quinta-feira, 16 de junho de 2011

LdS - Livro I - Capítulo 22 - Revanche




Ela entra na sala onde Matheus está trabalhando. Seus olhos transparecem a decepção que ela sente após descobrir que ele vem escondendo dela inúmeros chamados de ajuda de seus aliados. Ela fica ali parada, estática. Seu semblante é perturbado, ela sabe o tipo de ofensa e traição que ele cometera. Respira fundo mais uma vez, fecha os olhos por uns segundos tentando organizar seus sentimentos, e só então começa a falar:

- Eu ainda estou custando a acreditar. Não sei como você pode ter escondido uma coisa importante como esta de mim! - ela joga sobre a mesa dele algumas folhas de papel.

Ele, sem entender ainda sobre o que ela estava falando, pega as folhas jogadas sobre a mesa e se espanta ao ver que enfim os intermináveis chamados de Demétrius também a alcançaram.

- Deixa eu me explicar. É que eu pensei que estávamos tão bem longe de toda essa guerra, nossa vida anda se ajeitando. Estamos felizes, Belle...

- Estamos felizes?! O que você acha que está fazendo ao ignorar um chamado de seu mentor, Matheus? Acha que se nós fingirmos que essa guerra não existe vamos conseguir ficar distantes de tudo? Não acredito que você virou as costas para as pessoas que o ajudaram quando você precisou de auxílio... - seus olhos estavam molhados. Ela realmente havia se decepcionado com aquela atitude egoísta dele. - Por que você não me falou nada? Você não confia em mim? É isso!?

- Não, Belle. Eu só não queria mais esse assunto de guerra no nosso meio, atormentando a nossa vida. Achei que precisávamos de paz para nos concentramos na nossa relação. Demétrius tem muitos contatos, as garotas são incríveis também, eles sabem se virar muito bem sem mim. Eu não sou necessário.

- Olha aqui, ouça bem o que eu vou te falar. Preste bastante atenção porque é a única vez que quero ter de conversar isso contigo. Existe uma lei entre os licantropos, uma ordenança, que diz que aquele que ignora um chamado de auxílio de seu criador é culpado de traição e deve ser morto como um cão sem lar e família. Se Demétrius resolveu que precisa de sua ajuda é porque realmente eles estão necessitando de todos os que possam contar. Eu nunca, nunca pensei que você pudesse ser capaz de uma atitude tão covarde como esta, Matheus. Eles arriscaram as vidas buscando ajudá-lo, como pode agora simplesmente virar as costas para eles e continuar levando sua vida como se estivesse tudo bem? Olhe, eu também odeio essa guerra, odeio tudo o que tem relação com o mundo licantropo. Mas não consigo me omitir de coisas tão importantes assim que estão para acontecer. Matheus, a guerra vai estourar nos quatro cantos do globo e dessa vez não será algo oculto, mas todos saberão a verdade sobre os amaldiçoados. É uma ilusão pensar que vamos conseguir ficar a parte de tudo isso. Quando a matança se iniciar, a guerra virá nos buscar onde quer que estivermos. Eu não quero mais ver mortes, mas também não vou me omitir de fazer algo para evitar essa catástrofe. Se você acha que não vale a pena lutar por esse mundo, continue aí sentado fingindo que não é com você, mas eu estou partindo hoje ainda para Dublin me encontrar com os seus amigos. Se resolver ir comigo, estarei saindo para o aeroporto às duas da manhã desta madrugada.

Ela virou-se e, da mesma forma irrequieta como entrou, partiu em direção à saída. Matheus ficou parado, sem saber o que dizer. Ele estava envergonhado, sabia que Izabelle estava correta e que ele traíra seus amigos ao negar-lhes auxílio. Havia fechado-se em seu mundo, queria esquecer tudo aquilo exatamente por ser doloroso de mais ter que recordar tudo o que vivera, a morte de seu irmão, a separação de Alice. Nessa sua tentativa de evitar o sofrimento, preferiu se alienar de tudo, como se só existisse aquela empresa, seus antigos amigos e o amor de Izabelle. Mas em seu íntimo ele sempre soube que aquilo era um erro, que era impossível esquecer aquele pedaço de sua vida. Na verdade, não contara nada a Izabelle sobre os e-mails porque sabia que ela não concordaria em ficarem os dois de fora da guerra. Ele já conhecia relativamente bem sua garota para saber que ela não ficaria de braços cruzadas esperando que outros morressem para que sua vida continuasse caminhado em perfeita tranquilidade. E por saber disso e saber também que, ao ter escondido dela tais informações, a tinha decepcionado tanto, foi que ele não teve coragem de falar nada no momento em que Izabelle saiu chorando de sua sala.

**********
Eram nove da noite, o voo partiria dali a cinco horas. Ele ainda estava na empresa, tinha ficado até mais tarde para terminar de ler alguns relatórios. Tentava de toda forma distrair-se com o trabalho, mas era inútil. Não conseguia esquecer aquela conversa nervosa com sua namorada. Não conseguira na verdade esquecer a expressão de decepção no rosto dela. Aquele afeto foi o que lhe deu forças para buscar de volta a sua identidade que ele pensara ter se perdido na noite de seu primeiro chamado de Selene. Agora ele era o presidente da empresa que um dia fora de seu pai. Tinha voltado ao seu antigo círculo de amizades. Até chegara a ensaiar algumas vezes com sua banda. E estavam pedindo que ele jogasse tudo de volta no lixo para embarcar numa viagem para a Europa para lutar em uma guerra contra inimigos poderosíssimos. Por mais que soubesse que era o correto a se fazer, ele não conseguia tomar essa decisão e correr ao encontro de Izabelle. Tinha medo de perdê-la nessa guerra. Tinha medo de não conseguir voltar com ela daquela loucura. E agora ela estava embarcando sozinha para a guerra, sem ele. Teria algo mais desesperador que isto? Não havia outra escolha, ele teria que se envolver. E se o destino fosse tão cruel ao ponto de tirar-lhe mais este amor, ele teria que mais uma vez buscar forças para superar este outro obstáculo, conviver com mais esta dor e continuar a caminhar em sua trilha que parecia sempre levá-lo pelos caminhos mais espinhosos.

