A semana que se passou após o fiasco da missão no “Mosteiro dos Cavaleiros da Lua” foi de mudanças. Demétrius conseguira recuperar-se satisfatoriamente e já estava fora de perigo. Mas a situação para os três lobos gêmeos não era das melhores. Tanto o casarão de Demétrius quanto o chalé que eles haviam construído como um refúgio estavam agora com suas localizações reveladas. Estavam alojados todo aquele período na propriedade de Izabelle. Possuíam em sua cola os Nightkillers, os Licans e agora também os Gadols. Parte de seus aliados foi morta e, dos que ainda estavam vivos, somente Izabelle parecia ainda estar disposta a colaborar. Definitivamente eles estavam com problemas e a nova revelação que Licans e Gadols trabalhavam juntos os deixava ainda mais preocupados.
Matheus
ainda desejava continuar sua busca por Alice, afinal ele ainda a
amava e não conseguia aceitar sua perda. Mas ele sabia que seus
amigos precisavam também pensar neles, em refugiarem-se por um tempo
a fim de poderem se reestruturar e levantar mais informações a
cerca dos acontecimentos recentes e suas possíveis consequências.
Ele estava disposto a partir sozinho em sua busca.
Demétrius
sentia essa inquietação em seu amigo, mas não poderia deixar de
cuidar de sua segurança e do bem estar de suas companheiras. Este
não era o momento de se expor, eles deveriam sumir, isto era o mais
sensato a se fazer.
Sabendo
do que se passava com Matheus, seus três amigos o deixaram à
vontade para sair em sua busca, não pedindo que ele os acompanhasse
em sua fuga. Eles haviam decidido voltar para a Europa, queriam
regressar às suas origens, buscar forças para sobreviver à nova
fase da guerra que estava prestes a se iniciar. Lá tentariam formar
novos pactos e, quem sabe, criar uma espécie de aliança de
dissidentes para fazer frente aos três grandes grupos que ameaçavam
todo o mundo. Era um objetivo nobre e ambicioso.
O
coração de Matheus o impelia a não desistir de Alice e seus amigos
o compreendiam nesta sua espécie de obsessão. Parecia que essa era
a missão que o destino reservara à Matheus, ele deveria resgatá-la.
Todos sentiam que, de alguma forma, seus destinos dependiam do
sucesso de Matheus. Havia algo, um laço entre ele e Alice, que
parecia ter o poder de influenciar toda a história desta guerra.
Como se ambos estivessem predestinados a uma grande e espinhosa
missão.
**********
Foi
com tristeza que os três despediram-se de seu amigo. Apenas um mês
após todos aqueles acontecimentos com os Gadols e os três lobos
gêmeos viajavam em fuga para a Europa. Matheus não poderia mais
contar naquele momento com aqueles aliados. Sentia-se só. Ele agora
só tinha a Izabelle. Era estranha a relação que unira os dois.
Matheus, apesar de continuar amando Alice, sentia-se intensamente
atraído por Izabelle. E ela não escondia o desejo que sentia em ser
dele, em tê-lo em seus braços. Os dois sentiam um forte desejo que,
mais cedo ou mais tarde, iria tomar as rédeas. Agora ele não tinha
como fugir, teria que encarar seu sentimento por Izabelle, teria que
aprender a conviver com isso.
Na
volta do aeroporto, logo após terem deixado seus amigos na área de
embarque internacional de Confins, enquanto caminhavam no
estacionamento para pegarem o carro, Izabelle resolveu colocar as
cartas na mesa:
-
O que você pretende fazer agora, Matheus? Ainda pensa em partir em
busca daquela garota Gadol? - Izabelle queria respostas para suas
dúvidas.
-
Nós já havíamos conversado sobre isto. Eu tenho que ir, não posso
deixar de fazê-lo. - ele respondeu. Estava triste, cabisbaixo.
-
Por que você não esquece isso de uma vez e fica comigo? Você sabe
que eu te quero comigo. Eu sei que posso te fazer feliz! - ela era
sincera em suas palavras.
