quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

LdS - Livro I - Capítulo 14 - Clausura



O lugar era estranho. Ela não tinha a mínima ideia de onde estava ou de quem a colocara naquele quarto. As últimas lembranças que vinham em sua mente eram os terríveis momentos de terror no chalé, quando do ataque dos Nightkillers, e os minutos anteriores dela ser atacada por Edgar. O quarto onde estava era limpo e arrumado, mas nem um pouco luxuoso. Parecia com aqueles quartos de mosteiros onde os religiosos que optaram por uma vida de clausura e simplicidade vivem. De móveis, apenas uma cama com um colchão duro, uma pequena cômoda com um espelho na parede e um criado mudo. O silêncio era perturbador. Onde quer que estivesse, aquele não deveria ser o covil dos Nightkillers, isso ela tinha certeza. Suas roupas haviam sido trocadas. Ela agora trajava uma bata vermelha com detalhes prateados. Um desenho de uma lua minguante bem no centro de seu busto orlava sua veste. Não sabia o que acontecera a Matheus e isso a perturbava muito. Era como se toda aquela louca aventura que vivera não tivesse acontecido, como se tudo não passasse de um sonho e que, ao acordar, ela se visse imersar em outro sonho estranho e inquietante. Mas, por mais que os dias com Matheus tivessem sido dias perigosos, ela ainda desejava, do fundo de sua alma, estar novamente do lado dele. Ela sentia como se ele fosse o complemento dela, era assim que sentia. E era verdade, os dois estavam, de alguma forma sobrenatural, ligados, e aquele amor fulminante que ardia forte dentro do seu peito era a força que os mantinha juntos mesmo diante de tantos problemas e perigos. As horas solitárias naquele quarto a espera de algum contato foram todas preenchidas por Matheus. Ela não conseguia se preocupar consigo mesma, o que a angustiava era a falta de informações sobre ele. Seu medo era que Matheus não tivesse sobrevivido àquela noite. E as lembranças dos momentos que os dois passaram juntos naquele chalé insistiam em sempre rondar-lhe a mente, como um inseto teimoso que não para de rodopiar ao redor de sua cabeça mesmo quando tenta-se espantá-lo para longe.

De súbito uma portinhola foi aberta e um jovem senhor falou quebrando aquele silêncio incômodo:

- Enfim você está consciente. - falou o homem com uma voz que transparecia tranquilidade, mas que também impunha respeito. - Estou muito feliz que já tenha se recuperado dos ferimentos que você sofreu. Tivemos muito trabalho para salvar-lhe a vida, saiba disso e aprenda a ser grata.

- Onde estou? E quem é você? - perguntou-lhe, Alice. - Onde estão meus amigos? Onde está Matheus? Ele sobreviveu?

- Não sei quem são esses que você chama de amigos. E não tenho informações para dar-lhe a cerca desse Matheus que você procura. Quanto as suas duas primeiras perguntas, eu posso respondê-las. Você está em um local conhecido como “Mosteiro dos Guerreiros da Lua” e o meu nome é Benjamim. Eu e meus irmãos de ordem temos muito interesse em saber quem é você e o que você fazia em companhia daqueles licantropos dissidentes que se escondiam no meio da mata.

- Eu me chamo Alice e aqueles licantropos eram meus amigos.

No momento que ela pronunciou a palavra “amigos” o semblante do homem tornou-se sombrio. Não passava pela cabeça do grupo de Gadols que Alice estivesse em companhia dos amaldiçoados por vontade própria. Achavam antes que ela estivesse sendo mantida prisioneira.

O homem não falou mais nada, simplesmente fechou a brecha na porta e saiu, deixando Alice sozinha mais uma vez. Ela, por sua vez, já sabia na companhia de quem estava porque ouvira anteriormente, pela boca do próprio Demétrius, que os Gadols Orientais possuíam postos em vários países e que os denominavam de “mosteiros”, apesar de se tratar apenas de centros táticos onde eles organizavam suas ações. Estranhamente o fato de saber que estava na companhia de Gadols não a tranquilizou de forma alguma, pelo contrário, agora seus medos só aumentavam. A mesma inquietação insistia em tomar-lhe novamente os pensamentos: “o que haveria acontecido com Matheus?...”

**********

Nove dias haviam se passado desde o incidente no chalé. No apartamento de Viviane, Matheus procurava por alguma pista que pudesse ser útil em sua busca pelo paradeiro de Alice.

- Mas como assim ela foi raptada? Gente, que loucura toda é essa!? - Viviane tremia enquanto olhava Matheus vasculhar os pertences de sua amiga.

- Nem eu sei te explicar como isso aconteceu, Viviane, mas eu juro a você que eu vou atrás dela onde ela estiver, nem que eu tenha que enfrentar o próprio demônio pra conseguir tê-la de volta conosco. - ele ainda estava muito machucado. O ferimento feito por Edgar causara grande estrago e exigiu um grande trabalho para curá-lo. Ele mal conseguia ficar em pé e ainda sentia dores intensas em seu corpo, mas Matheus não se importava com isso, seu pensamento estava fixamente concentrado em sua missão.

- E como você pretende achá-la já que nem sabe ao menos quem a raptou?!

- Alice tinha me falado de uma joia de família que havia sido dada a ela por seu avô. Ela me falou várias vezes desse amuleto. Era um objeto muito importante para ela e meus aliados acreditam que nele está armazenado parte da energia e dos sentimentos de Alice. É como se parte da alma dela estivesse depositada dentro do talismã. De alguma forma que eu desconheço eles acham que Alice pode ser rastreada se tivermos a frequência exata em que o seu espírito vibra. Ela é descendente de Gadols, não é uma pessoa comum, portanto seu espírito se destaca no meio da multidão e é bem possível que um grande obsessor consiga rastrear a energia que ela irradia. - Matheus continuava a procurar enquanto conversavam.

- Mas que conversa mais doida é essa, Matheus!? Eu juro que não acredito nem na metade da história que você me contou e só estou deixando você entrar aqui e fuçar nas coisas dela porque sei o quanto ela te ama e eu também vejo que você sente o mesmo por ela. Alice mesma me falou alguma coisa no telefone sobre esse papo de Gadol, mas ainda não consigo acreditar que toda essa loucura é realmente verdade. Meus Deus! O que eu vou falar pros pais dela quando ligarem atrás de notícias da filha?! Não posso omitir isso deles. E com certeza a polícia será chamada para tentar encontrá-la. Nossa mãe do céu!...

- Calma, Viviane. Eu não sei o que você vai falar pra família dela. Me desculpe, mas esta é a menor das minhas preocupações no momento. Fala qualquer coisa! Fala que ela viajou comigo pra uma dessas serras qualquer pra passar umas semanas. Sei que a faculdade de vocês está praticamente entrando em recesso por fim de período. Eles vão acreditar.

- Mas ela está incomunicável, Matheus! E se eles ligarem para a filha pra ter notícias? Nossa, eles vão pirar sem saber do paradeiro dela!

- Em algumas dessas cidades do interior de Minas o sinal de celular é péssimo. Eles não vão ficar tão preocupados assim, acho. Afinal de contas, Alice é maior de idade e sei que o relacionamento dela com os pais não estava lá grandes coisas. Ela me contou da pressão que vinha tendo que suportar por não ter escolhido a profissão dos pais. No fundo, acho que não se surpreenderão tanto assim com um breve sumiço da filha.

- Não sei não... Estou com medo do que ainda pode vir a acontecer. - Viviane estava com os olhos marejados.

- Olha, eu agradeço muito que você ainda confie em mim. Mas nesse momento preciso ainda mais da sua ajuda. Achar o amuleto de Alice é muito importante e é a única esperança que temos de encontrá-la, portanto tente lembrar de alguma coisa que possa me ajudar a achar essa joia.

- Eu sei que Alice tinha prometido ao avô que jamais se apartaria do amuleto, foi por isso mesmo que ela tatuou no pulso a figura do pingente. Aliás, aquela foi a última vez que vi aquela joia com ela. Foi no dia em que fomos fazer nossas tatuagens!

- Então tente se lembrar com detalhes daquele dia, Viviane. Nós temos que encontrar essa joia de qualquer forma! Meus aliados foram em busca de ajuda em outra cidade e me deixaram a incumbência de achar o amuleto de Alice. Eles estão entrando em contato com outros licantropos dissidentes, tentando uma aliança, já que agora existem Gadols nas proximidades e isto é uma ameaça para todos. Difícil vai ser convencê-los que Alice não é outra de seus inimigos. Mas não quero me preocupar com isto agora, meu principal problema é descobrir onde ela está.

- Espere, Matheus! Eu agora me recordo que Alice possuía um pequeno cofre que ela escondia dentro do seu guarda-roupa! Talvez esse talismã esteja guardado lá! Mas acontece que eu mesma dei uma mexida nele esta semana separando algumas roupas dela para levar aonde vocês estavam, assim que ela resolvesse me contar onde ficava o tal esconderijo, mas não vi nada!

