quinta-feira, 16 de junho de 2011

LdS - Livro I - Capítulo 20 – Mudanças




A semana que se passou após o fiasco da missão no “Mosteiro dos Cavaleiros da Lua” foi de mudanças. Demétrius conseguira recuperar-se satisfatoriamente e já estava fora de perigo. Mas a situação para os três lobos gêmeos não era das melhores. Tanto o casarão de Demétrius quanto o chalé que eles haviam construído como um refúgio estavam agora com suas localizações reveladas. Estavam alojados todo aquele período na propriedade de Izabelle. Possuíam em sua cola os Nightkillers, os Licans e agora também os Gadols. Parte de seus aliados foi morta e, dos que ainda estavam vivos, somente Izabelle parecia ainda estar disposta a colaborar. Definitivamente eles estavam com problemas e a nova revelação que Licans e Gadols trabalhavam juntos os deixava ainda mais preocupados.

Matheus ainda desejava continuar sua busca por Alice, afinal ele ainda a amava e não conseguia aceitar sua perda. Mas ele sabia que seus amigos precisavam também pensar neles, em refugiarem-se por um tempo a fim de poderem se reestruturar e levantar mais informações a cerca dos acontecimentos recentes e suas possíveis consequências. Ele estava disposto a partir sozinho em sua busca.

Demétrius sentia essa inquietação em seu amigo, mas não poderia deixar de cuidar de sua segurança e do bem estar de suas companheiras. Este não era o momento de se expor, eles deveriam sumir, isto era o mais sensato a se fazer.

Sabendo do que se passava com Matheus, seus três amigos o deixaram à vontade para sair em sua busca, não pedindo que ele os acompanhasse em sua fuga. Eles haviam decidido voltar para a Europa, queriam regressar às suas origens, buscar forças para sobreviver à nova fase da guerra que estava prestes a se iniciar. Lá tentariam formar novos pactos e, quem sabe, criar uma espécie de aliança de dissidentes para fazer frente aos três grandes grupos que ameaçavam todo o mundo. Era um objetivo nobre e ambicioso.

O coração de Matheus o impelia a não desistir de Alice e seus amigos o compreendiam nesta sua espécie de obsessão. Parecia que essa era a missão que o destino reservara à Matheus, ele deveria resgatá-la. Todos sentiam que, de alguma forma, seus destinos dependiam do sucesso de Matheus. Havia algo, um laço entre ele e Alice, que parecia ter o poder de influenciar toda a história desta guerra. Como se ambos estivessem predestinados a uma grande e espinhosa missão.

**********

Foi com tristeza que os três despediram-se de seu amigo. Apenas um mês após todos aqueles acontecimentos com os Gadols e os três lobos gêmeos viajavam em fuga para a Europa. Matheus não poderia mais contar naquele momento com aqueles aliados. Sentia-se só. Ele agora só tinha a Izabelle. Era estranha a relação que unira os dois. Matheus, apesar de continuar amando Alice, sentia-se intensamente atraído por Izabelle. E ela não escondia o desejo que sentia em ser dele, em tê-lo em seus braços. Os dois sentiam um forte desejo que, mais cedo ou mais tarde, iria tomar as rédeas. Agora ele não tinha como fugir, teria que encarar seu sentimento por Izabelle, teria que aprender a conviver com isso.

Na volta do aeroporto, logo após terem deixado seus amigos na área de embarque internacional de Confins, enquanto caminhavam no estacionamento para pegarem o carro, Izabelle resolveu colocar as cartas na mesa:

- O que você pretende fazer agora, Matheus? Ainda pensa em partir em busca daquela garota Gadol? - Izabelle queria respostas para suas dúvidas.

- Nós já havíamos conversado sobre isto. Eu tenho que ir, não posso deixar de fazê-lo. - ele respondeu. Estava triste, cabisbaixo.

- Por que você não esquece isso de uma vez e fica comigo? Você sabe que eu te quero comigo. Eu sei que posso te fazer feliz! - ela era sincera em suas palavras.

