sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

LdS - Livro I - Capítulo 7 - Desespero



Somente com um golpe. Foi assim que Shaladiel decepou a cabeça de Maria, somente com um golpe. A sede de sangue que consumia Shaladiel era insaciável e, não importava quantos mais ele matasse, ela não diminuiria. A pobre doméstica nem teve tempo de gritar. Com um golpe violentamente forte o lobo-demônio arrancou a cabeça da pobre senhora. No chão uma enorme poça de sangue se formara rapidamente.

Matheus lutava para assumir o controle, mas o demônio era muito mais forte que ele. Por mais que ele sofresse, que chorasse, não conseguia fazer-se parar. Os dois disputavam o controle do metamorfo, mas era uma luta desigual. Na presença da lua cheia Shaladiel era irresistível. E Matheus era obrigado a assistir toda aquela atrocidade como mero espectador.

Apesar de ter ceifado de forma brutal a vida daquela pobre senhora, o monstro não estava satisfeito. Shaladiel queria muito mais. Ele colocou-se a procura de mais e mais pessoas dentro daquela propriedade. Primeiramente tratou de atacar a outra doméstica que auxiliava Maria na arrumação da casa. Seu nome era Ivete. Jovem ainda, tinha apenas vinte e oito anos. O demônio não teve pressa em matá-la. Ao avistá-la, ainda terminando de trocar-se depois de ter terminado seu banho, a besta espreitou-a calmamente curtindo a expectativa que mais aquela morte lhe trazia. Shaladiel realmente se regozijava em poder trucidar suas vítimas e fazia isso com requintes de crueldade.

Ivete terminara de vestir-se e agora estava penteando seus cabelos enquanto olhava-se no espelho. Sorrateiramente Shaladiel aproximou-se da moça e intencionalmente, a fim de poder ver a expressão de pavor dela ante sua presença, deixou-se refletir no espelho, colocando-se bem atrás da pobre coitada. Os olhos do monstro brilhavam como brasa viva. Ao vê-lo Ivete paralisou de medo. Sua garganta fechou-se de tanto pavor, não conseguindo emitir um grito que fosse. Seus olhos exprimiam todo o desespero que no interior de Ivete havia. Shaladiel agarrou-a pela cabeça com uma de suas patas e com a outra tratou de corta-lhe a barriga, deixando suas vísceras caírem no chão enquanto ela toda tremia de dor. Ainda não contente, Shaladiel quebrou-lhe o pescoço e jogou-a, como se fosse um trapo, com força na parede do quarto.

Mal terminara aquela abominação e já ouvira o som de um carro estacionando na garagem. Rapidamente correu a procura de mais um infeliz desprevenido. Era Jacinto, o motorista da família, que havia acabado de estacionar um Porsche 911, o carro que pertencera ao pai de Matheus. Jacinto fora encarregado por Henrique para manter aquele carro sempre impecável. Por isso, de vez em quando, levava o carro para realizar algumas revisões. Daquela vez a revisão demorara mais que o normal e Jacinto, que normalmente já estaria em casa num horário daqueles, estava terminando de guardar o veículo cuidadosamente na garagem. Como um raio, Shaladiel pulou sobre Jacinto. A força do lobo-demônio era absurda. Mesmo assim Jacinto tentou lutar contra seu agressor. E gritou desesperadamente por ajudar enquanto tentava deter as presas do monstro que lhe rasgavam as carnes. Menos de dois minutos foi o tempo necessário para que Shaladiel esquartejasse o motorista completamente. O monstro estava ensandecido. Ele, num ímpeto de animosidade, na medida em que arrancava os pedaços do corpo de Jacinto, jogava-os longe, sendo que alguns pedaços chegaram a cair dentro da piscina que estava há poucos metros de distância. Mas Shaladiel queria ainda mais. Ele sentia o cheiro de mais uma pessoa naquela casa e logo se colocou a caçá-lo determinadamente.

Por sorte Henrique ouvira os gritos de desespero de Jacinto e já estava portando sua arma quando Shaladiel o encontrou em seu quarto. O pobre homem mal conseguia empunhar sua arma tanto era o seu medo. Mas Shaladiel não se deteve ante o fato de Henrique estar armado. Com escárnio o monstro falou:

- Então pensa que com essa arma poderá me deter? Não acha que está equivocado, meu jovem? Saiba que matei os seus criados e agora é chegada sua hora...

No interior da criatura Matheus tentava desesperadamente deter o demônio insano. Não suportaria ser o responsável pela morte de seu irmão. Ele tinha que fazer alguma coisa, Matheus tinha que deter aquela criatura de qualquer forma.

Henrique não conseguiu reconhecer o irmão naquela forma grotesca. Sem hesitar começou a disparar sua arma na direção do monstro. Shaladiel nem ao menos tentou proteger-se dos disparos de Henrique. Os disparos não lhe causavam dano algum e o demônio sorria ante a cara de pavor de Henrique ao perceber que sua única defesa não tinha efeito sobre seu adversário. Ele estava se divertido com tudo aquilo. Na verdade Shaladiel estava se deliciando com aquela brincadeira de gato e rato. O demônio estava brincando com Henrique, deixando-o lutar por sua vida como se ainda houvesse alguma esperança para ele.

Ao ver que armas de fogo não feriam a criatura, Henrique tentou, numa atitude desesperada, fugir pulando pela janela de seu quarto que ficava no segundo pavimento da casa. Ao cair no chão acabou por quebrar o tornozelo e assim não teve como conseguir correr para fugir da besta. Shaladiel gargalhava de tudo aquilo enquanto Matheus, em prantos, sufocado no interior do monstro, gritava de revolta por não ter forças suficientes para expulsar o demônio de seu corpo.

Shaladiel também saltou da janela do quarto de Henrique caindo ao lado do pobre homem que rastejava em uma última tentativa de fuga. Lentamente a criatura levantou Henrique segurando-o pelos cabelos.

- Agora não tem mais como fugir? Resolveu desistir e morrer honrosamente? - um sorriso cínico saiu da boca de Shaladiel.

Em resposta Henrique, com todo o desprezo e ódio que agora possuía por aquela criatura, cuspiu vigorosamente na cara animalesca do demônio. Shaladiel golpeou-o no rosto, deslocando com isso o maxilar de Henrique que caiu prostrado no chão já inconsciente. E então, já desinteressado com aquele joguinho, o lobo-demônio enfiou suas garras nas costas de Henrique penetrando-lhe o corpo e retirando o seu coração.

Matheus não sabe o que aconteceu com ele no momento em que viu seu irmão morto no chão. Mas uma fúria se apoderou dele de tal forma que Matheus, ainda que por consequência daquela reação inesperada acabasse por consumir o seu próprio espírito, colocou todo o seu ser, toda a sua vontade e energia na retomada do controle de seu corpo. O ódio e o desespero foram os combustíveis que deram forças para que Matheus lutasse contra Shaladiel.

Subitamente a criatura começou a debater-se liberando urros de agonia. Aos poucos Matheus estava retomando o controle. Shaladiel gritava em revolta por ter de abandonar o seu hospedeiro. Enquanto essa luta espiritual acontecia, a criatura diminuía consideravelmente de tamanho e modificava sua forma surpreendentemente. Primeiramente assumindo a forma de um lobo cinza e, passados mais alguns minutos, mudando para a forma de um homem jovem, a criatura sucumbiu. Matheus tinha vencido a sua primeira luta contra Shaladiel. O primeiro chamado de Selene, que a muitos consumia permanentemente transformando vários dos amaldiçoados em feras assassinas, tinha passado.

Ele demorou alguns minutos para conseguir reunir forças e movimentar seu corpo exausto. Seu espírito estava atormentando, ele sabia o que tinha acontecido a Henrique, estava consciente durante todo o domínio de Shaladiel. Lentamente Matheus levantou-se do chão e caminhou até o corpo de seu irmão. Com os olhos molhados ele viu entre lágrimas o que a fera fizera ao último de sua família que ele ainda tinha. Apesar das desavenças, Matheus amava Henrique. Antes de a família ter se desfeito, eles eram grandes amigos, verdadeiros irmãos, companheiros. Agora Henrique estava morto e por culpa sua, pensava Matheus.

Já sem forças, sem poder mais suportar tanta dor ao ver o que acontecera a seu irmão, Matheus caiu de joelhos. Sem pensar muito no que estava fazendo e chorando copiosamente ele, num gesto de desespero de quem não tem mais o que fazer, deitou-se no chão, ao lado daquele corpo inerte, e abraçou seu irmão.

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