O mosteiro estava deserto. Com exceção dos cinco licantropos que haviam invadido o local, todo o contingente de Gadols que até outrora ocupava aquele lugar não existia mais. Uma base de ação Gadol havia sido destruída e os responsáveis por aquilo, que parecia ser algo impossível de se realizar, não estavam felizes com a sua façanha, antes lamentavam-se. O objetivo principal não tinha sido alcançado. Alice não fora resgatada. Eles haviam falhado.
Elizabeth
e Nicole prestavam socorro a Demétrius enquanto Izabelle tentava
acalmar o inconsolável Matheus. Não havia mais o que fazer naquele
local, era hora de partir. Eles certamente deveriam virar lenda entre
os licantropos, mas não era este o objetivo. O seu desejo era, tão
somente, conseguir a liberdade de suas maldições. E aquele fiasco
era desanimador. Não sabiam agora que passo tomar ou o que fazer.
Matheus
estava inconformado pois sabia que não havia mais como solicitar o
apoio daqueles licantropos que tanto já haviam sacrificado nessa sua
busca por Alice. Agora que todos sabiam que ela estava sendo
controlada pelos Gadols e que seu paradeiro era novamente
desconhecido, ninguém mais se lançaria nessa empreitada. Por mais
que desejasse a ajuda daqueles companheiros que agora ele já
considerava seus amigos, sabia que era pedir demais que eles
continuassem com essa busca infrutífera. Demétrius quase morrera
naquela missão. Nicole e Elizabeth estavam visivelmente
transtornadas com a possibilidade de perderem seu companheiro de
longa data e amante. Aquele não era o momento nem o local para
discutirem o próximo passo a se tomar. Eles deveriam partir, voltar
para casa, essa era a melhor coisa a se fazer.
Diferentemente
da forma como entraram, agora eles saiam pela porta principal, não
havia razão para esconderem-se, todos os seus inimigos estavam
mortos. Matheus usava as vestes de uma de suas vítimas já que seus
trajes haviam se rasgado durante sua transmutação. Lenta e
calmamente eles dirigiram-se até o acampamento improvisado, para
reencontrarem Arthur e procurar um local descente para sepultarem
Ulisses. Era a última homenagem que poderiam oferecer ao seu
companheiro.
Mesmo
com toda a carnificina que houvera dentro daquelas muralhas do
mosteiro, eles ainda conseguiram ficar atônitos quando chegaram no
acampamento e descobriram que Arthur estava morto. Alguém o
assassinara enquanto eles estavam lutando. O corpo do experiente
licantropo estava dilacerado. Haviam esquartejado Arthur como se ele
fosse um animal. Eles não entenderam nada. Como os Gadols
descobriram a posição de Arthur? Eles tinham certeza absoluta que
haviam entrado sem serem percebidos e que só foram detectados no
momento em que Arthur não conseguiu mais manter seu feitiço ativo.
Demétrius ainda manteve contato telepático com Arthur até pouco
antes do início do combate, portanto ele tinha plena convicção que
seu companheiro não tinha sido abatido até o momento que eles
começaram aquela carnificina. Com certeza, toda a segurança do
local imediatamente dirigiu-se ao auditório onde toda a confusão
estava ocorrendo, não havendo contingente disponível para se
realizar, naquela hora, uma busca nas redondezas do lugar. Sendo
assim, quem havia matado Arthur?
A
resposta para esta pergunta não tardou muito para ser respondida.
Enquanto eles ainda juntavam os pedaços do corpo de seu outro aliado
morto, os responsáveis por aquela atrocidade resolveram revelar-se.
Os cinco guerreiros sobreviventes foram cercados por outros cinco
licantropos. Tratava-se do grupo liderado por Vicente. Eles cercavam
os sobreviventes com armas em punho, os haviam rendido. Estava claro
agora que o apoio de Morrison era uma grande farsa. Eles foram
traídos.
