Somente
com um golpe. Foi assim que Shaladiel decepou a cabeça de Maria,
somente com um golpe. A sede de sangue que consumia Shaladiel era
insaciável e, não importava quantos mais ele matasse, ela não
diminuiria. A pobre doméstica nem teve tempo de gritar. Com um golpe
violentamente forte o lobo-demônio arrancou a cabeça da pobre
senhora. No chão uma enorme poça de sangue se formara rapidamente.
Matheus
lutava para assumir o controle, mas o demônio era muito mais forte
que ele. Por mais que ele sofresse, que chorasse, não conseguia
fazer-se parar. Os dois disputavam o controle do metamorfo, mas era
uma luta desigual. Na presença da lua cheia Shaladiel era
irresistível. E Matheus era obrigado a assistir toda aquela
atrocidade como mero espectador.
Apesar
de ter ceifado de forma brutal a vida daquela pobre senhora, o
monstro não estava satisfeito. Shaladiel queria muito mais. Ele
colocou-se a procura de mais e mais pessoas dentro daquela
propriedade. Primeiramente tratou de atacar a outra doméstica que
auxiliava Maria na arrumação da casa. Seu nome era Ivete. Jovem
ainda, tinha apenas vinte e oito anos. O demônio não teve pressa em
matá-la. Ao avistá-la, ainda terminando de trocar-se depois de ter
terminado seu banho, a besta espreitou-a calmamente curtindo a
expectativa que mais aquela morte lhe trazia. Shaladiel realmente se
regozijava em poder trucidar suas vítimas e fazia isso com requintes
de crueldade.
Ivete
terminara de vestir-se e agora estava penteando seus cabelos enquanto
olhava-se no espelho. Sorrateiramente Shaladiel aproximou-se da moça
e intencionalmente, a fim de poder ver a expressão de pavor dela
ante sua presença, deixou-se refletir no espelho, colocando-se bem
atrás da pobre coitada. Os olhos do monstro brilhavam como brasa
viva. Ao vê-lo Ivete paralisou de medo. Sua garganta fechou-se de
tanto pavor, não conseguindo emitir um grito que fosse. Seus olhos
exprimiam todo o desespero que no interior de Ivete havia. Shaladiel
agarrou-a pela cabeça com uma de suas patas e com a outra tratou de
corta-lhe a barriga, deixando suas vísceras caírem no chão
enquanto ela toda tremia de dor. Ainda não contente, Shaladiel
quebrou-lhe o pescoço e jogou-a, como se fosse um trapo, com força
na parede do quarto.
Mal
terminara aquela abominação e já ouvira o som de um carro
estacionando na garagem. Rapidamente correu a procura de mais um
infeliz desprevenido. Era Jacinto, o motorista da família, que havia
acabado de estacionar um Porsche 911, o carro que pertencera ao pai
de Matheus. Jacinto fora encarregado por Henrique para manter aquele
carro sempre impecável. Por isso, de vez em quando, levava o carro
para realizar algumas revisões. Daquela vez a revisão demorara mais
que o normal e Jacinto, que normalmente já estaria em casa num
horário daqueles, estava terminando de guardar o veículo
cuidadosamente na garagem. Como um raio, Shaladiel pulou sobre
Jacinto. A força do lobo-demônio era absurda. Mesmo assim Jacinto
tentou lutar contra seu agressor. E gritou desesperadamente por
ajudar enquanto tentava deter as presas do monstro que lhe rasgavam
as carnes. Menos de dois minutos foi o tempo necessário para que
Shaladiel esquartejasse o motorista completamente. O monstro estava
ensandecido. Ele, num ímpeto de animosidade, na medida em que
arrancava os pedaços do corpo de Jacinto, jogava-os longe, sendo que
alguns pedaços chegaram a cair dentro da piscina que estava há
poucos metros de distância. Mas Shaladiel queria ainda mais. Ele
sentia o cheiro de mais uma pessoa naquela casa e logo se colocou a
caçá-lo determinadamente.
Por
sorte Henrique ouvira os gritos de desespero de Jacinto e já estava
portando sua arma quando Shaladiel o encontrou em seu quarto. O pobre
homem mal conseguia empunhar sua arma tanto era o seu medo. Mas
Shaladiel não se deteve ante o fato de Henrique estar armado. Com
escárnio o monstro falou:
-
Então pensa que com essa arma poderá me deter? Não acha que está
equivocado, meu jovem? Saiba que matei os seus criados e agora é
chegada sua hora...
