sábado, 24 de abril de 2010

LdS - Livro I - Capítulo 17 - Chacina no mosteiro




Sua respiração era ofegante. Os vários corredores pareciam um labirinto onde ele desesperadamente corria sem saber ao certo onde queria chegar. Seu coração batia acelerado e aumentava de frequência conforme seu desespero aumentava. Ao final daquele corredor havia uma porta de madeira, “poderia estar lá?”, pensava ele enquanto partia em disparada para verificar mais uma sala. Um chute colocou a porta abaixo e logo ele pode ver, deitada na cama, com uma espada cravada em seu peito, ela ainda sangrava, mas já estava morta. Dentro da sua cabeça, Shaladiel gargalhava com prazer.

- Alice! - esse foi o grito que ele soltou no meio da noite silenciosa ao acordar daquele terrível e realista pesadelo.

Matheus suava muito e em seu peito seu coração palpitava descompassado. Olhou na janela e viu Selene ainda reinando sozinha no céu escuro. Resolveu que seria melhor levantar logo, definitivamente não conseguiria mais dormir depois daquele sonho. Iria arrumar sua bagagem, preparar seu material, poderia até aproveitar para praticar mais um pouco com sua wakizashi. Afinal de contas, aquele seria o dia decisivo e ele não poderia falhar. Foi no banheiro e jogou água no rosto. Olhou no espelho e ficou encarando seu reflexo como se procurasse lá dentro do seu íntimo a
resposta para os seus medos. Novamente pensou no sonho, no desespero que ele sentiu, na cena de Alice sangrando morta sobre a cama. Fechou os olhos e buscou afastar aquele quadro medonho de sua cabeça. Aquele era o dia decisivo e ele não se permitiria falhar.

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O sol ainda nem tinha aparecido, apenas seus raios dourados começavam a manchar a escuridão do céu e todos já estavam de pé prontos para partir. Morrison tinha designado cinco de seus subordinados para prestarem apoio ao grupo de dissidentes. Todos eram homens jovens e estavam sob a liderança de Vicente, o mesmo licantropo que no dia anterior os havia abordado no posto de gasolina. Ele era um bom rastreador e homem de confiança de Morrison. Seus outros quatro companheiros faziam parte da guarda particular de Morrison e gozavam de prestígio entre os licantropos daquele vilarejo. O grupo estava reforçado, agora possuía doze amaldiçoados.

Em pouco tempo todos já estavam na estrada, sendo que os cinco subordinados de Morrison seguiam os outros dois veículos um pouco mais de trás em uma pick-up. Apesar de ser bem vinda a ajuda prestada, o grupo de dissidentes ainda não estava totalmente convencido da sinceridade dos atos do governante Lican. Era de se estranhar que ele os deixasse partir sem problemas. Amizade não era uma coisa comum no mundo licantropo.

No primeiro carro, Izabelle continuava seu trabalho de rastreio. Pela intensidade das vibrações da alma de Alice eles deveriam estar bem próximos agora. Ainda aquele dia estariam diante da base Gadol. Matheus continuava muito irrequieto, mas tentava não perder seu foco, queria que tudo desse certo, que eles realizassem seus objetivos sem que perdessem nenhum de seus aliados. Estava chegando a hora que ele há tanto tempo vinha aguardando, estaria novamente frente aos sequestradores de Alice. Desta vez ele não lhes daria chance de reagir. Seria rápido e implacável.

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Dentro de uma das inúmeras salas da base Gadol, uma jovem era preparada para seu ritual de iniciação. Todas as atenções dos guerreiros-sacerdotes estavam, naquele momento, voltadas para aquela cerimônia solene. Alice seria ordenada noviça-guerreira, o primeiro passo dentro dos vários níveis hierárquicos do mundo Gadol. Depois daquela noite, ela estaria oficialmente inserida naquela ordem milenar, não sendo mais possível para ela desvencilhar-se daquele compromisso, sendo punida com a morte qualquer traição àquela organização secreta. Essa era a lei, uma vez ordenada Gadol, ela estaria eternamente comprometida.

Benjamim cuidava de todos os preparativos pessoalmente. Ele era o seu mentor. Desde a sua captura que Benjamim assumira o compromisso de “resgatá-la” das garras dos amaldiçoados. A alta cúpula espanhola relutara, em princípio, em aceitar que Alice tão rapidamente se unisse à organização, mas seu excelente desempenho, sendo ela considerada como uma verdadeira prodígio, fez com que essa primeira desconfiança se transformasse em uma euforia com as possíveis possibilidades que se apresentavam. Alice era a única descendente conhecida da extinta ordem Gadol do oriente. Suas habilidades naturais no uso da magia eram extraordinárias, sem falar que ela também destacara-se no manuseio do armamento Gadol. Dentro de poucas horas dar-se-ia início a cerimônia e os amaldiçoados eram os penetras que tentariam estragar a festa.

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Duas da tarde era o que indicava o relógio de Matheus quando seu grupo parou seus veículos ao sinal dado por Izabelle de que haviam chegado ao seu destino. Não restavam dúvidas, aquela velha edificação, que reinava sozinha no meio da caatinga, era a tão procurada base Gadol, o “Mosteiro dos Guerreiros da Lua”. Possuía altas muralhas e apenas um local de entrada visível. Os licantropos deixaram seus carros a uma distância considerável do lugar e passaram a deslocar-se a pé esgueirando-se pela vegetação seca e espinhosa. Esperaram que o sol desaparecesse para que montassem acampamento nas proximidades da muralha do mosteiro. Matheus, Nicole e Ulisses foram designados para realizarem uma patrulha de reconhecimento visando levantar dados sobre a segurança do lugar. O mosteiro possuía um sistema de monitoramento eletrônico com várias câmeras de vigilância ao longo de toda a muralha. Também possuía, na entrada principal, dois seguranças Gadols que fiscalizavam a entrada e saída de pessoas, além de uma equipe com quatro guerreiros-sacerdotes que realizavam constantes rondas ao redor da área do mosteiro. Como eles haviam previsto, seria difícil entrar naquela base sem serem percebidos.