Não era fácil encarar seus medos, mas era preciso. Antes lutar que deixar as coisas andarem por si mesmas. Então decidira-se, iria ouvir seu coração, viajaria com Izabelle. Tinha que ser rápido, precisava correr, já perdera muito tempo com aquela indecisão e ainda precisava desculpar-se com ela. Não poderia deixá-la partir sozinha, ele iria acompanhá-la naquela guerra. Levantou-se da poltrona, pegou a chave de seu carro e partiu ao encontro da garota que mostrou-lhe que a paz de espírito tem que ser conquistada ao custo do seu próprio sangue.

**********

Ele parou seu carro na garagem do apartamento. Fazia só uma semana que Matheus mudara para um apartamento próprio, bem maior, esperando que ela posteriormente o acompanhasse em sua mudança. Saiu rápido do carro e foi logo ter com Izabelle para falar-lhe que decidira-se ir com ela. Estava tão preocupado com o pouco tempo até a saída do voo que não percebeu que, desde de sua saída da empresa, estava sendo observado. Seus seguidores sabiam se manter imperceptíveis. Utilizavam toda sorte de subterfúgios para ocultarem sua presença. Há muito tempo que o procuravam e agora o acompanhavam com cuidado para não desperdiçar a oportunidade de destruí-lo sem lhe dar a menor chance de reação. A jovem caçadora e seu velho mestre estavam decididos a acabar com ele naquela noite ainda.

**********

Já na porta do apartamento de Izabelle, Matheus toca impacientemente a campainha. Ela demora para responder, não esperava ninguém. Estava deitada na cama, ainda pensava em desistir. Levantou-se devagar e foi, sem ânimo, abrir a porta. Surpreendeu-se ao ver pelo olho mágico que era Matheus quem tocava tão nervosamente sua campainha. Izabelle estava com os olhos inchados, havia chorado o dia todo. Tinha medo que Matheus não acordasse para o que ele estava fazendo, tinha medo de viajar sozinha para aquela guerra e nunca mais vê-lo. Respirou fundo e então abriu a porta. Ao vê-lo parado em frente a sua porta, sua feição melhorou. Ela havia entendido aquela visita repentina. Ele olhava para ela com um sorriso no rosto e os com os olhos marejados.

Nenhum do dois falou palavra alguma, somente se abraçaram, um abraço demorado. Naquele silêncio, somente se ouviam os soluços de Izabelle e os beijos que Matheus distribuía por todo o seu rosto. Ela estava aliviada, enfim ele acordara. Não precisaria mais enfrentar tudo aquilo sozinha, ele estava de novo do seu lado.

**********

Demorou-se pouco para que os dois descessem do apartamento para pegarem o carro. Como Matheus decidira-se em cima da hora partir com Izabelle, precisariam ainda passar no apartamento dele para buscarem sua bagagem antes de dirigirem-se para o aeroporto.

Izabelle era Irlandesa de nascença e possuía passaporte de seu país natal. Já Matheus não conseguiria embarcar para Dublin com a mesma facilidade, por isso optou por comprar sua passagem para Lisboa, seus avós maternos eram portugueses e ele possuía dupla cidadania. De Portugal ele partiria então para o Reino Unido. Seu voo sairia duas horas e meia depois do de Izabelle.

Matheus agora estava consciente que fizera a opção correta. Não poderia abandonar seus companheiros, muito menos deixar que Izabelle sumisse daquela forma de sua vida. Por mais que fosse assustador partir naquela empreitada, ele sabia que não conseguiria viver em paz se não o fizesse.

Chegaram em seu apartamento novo e logo colocaram-se a separar sua bagagem. Rapidamente ele arrumou suas malas e tratou de colocá-las no bagageiro do carro. Não levara muita coisa, somente o que julgava ser importante. Estavam indo para uma guerra, não para uma viagem de férias.

Em pouco tempo já estavam dirigindo na MG-110 em direção ao aeroporto de Confins. Ele olhou rapidamente para o relógio, ainda tinham duas horas antes que o voo saísse. Nesse exato momento, uma bola de energia imensa atingiu o carro de Matheus jogando o veículo vários metros fora da estrada. O carro capotou quatro vezes antes de parar de cabeça para baixo num barranco. Os dois conseguiram sair com dificuldade do veículo destruído. Por sorte não sofreram ferimentos graves, somente arranhões. Ele perguntava insistentemente para Izabelle se ela estava bem. E ela tentava acalmá-lo dizendo que não havia acontecido nada de mais grave.

Os dois ainda tentavam entender o que acontecera quando os caçadores que os seguiam resolveram se revelar. Matheus ficou paralisado de surpresa ao ver, em pé na sua frente, as pessoas que ele sabia serem as causadoras de seu acidente. Novamente ele tinha ao seu alcance Benjamim e Alice.

- Veja, minha querida, que conseguimos pegá-los desprevenidos. Dessa vez nós estamos em vantagem. Agora é a hora de nossa revanche. Hoje você terá a sua vingança!

- Pode crer que sim, mestre. Hoje nós acabaremos com esses bastardos...

Matheus colocou-se a frente de Izabelle como que tentando protegê-la. Seus olhos tinham de novo aquele ódio que ele tanto tentara esquecer. Aquela seria a revanche para ele também. E a morte teria novamente sua fome saciada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário