A luz no ambiente é uma penumbra de tão fraca. Apesar de ser um chalé localizado em um local ermo, as instalações são confortáveis. No quarto, dois jovens conversam após terem se amado intensamente há alguns minutos atrás. Ela está sentada na cama, ainda nua, com ele deitado ao seu lado. A cabeça dele repousa sobre as pernas dela. Ela afaga-lhe os cabelos.
-
No que você está pensado, Matheus? - pergunta ela curiosa com o seu
silêncio repentino.
-
O quê? Eu?!... deixa eu pensar...
-
Para! É sério... - ela insiste.
-
Honestamente? Que eu não quero mais sair deste quarto. Nunca mais! O
que acha, Alice? A gente tem a cama, TV, frigobar. Vamos ficar aqui e
esquecer do resto.
Ela
passa a mão delicadamente no rosto dele:
-
Isso seria um sonho.
**********
Mesmo
sem querer, aquela lembrança veio à mente de Matheus no momento em
que ele virou-se e pôde constatar que era mesmo verdade, Alice
estava apontado uma arma para ele. Não era possível o que estava
acontecendo. “O que fizeram com você, meu amor?!”, pensava ele
enquanto, assustado, movimentava-se novamente numa velocidade
incrível para conseguir desviar do disparo realizado pela mulher que
ele acreditava ser o grande amor de sua vida. Era horrível de mais
para ser verdade. O coração dele doía ao observar os olhos de
Alice, cheios de ódio, procurando os seus, irradiando um intenso
desejo de vingança.
Com
um salto Matheus recuou, buscando reorganizar seus pensamentos,
entender o que se passava. Ele estava desorientado, sem saber agora o
que pensar ou o que fazer. Aquela mulher na sua frente não era a
Alice que ele conhecera. Ela estava diferente, seu semblante não lhe
passava mais a tranquilidade de outrora. Suas esperanças começavam
a querer deixá-lo diante de mais esse duro golpe.
Ao
redor dos dois amantes, a luta ainda não tinha se amenizado. Ulisses
lutava com sete seguranças ao mesmo tempo, sendo que ele já
começava a esboçar sinais de desgaste. Nicole estava no clímax de
sua fúria assassina. Via-se claramente que ela regozijava-se ao
abater cada um dos guerreiros Gadols que cruzavam o seu caminho.
Agora ela só pararia quando não houvesse mais ninguém em pé.
Elizabeth e Izabelle tentavam abrir caminho frente os seguranças
para liberar uma saída para que seu grupo pudesse fugir daquele
auditório que agora era uma arena de batalha.
Enquanto
isso, Demétrius, já exausto, não conseguia mais conter a incrível
força de Benjamim que já o estava dominando. Foi então que o
amaldiçoado deixou uma brecha em sua defesa. O guerreiro Gadol
aproveitou-se aquele descuido e atravessou o ombro direito de
Demétrius com uma fina adaga, arremessando-o contra as poltronas do
auditório e correndo logo em seguida na direção de sua pupila. Ele
tinha medo que Alice lembrasse do seu passado estando frente à
frente com Matheus. Ele tinha que tirá-la dali o mais rápido
possível.
Alice
tentava acertar, com disparos de pistola, a Matheus. Ele conseguia
desviar-se, saltando e esquivando-se, enquanto procurava uma
oportunidade de desarmá-la, sem contudo machucá-la. Mas aquilo
mostrara-se algo extremamente complicado de se fazer, já que Alice
era habilidosa com o armamento e também conjurava feitiços, criando
barreiras de energia, a fim de aprisioná-lo no seu interior. Por
sorte a velocidade que Matheus desenvolvera dava-lhe condições de
evitar tais armadilhas Gadols, mas a situação não era nada boa.
