Matheus
há tempos não se sentia tão bem. Estava realmente feliz. Ele
olhava para Alice dormindo iluminada pela luz da lua que entrava pela
janela aberta. Não conseguia entender como podia querer tanto estar
perto dela. Era incrível a forma como ele desejava tê-la consigo.
Aos poucos o sono foi vencendo a euforia e o êxtase dos minutos
atrás. A excitação foi se dissipando e Matheus conseguiu dormir
por alguns minutos.
Ele
nem ao menos chegou a relaxar totalmente e a dor no pescoço
novamente começou a incomodá-lo. E dessa vez uma sensação
terrível como um pânico irracional tomou conta dele. Matheus sentiu
a nítida impressão de estar sendo observado. Rapidamente abriu seus
olhos e foi tomado por um medo que até então não conhecia. Parado,
ao pé de sua cama, os estava observando o mesmo homem ameaçador que
ele avistara no casarão mais cedo quando da sua chegada na pousada.
Ele os olhava com um semblante sombrio. A luz da lua iluminava bem o
rosto do invasor. Em cada um dos lados de sua cama estava uma das
garotas que acompanhavam o observador indesejado. Matheus sentou na
cama subitamente, agindo por reflexo. O homem desconhecido começou
então a falar-lhe:
-
Vejo que está gozando de boa saúde mental. Não tenha medo, pois
dessa vez não vim atacá-lo. Estou aqui para instruí-lo sobre o que
você está prestes a tornar-se. – o homem fechou ainda mais o seu
semblante. – Eu sei que você recebeu a visita de meu obsessor
enquanto estava internado no hospital. Quero que saiba que não sou
aliado dele e que só o ataquei porque estava no limiar de entrar em
frenesi. Entenda que nesta situação poucos de nós conseguem
dominar-se por completo. Neste estado de consciência entramos numa
luta interior contra nosso obsessor pelo domínio do metamorfo, que é
nosso corpo transmutado em fera. Você provavelmente não deve estar
entendendo nada e confesso não saber bem por onde começar sua
instrução. Como fui eu o culpado por passar-lhe a maldição, tenho
o dever, pela antiga lei, de apresentá-lo a essa realidade tão
assustadoramente diferente da que você estava habituado quando ainda
era totalmente humano.
-
Eu não te conheço. Como vocês conseguiram entrar no meu quarto? O
que está acontecendo? Que aberração é está?! – Matheus estava
exaltado.
-
Calma, garoto. – respondeu-lhe uma das belas jovens. – Tudo lhe
será revelado no momento oportuno. Se você tem mesmo tanto
interesse em saber quem somos e porquê estamos aqui, sugiro que se
acalme e que preste bastante atenção no que Demétrius tem a lhe
dizer.
-
Bem, acho de bom tom que iniciemos nossa conversa nos apresentando.
Meu nome, como você acabou de ouvir, é Demétrius. A garota que lhe
dirigiu a palavra se chama Nicole e nossa outra companheira chama-se
Elizabeth. Fixamos residência nesta cidade há alguns anos
procurando nos refugiar da guerra oculta que está se desenrolando
nessa época. Apesar desta ser uma terra tranquila, vez por outra nos
deparamos com alguns visitantes indesejados. Você teve a
infelicidade de topar comigo numa dessas ocasiões em que tentávamos
expulsar um desses invasores. Tínhamos acabado de nos confrontar e
estávamos caçando-o a fim de eliminá-lo. Infelizmente, durante a
batalha, perdi o controle e meu obsessor quis colocar-me sob seu
jugo. Naquele momento você foi mais uma vítima de Rilathary, meu
demônio interior, que diariamente mina minhas energias e tenta-me
para que sucumba à loucura. Infelizmente, o preço desse meu
descontrole foi a sua condenação...
-
Eu não estou entendendo nada. Que coisa é essa de demônio, guerra
oculta, maldição, metamorfo? Olha, eu nunca cruzei com você antes!
Se isso tivesse acontecido eu me lembraria. Não tenho a mínima
ideia do que você quer comigo, cara. E não sei se quero continuar
com esta conversa.
-
Não tenho tempo para perder tentando convencê-lo da realidade
desses fatos. - prosseguiu Demétrius como se não tivesse ouvido
nada do que Matheus falara. - Os fatos por si mesmos irão trazê-lo
novamente à minha presença, portanto serei breve nas minhas
informações. A ferida causada no seu pescoço é obra minha. Dentro
de alguns dias você passará por sua primeira transmutação. Selene
irá convocá-lo em breve e a esse chamado você não poderá fugir,
nem se esconder. Espero que você tenha força de espírito para
conseguir resistir ao demônio que agora habita o seu íntimo. Saiba
que poucos possuem essa força em seu interior. Ainda não consegui
entender o porquê, mas a presença dele está sendo inibida de
alguma forma. Até mesmo Rilathary sente-se neste momento perturbado,
eu sei. De algum modo esses obsessores estão sendo enfraquecidos.
Ainda não pude descobrir de onde está partindo esse fenômeno, mas
algo me faz pensar que tem relação com você, garoto.
-
Eu também sinto a mesma coisa. Parece que os obsessores não
conseguem nos oprimir com a mesma intensidade, como se algo os
mantivesse a distância. Agora há pouco, antes de entrarmos em
contato telepático com você, Helendril, meu obsessor, estava bem
presente. Agora praticamente não consigo senti-lo. - informou
Elizabeth que até então limitava-se a observar tudo.
-
O caso, garoto, é que dentre em breve você verá com seus próprios
olhos que o que estamos lhe contando não é loucura. Como eu
gostaria que assim fosse! Quando enfim você entender que deixou de
ser um simples humano, virá ao nosso encontro atrás de respostas.
Quando esse momento chegar, estaremos aqui prontos para mostrar-lhe
os caminhos que você pode seguir. Até o momento da sua completa
transfiguração, entendo que esteja de bom tamanho as informações
até aqui a você reveladas. Seria insensatez a minha bombardeá-lo
com mais coisas.
-
Esperem! Eu ainda não entendo. Vocês querem que eu acredite que
aquele lobo que me atacou se tratava de você?! Mas que absurdo é
este! Vou ser bem sincero, ou vocês estão tentando fazer uma
brincadeira de muito mal gosto ou então são completamente loucos.
Não quero contato com vocês, seus malucos! Saiam agora de meu
quarto! - Matheus berrava descontroladamente com seus interlocutores.
-
Está bem, garoto. Sei que não deve ser fácil para você assimilar
tudo que te revelamos. Espero que ao acordar você lembre de nossa
conversa e que, após a sua transformação, sua alma ainda tenha
força para poder recuperar sua humanidade e trazê-lo de volta ao
controle. Acredito, se você não for tão idiota como agora, que
venhamos a nos reencontrar. Até lá sugiro que você mantenha
distância de seus entes queridos. Acho que você não vai querer
lhes causar mal.
Dizendo
essas últimas palavras, subitamente Demétrius e suas duas
companheiras, Nicole e Elizabeth, desapareceram instantaneamente do
quarto deixando Matheus completamente perplexo.
Num
susto Matheus abriu seus olhos. Ele teve uma sensação estranha como
se estivesse sendo trazido de volta ao corpo. Seu coração palpitava
acelerado. O quarto estava vazio. Teria sido tudo apenas um sonho? Do
seu lado, Alice dormia um sono tranquilo totalmente aquém do
ocorrido. A paz de Matheus mais uma vez tinha lhe sido roubada. Ele
não conseguia compreender, nem conseguia acreditar em tudo que havia
sonhado. Ainda era noite, mas Matheus não conseguiu mais pregar os
olhos assombrado com o que lhes revelaram seus pesadelos absurdos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário