sábado, 24 de abril de 2010

LdS - Livro I - Capítulo 17 - Chacina no mosteiro




Sua respiração era ofegante. Os vários corredores pareciam um labirinto onde ele desesperadamente corria sem saber ao certo onde queria chegar. Seu coração batia acelerado e aumentava de frequência conforme seu desespero aumentava. Ao final daquele corredor havia uma porta de madeira, “poderia estar lá?”, pensava ele enquanto partia em disparada para verificar mais uma sala. Um chute colocou a porta abaixo e logo ele pode ver, deitada na cama, com uma espada cravada em seu peito, ela ainda sangrava, mas já estava morta. Dentro da sua cabeça, Shaladiel gargalhava com prazer.

- Alice! - esse foi o grito que ele soltou no meio da noite silenciosa ao acordar daquele terrível e realista pesadelo.

Matheus suava muito e em seu peito seu coração palpitava descompassado. Olhou na janela e viu Selene ainda reinando sozinha no céu escuro. Resolveu que seria melhor levantar logo, definitivamente não conseguiria mais dormir depois daquele sonho. Iria arrumar sua bagagem, preparar seu material, poderia até aproveitar para praticar mais um pouco com sua wakizashi. Afinal de contas, aquele seria o dia decisivo e ele não poderia falhar. Foi no banheiro e jogou água no rosto. Olhou no espelho e ficou encarando seu reflexo como se procurasse lá dentro do seu íntimo a
resposta para os seus medos. Novamente pensou no sonho, no desespero que ele sentiu, na cena de Alice sangrando morta sobre a cama. Fechou os olhos e buscou afastar aquele quadro medonho de sua cabeça. Aquele era o dia decisivo e ele não se permitiria falhar.

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O sol ainda nem tinha aparecido, apenas seus raios dourados começavam a manchar a escuridão do céu e todos já estavam de pé prontos para partir. Morrison tinha designado cinco de seus subordinados para prestarem apoio ao grupo de dissidentes. Todos eram homens jovens e estavam sob a liderança de Vicente, o mesmo licantropo que no dia anterior os havia abordado no posto de gasolina. Ele era um bom rastreador e homem de confiança de Morrison. Seus outros quatro companheiros faziam parte da guarda particular de Morrison e gozavam de prestígio entre os licantropos daquele vilarejo. O grupo estava reforçado, agora possuía doze amaldiçoados.

Em pouco tempo todos já estavam na estrada, sendo que os cinco subordinados de Morrison seguiam os outros dois veículos um pouco mais de trás em uma pick-up. Apesar de ser bem vinda a ajuda prestada, o grupo de dissidentes ainda não estava totalmente convencido da sinceridade dos atos do governante Lican. Era de se estranhar que ele os deixasse partir sem problemas. Amizade não era uma coisa comum no mundo licantropo.

No primeiro carro, Izabelle continuava seu trabalho de rastreio. Pela intensidade das vibrações da alma de Alice eles deveriam estar bem próximos agora. Ainda aquele dia estariam diante da base Gadol. Matheus continuava muito irrequieto, mas tentava não perder seu foco, queria que tudo desse certo, que eles realizassem seus objetivos sem que perdessem nenhum de seus aliados. Estava chegando a hora que ele há tanto tempo vinha aguardando, estaria novamente frente aos sequestradores de Alice. Desta vez ele não lhes daria chance de reagir. Seria rápido e implacável.

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Dentro de uma das inúmeras salas da base Gadol, uma jovem era preparada para seu ritual de iniciação. Todas as atenções dos guerreiros-sacerdotes estavam, naquele momento, voltadas para aquela cerimônia solene. Alice seria ordenada noviça-guerreira, o primeiro passo dentro dos vários níveis hierárquicos do mundo Gadol. Depois daquela noite, ela estaria oficialmente inserida naquela ordem milenar, não sendo mais possível para ela desvencilhar-se daquele compromisso, sendo punida com a morte qualquer traição àquela organização secreta. Essa era a lei, uma vez ordenada Gadol, ela estaria eternamente comprometida.

Benjamim cuidava de todos os preparativos pessoalmente. Ele era o seu mentor. Desde a sua captura que Benjamim assumira o compromisso de “resgatá-la” das garras dos amaldiçoados. A alta cúpula espanhola relutara, em princípio, em aceitar que Alice tão rapidamente se unisse à organização, mas seu excelente desempenho, sendo ela considerada como uma verdadeira prodígio, fez com que essa primeira desconfiança se transformasse em uma euforia com as possíveis possibilidades que se apresentavam. Alice era a única descendente conhecida da extinta ordem Gadol do oriente. Suas habilidades naturais no uso da magia eram extraordinárias, sem falar que ela também destacara-se no manuseio do armamento Gadol. Dentro de poucas horas dar-se-ia início a cerimônia e os amaldiçoados eram os penetras que tentariam estragar a festa.

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Duas da tarde era o que indicava o relógio de Matheus quando seu grupo parou seus veículos ao sinal dado por Izabelle de que haviam chegado ao seu destino. Não restavam dúvidas, aquela velha edificação, que reinava sozinha no meio da caatinga, era a tão procurada base Gadol, o “Mosteiro dos Guerreiros da Lua”. Possuía altas muralhas e apenas um local de entrada visível. Os licantropos deixaram seus carros a uma distância considerável do lugar e passaram a deslocar-se a pé esgueirando-se pela vegetação seca e espinhosa. Esperaram que o sol desaparecesse para que montassem acampamento nas proximidades da muralha do mosteiro. Matheus, Nicole e Ulisses foram designados para realizarem uma patrulha de reconhecimento visando levantar dados sobre a segurança do lugar. O mosteiro possuía um sistema de monitoramento eletrônico com várias câmeras de vigilância ao longo de toda a muralha. Também possuía, na entrada principal, dois seguranças Gadols que fiscalizavam a entrada e saída de pessoas, além de uma equipe com quatro guerreiros-sacerdotes que realizavam constantes rondas ao redor da área do mosteiro. Como eles haviam previsto, seria difícil entrar naquela base sem serem percebidos.

Enquanto o trio de licantropos levantava dados sobre as vulnerabilidades do local, Demétrius, Elizabeth e Izabelle, cada um utilizando sua habilidade, buscavam dados sobre o contingente de Gadols que encontrava-se na parte interna do mosteiro e sobre a localização de Alice. Elizabeth não conseguiu levantar informação alguma. Helendril, seu obsessor, não obtivera sucesso em quebrar as barreiras espirituais que protegiam aquele lugar. Era totalmente impossível para qualquer demônio transpor aqueles vários níveis espirituais de segurança. Haviam vários círculos de proteção rodeando todo o mosteiro de forma a bloquear o acesso por qualquer direção. Estava claro que, dentro daquele lugar, eles dependeriam unicamente de suas habilidades individuais, sendo que seus obsessores não conseguiriam acompanhá-los uma vez que estivessem todos dentro da base Gadol. Para a grande maioria dos licantropos, dentre eles incluía-se Matheus, essa era uma boa notícia, já que era um grande fardo ter que resistir permanentemente às investidas de seus obsessores pelo controle sobre seus próprios corpos, lutando para não cederem à tentação de entrarem em frenesi. Mas para Elizabeth, que possuía uma relação de colaboração com seu obsessor, não seria possível invocar sua total capacidade de destruição.

Izabelle também pouca coisa conseguiu levantar sobre o paradeiro de Alice. Ela também dependia de parte do poder de seu demônio interior para rastrear as vibrações espirituais de Alice. Todas as vezes que buscava sentir o “cheiro da alma” de Alice para dentro das muralhas, encontrava o rastro descontinuado, como se uma linha invisível que a levava até a localização exata de Alice estivesse “partida”. Izabelle sabia que Alice encontrava-se dentro daquele mosteiro, mas não conseguia descobrir em que parte daquele complexo de salas ela estava. Demétrius fora o único que obtivera, de certo modo, algum sucesso em sua investida. Ele rastreou telepaticamente toda a área do mosteiro, levantando um contingente de sessenta e cinco pessoas dentro daquele local, mas curiosamente não conseguira entrar em contato telepático com Alice. Para ele, a mente de Alice fora selada, de forma que agora somente o criador do selo podia ter o acesso. Os Gadols eram bem prevenidos e sabiam como ninguém manter seus segredos muito bem guardados.

Pouco mais de uma hora depois, retornavam ao local do acampamento o trio que fora enviado para reconhecimento. E eles traziam boas notícias. Havia um único ponto em toda a muralha onde seria possível uma invasão sem que suas presenças fossem detectadas. Tratava-se de um ponto cego na vigilância eletrônica que, a cada período de quinze minutos, deixava invisível às câmeras de segurança, por quarenta segundos, um pequeno trecho por onde poderia ser feita a transposição do muro. Era necessário somente que eles tomassem cuidado para não serem percebidos pela equipe de ronda do local. Deveriam agir rapidamente, agir em perfeita sincronia, de modo a aproveitar esses quarenta segundos para invadir de forma sorrateira a base Gadol. A primeira brecha fora encontrada.

O segundo problema estava sendo solucionado por Arthur, que já estava concluindo a evocação de um feitiço de supressão de presença. Assim como o amuleto de Alice, que irradiava uma luz azulada na presença de um amaldiçoado, os Gadols possuíam outros instrumentos e armas preparados para alertá-los quanto a presença de algum licantropo. Este era um problema conhecido e Arthur preparara-se para a sua resolução ainda na véspera de sua viagem, pesquisando em seus livros por um feitiço capaz de mascarar a presença de seus companheiros. Tratava-se de um feitiço complexo e que demandava tempo e concentração, de forma que, quando estivesse concluído, lhes dariam a vantagem do efeito surpresa. Mas o preço daquele trunfo era a total dedicação de Arthur na sua manutenção, ficando ele ocupado exclusivamente em mantê-lo ativo. Seria um homem a menos na batalha corpo à corpo. Mas tal vantagem valia o preço.

Passados mais quarenta minutos e enfim o feitiço completara-se. Arthur permanecia estático, sentado dentro de um círculo, em posição de lótus, concentrado em suprimir as vibrações espirituais de seus companheiros. Era a primeira vez que ele usava tal feitiço e aquilo o estava exigindo bem mais energia do que ele esperava, de tal forma que ele não conseguiria manter aquilo ativo por muito tempo. O preparativos haviam terminado, as brechas encontradas. Estava na hora deles porem em prática seus planos há muito preparados. Eles deveriam agir rápido, seu tempo era curto.

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Todos já encontravam-se sentados aguardando a entrada da jovem iniciante no recinto. A alta cúpula da ordem dos Gadols Ocidentais também acompanhava a cerimônia, da Espanha, por uma videoconferência, tanta era a importância do acontecimento. Esperando pacientemente em uma sala, vestida com uma túnica vermelha com detalhes em prata, uma jovem sente um vazio imenso em seu peito. Ela tenta entender porque, em seu íntimo, ela está insatisfeita. Apesar de todo aquele acolhimento e do aparente carinho de seu mestre Benjamim, ela sente que está incompleta. Em sua mente existe um vácuo, uma nuvem negra que não se dissipa, por mais que ela se esforce. Ela não consegue lembrar do que enfim tanto sente falta, somente seu coração agoniza desesperadamente, reclamando o vazio que agora nele está instaurado. Se ao menos ela soubesse que a resposta para suas angustias está tão perto dela agora.

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Eles estão atentos, o momento está próximo. Somente mais alguns segundos e a brecha irá abrir-se. Matheus está tenso. “Não posso falhar”, mais uma vez ele pensa. Sua mente está focada, seu coração irrequieto. Depois de tanto tempo de espera, agora é o momento de agir. Ele não pode falhar.

Nicole sinaliza e todos os amaldiçoados correm para explorar a falha no sistema de monitoramento. Em apenas 30 segundos todos já estão do lado de dentro do mosteiro. Agora não dá mais para desistir, nem hesitar. O local, por sorte, está deserto. O plano está correndo bem, eles entraram sem serem percebidos. Agora todos concentram-se em achar a garota Gadol, a dona do pingente estranho. São feitas três equipes de busca. Os homens de Morrison formam uma equipe. Demétrius, Nicole e Elizabeth formam outra. O terceiro grupo é formado por Ulisses, Matheus e Izabelle. Agora eles precisam agir com rapidez, a cada momento Arthur fica mais e mais debilitado. “Meu Deus, não posso falhar!”, um medo percorre a espinha de Matheus. Ele segura forte em sua mão o amuleto de sua amada.

Os grupos separam-se. O laço telepático de Demétrius será essencial agora. As ordens são claras, não podem haver testemunhas, todos os que cruzarem seus caminhos devem ser eliminados. Alice é o alvo, nada mais importa. Eles não podem vacilar, seus inimigos são poderosos. Uma falha e todos podem morrer. Não é hora para dúvidas. Matheus parte na frente de seu grupo, a mão segura firme sua wakizashi ainda na bainha. O medo que antes o assombrava agora dá lugar a uma determinação sem tamanho, uma verdadeira vontade de ferro. Nada irá pará-lo.

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No salão onde está sendo realizada a cerimônia, Benjamim faz seu discurso inicial felicitando sua pupila pela sua conquista. Alice está atrás duma cortina esperando ser chamada para realizar seu juramento. Seu coração parece que vai explodir tamanha a angústia que agora ela sente. Como se sentisse o que estava por acontecer, sem saber o porquê, ela chora.

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Já é o terceiro quarto que ele abre em busca dela. “Mas onde será que eles a colocaram?”, pensa ele enquanto corre rumo à outra sala. Do nada ele lembra do sonho daquela noite. Seu coração aperta, sua garganta fica seca. Será que aquilo foi uma premonição?

Nicole consegue ouvir de um Gadol que passava conversando despreocupadamente pelo corredor com seu companheiro que a cerimônia de inicialização já deveria ter começado. Ela é rápida e mortal, os dois caem no chão decapitados. Demétrius trata de esconder os corpos em mais uma sala vazia. “Todos devem estar na tal cerimônia”, pensa Demétrius. Ele repassa a informação para os demais grupos. Se Alice estiver lá, eles terão que agir em conjunto. Não poderia ser pior, a luta será sangrenta e implacável. A ordem de Demétrius é para que todos se dirijam para o local da cerimônia. Lá é que será reavaliada a situação e serão tomadas as decisões dos próximos passos. O tempo estava esgotando-se, Arthur não conseguiria resistir por muito mais tempo.

O salão onde a cerimônia realizava-se era enorme. Havia um auditório e, na parte superior, arquibancadas. Matheus e seu grupo foram os primeiros a chegar no local. Em pouco tempo o grupo de Demétrius também achara a localização do cerimonial. Os dois grupos encontraram-se na parte superior do salão, que estava vazia. Todos os Gadols presentes acomodavam-se junto ao altar, no centro do salão. Presidindo a cerimônia estava um homem de aproximadamente sessenta anos de idade, trajando vestes sacerdotais e portando em sua mão direita um cetro de prata. Todos, em silêncio, ouviam o que o homem dizia:

- É chegado o momento que traremos ao mundo mais um irmão de nossa ordem. Hoje nascerá mais um que buscará cumprir a nobre missão de proteger a humanidade da ameaça das trevas que nos assola. É sempre uma alegria quando um filho descobre sua vocação para este sacerdócio tão perigoso. - O homem falava compassadamente, sua voz era serena.

Na parte superior, Demétrius e seus companheiros confabulavam a melhor estratégia para contornar a situação crítica. Matheus estava impaciente, queria logo rever Alice:

- Não podemos perder mais tempo aguardando o grupo de Vicente. Temos que agir logo, Demétrius, enquanto ainda temos o elemento surpresa ao nosso favor. - Matheus sabia que o tempo era seu adversário naquele momento.

- Ainda não temos certeza se Alice encontra-se nesse salão. Não podemos nos precipitar. Quero que todos saiam vivos deste lugar, Matheus. Uma atitude impensada pode nos custar muito caro, garoto. - Retrucou Demétrius já irritado com a demora de Vicente e seu grupo. Ele também sabia que não tinham mais tempo. A situação estava ficando crítica.

Na parte de baixo, no altar, o velho homem conclamava todos a ficarem de pé para receberem sua nova irmã de missão:

- Vamos agora todos tomarmos uma postura de respeito para realizarmos a consagração de nossa nova membra. Abram as cortinas! Deixem que nossa companheira acesse nosso meio e possa se jubilar conosco! Venha, minha filha! Apareça para este novo mundo que a espera... - Ao dizer isto a cortina atrás do altar se abriu e de lá todos viram aparecer Alice em vestes de sacerdotisa.

