o que ocorrera milésimos de segundos antes de seu ataque chegar em seu adversário. Matheus canalizara todo o seu poder para a lâmina de sua wakizashi. Ela agora era uma espada de pura energia, com sua lâmina sendo coberta pelo poder de um dos mais poderosos demônios do planeta, Shaladiel. Matheus utilizara a wakizashi para literalmente dividir a ogiva de energia de Benjamim ao meio! Usara energia para repelir energia. Colocara toda a sua força de vontade e poder na lâmina de sua espada e isto tornou-a um prolongamento seu. Ambos eram agora um único ser. Matheus e sua lâmina fatiadora vibravam na mesma frequência, partilhavam da mesma essência. Ele sentiu com uma nitidez incrível o momento que a lâmina da wakizashi tocou a ogiva de energia condensada, dividindo-a ao meio, fazendo cada metade mudar de direção para chocarem-se a vários metros dali.

Matheus já esperara demais. Dera a oportunidade de seu inimigo tomar a iniciativa e ele falhara em seu intento. Agora era a sua vez de atacar e ele não se daria ao lixo de falhar também. Matheus avançou com o toda a convicção contra a barreira de proteção de Benjamim, iria atravessá-la a qualquer custo. Ele penetrou-a com extrema velocidade e resistiu à força de repulsão que ela gerava. Sua roupa, no entanto, não resistiu e foi totalmente desintegrada. O corpo de Matheus estava resistindo a uma força incrível e em consequência pedaços de sua pele começaram a se esfacelar. Ele todo se desintegrava enquanto avançava convicto contra Benjamim. Esta seria a hora de sua vingança e feitiço algum o impediria de concretizá-la.

Benjamim não acreditou ao ver que Matheus sobrevivera ao seu ataque e que invadia sua barreira de proteção. O licantropo avançou sobre ele como um lobo ataca um coelho indefeso. No próximo instante Matheus já inçava Benjamim pelo pescoço, sua mão pressionava a garganta do Gadol com uma força que quase quebrou-lhe o pescoço.

- Agora chegou a tua hora, homem. Você não sabe como desejei tê-lo em minhas mãos. - Benjamim sufocava. Ele urinava-se de medo. - Reze para que, onde a tua alma for, não existam mais de nós esperando para torturá-lo. - Matheus falou estas palavras sem qualquer esboço de emoção. Estava frio como a lâmina de sua espada.

O licantropo zumbiu sua wakizashi e penetrou o ventre de Benjamim, rasgando-o de baixo para cima até atingir-lhe a caixa torácica. O velho debateu-se e sangrou até a morte olhando desesperado para os olhos implacáveis de Matheus. Ao dar seu último suspiro, a barreira de energia desapareceu.

Alice assistiu a tudo impotente. Seu mestre estava morto. O demônio que atendia pelo nome de Matheus ceifara a vida de mais um Gadol. Ela não poderia deixar que isso continuasse. Teria que fazer algo. Alice não sabia, mas pertencia a uma nobre linhagem de guerreiros Gadols. Dentro dela havia o sangue dos príncipes sacerdotes que combateram Licaon em sua loucura e sobreviveram. Ela possuía um talento inato para a magia e um potencial enorme para o uso de seu poder espiritual na batalha. Não era à toa que Benjamim, um dos grandes guerreiros Gadols, pertencente à elite de sua ordem, orgulhava-se de sua discípula. Ela tinha o sangue nobre que outrora pensava-se que havia sido extinto. Possuía todas as condições de tornar-se a maior guerreira Gadol de seu tempo. E ela sabia disso. Não iria deixar a honra Gadol ser destruída por aquele licantropo. Ela teria que agir, teria que destruir aquela ameaça.

O corpo de Matheus regenerara-se completamente. Sob o “Luar de Sangue” ele possuía os poderes de Shaladiel e sua capacidade de regeneração. Ele ainda observava o corpo inerte de sua vítima no chão quando Alice colocou-se mais uma vez em posição de ataque. Aquele seria também o confronto final entre ambos. O mal que Benjamim criou teria que ser aniquilado completamente.

Matheus empunhou mais uma vez sua wakizashi e partiu em direção à Alice. Em sua cabeça um turbilhão de lembranças. Não conseguia pensar nela como sua inimiga, antes sabia que aquela era uma Alice fabricada pelo poder da magia Gadol. Mas mesmo assim, não se deixaria perecer e com isso morrer o sonho de Izabelle. Teria que sobreviver, deveria ainda lutar ao lado de seus amigos para eliminar a ameaça de uma guerra mundial capaz de aniquilar a raça humana da face da Terra. Ele não tombaria naquele lugar, não tinha este direito. Seus olhos exprimiam sua dor. Aquela Gadol que se lançava contra ele era Alice, sua Alice. Como poderia causá-la mal? Ela, quem ele tanto amava!