No
interior da criatura Matheus tentava desesperadamente deter o demônio
insano. Não suportaria ser o responsável pela morte de seu irmão.
Ele tinha que fazer alguma coisa, Matheus tinha que deter aquela
criatura de qualquer forma.
Henrique
não conseguiu reconhecer o irmão naquela forma grotesca. Sem
hesitar começou a disparar sua arma na direção do monstro.
Shaladiel nem ao menos tentou proteger-se dos disparos de Henrique.
Os disparos não lhe causavam dano algum e o demônio sorria ante a
cara de pavor de Henrique ao perceber que sua única defesa não
tinha efeito sobre seu adversário. Ele estava se divertido com tudo
aquilo. Na verdade Shaladiel estava se deliciando com aquela
brincadeira de gato e rato. O demônio estava brincando com Henrique,
deixando-o lutar por sua vida como se ainda houvesse alguma esperança
para ele.
Ao
ver que armas de fogo não feriam a criatura, Henrique tentou, numa
atitude desesperada, fugir pulando pela janela de seu quarto que
ficava no segundo pavimento da casa. Ao cair no chão acabou por
quebrar o tornozelo e assim não teve como conseguir correr para
fugir da besta. Shaladiel gargalhava de tudo aquilo enquanto Matheus,
em prantos, sufocado no interior do monstro, gritava de revolta por
não ter forças suficientes para expulsar o demônio de seu corpo.
Shaladiel
também saltou da janela do quarto de Henrique caindo ao lado do
pobre homem que rastejava em uma última tentativa de fuga.
Lentamente a criatura levantou Henrique segurando-o pelos cabelos.
-
Agora não tem mais como fugir? Resolveu desistir e morrer
honrosamente? - um sorriso cínico saiu da boca de Shaladiel.
Em
resposta Henrique, com todo o desprezo e ódio que agora possuía por
aquela criatura, cuspiu vigorosamente na cara animalesca do demônio.
Shaladiel golpeou-o no rosto, deslocando com isso o maxilar de
Henrique que caiu prostrado no chão já inconsciente. E então, já
desinteressado com aquele joguinho, o lobo-demônio enfiou suas
garras nas costas de Henrique penetrando-lhe o corpo e retirando o
seu coração.
Matheus
não sabe o que aconteceu com ele no momento em que viu seu irmão
morto no chão. Mas uma fúria se apoderou dele de tal forma que
Matheus, ainda que por consequência daquela reação inesperada
acabasse por consumir o seu próprio espírito, colocou todo o seu
ser, toda a sua vontade e energia na retomada do controle de seu
corpo. O ódio e o desespero foram os combustíveis que deram forças
para que Matheus lutasse contra Shaladiel.
Subitamente
a criatura começou a debater-se liberando urros de agonia. Aos
poucos Matheus estava retomando o controle. Shaladiel gritava em
revolta por ter de abandonar o seu hospedeiro. Enquanto essa luta
espiritual acontecia, a criatura diminuía consideravelmente de
tamanho e modificava sua forma surpreendentemente. Primeiramente
assumindo a forma de um lobo cinza e, passados mais alguns minutos,
mudando para a forma de um homem jovem, a criatura sucumbiu. Matheus
tinha vencido a sua primeira luta contra Shaladiel. O primeiro
chamado de Selene, que a muitos consumia permanentemente
transformando vários dos amaldiçoados em feras assassinas, tinha
passado.
Ele
demorou alguns minutos para conseguir reunir forças e movimentar seu
corpo exausto. Seu espírito estava atormentando, ele sabia o que
tinha acontecido a Henrique, estava consciente durante todo o domínio
de Shaladiel. Lentamente Matheus levantou-se do chão e caminhou até
o corpo de seu irmão. Com os olhos molhados ele viu entre lágrimas
o que a fera fizera ao último de sua família que ele ainda tinha.
Apesar das desavenças, Matheus amava Henrique. Antes de a família
ter se desfeito, eles eram grandes amigos, verdadeiros irmãos,
companheiros. Agora Henrique estava morto e por culpa sua, pensava
Matheus.

Nenhum comentário:
Postar um comentário