Enquanto o trio de licantropos levantava dados sobre as vulnerabilidades do local, Demétrius, Elizabeth e Izabelle, cada um utilizando sua habilidade, buscavam dados sobre o contingente de Gadols que encontrava-se na parte interna do mosteiro e sobre a localização de Alice. Elizabeth não conseguiu levantar informação alguma. Helendril, seu obsessor, não obtivera sucesso em quebrar as barreiras espirituais que protegiam aquele lugar. Era totalmente impossível para qualquer demônio transpor aqueles vários níveis espirituais de segurança. Haviam vários círculos de proteção rodeando todo o mosteiro de forma a bloquear o acesso por qualquer direção. Estava claro que, dentro daquele lugar, eles dependeriam unicamente de suas habilidades individuais, sendo que seus obsessores não conseguiriam acompanhá-los uma vez que estivessem todos dentro da base Gadol. Para a grande maioria dos licantropos, dentre eles incluía-se Matheus, essa era uma boa notícia, já que era um grande fardo ter que resistir permanentemente às investidas de seus obsessores pelo controle sobre seus próprios corpos, lutando para não cederem à tentação de entrarem em frenesi. Mas para Elizabeth, que possuía uma relação de colaboração com seu obsessor, não seria possível invocar sua total capacidade de destruição.

Izabelle também pouca coisa conseguiu levantar sobre o paradeiro de Alice. Ela também dependia de parte do poder de seu demônio interior para rastrear as vibrações espirituais de Alice. Todas as vezes que buscava sentir o “cheiro da alma” de Alice para dentro das muralhas, encontrava o rastro descontinuado, como se uma linha invisível que a levava até a localização exata de Alice estivesse “partida”. Izabelle sabia que Alice encontrava-se dentro daquele mosteiro, mas não conseguia descobrir em que parte daquele complexo de salas ela estava. Demétrius fora o único que obtivera, de certo modo, algum sucesso em sua investida. Ele rastreou telepaticamente toda a área do mosteiro, levantando um contingente de sessenta e cinco pessoas dentro daquele local, mas curiosamente não conseguira entrar em contato telepático com Alice. Para ele, a mente de Alice fora selada, de forma que agora somente o criador do selo podia ter o acesso. Os Gadols eram bem prevenidos e sabiam como ninguém manter seus segredos muito bem guardados.

Pouco mais de uma hora depois, retornavam ao local do acampamento o trio que fora enviado para reconhecimento. E eles traziam boas notícias. Havia um único ponto em toda a muralha onde seria possível uma invasão sem que suas presenças fossem detectadas. Tratava-se de um ponto cego na vigilância eletrônica que, a cada período de quinze minutos, deixava invisível às câmeras de segurança, por quarenta segundos, um pequeno trecho por onde poderia ser feita a transposição do muro. Era necessário somente que eles tomassem cuidado para não serem percebidos pela equipe de ronda do local. Deveriam agir rapidamente, agir em perfeita sincronia, de modo a aproveitar esses quarenta segundos para invadir de forma sorrateira a base Gadol. A primeira brecha fora encontrada.

O segundo problema estava sendo solucionado por Arthur, que já estava concluindo a evocação de um feitiço de supressão de presença. Assim como o amuleto de Alice, que irradiava uma luz azulada na presença de um amaldiçoado, os Gadols possuíam outros instrumentos e armas preparados para alertá-los quanto a presença de algum licantropo. Este era um problema conhecido e Arthur preparara-se para a sua resolução ainda na véspera de sua viagem, pesquisando em seus livros por um feitiço capaz de mascarar a presença de seus companheiros. Tratava-se de um feitiço complexo e que demandava tempo e concentração, de forma que, quando estivesse concluído, lhes dariam a vantagem do efeito surpresa. Mas o preço daquele trunfo era a total dedicação de Arthur na sua manutenção, ficando ele ocupado exclusivamente em mantê-lo ativo. Seria um homem a menos na batalha corpo à corpo. Mas tal vantagem valia o preço.

Passados mais quarenta minutos e enfim o feitiço completara-se. Arthur permanecia estático, sentado dentro de um círculo, em posição de lótus, concentrado em suprimir as vibrações espirituais de seus companheiros. Era a primeira vez que ele usava tal feitiço e aquilo o estava exigindo bem mais energia do que ele esperava, de tal forma que ele não conseguiria manter aquilo ativo por muito tempo. O preparativos haviam terminado, as brechas encontradas. Estava na hora deles porem em prática seus planos há muito preparados. Eles deveriam agir rápido, seu tempo era curto.