Alice corria emitindo um grito de dor. Dor pelo seu mestre morto, dor pelo vazio em sua alma, dor por não conseguir lembrar de seu passado, dor por não conseguir negar o sentimento que sentia por aquele amaldiçoado. Ela conjurou mais um feitiço. Sua tonfa novamente emitia rajadas de energia, sua tatuagem, que ficava no pulso que segurava a arma, brilhava intermitentemente numa frequência de alerta. Ela tentaria algo novo, usaria duas técnicas ao mesmo tempo. Exorcizaria de uma vez por todas aquele mal da Terra. Seu coração doía, seu peito parecia ser capaz de explodir a qualquer momento, seus batimentos eram acelerados. Ela mirou no peito de seu oponente e então golpeou.

Ele não reagiu. Dentro dele ódio e amor lutavam. E o vencedor de sua consciência não deixou que sua arma fosse erguida e atacasse aquela jovem. Por mais que Matheus odiasse os Gadols, o amor que sentia por Alice nunca o abandonou e agora, mais uma vez, gritava alto dentro de seu peito para não desaparecer. Ele não pôde fazer nada. Simplesmente fechou seus olhos e esperou o impacto do golpe de Alice.

Ela o acertou. Sentiu quando a ponta perfurante de sua arma atingiu o corpo de seu oponente. Ela não sabia o porquê, mas fechara os olhos no momento final do ataque. Ao abri-los deparou-se com a imagem de Matheus ajoelhado à sua frente, ensanguentado, com os olhos cheios de lágrimas.

Alice agora o reconhecera. Ele era a pessoa que a tinha feito sentir-se feliz como nunca outro alguém fizera. Ele era o escolhido do seu coração, o seu amado. Agora ela sabia, ele era a dor do vazio que gritava intensamente dentro do seu peito. Ela estava em choque.

- Meu amor... - foi o que saiu da boca de Matheus ao ver que Alice também caía de joelhos à sua frente.

No momento em que ela transpassara-o, tudo o que existia dentro dela que há tempos havia sido escondido fluíra com força para a superfície. O amor que sentia por ele era mais forte que qualquer encantamento. Agora ela lembrava-se de todo o seu passado. Lembrava-se do sentimento que possuía por aquele homem. Seu coração inundou-se de remorso de arrependimento. Ela o machucara, ela o fizera sangrar. E o pior de tudo, ela o fizera sofrer. Agora ela via com clareza, havia sido usada por Benjamim em proveito dos Gadols. Tudo o que aquele velho guerreiro lhe contara a cerca de Matheus era mentira. Ela agora sabia, aquele era o homem por quem se apaixonara e por quem abandonaria tudo. Sua respiração estava ofegante. Ela estava atordoada com tamanha revelação. Alice sentia seus sentimentos emergirem como lava expelida com força por um vulcão. As lembranças se amontoavam em sua mente, chocavam-se desordenadamente numa verdadeira avalanche. Lembranças felizes agora retornavam, sentimentos valiosos que poderiam ter sido perdidos.

Ele mantinha-se ajoelhado, a cabeça baixa. Uma poça de sangue formava-se à sua volta. Estava trêmulo, sentia frio. Filetes de lágrimas escorriam de seu rosto. Ela o abraçou. Apertou-o forte contra o seu corpo.

- Meu amor, me perdoe. Não sabia a loucura que estava fazendo. - ela tentava desculpar-se. Seu coração também sangrava com todo o sofrimento a ele causado. Estava desesperada com a ideia de perdê-lo naquele momento.

- E-eu pensei que tivesse perdido você para eles, Alice... E isto estava me consumindo, me matando dia após dia.

- Não fale mais, meu bem, você está ferido. - ela colocou a mão em seus lábios. - Deixe-me cuidar de você. - ela o beijou, um beijo demorado, um beijo inundado de saudade.

Ele deitou-se no chão. Ela retirou com cuidado o bastão de seu corpo. O sangramento era intenso, algo deveria ser feito rapidamente. Ela pôs-se conjurar um feitiço e colocou a mão sobre o ferimento de seu amado. Aos poucos o ferimento de Matheus foi se fechando até sumir por completo. O sentimento de Alice não deixou-a golpear seu amado fatalmente. Ela atravessara-o, mas seu ataque fora desviado no momento final. Algo a impedira de atingi-lo fatalmente, algo dentro dela, dentro de sua consciência. Atingira a lateral do abdômen de Matheus, não atravessando-lhe nenhum órgão vital. Ele sobreviveria afinal.

Enquanto Matheus se restabelecia deitado sobre as coxas de Alice, os pensamentos da jovem buscavam longe em suas memórias. Iam ao início de sua lembranças quando ela ainda era uma criança. Ela sabia o que havia acontecido, sabia o que fizera com que o feitiço de Benjamim fosse quebrado. Com um pequeno sussurro ela agradeceu, sabia que seria ouvida mesmo que não o fizesse em palavras.

- Obrigada, Vovô, por me ensinar a não ter medo de amar e a não desistir dele para ser forte. Não fosse por isto, agora eu estaria totalmente perdida...