sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

LdS - Livro I - Capítulo 5 - Conversa sob a luz da lua



Matheus há tempos não se sentia tão bem. Estava realmente feliz. Ele olhava para Alice dormindo iluminada pela luz da lua que entrava pela janela aberta. Não conseguia entender como podia querer tanto estar perto dela. Era incrível a forma como ele desejava tê-la consigo. Aos poucos o sono foi vencendo a euforia e o êxtase dos minutos atrás. A excitação foi se dissipando e Matheus conseguiu dormir por alguns minutos.

Ele nem ao menos chegou a relaxar totalmente e a dor no pescoço novamente começou a incomodá-lo. E dessa vez uma sensação terrível como um pânico irracional tomou conta dele. Matheus sentiu a nítida impressão de estar sendo observado. Rapidamente abriu seus olhos e foi tomado por um medo que até então não conhecia. Parado, ao pé de sua cama, os estava observando o mesmo homem ameaçador que ele avistara no casarão mais cedo quando da sua chegada na pousada. Ele os olhava com um semblante sombrio. A luz da lua iluminava bem o rosto do invasor. Em cada um dos lados de sua cama estava uma das garotas que acompanhavam o observador indesejado. Matheus sentou na cama subitamente, agindo por reflexo. O homem desconhecido começou então a falar-lhe:

- Vejo que está gozando de boa saúde mental. Não tenha medo, pois dessa vez não vim atacá-lo. Estou aqui para instruí-lo sobre o que você está prestes a tornar-se. – o homem fechou ainda mais o seu semblante. – Eu sei que você recebeu a visita de meu obsessor enquanto estava internado no hospital. Quero que saiba que não sou aliado dele e que só o ataquei porque estava no limiar de entrar em frenesi. Entenda que nesta situação poucos de nós conseguem dominar-se por completo. Neste estado de consciência entramos numa luta interior contra nosso obsessor pelo domínio do metamorfo, que é nosso corpo transmutado em fera. Você provavelmente não deve estar entendendo nada e confesso não saber bem por onde começar sua instrução. Como fui eu o culpado por passar-lhe a maldição, tenho o dever, pela antiga lei, de apresentá-lo a essa realidade tão assustadoramente diferente da que você estava habituado quando ainda era totalmente humano.

- Eu não te conheço. Como vocês conseguiram entrar no meu quarto? O que está acontecendo? Que aberração é está?! – Matheus estava exaltado.

- Calma, garoto. – respondeu-lhe uma das belas jovens. – Tudo lhe será revelado no momento oportuno. Se você tem mesmo tanto interesse em saber quem somos e porquê estamos aqui, sugiro que se acalme e que preste bastante atenção no que Demétrius tem a lhe dizer.

- Bem, acho de bom tom que iniciemos nossa conversa nos apresentando. Meu nome, como você acabou de ouvir, é Demétrius. A garota que lhe dirigiu a palavra se chama Nicole e nossa outra companheira chama-se Elizabeth. Fixamos residência nesta cidade há alguns anos procurando nos refugiar da guerra oculta que está se desenrolando nessa época. Apesar desta ser uma terra tranquila, vez por outra nos deparamos com alguns visitantes indesejados. Você teve a infelicidade de topar comigo numa dessas ocasiões em que tentávamos expulsar um desses invasores. Tínhamos acabado de nos confrontar e estávamos caçando-o a fim de eliminá-lo. Infelizmente, durante a batalha, perdi o controle e meu obsessor quis colocar-me sob seu jugo. Naquele momento você foi mais uma vítima de Rilathary, meu demônio interior, que diariamente mina minhas energias e tenta-me para que sucumba à loucura. Infelizmente, o preço desse meu descontrole foi a sua condenação...

- Eu não estou entendendo nada. Que coisa é essa de demônio, guerra oculta, maldição, metamorfo? Olha, eu nunca cruzei com você antes! Se isso tivesse acontecido eu me lembraria. Não tenho a mínima ideia do que você quer comigo, cara. E não sei se quero continuar com esta conversa.

- Não tenho tempo para perder tentando convencê-lo da realidade desses fatos. - prosseguiu Demétrius como se não tivesse ouvido nada do que Matheus falara. - Os fatos por si mesmos irão trazê-lo novamente à minha presença, portanto serei breve nas minhas informações. A ferida causada no seu pescoço é obra minha. Dentro de alguns dias você passará por sua primeira transmutação. Selene irá convocá-lo em breve e a esse chamado você não poderá fugir, nem se esconder. Espero que você tenha força de espírito para conseguir resistir ao demônio que agora habita o seu íntimo. Saiba que poucos possuem essa força em seu interior. Ainda não consegui entender o porquê, mas a presença dele está sendo inibida de alguma forma. Até mesmo Rilathary sente-se neste momento perturbado, eu sei. De algum modo esses obsessores estão sendo enfraquecidos. Ainda não pude descobrir de onde está partindo esse fenômeno, mas algo me faz pensar que tem relação com você, garoto.

- Eu também sinto a mesma coisa. Parece que os obsessores não conseguem nos oprimir com a mesma intensidade, como se algo os mantivesse a distância. Agora há pouco, antes de entrarmos em contato telepático com você, Helendril, meu obsessor, estava bem presente. Agora praticamente não consigo senti-lo. - informou Elizabeth que até então limitava-se a observar tudo.

- O caso, garoto, é que dentre em breve você verá com seus próprios olhos que o que estamos lhe contando não é loucura. Como eu gostaria que assim fosse! Quando enfim você entender que deixou de ser um simples humano, virá ao nosso encontro atrás de respostas. Quando esse momento chegar, estaremos aqui prontos para mostrar-lhe os caminhos que você pode seguir. Até o momento da sua completa transfiguração, entendo que esteja de bom tamanho as informações até aqui a você reveladas. Seria insensatez a minha bombardeá-lo com mais coisas.

- Esperem! Eu ainda não entendo. Vocês querem que eu acredite que aquele lobo que me atacou se tratava de você?! Mas que absurdo é este! Vou ser bem sincero, ou vocês estão tentando fazer uma brincadeira de muito mal gosto ou então são completamente loucos. Não quero contato com vocês, seus malucos! Saiam agora de meu quarto! - Matheus berrava descontroladamente com seus interlocutores.

- Está bem, garoto. Sei que não deve ser fácil para você assimilar tudo que te revelamos. Espero que ao acordar você lembre de nossa conversa e que, após a sua transformação, sua alma ainda tenha força para poder recuperar sua humanidade e trazê-lo de volta ao controle. Acredito, se você não for tão idiota como agora, que venhamos a nos reencontrar. Até lá sugiro que você mantenha distância de seus entes queridos. Acho que você não vai querer lhes causar mal.

Dizendo essas últimas palavras, subitamente Demétrius e suas duas companheiras, Nicole e Elizabeth, desapareceram instantaneamente do quarto deixando Matheus completamente perplexo.

Num susto Matheus abriu seus olhos. Ele teve uma sensação estranha como se estivesse sendo trazido de volta ao corpo. Seu coração palpitava acelerado. O quarto estava vazio. Teria sido tudo apenas um sonho? Do seu lado, Alice dormia um sono tranquilo totalmente aquém do ocorrido. A paz de Matheus mais uma vez tinha lhe sido roubada. Ele não conseguia compreender, nem conseguia acreditar em tudo que havia sonhado. Ainda era noite, mas Matheus não conseguiu mais pregar os olhos assombrado com o que lhes revelaram seus pesadelos absurdos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário