quarta-feira, 15 de junho de 2011

LdS - Livro I - Capítulo 18 – Lamento




A luz no ambiente é uma penumbra de tão fraca. Apesar de ser um chalé localizado em um local ermo, as instalações são confortáveis. No quarto, dois jovens conversam após terem se amado intensamente há alguns minutos atrás. Ela está sentada na cama, ainda nua, com ele deitado ao seu lado. A cabeça dele repousa sobre as pernas dela. Ela afaga-lhe os cabelos.

- No que você está pensado, Matheus? - pergunta ela curiosa com o seu silêncio repentino.

- O quê? Eu?!... deixa eu pensar...

- Para! É sério... - ela insiste.

- Honestamente? Que eu não quero mais sair deste quarto. Nunca mais! O que acha, Alice? A gente tem a cama, TV, frigobar. Vamos ficar aqui e esquecer do resto.

Ela passa a mão delicadamente no rosto dele:

- Isso seria um sonho.

**********

Mesmo sem querer, aquela lembrança veio à mente de Matheus no momento em que ele virou-se e pôde constatar que era mesmo verdade, Alice estava apontado uma arma para ele. Não era possível o que estava acontecendo. “O que fizeram com você, meu amor?!”, pensava ele enquanto, assustado, movimentava-se novamente numa velocidade incrível para conseguir desviar do disparo realizado pela mulher que ele acreditava ser o grande amor de sua vida. Era horrível de mais para ser verdade. O coração dele doía ao observar os olhos de Alice, cheios de ódio, procurando os seus, irradiando um intenso desejo de vingança.

Com um salto Matheus recuou, buscando reorganizar seus pensamentos, entender o que se passava. Ele estava desorientado, sem saber agora o que pensar ou o que fazer. Aquela mulher na sua frente não era a Alice que ele conhecera. Ela estava diferente, seu semblante não lhe passava mais a tranquilidade de outrora. Suas esperanças começavam a querer deixá-lo diante de mais esse duro golpe.

Ao redor dos dois amantes, a luta ainda não tinha se amenizado. Ulisses lutava com sete seguranças ao mesmo tempo, sendo que ele já começava a esboçar sinais de desgaste. Nicole estava no clímax de sua fúria assassina. Via-se claramente que ela regozijava-se ao abater cada um dos guerreiros Gadols que cruzavam o seu caminho. Agora ela só pararia quando não houvesse mais ninguém em pé. Elizabeth e Izabelle tentavam abrir caminho frente os seguranças para liberar uma saída para que seu grupo pudesse fugir daquele auditório que agora era uma arena de batalha.

Enquanto isso, Demétrius, já exausto, não conseguia mais conter a incrível força de Benjamim que já o estava dominando. Foi então que o amaldiçoado deixou uma brecha em sua defesa. O guerreiro Gadol aproveitou-se aquele descuido e atravessou o ombro direito de Demétrius com uma fina adaga, arremessando-o contra as poltronas do auditório e correndo logo em seguida na direção de sua pupila. Ele tinha medo que Alice lembrasse do seu passado estando frente à frente com Matheus. Ele tinha que tirá-la dali o mais rápido possível.

Alice tentava acertar, com disparos de pistola, a Matheus. Ele conseguia desviar-se, saltando e esquivando-se, enquanto procurava uma oportunidade de desarmá-la, sem contudo machucá-la. Mas aquilo mostrara-se algo extremamente complicado de se fazer, já que Alice era habilidosa com o armamento e também conjurava feitiços, criando barreiras de energia, a fim de aprisioná-lo no seu interior. Por sorte a velocidade que Matheus desenvolvera dava-lhe condições de evitar tais armadilhas Gadols, mas a situação não era nada boa. Alice não os acompanharia por vontade própria, seria necessário imobilizá-la