-
Eu não duvido disso, Izabelle. - ele olhava para frente, um olhar
distante. - Uma parte de mim deseja isto também. Eu gostaria de
esquecer tudo, de esquecer esta guerra idiota, de esquecer esta
maldição, de esquecer todo o sofrimento que passei, até mesmo de
esquecer Alice para viver intensamente uma história com você. Mas
só que eu não consigo! Alice está gravada com fogo aqui dentro de
uma forma que eu não consigo apagar. Ela não desaparece dos meus
pensamentos, me atrai de uma forma que nem eu consigo entender. Eu
não conseguiria te fazer feliz vivendo assim...
Ela
parou em frente a ele. Seus olhares se encontraram. Ela pegou em seu
rosto de uma forma carinhosa.
-
Eu sei que você pode me fazer feliz, Matheus. Eu sei disso! O que eu
te peço é somente uma chance, uma chance para nós dois. - falando
isso, ela o beijou.
Os
dois ficaram um momento assim, com seus lábios unidos, respirações
ofegantes, batimentos acelerados, sentindo o característico frio no
estômago produto do nervosismo. Foi um beijo nervoso, tenso, cheio
de desejo e expectativas da parte de Izabelle.
Matheus
foi surpreendido tanto pelo gesto de Izabelle como também por ter
saboreado intensamente aquele beijo, sentido, por um breve momento,
que não era mais necessário resistir. Fazia tempo que ele desejava
não mais fugir daquilo que sentia por ela.
Passados
os duradouros segundos daquele íntimo contato, os dois se abraçaram.
Matheus sentia-se confuso, queria se entregar nos braços de
Izabelle, mas sentia culpa por causa de Alice. Sem se afastar daquele
abraço aconchegante, ele sussurrou no ouvido dela:
-
Eu sei o quanto vou me odiar se vier a te fazer sofrer, - ele a
apertou ainda mais forte. - mas não aguento mais ter que resistir à
atração que sinto. Eu te quero, Izabelle. Nesse exato momento, o
que eu mais quero é ter você...
Ela
sorriu. Sabia que podia estar embarcando numa furada, mas ela não se
permitia não tentar, não se permitia dar as costas para seus
sentimentos. Ela era corajosa e queria pagar para ver.
**********
Era
madrugada. A cidade era enorme e incrivelmente movimentada. Em um
beco escuro, dois caçadores encurralavam a sua presa. Estavam em
mais uma noite de intenso treinamento. O homem com aparência nobre
queria fazer de sua linda discípula a mais mortal e eficiente
caçadora de demônios. O alvo, um lobisomem.
Eles
agiram de foma rápida e eficiente. Utilizando de um feitiço,
Benjamim criou uma barreira que impediu o licantropo de fugir.
Estavam agora limitados àquele beco escuro e fétido. Ela nem ao
menos esperou pelo comando de seu mestre e partiu para cima de sua
presa com um ferocidade incrível. Alice usava uma vestimenta
especial, um macacão confeccionado especialmente para ela, em couro
preto, totalmente ajustado as formas de seu corpo escultural, que
possuía proteções reforçadas com kevlar nos pontos críticos como
tórax, abdômen, braços e pernas. Ela utilizava também uma pistola
toda confeccionada em prata, calibre nove milímetros, com munição
especial, feita com uma liga de chumbo e prata, e que trazia gravada
nos projéteis o Ankh, o símbolo sagrado dos Gadols ocidentais. Ela
realizou dois disparos, acertando seu alvo nas duas pernas e avançou
em direção ao seu oponente – queria testar sua nova habilidade.
Rapidamente
ela entoou um pequeno mantra e retirou a luva que cobria seu punho
direito. A Chamsa que ela trazia tatuada estava brilhando em vermelho
vivo como lava incandescente. Ela encaixou um soco no peito do
licantropo. O impacto do golpe fez com que o peito da besta
explodisse em vários pedaços, deixando ainda um rombo na parede da
edificação que estava centímetros atrás do amaldiçoado.
Ao
ver o estrago que sua discípula causara com um único golpe,
Benjamim sorriu. Ele desfez a barreira, não havia mais ninguém que
pudesse fugir, o mostro estava morto.
-
Vejo que sua evolução foi impressionante, minha filha. Em breve
você estará em condições de entrar na elite de guerreiros Gadols.
Continue nesse ritmo!
-
Obrigada, mestre! Mas meu objetivo principal é outro. Eu quero
vingança e vou caçar aquele que arruinou minha cerimônia de
iniciação.
-
Bem, querida, se é isto que você realmente deseja, creio que já é
chegada a hora. Vamos nos preparar para a caçada.

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