- Eu não duvido disso, Izabelle. - ele olhava para frente, um olhar distante. - Uma parte de mim deseja isto também. Eu gostaria de esquecer tudo, de esquecer esta guerra idiota, de esquecer esta maldição, de esquecer todo o sofrimento que passei, até mesmo de esquecer Alice para viver intensamente uma história com você. Mas só que eu não consigo! Alice está gravada com fogo aqui dentro de uma forma que eu não consigo apagar. Ela não desaparece dos meus pensamentos, me atrai de uma forma que nem eu consigo entender. Eu não conseguiria te fazer feliz vivendo assim...

Ela parou em frente a ele. Seus olhares se encontraram. Ela pegou em seu rosto de uma forma carinhosa.

- Eu sei que você pode me fazer feliz, Matheus. Eu sei disso! O que eu te peço é somente uma chance, uma chance para nós dois. - falando isso, ela o beijou.

Os dois ficaram um momento assim, com seus lábios unidos, respirações ofegantes, batimentos acelerados, sentindo o característico frio no estômago produto do nervosismo. Foi um beijo nervoso, tenso, cheio de desejo e expectativas da parte de Izabelle.

Matheus foi surpreendido tanto pelo gesto de Izabelle como também por ter saboreado intensamente aquele beijo, sentido, por um breve momento, que não era mais necessário resistir. Fazia tempo que ele desejava não mais fugir daquilo que sentia por ela.

Passados os duradouros segundos daquele íntimo contato, os dois se abraçaram. Matheus sentia-se confuso, queria se entregar nos braços de Izabelle, mas sentia culpa por causa de Alice. Sem se afastar daquele abraço aconchegante, ele sussurrou no ouvido dela:

- Eu sei o quanto vou me odiar se vier a te fazer sofrer, - ele a apertou ainda mais forte. - mas não aguento mais ter que resistir à atração que sinto. Eu te quero, Izabelle. Nesse exato momento, o que eu mais quero é ter você...

Ela sorriu. Sabia que podia estar embarcando numa furada, mas ela não se permitia não tentar, não se permitia dar as costas para seus sentimentos. Ela era corajosa e queria pagar para ver.

**********

Era madrugada. A cidade era enorme e incrivelmente movimentada. Em um beco escuro, dois caçadores encurralavam a sua presa. Estavam em mais uma noite de intenso treinamento. O homem com aparência nobre queria fazer de sua linda discípula a mais mortal e eficiente caçadora de demônios. O alvo, um lobisomem.

Eles agiram de foma rápida e eficiente. Utilizando de um feitiço, Benjamim criou uma barreira que impediu o licantropo de fugir. Estavam agora limitados àquele beco escuro e fétido. Ela nem ao menos esperou pelo comando de seu mestre e partiu para cima de sua presa com um ferocidade incrível. Alice usava uma vestimenta especial, um macacão confeccionado especialmente para ela, em couro preto, totalmente ajustado as formas de seu corpo escultural, que possuía proteções reforçadas com kevlar nos pontos críticos como tórax, abdômen, braços e pernas. Ela utilizava também uma pistola toda confeccionada em prata, calibre nove milímetros, com munição especial, feita com uma liga de chumbo e prata, e que trazia gravada nos projéteis o Ankh, o símbolo sagrado dos Gadols ocidentais. Ela realizou dois disparos, acertando seu alvo nas duas pernas e avançou em direção ao seu oponente – queria testar sua nova habilidade.

Rapidamente ela entoou um pequeno mantra e retirou a luva que cobria seu punho direito. A Chamsa que ela trazia tatuada estava brilhando em vermelho vivo como lava incandescente. Ela encaixou um soco no peito do licantropo. O impacto do golpe fez com que o peito da besta explodisse em vários pedaços, deixando ainda um rombo na parede da edificação que estava centímetros atrás do amaldiçoado.

Ao ver o estrago que sua discípula causara com um único golpe, Benjamim sorriu. Ele desfez a barreira, não havia mais ninguém que pudesse fugir, o mostro estava morto.

- Vejo que sua evolução foi impressionante, minha filha. Em breve você estará em condições de entrar na elite de guerreiros Gadols. Continue nesse ritmo!

- Obrigada, mestre! Mas meu objetivo principal é outro. Eu quero vingança e vou caçar aquele que arruinou minha cerimônia de iniciação.

- Bem, querida, se é isto que você realmente deseja, creio que já é chegada a hora. Vamos nos preparar para a caçada.

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