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Todos já encontravam-se sentados aguardando a entrada da jovem iniciante no recinto. A alta cúpula da ordem dos Gadols Ocidentais também acompanhava a cerimônia, da Espanha, por uma videoconferência, tanta era a importância do acontecimento. Esperando pacientemente em uma sala, vestida com uma túnica vermelha com detalhes em prata, uma jovem sente um vazio imenso em seu peito. Ela tenta entender porque, em seu íntimo, ela está insatisfeita. Apesar de todo aquele acolhimento e do aparente carinho de seu mestre Benjamim, ela sente que está incompleta. Em sua mente existe um vácuo, uma nuvem negra que não se dissipa, por mais que ela se esforce. Ela não consegue lembrar do que enfim tanto sente falta, somente seu coração agoniza desesperadamente, reclamando o vazio que agora nele está instaurado. Se ao menos ela soubesse que a resposta para suas angustias está tão perto dela agora.

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Eles estão atentos, o momento está próximo. Somente mais alguns segundos e a brecha irá abrir-se. Matheus está tenso. “Não posso falhar”, mais uma vez ele pensa. Sua mente está focada, seu coração irrequieto. Depois de tanto tempo de espera, agora é o momento de agir. Ele não pode falhar.

Nicole sinaliza e todos os amaldiçoados correm para explorar a falha no sistema de monitoramento. Em apenas 30 segundos todos já estão do lado de dentro do mosteiro. Agora não dá mais para desistir, nem hesitar. O local, por sorte, está deserto. O plano está correndo bem, eles entraram sem serem percebidos. Agora todos concentram-se em achar a garota Gadol, a dona do pingente estranho. São feitas três equipes de busca. Os homens de Morrison formam uma equipe. Demétrius, Nicole e Elizabeth formam outra. O terceiro grupo é formado por Ulisses, Matheus e Izabelle. Agora eles precisam agir com rapidez, a cada momento Arthur fica mais e mais debilitado. “Meu Deus, não posso falhar!”, um medo percorre a espinha de Matheus. Ele segura forte em sua mão o amuleto de sua amada.

Os grupos separam-se. O laço telepático de Demétrius será essencial agora. As ordens são claras, não podem haver testemunhas, todos os que cruzarem seus caminhos devem ser eliminados. Alice é o alvo, nada mais importa. Eles não podem vacilar, seus inimigos são poderosos. Uma falha e todos podem morrer. Não é hora para dúvidas. Matheus parte na frente de seu grupo, a mão segura firme sua wakizashi ainda na bainha. O medo que antes o assombrava agora dá lugar a uma determinação sem tamanho, uma verdadeira vontade de ferro. Nada irá pará-lo.

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No salão onde está sendo realizada a cerimônia, Benjamim faz seu discurso inicial felicitando sua pupila pela sua conquista. Alice está atrás duma cortina esperando ser chamada para realizar seu juramento. Seu coração parece que vai explodir tamanha a angústia que agora ela sente. Como se sentisse o que estava por acontecer, sem saber o porquê, ela chora.

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Já é o terceiro quarto que ele abre em busca dela. “Mas onde será que eles a colocaram?”, pensa ele enquanto corre rumo à outra sala. Do nada ele lembra do sonho daquela noite. Seu coração aperta, sua garganta fica seca. Será que aquilo foi uma premonição?

Nicole consegue ouvir de um Gadol que passava conversando despreocupadamente pelo corredor com seu companheiro que a cerimônia de inicialização já deveria ter começado. Ela é rápida e mortal, os dois caem no chão decapitados. Demétrius trata de esconder os corpos em mais uma sala vazia. “Todos devem estar na tal cerimônia”, pensa Demétrius. Ele repassa a informação para os demais grupos. Se Alice estiver lá, eles terão que agir em conjunto. Não poderia ser pior, a luta será sangrenta e implacável. A ordem de Demétrius é para que todos se dirijam para o local da cerimônia. Lá é que será reavaliada a situação e serão tomadas as decisões dos próximos passos. O tempo estava esgotando-se, Arthur não conseguiria resistir por muito mais tempo.

O salão onde a cerimônia realizava-se era enorme. Havia um auditório e, na parte superior, arquibancadas. Matheus e seu grupo foram os primeiros a chegar no local. Em pouco tempo o grupo de Demétrius também achara a localização do cerimonial. Os dois grupos encontraram-se na parte superior do salão, que estava vazia. Todos os Gadols presentes acomodavam-se junto ao altar, no centro do salão. Presidindo a cerimônia estava um homem de aproximadamente sessenta anos de idade, trajando vestes sacerdotais e portando em sua mão direita um cetro de prata. Todos, em silêncio, ouviam o que o homem dizia:

- É chegado o momento que traremos ao mundo mais um irmão de nossa ordem. Hoje nascerá mais um que buscará cumprir a nobre missão de proteger a humanidade da ameaça das trevas que nos assola. É sempre uma alegria quando um filho descobre sua vocação para este sacerdócio tão perigoso. - O homem falava compassadamente, sua voz era serena.

Na parte superior, Demétrius e seus companheiros confabulavam a melhor estratégia para contornar a situação crítica. Matheus estava impaciente, queria logo rever Alice:

- Não podemos perder mais tempo aguardando o grupo de Vicente. Temos que agir logo, Demétrius, enquanto ainda temos o elemento surpresa ao nosso favor. - Matheus sabia que o tempo era seu adversário naquele momento.

- Ainda não temos certeza se Alice encontra-se nesse salão. Não podemos nos precipitar. Quero que todos saiam vivos deste lugar, Matheus. Uma atitude impensada pode nos custar muito caro, garoto. - Retrucou Demétrius já irritado com a demora de Vicente e seu grupo. Ele também sabia que não tinham mais tempo. A situação estava ficando crítica.

Na parte de baixo, no altar, o velho homem conclamava todos a ficarem de pé para receberem sua nova irmã de missão:

- Vamos agora todos tomarmos uma postura de respeito para realizarmos a consagração de nossa nova membra. Abram as cortinas! Deixem que nossa companheira acesse nosso meio e possa se jubilar conosco! Venha, minha filha! Apareça para este novo mundo que a espera... - Ao dizer isto a cortina atrás do altar se abriu e de lá todos viram aparecer Alice em vestes de sacerdotisa.

Matheus não acreditou quando olhou e reconheceu Alice ali em pé junto do velho mestre Gadol. Ela lentamente caminhou até a frente do altar e ajoelhou-se. Os licantropos ficaram por um momento desnorteados. Aquilo era totalmente inesperado. O que iriam fazer agora? A única alternativa era lutar. Fariam aquilo que fora acordado como última opção, partiriam para o confronto direto. Rapidamente Ulisses e Matheus partiram para posicionarem-se o mais próximo possível do palco. Seriam eles que deveriam, ao início do ataque do grupo licantropo à plateia Gadol, saltar naquele palco, eliminar o velho mestre Gadol e resgatar Alice daquele lugar, partindo rapidamente para fora daquele mosteiro.

Toda a assembleia Gadol estava de pé, com exceção de Alice que continuava ajoelhada como sinal de respeito. O velho mestre sacerdote aproximou-se da jovem e ergueu seu cetro que trazia o Ankh em seu topo para sinalizar a realização de um ato solene. Neste momento todos na assembleia começaram a falar desordenadamente, um burburinho tomou conta do salão. Erguido sobre a cabeça do sacerdote Gadol, o cetro estava emitindo uma luz azulada. Arthur enfim tombara exausto, os licantropos foram detectados.

Ao perceber o motivo da desordem, Nicole, Izabelle, Demétrius e Elizabeth começaram uma verdadeira chacina em meio ao auditório Gadol. Antes que eles entendessem o quê ou quem os estava atacando, os amaldiçoados trataram de exterminá-los sem dar-lhes chance de reação. Por sorte o primeiro movimento dos invasores ainda teve como utilizar-se do elemento surpresa. Mas em pouco tempo a segurança Gadol tratou de cercar as saídas do auditório.

Ulisses e Matheus não puderam aproveitar-se o elemento surpresa por ainda estarem buscando posicionamento quando o caos havia se iniciado. Quando percebeu o que havia acontecido, Matheus não pensou duas vezes, sacou sua wakizashi e saiu retalhando todos os que encontrava pela frente que se punham em seu caminho em direção ao altar onde estava Alice. Ulisses, percebendo o que Matheus tentava fazer, tratou de dar-lhe cobertura. Utilizando-se de sua maça de prata, ele tratava de conter os grupos de Gadols que tentavam partir em socorro ao seu mestre.

A ação da segurança foi incrivelmente rápida e, antes que Matheus conseguisse chegar ao altar, eles já estavam ao redor do velho sacerdote, fazendo sua escolta. Alice estava junta do velho e agarrava as suas vestes. Ela estava totalmente desorientada, não entendia o que estava acontecendo, não reconhecia seus ex-companheiros licantropos.

Matheus não se intimidou e partiu para cima da guarda Gadol. Os seguranças usavam armas de fogo com balas de prata, de forma que qualquer ferimento em um local mais crítico seria fatal para Matheus. Ele tinha decidido-se, não poderia falhar, aquele era o momento dele colocar para fora toda a fúria que por tanto tempo ele guardara dentro de si. Como um predador ele partiu contra os seguranças Gadols. A cada disparo de uma arma de fogo da segurança ele respondia com movimentos incrivelmente rápidos e imprevisíveis. Saltando como um verdadeiro ginasta, ele foi eliminando um por um os seguranças que se apresentavam à sua frente. Utilizando-se de técnicas incríveis, Matheus fatiava quem ousasse colocar-se a sua frente.

Enquanto isso, seus companheiros ocupavam-se em enfrentar os guerreiros-sacerdotes que sobreviveram ao primeiro ataque e que agora já estavam em igualdade de condições na batalha. A cada ataque licantropo eles respondiam com um contra-ataque vigoroso, utilizando-se de técnicas milenares de combate, magia e armas de fogo com balas de prata. Cada conjuração de um encantamento dava a eles um tipo diferente de habilidade sobre-humana. Era uma batalha intensa e sangrenta a que estava se travando no interior daquele salão. Nicole estava ensandecida, quanto mais sangrenta era a luta, mais ela se entregava. Grande foi a carnificina promovida por ela. Elizabeth e Izabelle estavam agindo em cooperação, utilizando-se de táticas e manobras de ataque das linhas de batalha Nightkiller. Nunca antes as adagas sai de Elizabeth e o gancho duplo de Izabelle transpassaram tantos corpos como naquela noite. Demétrius tinha um adversário de respeito à sua frente, era Benjamim, o mestre de Alice. A luta entre os dois era de alto nível. Benjamim dominava de tal forma as artes milenares Gadols que se assemelhava aos grandes licantropos em poder de destruição. Uma desatenção de uma das partes significaria a sua derrota.

Matheus foi abatendo seus adversários, diminuindo sua distância entre ele e seu objetivo: Alice. Em um tempo, só existiam entre ele e sua desejada paixão a figura do velho mestre acompanhado de mais dois seguranças. Matheus aproximou-se de um dos seguranças com velocidade. Num giro rápido cortou-lhe o ventre ao meio. Logo em sequência, como que sendo guiado por instinto, ele esquivou-se de um disparo do segundo segurança e cortou-lhe a mão que empunhava a pistola, que caiu a um metro de Alice que continuava firmemente agarrada ao velho sacerdote. Só mais um movimento de Matheus e a cabeça do segurança já rolava pelo chão, decepada pela lâmina afiada da wakizashi. Agora o único obstáculo era aquele homem vestido em roupas de sacerdote. Matheus não hesitou, partiu para cima do velho mestre Gadol. O homem conjurou algumas palavras em um milenar dialeto desconhecido e uma esfera luminosa, como um pequeno sol, formou-se em sua mão direita. Ele empurrou aquele pequeno sol contra o peito de Matheus, que no momento avançava contra ele erguendo sua espada para golpeá-lo. Matheus foi lançado para trás com violência. Fora golpeado com aquela esfera de energia que tinha uma potência tremenda. Outro licantropo qualquer teria desmaiado no mesmo momento, mas Matheus estava tomado de uma vontade tal que ele obteve forças para erguer-se. De seu peito saía fumaça devido a potência do ataque Gadol. “ Não posso falhar”, esse pensamento não abandonava a mente de Matheus que tirava forças do desejo intenso de ter Alice de novo ao seu lado. O homem encarava-o com um semblante sério e confiante esperando pelo próximo passo de seu adversário. Ele continuava a entoar mantras numa língua estranha. Matheus enxergou naquele homem a personificação de todas as suas angústias, frustrações e desesperos.

- Tomara que você esteja rezando, porque você vai precisar, desgraçado fodido! - Matheus queimava em ira. Não pararia de lutar por nada.

Dessa vez o velho mestre, em resposta às palavras de Matheus, tocou com seu cetro no chão. Imediatamente passaram a circular pelo cetro descargas de energia, como pequenos relâmpagos, que percorriam a sua superfície. Matheus fechou seu semblante, sua expressão tornou-se sombria. Mas mais uma vez ele partiu para cima do velho homem que agora girava seu cetro sobre a cabeça, com suas descargas de energia rasgando o ar e emitindo um som assombroso. Aquela foi a primeira vez que Matheus superou seus limites. A velocidade de seus movimentos foi superior a qualquer magia ou encantamento Gadol. Não se viu nada além de um vulto próximo ao velho mestre e, num
segundo momento, o pesado cetro voando sem direção pelo ar, levando preso a ele a mão do pobre homem, enquanto o restante do seu corpo caía prostrado no chão, decapitado.

Alice estava ajoelhada no chão quando Matheus pegou-a pelo braço com força:

- Vamos embora daqui, Alice! Tenho que tirá-la o quanto antes dessa loucura. - Ele virou-se para partir em direção à saída principal.

De repente ele sentiu o frio do metal cromado tocando o seu rosto. Matheus não acreditou no que estava acontecendo. Alice empunhava a pistola do segurança e a pressionava contra o rosto de Matheus. Seus olhos marejados transmitiam ódio:

- Morra, maldito!

Alice não reconhecera Matheus. O que se seguiu a isso foi o estampido da pistola.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

LdS - Livro I - Capítulo 16 - Uma pequena pausa




Todos estavam incrivelmente confiantes. A adrenalina era intensa no corpo de Matheus. Eles viajavam em dois grupos, sendo que Arthur, Demétrius, Matheus e Izabelle viajavam em um carro sendo seguidos por outro automóvel onde estavam Ulisses, Nicole e Elizabeth. O sol já começava a mostrar sinais longe no horizonte com seus raios laranja-avermelhados começando a ferir a escuridão onde Selene ainda reinava. Já haviam viajado por horas parando apenas para reabastecer rapidamente os automóveis. Dentro do primeiro carro, Matheus não conseguia parar de pensar em Alice, de imaginar como seria seu reencontro com ela. Ele já sentia-se recuperado dos ferimentos causados por Edgar e estava, mais que todos, empenhado em dar tudo de si nessa missão. Por mais que ele soubesse que nada poderia ter feito para impedir o sequestro de Alice, ele não conseguia se perdoar por ter sido derrotado tão facilmente pelo adversário. Ele queria provar para ele mesmo que era digno do respeito e da confiança que seus três companheiros depositavam nele e, ao mesmo tempo, ver os resultados positivos de todo esse período de intenso treinamento. Ele sabia que seria exigido nessa missão, que seria colocado à prova como guerreiro e que uma eventual falha dele poderia causar sua morte ou a morte de Alice. Definitivamente Matheus não pararia por nada, ele não se permitia falhar.

Izabelle continuava seu extenuante trabalho em rastrear o “cheiro da alma” de Alice. Mantinha-se em total concentração, o que lhe conferia um ar sério e compenetrado. Enquanto ela ocupava-se em não perder o rastro, todos os outros licantropos ficavam incumbidos de cuidar da segurança do grupo. Eles estavam entrando em terreno inimigo e não podiam se dar ao luxo de relaxar um momento que fosse. Um ataque surpresa do inimigo seria fatal para eles. Arthur, que era o mais experiente do grupo, também possuía a habilidade de utilizar magia, sendo uma de suas medidas preventivas a invocação de um feitiço que ampliava a capacidade de regeneração de todo o grupo em caso de danos causados por prata, o que evidentemente seria de grande ajuda contra seus caçadores Gadols. Elizabeth e Helendril, seu obsessor, estavam permanentemente em modo simbiose, atentos a qualquer manifestação ou energia sobrenatural que pudesse significar ameaça ao grupo. Enquanto isso, Demétrius tratava de manter todos os licantropos em um tipo de laço psíquico onde podiam comunicar-se entre os automóveis apenas telepaticamente. Já Ulisses, Nicole e Matheus, que eram considerados pelo grupo como os que possuíam maior poder de destruição, mantinham-se em prontidão para agirem ao menor sinal de um ataque inimigo. Matheus mantinha sua espada wakizashi junta a si e não exitaria um segundo que fosse em sacá-la se fosse necessário.

Passaram-se horas de viagem na estrada até que avistassem indício de civilização nas proximidades da estrada. O sol já estava alto do outro lado do céu, em direção ao poente, e eles precisavam parar para abastecerem seus carros. Depois de entrarem em uma pequenina cidade, já no estado da Bahia, o grupo procurou um posto de combustível para que pudessem fazer uma pequena pausa. Logo acharam o único e diminuto posto da cidadezinha. Sem outra alternativa naquele local, estacionaram seus carros.

- Tem alguma coisa muito estranha com este vilarejo. - Informou Elizabeth ao grupo. - Não sei bem ao certo porque Helendril está distante por influência do amuleto Gadol, mas ele me informou que um verdadeiro turbilhão demoníaco assola este local. Não parece trabalho Gadol, antes ele pensa ser obra de algum grupo licantropo. Fiquem atentos!

Imediatamente dois jovens rapazes aproximaram-se, cada um chegou-se a um dos carros, e dirigiram-se ao grupo de forasteiros de uma forma inesperada:

- Em nome de qual dos líderes Licans vocês vêm a esta comunidade? - perguntou um dos jovens ao grupo que estava no primeiro carro. Eles haviam sido descobertos, o jovem licantropo devia ser um rastreador.

Todos ficaram assustados com aquela pergunta. “Mas o que está acontecendo afinal de contas”, pensava Demétrius enquanto tentava achar uma resposta que não os deixasse em uma situação ainda mais complicada.

- Como assim de qual dos líderes? Não me diga que toda esta cidade é de domínio Lican? Vocês fizeram desse vilarejo uma comunidade Lican?! - perguntou Demétrius temendo a resposta que receberia dos jovens interrogadores.

- Já era de se esperar que vocês não pertencessem ao nosso clã, aparecendo aqui sem anunciarem sua visita ao nosso administrador. Em respeito ao pacto feito no início da “Segunda Era de Paz” entre os dois grandes clãs, vamos dar-lhes o direito de se explicarem ao líder de nosso grupo. - Ao dizer isso, o jovem rapaz já tinha em sua companhia outros vinte amaldiçoados que pareceram brotar da terra, tamanha a rapidez como chegaram e cercaram os veículos. Aquela deveria ser a patrulha de segurança da comunidade.

Eles não tinham mais o que fazer. Estavam todos cercados e encurralados. Uma luta significaria prejuízo para a missão e possíveis baixas no grupo. A única alternativa seria irem à presença daquele governante Lican para tentar uma negociação.

O grupo de Matheus teve sorte por aquela comunidade de Licans ainda respeitar os antigos tratados de paz selados entre os dois grandes clãs. Era algo raro, mas não impossível de acontecer. Diferentemente dos Nightkillers que mais parecem um grupo de fanáticos seguidores de uma ceita religiosa, os Licans permitem que se formem pequenos grupos de licantropos com uma administração própria, mas ainda subordinados aos principais líderes do clã. Dentro destas comunidades, o mais antigo é também o governante. As regras e leis são definidas por ele, não sofrendo a interferência direta dos líderes do clã, podendo ser adotado qualquer código de leis Lican desde que este já tenha sido adotado, em algum momento anterior da história, pela liderança do clã.

Esse antigo pacto de paz, o qual o jovem líder daquele grupo havia invocado, era um acordo de não agressão entre os licantropos que havia vigorado quando da segunda trégua entre os dois clãs e que durou apenas um século. Nele, se um determinado licantropo fosse capturado nos domínios de outro clã, este prisioneiro teria o direito de ter uma audiência com o governante do território para poder explicar-se ou tentar suplicar misericórdia por sua vida. Este antigo código não era mais utilizado entre os dois clãs, já que aquele era um momento de guerra entre os grupos, mas aquela brecha dentro das regras Licans permitia, caso algum governante achasse interessante, que aquele código ainda fosse adotado a grupos de dissidentes. Muitos administradores estavam abertos para captação de novos membros licantropos que simpatizassem com suas ideias e estivessem dispostos a seguir suas normas.

Aquela era uma das maiores diferenças entre Licans e Nightkillers, os Licans eram um grupo mais heterogêneo e descentralizado, permitiam que seus membros tivessem mais liberdade de ação. Infelizmente esta era uma característica que parecia ter data próxima para acabar. Devido a ascensão de um novo grupo de líderes ao poder do clã Lican, várias mudanças estavam sendo aplicadas para deixar o clã mais coeso e mais forte para enfrentar a ameaça Nightkiller, o que acabava significando a diminuição considerável das liberdades individuais de seus membros, tão características da natureza Lican. Foi devido a estas mudanças que as fileiras Licans passaram a contabilizar uma incrível quantidade de deserções nos últimos anos. Dentre os desertores, Demétrius, Nicole, Arthur e Ulisses enquadravam-se nesse grupo que não concordava com as novas ordens vindas dessa liderança mais “linha dura”.

Já Elizabeth e Izabelle, por seu lado, abandonaram as tropas Nightkillers por não concordarem com a natureza brutal do clã e não suportarem mais viver lutando em uma guerra cega e sem sentido pelo poder. De qualquer forma, aquela era uma situação inusitada. “Que tipo de administrador deve ser este que ainda respeita tão antigos acordos de paz que já não cabem mais nestes nossos duros dias de guerra?”, era o que pensava Demétrius enquanto eram todos conduzidos para a tal audiência.