Matheus não acreditou quando olhou e reconheceu Alice ali em pé junto do velho mestre Gadol. Ela lentamente caminhou até a frente do altar e ajoelhou-se. Os licantropos ficaram por um momento desnorteados. Aquilo era totalmente inesperado. O que iriam fazer agora? A única alternativa era lutar. Fariam aquilo que fora acordado como última opção, partiriam para o confronto direto. Rapidamente Ulisses e Matheus partiram para posicionarem-se o mais próximo possível do palco. Seriam eles que deveriam, ao início do ataque do grupo licantropo à plateia Gadol, saltar naquele palco, eliminar o velho mestre Gadol e resgatar Alice daquele lugar, partindo rapidamente para fora daquele mosteiro.

Toda a assembleia Gadol estava de pé, com exceção de Alice que continuava ajoelhada como sinal de respeito. O velho mestre sacerdote aproximou-se da jovem e ergueu seu cetro que trazia o Ankh em seu topo para sinalizar a realização de um ato solene. Neste momento todos na assembleia começaram a falar desordenadamente, um burburinho tomou conta do salão. Erguido sobre a cabeça do sacerdote Gadol, o cetro estava emitindo uma luz azulada. Arthur enfim tombara exausto, os licantropos foram detectados.

Ao perceber o motivo da desordem, Nicole, Izabelle, Demétrius e Elizabeth começaram uma verdadeira chacina em meio ao auditório Gadol. Antes que eles entendessem o quê ou quem os estava atacando, os amaldiçoados trataram de exterminá-los sem dar-lhes chance de reação. Por sorte o primeiro movimento dos invasores ainda teve como utilizar-se do elemento surpresa. Mas em pouco tempo a segurança Gadol tratou de cercar as saídas do auditório.

Ulisses e Matheus não puderam aproveitar-se o elemento surpresa por ainda estarem buscando posicionamento quando o caos havia se iniciado. Quando percebeu o que havia acontecido, Matheus não pensou duas vezes, sacou sua wakizashi e saiu retalhando todos os que encontrava pela frente que se punham em seu caminho em direção ao altar onde estava Alice. Ulisses, percebendo o que Matheus tentava fazer, tratou de dar-lhe cobertura. Utilizando-se de sua maça de prata, ele tratava de conter os grupos de Gadols que tentavam partir em socorro ao seu mestre.

A ação da segurança foi incrivelmente rápida e, antes que Matheus conseguisse chegar ao altar, eles já estavam ao redor do velho sacerdote, fazendo sua escolta. Alice estava junta do velho e agarrava as suas vestes. Ela estava totalmente desorientada, não entendia o que estava acontecendo, não reconhecia seus ex-companheiros licantropos.

Matheus não se intimidou e partiu para cima da guarda Gadol. Os seguranças usavam armas de fogo com balas de prata, de forma que qualquer ferimento em um local mais crítico seria fatal para Matheus. Ele tinha decidido-se, não poderia falhar, aquele era o momento dele colocar para fora toda a fúria que por tanto tempo ele guardara dentro de si. Como um predador ele partiu contra os seguranças Gadols. A cada disparo de uma arma de fogo da segurança ele respondia com movimentos incrivelmente rápidos e imprevisíveis. Saltando como um verdadeiro ginasta, ele foi eliminando um por um os seguranças que se apresentavam à sua frente. Utilizando-se de técnicas incríveis, Matheus fatiava quem ousasse colocar-se a sua frente.