- Talvez ela tenha mandado fazer um fundo falso por precaução, quem sabe? Vou revirar aquele guarda-roupas todo de novo. Ele tem que ter um fundo falso!

E foi isso que Matheus fez. Cuidadosamente ele verificou cada compartimento no guarda-roupas e grande foi a sua alegria quando, atrás de uma das gavetas, revelou-se um pequeno buraco na parede onde estava embutido o cofre de Alice. A pressa não dava lugar para que ele fosse cuidadoso. Matheus simplesmente arrombou o cofre de Alice e retirou radiante, juntamente com outras joias, o tão procurado amuleto que tratava-se de um lindo cordão de prata com uma Chamsa em forma de pingente.

Rapidamente ele agradeceu a colaboração de Viviane, despediu-se prometendo mantê-la informada dos acontecimentos e partiu ao encontro de seus companheiros amaldiçoados.

**********

Alice continuava presa no quarto. Naqueles seus dias de isolamento somente colocavam para ela, por entre uma abertura embaixo da porta, comida três vezes ao dia. Fora isso, apenas umas poucas visitas de uma hora de duração com Benjamim, seu único interlocutor até então. Ele vinha sempre uma vez pela manhã e outra à tarde para fazer-lhe perguntas a cerca dela, de sua família, de como obteve o conhecimento da existência daquele amuleto que estava gravado em seu pulso. Aqueles eram os únicos momentos do dia que ela ouvia a voz de outra pessoa naquela sua solitária estadia. Todas as vezes ela fazia perguntas a cerca do paradeiro de Matheus, e sempre ouvia a mesma resposta: Esta é uma informação que não possuo.

Pelos cálculos de Alice aquele deveria ser seu quinto dia de confinamento. Naquele dia em especial seu interlocutor não foi visitá-la àquela tarde. Era o indício para Alice que as coisas estavam na iminência de se modificarem.

Em uma mesa redonda de uma sala ampla no “Mosteiro dos Cavaleiros da Lua”, uma pequena reunião estava sendo realizada:

- Bem, já é sabido que aquela garota estava na companhia de licantropos por vontade própria e que ela mesma refere-se a eles como “seus amigos”. Não vejo como uma descendente de Gadols poderia aliar-se aos nossos inimigos. É uma coisa deveras chocante descobrir que uma descendente dos Gadols do oriente estava trabalhando em conjunto com um grupo de licantropos dissidentes.

- Benjamim foi o único de nós que teve contato com a moça, é justo que ele fale quais as suas impressões a cerca dela...

- Bem, companheiros de ordem e missão, é verdade que ela considera-se amiga desses licantropos, mas eu tive a oportunidade de olhar através de seus olhos e afirmo que aquela jovem não possui chaga em seu espírito. Nada a impede de tornar-se uma de nós, e acho até que seria uma obrigação nossa orientá-la quanto a sua verdadeira missão nesta terra, já que é praticamente certo o fato de que ela ainda vive em uma condição de completa ignorância ao nosso respeito. Não é difícil de se perceber que a nossa hóspede estava sendo enganada e usada por nossos inimigos como fonte de conhecimento sobre a natureza de nosso poder e de nosso sangue. É nossa obrigação como Gadols resgatá-la dos laços amaldiçoados que agora a envolvem!

- Você está querendo nos convencer a aceitar aquela garota dentro de nossa ordem?! Não me faça rir, Benjamim! É verdade que atualmente estamos em crise e que os séculos de guerra foram duros conosco, mas ainda não estamos desesperados a ponto de aceitar uma “amiga dos lupinos” entre nós! Isso soa como uma loucura descabida!

- Eu falei em instruí-la em nossos caminhos, Gabriel. Mas não sem antes apagar de sua mente toda e qualquer lembrança daqueles amaldiçoados que ela ainda insiste em chamar de amigos.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

LdS - Livro I - Capítulo 13 - Inesperado



Cinco dias foi o tempo gasto entre a reunião dos Gadols na Espanha e o desembarque de cinco de seus membros no Brasil. Era um grupo composto por dois jovens senhores com idade próxima de cinquenta anos e outros três jovens que deviam ter entre vinte e cinco e trinta anos. Desembarcaram no aeroporto de Confins e logo começaram sua busca por informações dos jovens que apareceram no vídeo, em especial por Alice. Sem muito esforço descobriram a cidade onde ocorreram os tais acontecimentos e ficaram também sabendo do ataque fulminante que trucidou vários policiais no local. Eles estavam seguindo a pista certa e os licantropos nem desconfiavam disso.

**********

O tempo que se passou, após aqueles dias agitados, correu de forma lenta e produtiva. Matheus foi exposto a uma rotina extenuante de treinamento. Foram dias e noites de intenso aprendizado nas habilidades dos amaldiçoados e também em artes marciais. Após exatas duas semana da chegada deles no abrigo, Matheus já havia evoluído muito em força e habilidade. Para seus três instrutores ele já estava apto para entrar na fase de treinamento com armas. Enfim ele iria começar a usar sua espada wakizashi. A forma como ele evoluíra surpreendeu a todos. Este período de conhecimento foi fundamental para que se criasse uma relação de amizade entre Matheus e seus novos companheiros. Iriam passar por situações perigosas onde a vida de um poderia depender do desempenho dos outros e era fundamental que houvesse confiança entre aqueles licantropos.

Já Alice tentava entender toda aquela loucura, buscava inutilmente na internet alguma informação sobre os Gadols e tinha longas conversar com Demétrius sobre as habilidades que ela poderia vir a desenvolver caso conseguisse o conhecimento necessário. No primeiro dia que eles haviam chegado no abrigo, ela recebeu uma ligação de sua amiga Viviane. As duas conversaram muito, Viviane estava muito preocupada com tudo o que estava acontecendo, com o vídeo de sua amiga na internet, com aquela situação dela estar isolada em algum lugar desconhecido com pessoas nada confiáveis. Era tudo muito estranho e aconteceu de uma forma muito rápida para que Viviane pudesse se conformar. Mesmo a contragosto, Alice despediu-se sem revelar a amiga a sua localização. Foram semanas de apreensão para Alice. Ela não conseguia se acalmar com a aparente tranquilidade daquele local. Naquele momento as coisas pareciam estacionadas, mas, passados apenas mais nove dias, a aparente calma do lugar seria substituída por uma sequência de acontecimentos surpreendentes.

Nos períodos em que não estava treinando, Matheus descansava nos braços de Alice. Ela era quem cuidava de seus ferimentos e hematomas e quem lhe aquecia a alma. O laço dos dois tornou-se muito mais forte nesse período de calmaria e preparação. Eles compartilhavam a cama e todas as noites ela dormia recostando sua cabeça no colo dele. A intimidade foi formada sem esforço, sem intenção, de forma totalmente natural. Suas noites eram quentes e intensas. O casal era tão cúmplice em suas intimidades que pareciam que tinham anos de namoro. Eles não sabia, mas aquele período foi a melhor lembrança que os dois puderam guardar por um longo tempo.

Demétrius e suas duas companheiras não faziam nenhum esforço para disfarçar o fato de formarem um triângulo amoroso. Por várias vezes deixaram-se ser vistos fazendo carícias uns nos outros e dormiam sempre no mesmo quarto. O jovem casal não se sentia constrangido pois os três agiam com uma naturalidade impossível de se recriminar. Nem mesmo quando Nicole e Elizabeth trocavam beijos, o fato de o fazerem as claras não causava desconforto algum. Aquele foi um período de conhecimento para ambas as partes que acabou por transformar-se numa relação de sincera amizade.

**********

Três semana e três dias, esse foi o tempo necessário para que Matheus fosse capaz de se defender e para que os Nightkillers descobrissem o esconderijo de suas presas. Apesar da dificuldade para seguir o rastro deixado por Demétrius e seu grupo, agora sendo liderados por Edgar, os Nightkillers enfim haviam achado a trilha deixada na mata por eles. Agora era apenas questão de horas até o confronto entre as duas forças acontecer. Ao todo, o grupo de perseguidores era formado por sete Nightkillers. Apenas Edgar era um licantropo de vasta experiência e conduzia um grupo heterogêneo de amaldiçoados naquela perseguição. Os quatro rapazes do grupo haviam se juntado aos Nightkillers fazia pouco menos de seis meses e pouco haviam evoluído no conhecimento das habilidades dos amaldiçoados, sendo somente o uso da força bruta a sua ferramenta. Já as duas jovens garotas que também faziam parte do grupo eram as orientadoras dos insipientes novatos, mas não tinham a vivência de muitas batalhas como as possuíam seus adversários. Tratava-se de um grupo grande sim, mas inexperiente. Somente Edgar estava em outro níveo de poder e se igualava ou talvez até ultrapassasse em habilidade a Demétrius e suas companheiras. E Edgar sabia disso, por isso pensava em fazer um ataque sorrateiro e rápido com a finalidade de pegar seus oponentes desprevenidos.

Naquela manhã Matheus havia treinado intensamente com sua wakizashi. Ele tinha lutado contra Nicole, que era exímia conhecedora de artes marciais, e até conseguiu acompanhá-la algumas vezes em velocidade, coisa que nem mesmo Demétrius era capaz de fazer, deixando a todos impressionados com sua evolução. Matheus tinha potencial para tornar-se um poderoso licantropo e eles rapidamente perceberam isso.

Cada um dos três experientes licantropos era reconhecidamente detentor de habilidades que se sobressaíam muito além do nível considerado comum entre os amaldiçoados. Demétrius, por exemplo, era possuidor de habilidades telepáticas que conseguiam extrair conhecimento do interior da mente de seus adversários. Ele era também capaz de descobrir as suas fraquezas e medos, usando tais conhecimentos para conseguir vantagem na batalha. Esse poder telepático era muito superior ao que se pode considerar normal para um licantropo comum.

Já Nicole era uma perita em luta corporal, conhecendo uma infinidade de artes marciais tanto com as mãos limpas quanto com armas brancas, possuía também uma velocidade incrível, o que fazia dela uma adversária terrível numa batalha corpo à corpo. Durante a luta, ela conseguia entrar em uma espécie de estado de espírito onde sua mente e corpo trabalhavam em potência máxima ininterruptamente, proporcionando-lhe reflexos que beiravam a antevisão dos movimentos de seu oponente, conseguindo manter-se neste estado de espírito pelo tempo que a batalha prosseguisse.

Elizabeth era dos três a que melhor conseguia se relacionar e controlar seu obsessor. Dificilmente ela perdia o controle e sedia a tentação de entrar em frenesi. Essa habilidade é o que os licantropos chamam de simbiose. Ela e seu obsessor trabalhavam em uma espécie de cooperação e, em algumas situações extremas, Elizabeth era capaz de utilizar até a forma de lobo-demônio sem perder totalmente o controle, deixando que seu obsessor saciasse momentaneamente sua sede de sangue ao enfrentar seus inimigos. Apesar de ser uma habilidade incrivelmente poderosa, isso fazia com que ela fosse dos três a mais vulnerável aos ataques dos Gadols por eles utilizarem técnicas de magia específicas para destruir ou enfraquecer os demônios obsessores.

O senário estava pronto. O grupo de Demétrius tinha ganhado mais um poderoso aliado. Aquele jovem, mordido acidentalmente numa noite qualquer, agora fazia parte de sua matilha. Os Nightkillers já haviam descoberto o rastro de suas caças e agora dirigiam-se para o esconderijo de Demétrius.

Alice, há algum tempo, esperava ansiosamente por algo que ela não sabia o que era, mas que a fazia tremer de medo e angústia. Ela iria ainda esperar por mais uma manhã e uma tarde e a aquela aparente paz teria então o seu fim.

**********

A Lua, Selene, brilhava intensamente no céu. Ao redor do esconderijo de Demétrius, os Nightkillers ouviam atentamente o plano de ataque tramado por Edgar. Seria um ataque rápido e sorrateiro de forma a não deixar chance para que o outro grupo revidasse. Edgar observara por algumas horas a movimentação nos arredores do local e já sabia quantos licantropos estavam no chalé. A sorte parecia estar agora do lado dos Nightkillers.

Dentro do abrigo, Demétrius e Alice conversavam sobre a natureza dos obsessores quando Elizabeth chegou rapidamente com um ar de nervosismo:

- Helendril informou-me que ele sente a presença de mais sete outros obsessores próximo deste local. Ele diz ainda que entre eles está o demônio conhecido como “o perseguidor”. - disparou de uma vez ainda com o semblante perturbado.

- Como?! Então fomos descobertos. Mas que droga! Se Edgar encontra-se com eles, então a batalha será sangrenta e difícil. - falou Demétrius com um ar de preocupação que dava medo. Virou-se então para Alice. - Garota, esconda-se na sala de treinamento. Você não tem chance de sobreviver se for descoberta por esses animais. Torça pra que a nossa força seja capaz de detê-los.

Imediatamente Demétrius colocou telepaticamente Nicole e Matheus a par das informações e em menos de dois minutos todos os quatro licantropos estavam de prontidão em frente a entrada principal do chalé. Felizmente o fator surpresa que pertencia aos Nightkillers havia se perdido, agora a batalha estava em iguais condições de vitória, ou talvez não, agora era Demétrius quem possuía o fator surpresa. Rapidamente as coisas haviam se invertido.

Enquanto os quatro licantropos preparavam-se para surpreenderem os Nightkillers com um contra-ataque surpresa, na sala de treinamento, Alice escondia-se apavorada temendo ser morta pelos seus perseguidores. Ela suava frio e todo seu corpo tremia. Seu coração batia muito acelerado, sentia seu estômago comprimindo-se, além de fortes náuseas. Os maus pressentimentos que a atormentaram por todos aqueles dias não eram preocupações vãs, e isso a impressionou ainda mais, deixando-a mais apavorada com o que poderia vir a acontecer com eles.

A matilha de Nightkillers estava dividida em dois grupos de ataque que avançariam, ao comando de Edgar, contra o chalé atacando as suas laterais de forma simultânea para provocar-lhes confusão. Edgar ficaria plantado na saída principal aguardando algum fugitivo desorientado que tentasse escapar do local.

Demétrius, por sua vez, achou que seu grupo conseguiria a vantagem no confronto sendo deles o movimento inicial. Telepaticamente ele conseguiu ler na mente dos Nightkillers mais inexperientes os detalhes do ataque tramado por Edgar e assim pode arquitetar o seu plano de contra-ataque. Assim Demétrius dividiu seu grupo em duas duplas que teriam que destruir rapidamente os outros dois grupos de Nightkillers e posteriormente avançar contra Edgar num ataque combinado e fulminante. Ele e Nicole fariam a primeira dupla que atacaria o grupo localizado à direita do chalé. Já Elizabeth e Matheus estavam responsáveis por destruir o outro grupo restante. Em hipótese alguma eles deveriam atacar Edgar sozinhos. E todos deveriam também estar atentos à Alice, sendo prioritária a sua segurança. Todos cumprimentaram-se e se desejaram sorte. Logo depois as duas duplas trataram de se posicionar para inciar seus ataques.

Edgar colocou-se à frente do chalé. Estava excitado com a possibilidade de poder vingar-se dos licantropos que o haviam humilhado. Os dois grupos de Nightkillers estavam em suas posições aguardando a ordem para invadirem o local. Essa foi a hora em que eles foram surpreendidos. Demétrius e Nicole em sincronismo com Elizabeth e Matheus - cada dupla em uma das laterais do chalé - avançaram, como que aparecendo por mágica pela retaguarda, contra os dois grupos de Nightkillers. Demétrius com um só golpe decepou com seu machado de prata a cabeça de um dos jovens licantropos e partiu logo em direção da garota que chefiava o grupo deixando o outro jovem amaldiçoado, que observava aquilo tudo estático, a cargo de Nicole. A companheira de Demétrius mostrou toda a sua habilidade e velocidade retalhando cruelmente o corpo de sua vítima, abrindo seu ventre e decepando suas pernas em poucos segundos, deixando-o agonizar em desespero até desfalecer. Nicole era uma mulher de sentimentos intensos e também, em alguns momentos, poderia ser cruel no uso de suas facas de prata. Demétrius porém teve um pouco de trabalho para eliminar a chefe daquele grupo. Apesar de inexperiente, a garota possuía muita força e vigor, causando-lhe dificuldades. Em um rápido movimento Demétrius, esquivando-se de um ataque desesperado da jovem, atravessou-lhe o peito com o cabo de sua arma. Seu primeiro objetivo havia sido cumprido.

Do outro lado do chalé, Matheus pode experimentar pela primeira vez a sensação de cortar a carne de um amaldiçoado usando a sua wakizashi. Seu golpe foi vigoroso, mas não muito eficiente, conseguindo somente cortar o braço direito de seu adversário. Ele deixou o amaldiçoado urrando no chão de dor enquanto se defendia da outra garota Nightkiller que era responsável por chefiar aquela outra fração do grupo. Elizabeth foi rápida e eficiente cravando na garganta do seu alvo suas adagas Sai de prata, eliminando-o sem muita dificuldade. Logo em seguida ela tratou de eliminar o outro amaldiçoado que Matheus decepara o braço. Enquanto isso Matheus e a jovem Nightkiller lutavam intensamente. Ela o atacava também com uma lâmina afiada, sua arma era uma longa katana e seus movimentos eram precisos. Ela emplacou uma sequencia de ataques, golpeando com sua espada, usando de uma força incrível. Matheus esquivava-se e defendia com a wakizashi enquanto procurava uma brecha para contra-atacar. A jovem Nightkiller fez sua katana zumbir cortando o ar de cima para baixo visando o ombro de Matheus que, esquivando-se para a direita, tentou aplicar-lhe uma rasteira sem sucesso. A moça defendeu-se apoiando uma das mãos no chão e chutando com as duas pernas o rosto de Matheus que caiu confuso no chão. Logo em seguida ela ergueu sua espada para atingir Matheus, mas foi surpreendida por Elizabeth que a golpeou enfiando uma de suas adagas abaixo de seu queixo e subindo penetrando-lhe a cabeça. Estavam todos mortos, agora era a vez de Edgar.