Logo todos estavam na sala de onde o tal governante administrava seus subordinados. Sentado em uma espécie de trono, colocado bem no centro da sala, estava uma figura curiosa. Ele aparentava, se fosse um humano normal, ter uma idade aproximada entre cinquenta e sessenta anos. Usava roupas negras, com muitos cordões de metal pendurados no seu pescoço donde pendiam enormes talismãs. Tinha vários piercings em seu rosto. Usava óculos escuros de armação redonda semelhantes aos imortalizados por John Lenon. Seus cabelos já grisalhos eram longos e uma barba cerrada completava seu visual. Seu nome era Morrison, um antigo líder Lican que fora mandado ao Brasil pela nova liderança do clã para que ficasse isolado e esquecido em um país de menor importância como punição por disseminar suas ideias subversivas. Morrison era um libertário e não concordava com as novas ideias que agora tomavam conta das lideranças Licans. Como ele também era um dos principais líderes do clã, pertencente à velha guarda, e ainda gozava de certo prestígio junto à grande maioria dos importantes líderes dos exércitos Licans, acharam por bem apenas exilá-lo naquela terra sem importância.

Ao ver serem trazidos à sua presença os sete amaldiçoados forasteiros, Morrison fechou seu semblante e foi direto ao ponto, já que não era homem de meias palavras:

- Vejo que me trouxeram visitas, meus amigos. Quem são vocês, forasteiros, e o que pretendem fazer invadindo meu território de forma tão sorrateira? - Sua voz era grave e rouca, dando-lhe um ar ainda mais sombrio.

Arthur, como o mais experiente do grupo, tomou a frente e respondeu sem pestanejar ao temível interrogador:

- Eu vejo que o tempo acabou por apagar-lhe parte da memória, velho amigo, já que não reconhece mais os antigos aliados. Ainda que eu não esteja mais sob as ordens de nosso clã, creio que algum valor ainda possuo para você, ou as muitas batalhas e as várias vezes que salvei-lhe a vida agora não podem ser invocadas?

A essas palavras Morrison se desarmou e retirou seus óculos escuros para que pudesse ver melhor quem era aquele licantropo de voz tão familiar e que lhe cobrava tão alta dívida:

- Não acredito no que estes velhos olhos agora me mostram! Em qualquer lugar do globo eu poderia esperar reencontrá-lo, mas justamente neste fim de mundo é que o destino quis nos reunir novamente? - Morrison levantou-se de sua cadeira e abrindo os braços chegou-se até Arthur. - Venha aqui, velho companheiro! Dê-me o prazer de retribuir a ajuda por todas as vezes em que me salvaste a vida! - Dizendo isto os dois abraçaram-se, ambos com um sorriso no rosto.

O alívio do restante do grupo foi grande. Todos relaxaram seus semblantes enquanto os dois velhos conhecidos se cumprimentavam. Ao que parecia Arthur e Morrison eram velhos amigos de bastante tempo e já haviam passado por muitos momentos difíceis juntos. Ao final da emoção daquele reencontro, puderam todos enfim conversar reservadamente com o líder daqueles Licans e contar o que os trazia aquela região erma do Brasil:

- Então quer dizer que nas proximidades de meu domínio existe uma base Gadol! - Morrison demonstrava autêntica surpresa com aquelas revelações. - E mais surpreso estou eu ao saber que Demétrius e Ulisses também não mais se curvam às ordens daqueles imprudentes jovens líderes Licans. Não sabem eles o quão prejudicial para nosso clã tem sido as suas néscias atitudes. Eu tenho inveja de vocês que conseguiram abdicar de suas posições e prestígio para viverem uma vida livre e despreocupada longe desta guerra vã. E mais inveja ainda destes jovens licantropos que os acompanham e que possuem tão grande esperança em verem-se livres dessa maldição infeliz. Meu obsessor Kythelion me informa, velho amigo, que seus companheiros são poderosos aliados e que um dentre vós possui uma determinação de ferro capaz de alçá-lo ao ponto onde nenhum outro amaldiçoado ousou antes chegar. Só espero que esta sua perigosa jornada tenha um final feliz.

- Bem, Morrison, ainda tentamos encontrar a posição exata de nossos seculares inimigos. É de se estranhar que seus subordinados ainda não tenham tomado conhecimento da presença desses poderosos adversários. - Arthur estava decepcionado com a total desinformação de Morrison a cerca de seus adversários.

- Nem tanto, Arthur. Ainda é um mistério para nós a natureza e as habilidades desses guerreiros-sacerdotes. muitos de nossos irmãos foram eliminados sem que nem ao menos pudessem esboçar alguma reação que fosse. Então, é de se esperar que eles conheçam alguma forma de camuflarem sua presença ante nossos obsessores ou quem sabe consigam confundi-los. Isso só pode nos indicar que esse grupo de Gadols é experiente, sendo de suma importância que vocês sejam ainda mais cautelosos. Esse inimigos são muito perigosos para serem menosprezados. - afirmou Morrison.

- Você tem razão, líder Lican. Por esta razão acho muito importante que sua comunidade trabalhe em conjunto conosco na eliminação desta ameaça comum. - interferiu na conversa Demétrius, já especulando uma aliança com aqueles isolados Licans. - Já que eles escolheram como local para sua base esta região erma do país, podemos imaginar que essa cidade seja a causa para tal escolha. Sendo bem claro, acredito que vocês sejam o próximo alvo desses caçadores.