Alice tentara mais uma vez atingir Matheus com um disparo, só que o que se ouviu dessa vez foi apenas um estalo seco. Havia acabado sua munição, ela enfim estava desarmada. Matheus esperara pacientemente por isso e agora partiria para cima de Alice. Ele não via outra alternativa a não ser deixar Alice inconsciente. Então Matheus a atacou. Ele a atingiu com um golpe preciso no pescoço fazendo-a desfalecer na mesma hora. Já estava agachado para pegá-la nos braços quando foi atingido nas costas violentamente. Benjamim enfim chegara no socorro de sua discípula. Matheus reconhecera seu adversário, era o mesmo do episódio em que Alice fora raptada no chalé de Demétrius. Enfim achara o homem responsável pela sua separação de Alice. Matheus sorriu, iria atacá-lo sem misericórdia. Ele, mais uma vez, usou de sua velocidade, chegando bem próximo de Benjamim. Quando Matheus zumbiu sua wakizashi pelo o ar visando retalhar o corpo do guerreiro Gadol, ele foi jogando para trás. Ao que parecia, Benjamim, com receio de ser atingido, criara uma barreira de proteção ao redor de si e de Alice. Qualquer um que tentasse atravessá-la seria fortemente repelido com a mesma força de seu ataque. O ódio de Matheus só aumentou ao ver a astúcia de seu oponente. Eles encaravam-se com ódio. Benjamim então o interrogou:

- Por que razão você procura tão desesperadamente resgatar Alice? Não vê que é impossível para vocês ficarem juntos? Ela é uma de nós agora! Desista dela! – ele gritava em alto e bom som.

- Você deve ser muito imbecil de achar que eu vou desistir dela assim tão facilmente. Saiba que ela vai embora comigo hoje! – Matheus respondeu com intrepidez. Ele estava decidido em acabar com tudo naquele momento.

- Bem, se você não me deixa escolha, vou matá-lo com prazer! – ao pronunciar isto, Benjamim desfez a barreira de proteção e avançou na direção de Matheus.

Matheus, apesar de ter se esforçado muito até aquele momento, ainda estava cheio de energia, era o ódio em seu peito que o alimentava naquela batalha. Benjamim conjurou algumas palavras rápidas e juntou as mãos em forma de concha junto ao peito enquanto corria na direção do jovem licantropo. Seus braços começaram a emitir uma luz avermelhada. Ele logo, num movimento rápido, abriu seus braços e os uniu logo em seguida, como que batendo palmas, e uma onda de calor saiu de suas mãos lambendo tudo que estava à sua frente. Tratava-se de uma labareda enorme em extensão e largura, sendo que era impossível para Matheus desviar daquele ataque. “Morra enfim, seu infeliz”, pensou Benjamim já certo de sua vitória. Sem saída ou escapatória, Matheus, num lance de puro instinto, transmutou-se na sua forma animal de lobo, e, utilizando-se da força e habilidade vindas de sua forma animal, conseguiu saltar por sobre as chamas de Benjamim, caindo sobre seu adversário violentamente. O guerreiro Gadol rolou alguns metros para trás, parando próximo ao corpo de Alice. Matheus o observava, ainda em forma de lobo, com seus caninos à mostra e rosnando ameaçadoramente.

Benjamim estava impressionado com as habilidades de Matheus. Nunca houvera antes presenciado uma transmutação ser realizada instantaneamente. Aquele licantropo não era como os outros, ele não conhecia limites para suas habilidades. Sabendo que era certa a sua derrota, Benjamim, tratou de conjurar mais um rápido feitiço. Matheus, percebendo o que Benjamim fazia, correu para eliminar de vez seu oponente. Benjamim contou dessa vez com a sorte, pois no momento que Matheus vinha em sua direção para matá-lo, mais dois seguranças transpuseram-se entre eles. Matheus eliminou os dois atacando seus pescoços com suas presas poderosas, mas isso deu a Benjamim o tempo suficiente para que ele terminasse seu feitiço. Mais uma vez, como ocorrera anteriormente no chalé, uma luz ofuscante tomou conta da sala e, quando ela desapareceu, nem Benjamim, nem Alice estavam mais no salão do cerimonial.

Matheus esteve prestes a enlouquecer, tamanho o desespero que o tomara, ao ver que, mais uma vez, Benjamim fugira com Alice. E sua agonia era maior agora porque ele sabia que ela seria usada por aqueles guerreiros perseguir pessoas amaldiçoadas como ele. Provavelmente, mais cedo ou mais tarde, eles voltariam a se encontrar, mas como inimigos. Esse golpe era forte demais para Matheus suportá-lo. Seu desânimo foi tão grande e sua desesperança tão profunda que ele simplesmente parou de lutar. Voltando à forma humana, ele, agora sem roupas, limitou-se a se ajoelhar no local onde tinha visto Alice pela última vez. Estava com os olhos cheios de lágrimas. “Por que continuar com uma vida infeliz como a dele?”, era o que se passava na sua cabeça naquela hora de dor.

Ele estava decidido a entregar-se quando ouviu um grito de sofrimento vindo de perto. Ao levantar seus olhos Matheus viu Ulisses ajoelhado no chão com duas lanças de prata fincadas em seu peito. Ele tinha sido atingido fatalmente e agora agonizava enquanto ainda tentava lutar contra seus algozes. Matheus não acreditava que uma lenda entre os Licans estava sucumbido naquela batalha. Ulisses entrara naquela luta para buscar a liberdade de sua maldição, ele tinha esperança de que fosse possível livrar-se daquela condição infeliz. Agora ele estava caindo frente ao ataque dos vários inimigos que o golpeavam. Matheus ainda pôde ver os olhos de seu companheiro molhados o observando, pedindo por auxílio. Quantos mais teriam que morrer para que esse inferno terminasse?

Ao ver de tão perto a morte de Ulisses, Matheus se encheu de um ódio tão intenso, que seu coração enegreceu-se. Não existia mais espaço para sofrimento, apenas para vingança. Aqueles homens que insistiam em golpear Ulisses, mesmo ele já estando morto no chão, sofreriam por toda a dor que Matheus sentira. Não haveria perdão, ele decidira, todos ali iriam morrer.

Matheus levantou-se, seus olhos estavam sem vida, seu semblante era o da própria morte. Ele correu e apanhou sua espada wakizashi que estava no chão e então começou a sua vingança contra os que roubaram a sua felicidade.

Ele golpeava e eles tombavam. A espada retalhava com uma facilidade incrível. O sangue pintava as paredes do lugar e banhava o corpo nu de Matheus. Um por um, ele foi eliminando-os. Nem mesmo Nicole, no auge de sua ira, conseguia mover-se como ele. Ele era o próprio “deus da morte” bailando a sua dança da colheita enquanto ceifava as vidas daqueles que ousava se colocar em seu caminho. E Matheus não parou enquanto não viu o último Gadol tombar.

Dentro daquele salão não sobrou ninguém, todos foram mortos, um verdadeiro extermínio. Izabelle observava a Matheus espantada. Como ele conseguira fazer aquilo tudo praticamente sozinho? Depois de exterminado o último adversário, ele permanecera parado, estático, com sua cabeça baixa, respiração compassada, a espada ainda em sua mão pingava sangue. Ele era assombroso.

Nicole e Elizabeth estavam prestando socorro a Demétrius que tinha sido gravemente ferido por Benjamim. Os três lobos gêmeos sobreviveram àquela loucura. Mas infelizmente seus objetivos não foram alcançados. Eles falharam.

Izabelle lentamente aproximou-se de Matheus. Sentia medo. Ele não reagiu à sua aproximação, continuava parado como em transe. Ela então, com os olhos cheios de lágrimas, parou na frente dele e tocou no seu rosto. Com a voz trêmula ela o chamou:

- Matheus? Matheus?... Você ainda está aí? Não faça isso com você mesmo, não decaia assim. Você não é assim, eu sei. Eu sinto coisas, sinto o coração das pessoas e sei que você não é assim. Me deixe te ajudar. Eu quero ajudá-lo. Venha, liberte essa dor, esse ódio, me deixe entrar no seu coração, me deixe amá-lo...

Mesmo com todas aquelas mortes a dor não passara. Ele ainda sofria. Parecia que seu peito iria explodir. Ele levantou o rosto e olhou para Izabelle. Ela sorriu, um sorriso terno, um sorriso de compreensão, de cumplicidade. Ele então deixou sua espada cair no chão e começou a chorar copiosamente. Izabelle o abraçou. E ele, deixando toda a mágoa ser lavada por suas lágrimas, retribuiu o abraço.

Num desabafo, ele falava consigo mesmo, entre soluços, ao lembrar de como era antes, como que lamentando-se pelo o que havia acontecido com sua vida:

- Se realmente fosse possível, eu nunca teria saído daquele quarto...

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