O ataque surpresa de Demétrius deixou Edgar estupefato. Ele não conseguia entender como Demétrius conseguiu prever seu ataque. Aqueles licantropos não eram mesmo guerreiros comuns. E para ele não restava mais nada a não ser fugir. Mas mesmo com a surpresa de ter seus planos frustrados, Edgar não se abateu. Ele invadiu o chalé arrombando a porta da frente e colocou-se então à procura do que ele considerava ser a coisa mais importante em toda aquela missão: a garota Gadol.

Na parte de baixo do chalé, Alice tremia acuada em um canto da sala de treinamento, dentro do armário onde ficavam os armamentos. Foi fácil para Edgar farejar o cheiro de medo que emanava dela. Do lado de fora Matheus e Elizabeth procuravam por Edgar quando ouviram dentro de suas cabeças a voz de Demétrius: “Ele entrou no chalé. Está atrás de Alice!”

Rapidamente Matheus saiu em disparada atrás de Alice chalé adentro. Elizabeth o seguia mais atrás enquanto informava telepaticamente a Demétrius o resultado de sua missão. Matheus estava louco e temia mais que tudo perder Alice, a única razão dele ainda tentar teimosamente continuar vivo. Seus olhos já estavam cheios d'água quando ele entrou na sala de treinamento e se deparou com Edgar carregando o corpo de Alice sobre seu ombro esquerdo. Matheus logo pensou o pior e, ignorando expressamente as ordens de Demétrius, partiu como um louco ao encontro de Edgar para atacá-lo sozinho. O Nightkiller riu da coragem idiota de seu agressor e, jogando o corpo de Alice no chão, partiu para cima de Matheus empunhando sua “lâmina satânica”. Nesse momento chegaram também no local Elizabeth e Demétrius acompanhado de Nicole. Dois segundos foi a duração da luta entre Matheus e Edgar tamanha a diferença de poder de ambos. Matheus atacou visando o pescoço de Edgar que esquivando-se rasgou o lado direito de Matheus da cintura até o peito e o golpeou com tamanha força que o fez voar nove metros na direção de seus companheiros que o ampararam.

Edgar já corria para pegar o corpo de Alice e fugir quando uma forte luz branca iluminou toda a sala. Todos os licantropos ficaram espantados, inclusive Matheus que ainda estava consciente. Nesse momento até Edgar parou, não acreditando no que estava acontecendo. Por entre a luz branca, cinco homens com vestes vermelhas com detalhes prateados recolhiam o corpo de Alice. Eram todos Gadols e empunhavam armas de fogo prateadas.

- Hoje não viemos em busca de suas vidas. - falou um dos cinco homens com um forte sotaque hispânico. - Estamos aqui por causa da garota. Por enquanto ainda não é chegado o dia do vosso julgamento. Deixe-nos partir em paz e não haverá mais derramamento de sangue.

- Não! - Gritou Matheus. - Eles não podem levar Alice! Demétrius, impeça-os!

- Não seja idiota, garoto! - replicou Demétrius. - Eles já estão com ela. Não há nada que eu possa fazer agora.

Subitamente a luz se fez ainda mais intensa, ofuscando a todos na sala. E tão súbito quanto foi o seu aparecimento também foi a sua dissipação. Na sala então ficaram somente Demétrius e seus três companheiros. Edgar havia desaparecido, provavelmente fugira ao ver que sua última investida tinha sido novamente frustrada.

No chão, todo ensanguentado, Matheus chorava amparado nos braços de Nicole:

- Por que vocês não fizeram nada?! Eles não podiam levá-la!...

A tristeza tomou conta de todos. Demétrius, cabisbaixo, olhava fixamente para o chão. Alice não estava mais com eles. Matheus havia sido gravemente ferido. Seu esconderijo não era mais seguro e Edgar ainda estava à solta. O que seria feito agora? Qual o próximo passo?

A visão de Matheus foi se tornando turva... turva... turva... até que tudo tornou-se negro.

LdS - Livro I - Capítulo 12 - Refúgio



Três horas correndo por entre a mata até chegarem a um enorme chalé de madeira. Aquele era o refúgio de Demétrius. Estava fincado no meio da floresta em uma área que fora comprada por Demétrius logo quando da sua chegada ao Brasil, numa época em que ainda não se tinham políticas de preservação ambiental e que qualquer pedaço de mata virgem era vendido sem grandes burocracias. O grupo parou na entrada do chalé. Nicole voltou a sua forma humana. A jovem licantropa não esboçou constrangimento algum por estar completamente nua, para ela era natural andar sem roupas. Ela abriu a porta principal do abrigo, entrando logo em seguida. Voltou, depois de uns poucos minutos, já vestida e com cobertas para os outros três, pois era inverno e fazia frio.

Alice trouxera consigo, sobre o dorso de Matheus, uma grande bolsa onde estavam alguns pertences do grupo, como roupas e também as armas usadas por eles. Ela estava curiosa para ver o interior daquele impressionante chalé e estava também ansiosa por obter notícias do ocorrido no casarão.

- Vamos entrar para nos recompor. - disse Demétrius, envolto no cobertor entregue por Nicole. - Matheus, você e sua namorada podem escolher qualquer um dos quartos da parte superior, estão todos vagos. Só não sei se as roupas que tenho guardadas aqui servirão em você. Imagino que tenha trazido pouca coisa.

- Não se preocupe comigo, Demétrius. Já estou acostumado a me virar. Qualquer coisa, contanto que me cubra, vai me servir. - respondeu Matheus.

O grupo entrou então no chalé. O lugar era meio rústico, mas bem confortável. Demétrius havia pensado em um lugar para onde pudesse fugir caso fosse descoberta sua localização, então construiu aquele abrigo bem no meio da mata. Apesar de estar geograficamente isolado da civilização, o chalé era bem acolhedor. A área era bastante erma e tinha como acesso apenas uma estreita estrada de terra. Estava equipado com geradores de energia movidos à diesel, além de um sistema de utilização de energia solar, tanto para o abastecimento de energia elétrica, quanto para aquecimento da água. O chalé também possuía um receptor para TV via satélite e internet. Na despensa, muita comida enlatada e outros suprimentos que eles sempre tinham o cuidado de ir repondo. Haviam vários quartos que tinham sido pensados para abrigar outros desertores que necessitassem de auxílio. Existia também, no subsolo, uma sala de treinamento, onde eles treinavam suas habilidades com suas armas preparando-se para os inevitáveis confrontos. Demétrius possuía naquela sala de treinamento um arsenal enorme, com várias armas confeccionadas em prata. Aquele chalé era uma base para que eles pudessem ganhar tempo para repensar seus passos dali em diante.

Uma hora depois de terem chegado ao chalé, todos já estavam devidamente trajados e alimentados. Tinham se reunido para levantar informações nos meios de comunicação e também para discutirem como e o que deveriam fazer para conseguir sobreviver ante aquela iminente ameaça. Na TV foi noticiado o assassinato de Henrique e que Matheus estava desaparecido. Também foi noticiado o incidente com os Nightkillers. Algumas testemunhas foram entrevistadas dizendo terem ouvido muito barulho e dois jovens entrevistados, em especial, chamaram a atenção. Eles tinham filmado com o celular toda a sequência fora do casarão, incluindo a cena em que Alice reverteu a transmutação do lobo-demônio. Apesar do vídeo ter sido feito de uma distância considerável durante a noite e da sua definição ser muito ruim, ficando impossível se distinguir alguma feição, ainda assim era possível se ver o lobo-demônio e a luz que emanava do punho de Alice. O que eles temiam tinha acontecido, agora não só os Nightkillers, como também os Licans sabiam de sua existência e provável localização. E como se não bastasse tudo isso, inexplicavelmente todos os policiais que foram ao local do incidente mais cedo fazer investigações tinham sido mortos.

Essa última notícia era a confirmação de seus medos: aqueles Nightkillers não estavam sós. Possivelmente o outro grupo agora estaria à procura deles. Se tivessem sorte, eles perderiam seu rastro, caso contrário, mais cedo ou mais tarde, teriam que lutar de novo e toda ajuda seria necessária. Por isso mesmo foi decidido que Matheus começaria um treinamento intensivo para desenvolver o mais rapidamente todo o seu potencial destrutivo. Ele seria extremamente necessário nessa batalha. Demétrius também fez contato com outros licantropos dissidentes pedindo auxílio, mas ninguém quis se arriscar entrar em uma batalha direta contra um grupo de Nightkillers cujo tamanho ainda nem era conhecido.

