Era
apenas mais uma noite comum como muitas outras noites na vida de
Matheus. Ele havia viajado com sua banda para tocar em outra
cidadezinha do interior de Minas Gerais. Já estava há quatro anos
na estrada para conseguir o reconhecimento de seu trabalho, tocando
em todo o tipo de lugar, muitas vezes tendo até que tirar dinheiro
do próprio bolso para poder se apresentar, somente para ter a
oportunidade de ser visto. A banda, até então, era tudo que ele
tinha.
Para
variar, mais um show num lugar mixuruca, sem a mínima estrutura e
sem público suficiente para encher o local. Apesar das
circunstâncias, eles haviam tocado bem, ele sabia disso. Mas o
desânimo já estava instaurado no meio do grupo e Matheus não sabia
mais por quanto tempo eles poderiam continuar daquela forma. Aquela
era uma noite que não tinha motivos para comemoração. Resolveram
que cada um daria seu jeito para voltar para sua casa. Cada um por
si, agora as coisas eram assim. Matheus achou uma boa ideia ficar
para aproveitar um pouco mais a noite da cidade. Esse foi o seu
grande erro.
Entrou
numa boate pequena que funcionava em um casarão histórico como
tantos outros daquela cidadezinha mineira. Dentro da boate, o salão
fervia. Matheus sentou num banco do bar e pediu logo um copo de
whisky. Rapidamente, em cerca de cinco minutos, ele tomou outras
quatro doses da bebida. Estava a fim de encher a cara. Deu uma olhada
pelo salão e avistou uma garota linda dançando com alguns amigos
num canto da pista. Ele sorriu. Tinha encontrado seu “alvo”,
agora iria começar sua caça. Terminou de tomar a sexta dose de
bebida e foi confiante na direção daquela garota, que até então,
não representava nada para ele além de um corpo atraente. Ela, de
uma forma displicente, continuava dançando sem perceber sua
presença. Matheus parou sério na frente dela e ficou
observando-a dançar. Estava muito bêbado para ter qualquer tipo de
receio ou bom senso. Em pouco tempo eles estavam se encarando e ela,
de um jeito maroto, sorria para ele de canto de boca. Matheus a pegou
pelo braço e ela se deixou levar para um canto mais reservado do
salão:
-
Desculpe o mau jeito, mas eu não estou me sentindo muito bem. Tive
um dia terrível. Vi você dançando e pensei que talvez pudesse ter
achado alguém capaz de fazer minha vinda para essa cidade valer a
pena. - ele sorriu, queria parecer simpático. Estava bêbado, mas
ainda conseguia se expressar corretamente e sua forma de cortejá-la
demonstrava que, apesar de seu explícito interesse, iria
respeitá-la, não forçaria a barra para que ela ficasse com ele. -
Eu gostaria muito que você me fizesse companhia essa noite. Sem
querer parecer abusado, só estou precisando de alguém pra
conversar.
-
Tudo bem, eu não o entendi mal. Ainda há pouco estava te vendo
tocar. Gostei da sua banda. - seu sorriso era definitivamente
sincero. - Posso saber qual o nome dessa pessoa tão solitária?
-
Ah! Desculpe. Que vacilo esse meu! Meu nome é Matheus. E o seu?
-
Alice... - ela o encarava sem receio, quase o desafiando. Ele gostou
daquele jeito ousado.
Os
dois conversaram bastante àquela noite. Era grande a afinidade entre
os dois e as horas, a partir daquele primeiro contato, correram numa
velocidade espantosa. Naturalmente a conversa evoluiu para beijos e
carícias. O toque da pele dela mexia com ele, a química entre os
dois era perfeita. Sem se preocupar, por ser apenas um encontro
casual, ele se abriu com ela, falou sobre seus problemas com sua
banda, precisava desabafar com alguém. Ela o ouvia com atenção,
limitando-se a beijá-lo e acariciá-lo enquanto ele falava.
No
fim da festa, lá pelas 4 horas da manhã, ela se rendeu ao cansaço
e pediu para que ele a levasse para a pousada onde estava hospedada
com alguns amigos. Matheus concordou em levá-la, mas, como ambos
haviam bebido e a distância era de apenas alguns quarteirões,
resolveram ir caminhando. Os dois saíram juntos, cambaleando e
sorrindo pelas ruas antigas da cidadezinha.
Durante
o percurso da boate até a pousada onde Alice estava hospedada, eles
ainda se beijaram muito se escorando nos muros por entre os becos.
Não poderiam adivinhar o que os esperava espreitando àquela hora da
madrugada em uma das muitas ruas estreitas daquela cidade. Os dois
sorriam bastante, talvez efeito do álcool, mas estavam mesmo se
sentindo felizes.
Já
na proximidade do seu destino, há alguns metros da pousada, aparece
a criatura que mudar-lhes-ia completamente as vidas. Um lobo
incrivelmente grande, com olhos vermelhos como que em brasa,
rosnando, caminha na direção dos dois. De súbito o efeito do
álcool como que desaparece devido à adrenalina que agora irriga o
corpo de ambos ante aquela visão apavorante. Alice olha para Matheus
com desespero, pensa em correr, mas ele a segura.
-
Não faça isso! - diz Matheus com receio que a besta se lançasse à
caça da moça.
-
Meu Deus! O que isso?! Parece um demônio! Nós vamos morrer! - Alice
estava completamente apavorada.
O
animal parecia estar perturbado, rosnando continuamente e
ziguezagueando à frente de ambos. Num lance inesperado, o lobo voa
sobre Alice, mas Matheus, tentando evitar o pior, agarra-se com o
animal e ambos passam a rolar no chão numa luta frenética. Alice,
paralisada frente o perigo, assiste a tudo com os olhos molhados e o
coração a ponto de saltar pela boca.
Um
uivo distante foi aparentemente o motivo que fez o lobo desistir das
duas presas e sair em retirada deixando Matheus todo ensanguentado no
chão com seu corpo completamente arranhado e o pescoço rasgado
pelas suas presas afiadas. Finalmente Alice voltou a si e pôs-se a
correr desesperada para a pousada à procura de socorro.
Matheus
estava quase desmaiando, estava fraco, tinha perdido muito sangue.
Não sabia se os calafrios que sentia eram efeitos dos ferimentos e
da perda excessiva de sangue. Aos poucos sua visão começou a ficar
turva e um torpor foi tomando conta de sua mente. Matheus lentamente
perdeu a consciência e as visões que teve em seu delírio ele não
conseguiu entender por um bom tempo...

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