- As suas conclusões provavelmente estão corretas, Demétrius. Seria muita ingenuidade minha considerar que a escolha da localização dessa base Gadol tenha sido feita ao acaso. - confirmou Morrison. - E tenho que ser franco quando afirmo que a vossa chegada foi muito oportuna. Mas não posso simplesmente lançar todo o meu contingente num ataque a quem quer que seja sem a devida comunicação aos meus superiores, o que acarretaria também na obrigatoriedade minha de fazer de vocês, meus caros, meus prisioneiros. Já que esta não é uma escolha que desejo fazer, lhes digo que não tenho como ajudá-los da forma que eu gostaria. Contudo, como também é de meu interesse que
esta ameaça seja eliminada, vou ajudá-los enviando um pequeno grupo de meus subordinados. Creio que eles possam servir-lhes de auxílio.

- Nossa, isso seria importantíssimo para nós! - deixou escapar Matheus, ante a euforia daquela promessa de ajuda.

- Pois bem, - continuou Morrison. - vendo que é de bom grado que recebem meu oferecimento de ajuda e diante do tempo necessário para que se prepare o grupo que vai lhes prestar auxílio, é prudente que descansem hoje aqui comigo para que possam partir amanhã com suas forças revigoradas.

Ante o convite daquele líder Lican, o grupo não teve outra opção a não ser pernoitar aquela noite no vilarejo, mesmo contra a vontade de alguns membros, em especial Matheus e Nicole. De qualquer forma Izabelle precisava mesmo daquele período de descanso já que aquela tarefa de rastrear Alice era por demais desgastante. Somente ao ver o estado em que a jovem licantropa se encontrava foi que Matheus se acalmou e acabou por conformar-se com aquela pausa em sua busca. Ele via na expressão cansada de Izabelle que, para um amaldiçoado, ficar tanto tempo sintonizado ao seu obsessor era por demais desgastante e penoso.

Posteriormente à reunião com Morrison, já à noite, Matheus procurou a jovem para agradecer sua ajuda e seu esforço. O grupo ficou hospedado na própria residência de Morrison que tratava-se de um casarão enorme, que muito lembrava aquelas “casas grandes” do período colonial brasileiro, onde os senhores de engenho viviam com suas enormes famílias. Como o casarão possuía vários quartos, cada um dos licantropos dissidentes pôde ficar em um cômodo próprio.

O casarão possuía uma enorme varanda que o circundava completamente e um jardim bem na sua frente que ainda possuía uma pequena fonte e alguns brinquedos que há muito tempo não deviam ser utilizados. Izabelle estava sentada em um balanço olhando a água que caía da fonte e que refletia a luz de Selene que parecia dançar ao som de uma frenética música. Seus olhar era distante, parecia estar em transe, como se seu espírito estivesse viajando grandes distâncias enquanto seu corpo pousava sobre a corrente velha do balanço. Matheus chegou meio sem jeito observando-a em silêncio. Fazia tempo que queria falar com ela, mas sentia-se constrangido. Ele não queria se distrair com tais pensamentos, mas era algo difícil para ele, algo que ele não conseguia dominar, Izabelle era linda e ele estava muito atraído. Estava culpado-se por sentir algo assim por outra garota enquanto sua namorada estava desaparecida e possivelmente em perigo. Era engraçado, mas algo em Izabelle chamava-o, como se tivessem algo importante para realizarem juntos. “O rosto dela é angelical, mas suas curvas são diabólicas”, pensava. Ele lentamente sentou-se num banco ao lado do balanço onde a jovem estava. Ainda sem saber ao certo o que falar, Matheus começou o diálogo:

- Tenho visto que tem sido muito difícil pra você rastrear Alice. Imagino como você deve estar se esforçando.

- Estou tendo mais dificuldades por estar utilizando o amuleto Gadol como fonte do sinal para realizar minha busca. - Os olhos de Izabelle continuavam mirando a fonte.

O vento balançava seus longos cabelos castanhos jogando-os em seu rosto. Apesar de ser uma amaldiçoada, seu semblante era sereno, tranquilo. Em contrapartida, Matheus não conseguia disfarçar seu nervosismo ao falar com ela.

- Eu estou aqui porque gostaria de agradecer o que você tem feito. Nada disso seria possível se não fosse pela sua ajuda. Sem você Alice estaria perdida.

- Se você acha importante agradecer a minha ajuda, tudo bem. Mas é bom que saiba que eu também tenho meus interesses nessa missão. Não estou aqui por causa dela, antes penso que fazendo isto vou estar me ajudando e ajudando você. - Ela virou-se para ele ao falar isto. - Entrei nessa por sua causa, Matheus. Gostei de você assim que te vi. Me parece que nossos destinos estão de alguma forma ligados. Não sei direito explicar, mas é isto que sinto. Fiz o que achava que era o certo a se fazer.

Matheus não conseguiu evitar sua expressão que era um misto de surpresa e vergonha. Seu rosto estava vermelho, seu coração batia acelerado. Izabelle o encarava com um olhar sereno e firme. Ela definitivamente sabia o que queria e conseguia passar isso para Matheus. De repente ela levantou-se, ajeitou os cabelos e partiu em direção ao interior da casa:

- Amanhã teremos um dia cheio, talvez tenhamos que lutar. Sugiro que você descanse, Matheus. - ela parou e virou-se para olhar para ele. - E eu não quero que você se machuque.

Izabelle sorriu, dessa vez timidamente, e continuou sua caminhada para dentro do casarão, deixando Matheus sentado no jardim sob a luz da lua.