Enquanto isso, seus companheiros ocupavam-se em enfrentar os guerreiros-sacerdotes que sobreviveram ao primeiro ataque e que agora já estavam em igualdade de condições na batalha. A cada ataque licantropo eles respondiam com um contra-ataque vigoroso, utilizando-se de técnicas milenares de combate, magia e armas de fogo com balas de prata. Cada conjuração de um encantamento dava a eles um tipo diferente de habilidade sobre-humana. Era uma batalha intensa e sangrenta a que estava se travando no interior daquele salão. Nicole estava ensandecida, quanto mais sangrenta era a luta, mais ela se entregava. Grande foi a carnificina promovida por ela. Elizabeth e Izabelle estavam agindo em cooperação, utilizando-se de táticas e manobras de ataque das linhas de batalha Nightkiller. Nunca antes as adagas sai de Elizabeth e o gancho duplo de Izabelle transpassaram tantos corpos como naquela noite. Demétrius tinha um adversário de respeito à sua frente, era Benjamim, o mestre de Alice. A luta entre os dois era de alto nível. Benjamim dominava de tal forma as artes milenares Gadols que se assemelhava aos grandes licantropos em poder de destruição. Uma desatenção de uma das partes significaria a sua derrota.

Matheus foi abatendo seus adversários, diminuindo sua distância entre ele e seu objetivo: Alice. Em um tempo, só existiam entre ele e sua desejada paixão a figura do velho mestre acompanhado de mais dois seguranças. Matheus aproximou-se de um dos seguranças com velocidade. Num giro rápido cortou-lhe o ventre ao meio. Logo em sequência, como que sendo guiado por instinto, ele esquivou-se de um disparo do segundo segurança e cortou-lhe a mão que empunhava a pistola, que caiu a um metro de Alice que continuava firmemente agarrada ao velho sacerdote. Só mais um movimento de Matheus e a cabeça do segurança já rolava pelo chão, decepada pela lâmina afiada da wakizashi. Agora o único obstáculo era aquele homem vestido em roupas de sacerdote. Matheus não hesitou, partiu para cima do velho mestre Gadol. O homem conjurou algumas palavras em um milenar dialeto desconhecido e uma esfera luminosa, como um pequeno sol, formou-se em sua mão direita. Ele empurrou aquele pequeno sol contra o peito de Matheus, que no momento avançava contra ele erguendo sua espada para golpeá-lo. Matheus foi lançado para trás com violência. Fora golpeado com aquela esfera de energia que tinha uma potência tremenda. Outro licantropo qualquer teria desmaiado no mesmo momento, mas Matheus estava tomado de uma vontade tal que ele obteve forças para erguer-se. De seu peito saía fumaça devido a potência do ataque Gadol. “ Não posso falhar”, esse pensamento não abandonava a mente de Matheus que tirava forças do desejo intenso de ter Alice de novo ao seu lado. O homem encarava-o com um semblante sério e confiante esperando pelo próximo passo de seu adversário. Ele continuava a entoar mantras numa língua estranha. Matheus enxergou naquele homem a personificação de todas as suas angústias, frustrações e desesperos.

- Tomara que você esteja rezando, porque você vai precisar, desgraçado fodido! - Matheus queimava em ira. Não pararia de lutar por nada.

Dessa vez o velho mestre, em resposta às palavras de Matheus, tocou com seu cetro no chão. Imediatamente passaram a circular pelo cetro descargas de energia, como pequenos relâmpagos, que percorriam a sua superfície. Matheus fechou seu semblante, sua expressão tornou-se sombria. Mas mais uma vez ele partiu para cima do velho homem que agora girava seu cetro sobre a cabeça, com suas descargas de energia rasgando o ar e emitindo um som assombroso. Aquela foi a primeira vez que Matheus superou seus limites. A velocidade de seus movimentos foi superior a qualquer magia ou encantamento Gadol. Não se viu nada além de um vulto próximo ao velho mestre e, num
segundo momento, o pesado cetro voando sem direção pelo ar, levando preso a ele a mão do pobre homem, enquanto o restante do seu corpo caía prostrado no chão, decapitado.

Alice estava ajoelhada no chão quando Matheus pegou-a pelo braço com força:

- Vamos embora daqui, Alice! Tenho que tirá-la o quanto antes dessa loucura. - Ele virou-se para partir em direção à saída principal.

De repente ele sentiu o frio do metal cromado tocando o seu rosto. Matheus não acreditou no que estava acontecendo. Alice empunhava a pistola do segurança e a pressionava contra o rosto de Matheus. Seus olhos marejados transmitiam ódio:

- Morra, maldito!

Alice não reconhecera Matheus. O que se seguiu a isso foi o estampido da pistola.

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