Alice não os acompanharia por vontade própria, seria necessário
imobilizá-la
Alice
tentara mais uma vez atingir Matheus com um disparo, só que o que se
ouviu dessa vez foi apenas um estalo seco. Havia acabado sua munição,
ela enfim estava desarmada. Matheus esperara pacientemente por isso e
agora partiria para cima de Alice. Ele não via outra alternativa a
não ser deixar Alice inconsciente. Então Matheus a atacou. Ele a
atingiu com um golpe preciso no pescoço fazendo-a desfalecer na
mesma hora. Já estava agachado para pegá-la nos braços quando foi
atingido nas costas violentamente. Benjamim enfim chegara no socorro
de sua discípula. Matheus reconhecera seu adversário, era o mesmo
do episódio em que Alice fora raptada no chalé de Demétrius. Enfim
achara o homem responsável pela sua separação de Alice. Matheus
sorriu, iria atacá-lo sem misericórdia. Ele, mais uma vez, usou de
sua velocidade, chegando bem próximo de Benjamim. Quando Matheus
zumbiu sua wakizashi pelo o ar visando retalhar o corpo do guerreiro
Gadol, ele foi jogando para trás. Ao que parecia, Benjamim, com
receio de ser atingido, criara uma barreira de proteção ao redor de
si e de Alice. Qualquer um que tentasse atravessá-la seria
fortemente repelido com a mesma força de seu ataque. O ódio de
Matheus só aumentou ao ver a astúcia de seu oponente. Eles
encaravam-se com ódio. Benjamim então o interrogou:
-
Por que razão você procura tão desesperadamente resgatar Alice?
Não vê que é impossível para vocês ficarem juntos? Ela é uma de
nós agora! Desista dela! – ele gritava em alto e bom som.
-
Você deve ser muito imbecil de achar que eu vou desistir dela assim
tão facilmente. Saiba que ela vai embora comigo hoje! – Matheus
respondeu com intrepidez. Ele estava decidido em acabar com tudo
naquele momento.
-
Bem, se você não me deixa escolha, vou matá-lo com prazer! – ao
pronunciar isto, Benjamim desfez a barreira de proteção e avançou
na direção de Matheus.
Matheus,
apesar de ter se esforçado muito até aquele momento, ainda estava
cheio de energia, era o ódio em seu peito que o alimentava naquela
batalha. Benjamim conjurou algumas palavras rápidas e juntou as mãos
em forma de concha junto ao peito enquanto corria na direção do
jovem licantropo. Seus braços começaram a emitir uma luz
avermelhada. Ele logo, num movimento rápido, abriu seus braços e os
uniu logo em seguida, como que batendo palmas, e uma onda de calor
saiu de suas mãos lambendo tudo que estava à sua frente. Tratava-se
de uma labareda enorme em extensão e largura, sendo que era
impossível para Matheus desviar daquele ataque. “Morra enfim, seu
infeliz”, pensou Benjamim já certo de sua vitória. Sem saída ou
escapatória, Matheus, num lance de puro instinto, transmutou-se na
sua forma animal de lobo, e, utilizando-se da força e habilidade
vindas de sua forma animal, conseguiu saltar por sobre as chamas de
Benjamim, caindo sobre seu adversário violentamente. O guerreiro
Gadol rolou alguns metros para trás, parando próximo ao corpo de
Alice. Matheus o observava, ainda em forma de lobo, com seus caninos
à mostra e rosnando ameaçadoramente.
Benjamim
estava impressionado com as habilidades de Matheus. Nunca houvera
antes presenciado uma transmutação ser realizada instantaneamente.
Aquele licantropo não era como os outros, ele não conhecia limites
para suas habilidades. Sabendo que era certa a sua derrota, Benjamim,
tratou de conjurar mais um rápido feitiço. Matheus, percebendo o
que Benjamim fazia, correu para eliminar de vez seu oponente.
Benjamim contou dessa vez com a sorte, pois no momento que Matheus
vinha em sua direção para matá-lo, mais dois seguranças
transpuseram-se entre eles. Matheus eliminou os dois atacando seus
pescoços com suas presas poderosas, mas isso deu a Benjamim o tempo
suficiente para que ele terminasse seu feitiço. Mais uma vez, como
ocorrera anteriormente no chalé, uma luz ofuscante tomou conta da
sala e, quando ela desapareceu, nem Benjamim, nem Alice estavam mais
no salão do cerimonial.
Matheus
esteve prestes a enlouquecer, tamanho o desespero que o tomara, ao
ver que, mais uma vez, Benjamim fugira com Alice. E sua agonia era
maior agora porque ele sabia que ela seria usada por aqueles
guerreiros perseguir pessoas amaldiçoadas como ele. Provavelmente,
mais cedo ou mais tarde, eles voltariam a se encontrar, mas como
inimigos. Esse golpe era forte demais para Matheus suportá-lo. Seu
desânimo foi tão grande e sua desesperança tão profunda que ele
simplesmente parou de lutar. Voltando à forma humana, ele, agora sem
roupas, limitou-se a se ajoelhar no local onde tinha visto Alice pela
última vez. Estava com os olhos cheios de lágrimas. “Por que
continuar com uma vida infeliz como a dele?”, era o que se passava
na sua cabeça naquela hora de dor.
Ele
estava decidido a entregar-se quando ouviu um grito de sofrimento
vindo de perto. Ao levantar seus olhos Matheus viu Ulisses ajoelhado
no chão com duas lanças de prata fincadas em seu peito. Ele tinha
sido atingido fatalmente e agora agonizava enquanto ainda tentava
lutar contra seus algozes. Matheus não acreditava que uma lenda
entre os Licans estava sucumbido naquela batalha. Ulisses entrara
naquela luta para buscar a liberdade de sua maldição, ele tinha
esperança de que fosse possível livrar-se daquela condição
infeliz. Agora ele estava caindo frente ao ataque dos vários
inimigos que o golpeavam. Matheus ainda pôde ver os olhos de seu
companheiro molhados o observando, pedindo por auxílio. Quantos mais
teriam que morrer para que esse inferno terminasse?
Ao
ver de tão perto a morte de Ulisses, Matheus se encheu de um ódio
tão intenso, que seu coração enegreceu-se. Não existia mais
espaço para sofrimento, apenas para vingança. Aqueles homens que
insistiam em golpear Ulisses, mesmo ele já estando morto no chão,
sofreriam por toda a dor que Matheus sentira. Não haveria perdão,
ele decidira, todos ali iriam morrer.
Matheus
levantou-se, seus olhos estavam sem vida, seu semblante era o da
própria morte. Ele correu e apanhou sua espada wakizashi que estava
no chão e então começou a sua vingança contra os que roubaram a
sua felicidade.
Ele
golpeava e eles tombavam. A espada retalhava com uma facilidade
incrível. O sangue pintava as paredes do lugar e banhava o corpo nu
de Matheus. Um por um, ele foi eliminando-os. Nem mesmo Nicole, no
auge de sua ira, conseguia mover-se como ele. Ele era o próprio
“deus da morte” bailando a sua dança da colheita enquanto
ceifava as vidas daqueles que ousava se colocar em seu caminho. E
Matheus não parou enquanto não viu o último Gadol tombar.
Dentro
daquele salão não sobrou ninguém, todos foram mortos, um
verdadeiro extermínio. Izabelle observava a Matheus espantada. Como
ele conseguira fazer aquilo tudo praticamente sozinho? Depois de
exterminado o último adversário, ele permanecera parado, estático,
com sua cabeça baixa, respiração compassada, a espada ainda em sua
mão pingava sangue. Ele era assombroso.
Nicole
e Elizabeth estavam prestando socorro a Demétrius que tinha sido
gravemente ferido por Benjamim. Os três lobos gêmeos sobreviveram
àquela loucura. Mas infelizmente seus objetivos não foram
alcançados. Eles falharam.
Izabelle
lentamente aproximou-se de Matheus. Sentia medo. Ele não reagiu à
sua aproximação, continuava parado como em transe. Ela então, com
os olhos cheios de lágrimas, parou na frente dele e tocou no seu
rosto. Com a voz trêmula ela o chamou:
-
Matheus? Matheus?... Você ainda está aí? Não faça isso com você
mesmo, não decaia assim. Você não é assim, eu sei. Eu sinto
coisas, sinto o coração das pessoas e sei que você não é assim.
Me deixe te ajudar. Eu quero ajudá-lo. Venha, liberte essa dor, esse
ódio, me deixe entrar no seu coração, me deixe amá-lo...
Mesmo
com todas aquelas mortes a dor não passara. Ele ainda sofria.
Parecia que seu peito iria explodir. Ele levantou o rosto e olhou
para Izabelle. Ela sorriu, um sorriso terno, um sorriso de
compreensão, de cumplicidade. Ele então deixou sua espada cair no
chão e começou a chorar copiosamente. Izabelle o abraçou. E ele,
deixando toda a mágoa ser lavada por suas lágrimas, retribuiu o
abraço.
Num
desabafo, ele falava consigo mesmo, entre soluços, ao lembrar de
como era antes, como que lamentando-se pelo o que havia acontecido
com sua vida:
-
Se realmente fosse possível, eu nunca teria saído daquele quarto...

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