Demétrius desceu imediatamente acompanhado por Nicole, Elizabeth e Matheus. Alice permaneceu na sala se inteirando das notícias na TV e também procurando por mais detalhes na internet. A primeira medida seria ensinar Matheus a utilizar parte de seu lado animal nas batalhas. Licantropos bem treinados conseguiam usar a força e agilidades de lobo ainda na forma humana. Essa era uma habilidade fundamental numa batalha. Eles não sabiam qual o nível de seus adversários, por isso todos deveriam estar bem preparados. A sala de treinamento era ampla, possuía um grande vão livre com um enorme tatame no centro. Alguns espelhos revestiam parte do salão. Seria naquele local que Matheus aprenderia artes marciais e a manejar armas brancas.

Demétrius se pôs sobre o tatame e começou logo a instrução:

- Imagino que você esteja impressionado com essa instalação em particular, não?

- Eu realmente fiquei perplexo com isso aqui. Cara, vocês são loucos! Esse lugar é muito doido. - Matheus brincava. Ainda não estava totalmente conscientizado de quão duro seria o treinamento.

- É bom que você tenha algum senso de humor, mas agora não é o local nem a hora para isso. - retrucou Elizabeth.

- Você não se perguntou por que, em pleno século XXI, ainda estamos usando adagas, machados e facas para nos defender? Não seria mais prático usarmos armas de fogo? - perguntou Nicole.

- É, realmente eu achei isso estranho. Seria muito mais simples usar pistolas, não? Evitaria o contato físico. - Matheus começava a entrar no “clima” do treinamento.

- Acontece, Matheus, que nenhum de nós licantropos é mais capaz de manejar uma arma de fogo. - explicava Demétrius. - A utilização de armas de fogo, durante um tempo, foi muito difundida entre os amaldiçoados. Eram utilizadas munições de prata que faziam um estrago realmente considerável no inimigo. Só que durante uma das grandes guerras entre Licans e Nightkillers o uso de tais armamentos quase que nos varreu da face da Terra. Não que eu ache essa uma má ideia, mas os anciões licantropos, que também são os generais nessas guerras, e que nos usam como peões em seus jogos de poder, resolveram que a utilização desse tipo de armamento era muito perigosa, podendo acabar até com a nossa raça. Na última trégua entre esses grupos que foi armada exatamente com o intuito de evitar nossa extinção, os tais anciões lançaram uma poderosa maldição sobre todos os “filhos de Licaon”. Nenhum licantropo, desde então, conseguiu empunhar uma arma de fogo contra outro amaldiçoado. Nosso corpo todo entra em agonia como se estivéssemos sendo completamente consumidos pelas próprias labaredas do inferno. Por isso que é impossível para nós utilizarmos qualquer tipo de arma de fogo. É por isso que tivemos que nos especializar em artes de luta e na utilização de armas brancas. Eu tenho aqui um arsenal particular que você pode utilizar. Mas é bom que escolha uma arma específica em que se sinta confortável para se especializar. Ultimamente todos os amaldiçoados são muito bons na utilização de alguma arma de lâmina. Venha! É bom que você escolha logo o que vai usar.

Demétrius levou Matheus até um grande armário onde havia em seu interior todo o tipo e armas brancas existente, desde sabres, machados e maças até vários tipos de katanas e adagas. Matheus olhou toda aquela imensidão de armas e ficou meio perdido, tudo aquilo era muito novo para ele. Ao passar os olhos entre as espadas Matheus se interessou particularmente por uma. Tratava-se de uma wakizashi com punho de marfim, uma espada curta japonesa com cerca de quarenta centímetros. Na sua bainha havia o desenho de um lobo cinza uivando para a Lua.

- É essa! Eu quero essa espada. - apontou então Matheus, totalmente hipnotizado pela bela espada.

- Uma espada japonesa, hein?... Ótima escolha. - elogiou Nicole. - É uma arma elegante. Vamos ver se você vai conseguir domá-la.

Demétrius retirou a wakizashi do suporte e a entregou a Matheus.

- Tome cuidado com ela, garoto. Com certeza ela vai te ajudar a continuar vivo. - aconselhou Demétrius. - Como você ainda está muito cru, primeiramente teremos que ensiná-lo a lutar de mãos nuas, para só depois passarmos ao combate com armas. Você terá que aprender a usar nosso lado animal ao seu favor. Venham aqui, meninas. Vamos mostrar ao garoto o que um licantropo é capaz de fazer...

Nesse momento Alice desceu as escadas correndo, estava visivelmente nervosa. Todos pararam aguardando pela notícia que ela trazia tão apressadamente.

- Pessoal,... - começou Alice, com a voz trêmula. - acho que os acontecimentos dessa noite tomaram proporções muito grandes para nós. Acabei de ver na internet o vídeo feito pelo garoto onde todos nós aparecemos lutando contra aquele Nightkiller. Ele foi postado no youtube! Agora nossa imagem está sendo veiculada no mundo todo...

**********

Do outro lado do Atlântico, na Espanha, um pequeno grupo se reúne. No centro da sala, um telão onde o vídeo com Matheus e Alice está sendo exibido. No final da exibição, um dos jovens levanta-se e se dirige ao centro da sala para falar ao restante da plateia. Todos eles possuem o mesmo amuleto pendurado no pescoço.

- Bem, irmãos, está evidente que essa maldição já tomou conta do continente americano. Todos os nossos esforços devem ser focados agora para essa epidemia de licantropos que está assolando aquela população. Eu sugiro que enviemos uma comitiva de cinco irmãos investigadores para o Brasil a fim de levantar o que está se passando naquela região. É importantíssimo, e eu considero uma verdadeira prioridade, que se localize aquela jovem do vídeo e que se descubra enfim do que se trata aquele poder e se ela é ou não uma de nós. Afirmo ser necessário que essa comitiva parta o mais rápido possível porque nós não fomos os únicos que tivemos acesso a esse vídeo e eu temo pela vida daquela moça.

LdS - Livro I - Capítulo 11 - Em disparada



O vento forte tocava seu rosto. Estavam à 180 km/h. A noite estava acabando e os primeiros raios de sol começavam a surgir no horizonte. Alice se agarrava com força ao corpo dele. Na sua frente, Demétrius os guiava para outra cidade que eles não conheciam. Não conseguia imaginar como seria sua vida de agora em diante. Mesmo com toda aquela confusão, ainda vinha em sua mente a lembrança do corpo de Henrique morto no chão. Essa era uma culpa que ele não se permitia esquecer. Curiosamente Shaladiel não o incomodara mais. Agora sabia que, enquanto estivesse na companhia de Alice, estaria livre da influência do demônio. Aquilo era um pequeno conforto em meio ao turbilhão de coisas que agora o envolviam. Seu coração estava apertado, uma angústia fina tomava conta de seu ser. Como seria possível conseguir sua antiga vida de volta? Conseguiria ele ser feliz novamente mesmo carregando aquela maldição? Um frio na barriga vinha toda vez que pensava que agora estavam sendo caçados por outros monstros como aqueles. O sol já começava a aparecer agora. Seus raios laranja-amarelados iluminavam a estrada que eles rasgavam numa velocidade incrível. O calor de Alice, seus beijos, o medo de perdê-la, o medo do inesperado, tudo se misturava em sua cabeça enquanto ele acelerava e deixava toda a sua vida para trás.

Alice não entendia o que acontecera com ela. Por que aquelas pessoas a chamavam de Gadol? Que poder era aquele que emanara de seu corpo e que atordoara de tal maneira aquela criatura? Por mais que ela amasse Matheus e que realmente quisesse ajudá-lo, agora ela não conseguia achar a mesma coragem de outrora. Ela estava confusa e com medo. De uma hora para outra sua vida passou a correr perigo. Estava na garupa de uma moto, partindo para um lugar desconhecido, sem saber quando poderia retornar para casa, para junto dos seus. Os fatos ocorridos naquela noite voltavam sempre a rondar seus pensamentos juntamente com a lembrança de seu avô. Aquela tatuagem que salvou sua vida era o desenho do tal amuleto que ela recebera, quando criança ainda, de presente de seu velho avô. Ela não usava mais o pingente, havia guardado como joia de família, mas tatuara sua forma no corpo para cumprir a promessa feita ao avô de jamais se separar daquele amuleto. Agora ela descobrira que tudo o que ele havia contado sobre os demônios era verdade. A forma como agora Alice via o mundo havia mudado, nada mais era como antes.

Depois de aproximadamente quatro horas de viagem, o sol já brilhava forte no céu. Eles pararam na entrada de uma reserva ambiental, um local ermo no meio do nada. A mata nativa ainda era intocada e não se tinha sinais da presença humana nas proximidades. Demétrius estacionou o carro e os três licantropos desceram do Jeep. Matheus e Alice fizeram o mesmo e foram na direção do trio aguardando suas orientações:

- Devemos prosseguir agora sem os veículos. Vamos continuar nossa viagem mata adentro. - falou Demétrius. - Nosso rastro será mais difícil de seguir se formos por dentro da floresta. Nossos inimigos são especialistas em rastrear suas presas, precisamos ser extremamente cautelosos em nossa fuga.

- Matheus,... - Nicole aproximou-se do jovem casal. - nessa parte da viagem precisaremos nos transmutar. É preciso que você também torne-se um lobo. A viagem será muito mais rápida dessa forma. É preciso que você se esforce. Agora irremediavelmente é necessário que comece seu treinamento nas habilidades dos amaldiçoados. Você terá que evoluir rapidamente em conhecimento se quiser continuar vivo.

- Tudo bem. - respondeu Matheus. - Eu entendi que agora não posso me dar ao luxo de ignorar os poderes vindos dessa maldição. Tenho que conseguir meios para proteger a mim e a Alice. Mas antes nós temos uma pergunta que gostaríamos que fosse respondida.

- Pois então sejam breves em suas perguntas. - falou Demétrius. - Não podemos perder tempo. Não sabemos quantos Nightkillers estavam rodeando aquela região, nem quais as reais consequências dos acontecimentos dessa noite. É provável que alguém tenha visto o que aconteceu e acabe contando para as autoridades. Por mais que seja difícil de acreditar, se essas informações de alguma forma forem difundidas nos meios de comunicação, estaremos muito mais encrencados. Os dois grupos de licantropos terão a certeza de nossa presença nessa área e então passaremos a ser caçados de forma mais intensa ainda.

- Então vou ser breve e direta. O que vocês quiseram dizer quando me chamaram de Gadol? - Alice lançara uma pergunta fundamental.

- Bem, íamos explicar para vocês do que se tratava, mas fomos interrompidos bruscamente. - enquanto falava, Demétrius ajudava suas companheiras a espalhar gasolina em todo o Jeep. - Como contamos na lenda de Licaon, um grupo de sacerdotes uniu-se para combatê-lo em sua loucura, estando Licaon sob o domínio de Gautargh. Reuniu-se um verdadeiro exército. Muitos morreram na luta, mas um pequeno grupo conseguiu sobreviver e afugentar o monstro. Esse grupo de guerreiros sacerdotes que lutou contra o maior dos licantropos é que deu origem aos que hoje são chamados de Gadols. Eles são, na verdade, nada mais nada menos que caçadores de demônios. No princípio era um único grupo. Só que, ao que parece, houve um cisma entre dois de seus líderes e o grupo original foi rachado ao meio, criando-se dois novos grupos, um radicado no ocidente e outro no oriente. Os Gadols ocidentais eram mais belicosos, perseguiam e matavam os amaldiçoados de forma implacável. Eles usavam como símbolo e amuleto o Ankh, conhecido também como Cruz Ansata. Já os Gadols orientais estavam mais interessados em dominar os mistérios do sobrenatural e até chegaram a estudar com mais afinco a magia. Eles usavam a Chamsa como símbolo. Os dois grupos combateram e mataram muitos licantropos no passado, quando ainda eram fortes. Mas na grande batalha conhecida como “Noite dos Demônios”, quando pela última vez os licantropos lutaram sob uma única liderança, eles foram quase que totalmente dizimados da face da terra, restando somente pequenos grupos isolados de sobreviventes. Eu particularmente nunca havia encontrado um Gadol, até agora. Os poucos que ainda existem espalhados pelo mundo são odiados, mas também temidos pelos amaldiçoados.

Alice escutava tudo com muita atenção. Estava agora lembrando de seu avô, Hilal. Sabia que ele tinha vindo da Turquia com sua família fugindo de um grupo que matara todos os seus amigos e que também o estava perseguindo. O pai de Alice, que ainda era criança quando do ocorrido, não tocava nunca no assunto e também rejeitava os ensinamentos de seu pai Hilal. Alice achava que o tal grupo fosse algum tipo de máfia turca. Agora, depois das informações de Demétrius, entendeu que seu avô provavelmente fora descoberto e estava fugindo dos amaldiçoados ao vir fixar residência no Brasil. Demétrius prosseguia falando sobre os Gadols:

- Os licantropos que já lutaram contra algum Gadol dizem que sentiram-se como que combatendo outro ser sobrenatural, já que eles provavelmente têm o sangue dos lendários sacerdotes e possuem o conhecimento de magia, usando-a para conseguir vantagem na luta. Sabe-se que normalmente eles agem em grupo. Notadamente ainda se encontram Gadols em parte na Europa, no Oriente Médio e no extremo leste da Ásia em partes dos territórios da Mongólia, Tibete e China. Devido a carnificina que outrora ocorreram naqueles territórios, muitos amaldiçoados migraram, para fugir das guerras, para outras regiões do globo, desde o século XVIII, e em especial para o continente americano. Tudo indica que alguns Gadols já estejam por aqui também, mas num número ainda pequeno para ser significante.

- Com certeza você tem sangue Gadol, Alice. - interrompeu Elizabeth. - É por isso que você tem tanta influência sobre os obsessores. Quem te passou a Chamsa como símbolo de proteção? Ele ainda está vivo?

- Quem me pediu para sempre usá-la foi meu avô, mas ele faleceu já faz dez anos. Ele pediu para nunca me apartar do amuleto. Como tinha medo de ser roubada, acabei guardando-o num cofre e tatuei sua figura no meu pulso como forma de não quebrar a promessa feita a ele.

- Mas então seu avô deveria ser um Gadol. Ele te passou algum ensinamento, alguma coisa que possa ser útil para nos livrar da maldição? - Elizabeth estava esperançosa.

- Infelizmente meu pai não deixava que meu avô me falasse sobre essas coisas. Em segredo, ele me contou algumas poucas coisas, mas somente quando estávamos a sós. Eu mesma era muito criança na época e não lembro de muita coisa. Sinto um pouco de remorso agora em saber que meu avô falava a verdade quando me contava todas aquelas história. Depois que cresci, achei que fosse tudo apenas invenção dele para me impressionar. Agora vejo que ele estava tentando me ensinar coisas importantes e não dei a devida atenção... - Os olhos de Alice encheram-se de lágrimas.

- Bem, agora não é momento para sentir remorso. - Demétrius cortou o silêncio. - Precisamos primeiro garantir nossa segurança. Vamos, me ajudem aqui.

Logo os três licantropos empurraram o carro para um grande desnível próximo à pista. Demétrius acendeu um isqueiro e ateou fogo no Jeep. Em pouco tempo o carro todo estava em chamas.

- Sua moto também deve ser queimada para apagar nosso rastro. O cheiro de vocês agora também deve ser conhecido de nossos perseguidores. - falava Nicole, tentando esclarecer os motivos para tudo aquilo.

- Se não há outra forma... - Matheus arrastou sua moto até as chamas e a jogou para também ser queimada.

Enquanto eles observavam os veículos serem consumidos pelas chamas o celular de Matheus tocou. Era Alberto que ligava. Matheus primeiramente não quis atender, mas a curiosidade foi mais forte:

- Alô, é Matheus. Por que você está me ligando tão cedo, Alberto?

- Cara, que loucura! Onde você está, Matheus?! Graças a Deus você está vivo! Eu não acredito que você ainda não sabe de nada! Aconteceu uma tragédia com o teu irmão, cara. Acho melhor você se sentar que o negócio é muito sério.

- O que aconteceu, Alberto? Desembucha logo! - Matheus fazia-se de desentendido.

- Eu acho melhor contar para você pessoalmente. Onde você está? A gente precisa conversar. A polícia quer que você entre em contato com eles o mais rápido possível. Eles precisam da tua ajuda. Eu não disse nada pra eles, mas acredito que você deve ter sido a última pessoa que falou com Henrique. Ele não te falou nada estranho? Não comentou nada que te chamou atenção?

- Como assim a última pessoa que falou com Henrique?! O que aconteceu com meu irmão, Alberto?

- Cara, o teu irmão tá morto! Invadiram a casa da tua família e mataram todo mundo! Os corpos dos empregados foram encontrados todos destruídos. Parece que usaram animais, talvez cachorros, para mutilar os corpos. Tá todo mundo desesperado atrás de você, cara. A polícia veio aqui em casa para saber se você estava por aqui. Eles precisam que você ajude nas investigações. Querem saber se teu irmão tinha algum inimigo que poderia fazer alguma coisa do tipo contra ele.

- Olha, Alberto, agora não tem como eu aparecer por aí...

- Como assim não tem como? Cara, você tá doido?! Porra! O teu irmão morreu, foi assassinado, você entendeu?! Não é brincadeira, o negócio é sério, velho! Entraram na casa da tua família e fuderam com tudo!

- Olha, cara, agora não dá pra falar. Assim que puder eu te ligo, tudo bem?

- Como assim tudo bem?! Você endoid...

Matheus desligou o telefone. Não conseguia mais falar sobre isso com Alberto. Ele ainda estava muito abalado. Mas, ao que parecia pela conversa, ainda não era o principal suspeito pelos crimes. Ele sentiu uma forte tontura como se fosse desmaiar e um embrulho no estômago o fez vomitar. Alice percebeu que o assunto tratado no telefonema o abalara bastante e foi tentar acalmá-lo. Ela abraçou-o forte e beijou seu rosto. Todos ficaram um momento em silêncio enquanto Matheus chorava no colo de Alice.

- Esperamos demais. Me desculpe Matheus, mas já é hora de irmos. - falando isso, Demétrius , após ter retirado suas roupas, transmutou-se no grande lobo negro que, dias atrás, havia atacado o jovem amaldiçoado.

Nicole e Elizabeth também se despiram e aproximaram-se de Matheus. Ele deveria aprender rápido a dominar suas novas habilidades. Pediram-lhe que retirasse as roupas e que se colocasse de pé. Cada uma delas segurou em um dos ombros do inexperiente licantropo. Esta seria sua primeira aula:

- Concentre-se. Sinta a essência que exite em você, a essência de um animal escondida. Entre em contato com o lobo que vive no seu interior, Matheus. Vamos, concentre-se!... Nós vamos guiá-lo ao encontro de sua outra forma. - falou Nicole, enquanto entrava em sintonia telepática com Matheus.

Matheus entrou em transe. Pareceu estar novamente no vazio. Em pouco tempo Nicole e Elizabeth também apareceram em sua visão. Matheus sabia que estavam como em um sonho, as imagens estavam confusas, parecia que uma espécie de bruma cercava o ambiente. As duas mulheres estavam seminuas, cobertas apenas por finos vestidos translúcidos. Nicole era loira, com cabelos de um amarelo bem claro, tinha um corpo atlético, definido. Era uma guerreira afinal, mas exalava uma sensualidade natural de seu corpo. Já Elizabeth tinha os cabelos castanhos de um tom quase avermelhado, era mais alta e elegante que sua companheira, com uma postura nobre. Tinha seios fartos e seus cabelos longos e ondulados chegavam a altura da cintura. As duas caminhavam na sua frente sorrindo e trocando carícias, chamando-o para que ele as seguisse. Matheus caminhou na direção das duas lindas moças. De uma hora para outra o vazio foi substituído por uma planície enorme e verde. No céu era noite, mas as estrelas e a lua brilhavam intensamente deixando tudo claro. As duas moças correram em direção a um lago que estava bem mais a frente. Matheus esforçou-se para acompanhá-las, chegando um pouco depois. Na margem do lago, estavam as duas garotas inclinadas acariciando um grande lobo cinza que bebia um pouco de água. As duas olharam para Matheus e sorriram. Ele entendeu o que elas sinalizavam, aquele era o seu lobo interior. Ali era o local onde ele aguardava pelo chamado de Matheus. Lentamente ele se aproximou do lobo. O belo animal ergueu sua cabeça e partiu calmamente ao seu encontro. Ao chegar um à frente do outro, os dois pararam. Então Matheus ajoelhou-se e abraçou o lobo. Depois disso tudo ficou escuro novamente. Ao abrir seus olhos, Matheus não era mais um homem, mas sim um enorme lobo de pelo cinza.

Alice observou a tudo com espanto. As outras duas, Nicole e Elizabeth, também já tinham transmutado-se. Nicole transformara-se em uma loba branca e Elizabeth era uma loba de pelos castanhos que clareavam ao longo da parte inferior do corpo. As lobas chegaram-se para junto de Demétrius. Matheus aproximou-se de Alice e, inclinando-se, deu a entender que era para ela montar em suas costas. Alice atendeu ao pedido de Matheus, montando em seu dorso e segurando firme em seus longos pelos de cor cinza. Demétrius soltou um uivo demorado. Ao fim, ele pôs-se em disparada para dentro da mata, sendo seguido por seus companheiros. Alice teve que agarra-se com força em Matheus, pois eles corriam e saltavam em grande velocidade. O vento batia no rosto de Alice agitando seus cabelos. A sensação de liberdade era única. Eles pareciam voar com o vento. Em pouco tempo já haviam se deslocado muitos quilômetros à frente. Alice provara algo totalmente indescritível. Aqueles lobos eram realmente animais sobrenaturais, muito rápidos e ágeis. Eles facilmente cortavam a floresta, avançando rapidamente por entre a mata fechada. Demétrius estava à frente guiando os outros três lobos, queria obstinadamente chegar ao seu refúgio o quanto antes.

**********

No casarão destruído pela luta da noite anterior, a polícia vasculhava o local. Encontraram no chão os corpos dos quatro Nightkillers e, para sua surpresa, descobriram que um deles não estava morto. O homem sobrevivente possuía uma tatuagem de um demônio em seu pescoço. Eles chamaram o socorro médico e agora aguardavam pela sua chegada.

Poucos minutos depois, um grupo com seis jovens, quatro rapazes e duas moças, todos vestindo casacos negros com letras NK gravados em seus ombros, chegaram ao casarão e, mesmo sem autorização das autoridades, invadiram o local. Os policiais, ao ver que o grupo deveria fazer parte da mesma gangue das vítimas mortas, os abordaram com armas em punho. Em pouco tempo, todos os vinte policiais que estavam no local foram mortos. Aqueles Nightkillers não queriam perder tempo. Eles queriam achar suas presas o mais rápido possível.

LdS - Livro I - Capítulo 10 - Fuga



Foi tudo muito rápido. Em pouco tempo os invasores já estavam descendo as escadas do casarão. Eram dois integrantes dos Nightkillers que haviam entrado de forma estrondosa na propriedade de Demétrius. Tinham a aparência de homens jovens, mas tratando-se de licantropos, não se podiam arriscar suas idades. Estavam à procura dos culpados pela morte de seu companheiro, dias atrás. Cada um deles carregava uma enorme faca como arma e vestiam casacos pretos com as iniciais NK em vermelho gravadas nos ombros.

Demétrius e Nicole imediatamente levantaram-se e, juntamente com Elizabeth, Matheus e Alice, puseram-se a correr em direção a saída principal do casarão. Eles sabiam que uma invasão daquela natureza só poderia ser obra dos Nightkillers. Já fazia algum tempo que seus integrantes estavam sondando os arredores da cidade. Era apenas questão de tempo, mais dia ou menos dia teriam que deixar aquele local. E o que temiam finalmente aconteceu, eles haviam sido descobertos. Em nada adiantou a eliminação do informante na mesma noite em que a maldição foi passada a Matheus. O rastro dos três foi seguido e agora eram eles que estavam sendo caçados.

Para a surpresa do pequeno grupo de fugitivos, a porta principal de entrada foi arrombada com um violento golpe e mais dois integrantes dos Nightkillers entraram na casa em busca de desertores. Estavam também armados e vestiam casacos semelhantes ao dos outros dois. Um dos homens, o mais alto, carregava uma foice. O outro Nightkiller tinha uma faixa vermelha no braço esquerdo do casaco significando que ele era o líder daquela “matilha”. Foi nítida a reação de medo de Elizabeth ao reconhecer o líder do grupo invasor. Ninguém menos que Edgar, “o perseguidor”, estava à frente do grupo. Ele exalava morte e dor. Tinha a fisionomia de um assassino frio, e era exatamente isso o que ele era, um assassino. Edgar era possuidor de um corpo magro, ágil e musculoso, dizia-se que tinha uma compleição compacta e rústica. Uma tatuagem no pescoço de um demônio completava a composição do psicopata. Ele trazia empunhada em sua mão direita uma adaga de prata, legendariamente conhecida como “a lâmina satânica”, que fora usada para matar inúmeros licantropos considerados desertores. Edgar riu ao ver Elizabeth, era evidente que os dois já se conheciam. Ele caminhou calmamente na direção do grupo já acuado. O silêncio era sepulcral, sendo possível se ouvir os ruídos de automóveis que cruzavam a pequena cidade interiorana que dormia, cachorros latiam bem ao longe.

Matheus estava nervoso, temia pela sua vida e de Alice. Eles estavam encurralados. Demétrius, Nicole e Elizabeth também aparentavam nervosismo, eles não esperavam que um grupo tão grande de licantropos viesse em seu encalce. A situação estava fora de controle.

Edgar então, num tom de pura ironia e sarcasmo, começou a zombar de suas vítimas:

- Ora, mas que boa surpresa revê-la Elizabeth! Vim em sua busca e acabo por descobrir que você fez novas amizades. Não pensei que uma dissidente dos Nightkillers pudesse encontrar refúgio entre os do outro grupo. Hahaha!... Pena que agora eles terão que morrer junto com você!

- Não venha com seu cinismo, Edgar! Você não é bem vindo aqui. Eu achei que vocês me queriam viva, mas vendo que é você quem lidera as buscas, vejo que agora eu já sou considerada uma dissidente. Vocês são mesmo uma piada! – Elizabeth tentava disfarçar seu medo atacando o assassino verbalmente. Ela era intrépida como são todos os Nightkillers.

- Para mim foi muito fácil farejar o seu rastro, minha flor. O seu perfume é inconfundível! Você já foi melhor em encobrir sua presença. Está perdendo o tato, querida. Também senti o rastro dos seus dois companheiros. Muito me admiro que vocês tenham conseguido eliminar Ighor, ele era meu melhor homem. Me pergunto quem devem ser vocês? Acho que vou ser muito bem recompensado quando entregar suas cabeças aos meus superiores... Mas vejo que ainda temos dois novos integrantes no seu grupo. Não havia sentido o cheiro deles antes. Vocês estão recrutando todo o tipo de lixo, é? Engraçado, essa garota não tem cheiro de um amaldiçoado. – ele fixou o olhar atentamente em Alice neste momento. – Não me digam que temos uma garota comum em nosso meio!? Hahaha!!!... Isso é hilário! – Edgar gargalhava.

Enquanto Edgar se deliciava com o eminente derramamento de sangue, Demétrius e Nicole preparavam-se para agir. Eles já se conheciam há muito tempo e possuíam um contato telepático muito forte, de forma que a mente de um era praticamente transparente para o outro. Demétrius fez um sinal com a cabeça para que Elizabeth também se preparasse e agisse ao primeiro movimento de seus companheiros. Matheus e Alice estavam acuados e não perceberam nada até que a confusão começou.

Demétrius e Nicole agiram rápido e de forma síncrona. Ele agarrou Nicole pelo braço girando-a em direção aos dois Nightkillers que estavam à sua retaguarda. Nicole foi impulsionada em direção aos dois com uma força incrível e os golpeou com suas pernas, os lançando contra a parede que se encontrava a uma distância de uns sete metros. Enquanto Nicole aterrissava em pé e agachando-se retirava duas facas de combate que estavam guardadas em cada uma das laterais de suas botas, Demétrius retirava o pequeno machado prateado que ele trazia sempre amarrado junto ao seu corpo e que ficava oculto por baixo de seu casaco. Demétrius partiu para cima de Edgar, enquanto Nicole ocupava-se com os dois que haviam caído e que agora se transmutavam em lobos para atacar. Elizabeth, ao início da ação de Demétrius e Nicole, colocou-se à frente de Matheus e Alice. Ela sabia que os dois não tinham a mínima chance de sobreviver a um ataque daqueles invasores. Elizabeth puxou suas adagas Sai que ela guardava em cada perna de sua calça e defendeu-se do ataque de foice do quarto Nightkiller que investia contra o casal de namorados. Matheus limitou-se a agarrar Alice tentando protegê-la e esperava atentamente por uma brecha para que ambos pudessem sair dali.

Edgar reconheceu então quem era o seu poderoso adversário. Tratava-se de Demétrius, “o implacável”, o licantropo que lutava com seu machado de prata e que era considerado, antes de sua deserção, um dos grandes guerreiros Licans. Apesar da grande fama de seu adversário, Edgar não se intimidou e atacou-o com toda a sua força. Eles trocavam golpes e ambos possuíam grande habilidade marcial e velocidade. Edgar, que era mais forte e ágil, acabou por acertar uma boa sequência de socos em Demétrius, que tentava se esquivar sem sucesso. Demétrius preocupava-se em evitar “a lâmina satânica”, mas Edgar golpeava usando todo o seu corpo, incluindo-se em seu repertório joelhadas e cotoveladas.

Enquanto isso, Nicole lutava contra os dois primeiros invasores que já estavam sob a forma de enormes lobos. Um dos dois animais saltou em sua direção visando seu pescoço. Ela, com uma agilidade incrível, esquivou-se e contra-atacou, fincando uma de suas facas no peito do animal, estando ele ainda no ar. O grande lobo acabou caindo já morto no chão. As facas de Nicole também eram de prata. O outro lobo, ao ver seu companheiro no chão, enfureceu-se sobremaneira e começou a rosnar e a tremer, aumentando de tamanho. Seus olhos brilhavam como brasa. Nicole estremeceu ao perceber o que estava acontecendo, ele estava entrando em frenesi! Ela rapidamente correu até o outro lobo que estava morto e retirou sua faca do peito do animal. A situação piorara sobremaneira, eles não tinham mais tempo, tinham que fugir dali! Não teriam a menor chance de enfrentar um lobo-demônio com Selene brilhando cheia daquele jeito no céu.

Elizabeth havia conseguido desarmar seu adversário, mas ele ainda insistia em lutar partindo em sua direção e desferindo socos contra ela. Elizabeth, esquivando-se para trás, contra-atacou com dois chutes, um primeiro no joelho direito e outro no peito do Nightkiller, fazendo-o recuar um pouco. Ela, sem dar tempo de seu adversário se recuperar, continuou o ataque acertando-lhe um forte soco no rosto. O invasor foi arremessado porta afora, caindo nocauteado no chão. Estava aberta uma brecha para que eles pudessem fugir.

Nicole correu em direção aos seus companheiros enquanto o grande lobo-demônio terminava sua terrível transmutação. Matheus e Alice foram orientados a saírem do casarão enquanto Nicole e Elizabeth iriam ajudar Demétrius na luta contra Edgar. O casal saiu em disparada para a porta sendo acompanhados pelo olhar curioso de Edgar. O líder daquela matilha de Nightkillers queria saber por que seus adversários tinham tanto cuidado em proteger aqueles dois jovens inúteis. Foi então que ele pôde observar a tatuagem gravada no pulso de Alice. “Uma Gadol?! O que uma Gadol faz junto desses dissidentes?”, pensou Edgar. Esse momento de distração foi o suficiente para que Demétrius conseguisse uma brecha para prender o braço direito de Edgar, aplicando uma chave com seu machado e o fazendo soltar sua adaga. Nicole completou o serviço ao chegar chutando o rosto do perseguidor, fazendo com que Edgar caísse cuspindo sangue no chão.

Os três correram para fora do casarão enquanto o lobo-demônio, já com sua transmutação completa, urrava ensandecido anunciando o início da destruição. Matheus já estava em cima de sua moto, com Alice em sua garupa, quando Demétrius e suas companheiras apareceram do lado de fora da edificação.

- Para onde vocês vão? O que devemos fazer? – perguntou Matheus. Ele estava totalmente desorientado.

- Fuja, não perca tempo! – respondeu Demétrius. - Este demônio vai matar quem ele vir pela frete! Nós temos muitos refúgios para onde ir. Vamos orientá-lo em pensamento para onde vocês devem fugir. Mas no momento apenas saiam daqui! Nós não podemos com ele...

Enquanto Demétrius ainda falava o monstro saltou para fora do casarão à procura de sangue humano. Ele rapidamente sentiu o cheiro de Alice e colocou-se em disparada para atacá-la. Ao vê-lo correr em sua direção Matheus tentou partir com sua moto, mas o monstro saltou sobre eles pondo-se na sua frente e obstruindo sua saída. O monstro golpeou a moto derrubando-os no chão. Ao ver o demônio urrando em pé à sua frente, Alice, tentando numa tentativa débil proteger-se, colocou seus braços à frente de seu rosto. Como que por milagre, algo inexplicável e inesperado aconteceu. A tatuagem de Alice começou a emitir um forte brilho prateado na direção da criatura. Imediatamente o monstro começou a gritar de agonia, como se estivesse sendo queimado por alguma chama invisível. Aos poucos a besta foi diminuindo de tamanho até que, semelhantemente ao acontecido com Matheus, o monstro voltou à forma de um lobo e depois assumiu a forma de um homem. Exausto, o Nightkiller caiu desacordado no chão. Nicole tratou de acabar logo com a ameaça decepando a cabeça do inimigo com uma de suas facas.

Todos ficaram atônitos com o que tinha acontecido. Alice era realmente uma Gadol! Enfim, aquela era a primeira Gadol que eles haviam visto em todos aqueles anos de maldição.

Elizabeth correu para ajudar o casal:

- Vamos, ainda corremos perigo! Temos que sair daqui. Imagino que outros virão a nossa procura. Precisamos que vocês nos sigam, juntos poderemos protegê-los. Alice tem um dom e pode ser ela a salvação para todos nós. Mas agora não é tempo para falar sobre isso. Demétrius foi pegar um carro. Você ainda está em condições de pilotar, Matheus?

- Estou sim. Mas estou preocupado com Alice...

- Eu estou bem, Matheus. Não precisa se preocupar comigo. Vamos andando, amor. Estou com medo de continuar aqui. Quero ir para um lugar seguro.

Em dois minutos Demétrius chegou parando ao lado do grupo um Jeep preto:

- Entrem logo, Garotas! Matheus, você e Alice sigam a gente, entendeu? As coisas complicaram-se ainda mais para você, rapaz. Agora, além da polícia, você também terá que se preocupar com os Nightkillers. O cheiro de vocês está no local da luta também. Se não estiverem conosco, dificilmente sobreviverão por muito tempo. Temos outros locais onde podemos nos esconder. Lá poderei ajudá-lo com seu problema, eu espero. Vamos andando!

Matheus rapidamente levantou-se e ajudou Alice a levantar-se também. A mente dele estava confusa. Não tinha mais para onde ir e o pior, acabara envolvendo Alice numa situação muito perigosa. Ele não tinha escolha, se quisesse viver teria que ir para onde Demétrius ia. Dentro de seu íntimo pensamentos desconexos. Seu sangue ainda fervia tamanha a adrenalina. Matheus agora não tinha mais nada, nem emprego, nem família, tudo se perdera. E mesmo assim ele não conseguia se preocupar com ele, não conseguia mudar o foco de sua mente para outro pensamento que não esse: “o que será de Alice?”