Vicente
sorria. Trazia em seu rosto um sorriso sínico. Ele sabia o tamanho
da surpresa que aquele golpe havia causado em seus falsos aliados,
tinha conseguido enganar completamente aqueles dissidentes. Sua
traição fora perfeita! Escondera seus pensamentos até mesmo de
Demétrius. Agora ele curtia o efeito que causara ao grupo de
forasteiros. Foi praticamente irresistível o desejo de zombar da
ingenuidade deles:
-
Vejo que foram mais longe do que imaginávamos. Eu poderia jurar que
vocês seriam massacrados lá dentro, mas acabei me enganando. Afinal
de contas, o poder dos Gadols não era tão grande assim como
pensávamos. Foram vencidos por um grupinho liderado por um velho
imprestável que já perdera o tino para o combate. - falava isso
referindo-se a Arthur. - Isso é uma verdadeira piada! Hahahaha!... -
Vicente gargalhava da queda dos Gadols e do resultado inesperado, mas
muito bem vindo, conseguido pelos forasteiros.
-
E-eu não entendi a causa da graça, Vicente. - Demétrius
esforçava-se para falar, estava muito ferido. - Qual o motivo de sua
traição? Se esperavam que fossemos destruídos, por que se deram o
trabalho de nos trazerem até aqui para isso? Por que não acabaram
conosco lá mesmo no seu vilarejo?
-
Meu caro, Demétrius, não me decepcione com uma pergunta tão idiota
como esta. Mas é de se esperar que não tenham entendido
completamente nossos planos. Existem algumas peças do quebra-cabeças
que vocês ainda não conhecem. Deixem então que eu revele a vocês
toda a verdade, antes de destruí-los, para que vocês entendam como
foram usados por nós para nosso proveito e morram com esse
sentimento de indignação.
Vicente
estava saboreando intensamente cada minuto. Seus olhos cintilavam de
contentamento:
-
Este é um segredo compartilhado entre os principais de nosso clã.
Morrison nos revelou, somente a nós cinco, o que se passa entre os
altos círculos hierárquicos de nossa organização. - fazendo uma
breve pausa, ele começou a revelar toda a podridão que agora
assolava a alta cúpula Lican. - Os novos líderes dos Licans, vendo
que nosso clã estava perdendo poder em detrimento do rápido
crescimento dos Nightkillers, achou por bem aliar-se a um outro grupo
poderosíssimo para conseguir acabar de uma vez por todas com essa
corja deprimente. Estamos prestes a presenciar algo que jamais
aconteceu antes na história: Licans e Gadols, juntos, planejam
varrer a escória Nightkillers da face da Terra! Esta é a chave para
resolver todo o quebra-cabeças.
-
Está nos dizendo que nosso antigo clã resolveu aliar-se aos nossos
perseguidores para exterminar os Nightkillers e enfim reinarem
absolutos sobre este mundo? Mas isto é loucura! Como é possível
uma aliança tão absurda como está?! - Nicole estava indignada. Ela
estava muito surpresa e revoltada com tudo aquilo. - Eles não veem
que esta aliança é uma farsa? Que mais cedo ou mais tarde serão
traídos pelos Gadols e será a vez deles perecerem? Este é um
tratado de morte! Um dos dois lados irá sucumbir e deixará de
existir após o fim deste acordo absurdo. Eles assinaram a sua
própria destruição.
-
Claro que nosso líderes tem a consciência que esta aliança, além
de improvável, é uma atitude de certo modo insensata. Mas situações
drásticas pedem atitudes drásticas. Os Nightkillers já dominam
toda a parte oriental do planeta e avançam com uma força
impressionante sobre a Europa. Se perdermos o controle daquela parte
do globo estaremos fatalmente condenados a destruição. A
alternativa encontrada, depois da deserção em massa promovida por
covardes como vocês, foi a aliança com os Gadols. Não é de
interesse de nenhum do dois grupos que os Nightkillers saiam
vencedores nessa guerra. Os dois grupos obrigaram-se a trabalhar em
conjunto para exterminarem esta ameaça iminente. Mas claro que nós
entendemos que esta aliança é temporária e não esperaremos que os
Gadols sejam os primeiros a quebrar este acordo. Nós estaremos
prontos para iniciar o extermínio da ordem Gadol tão logo a ameaça
Nightkiller esteja sob controle.
-
Essa arrogância será a sua destruição. - Elizabeth não
conteve-se ante toda aquela presunção Lican. - É sentir-se muito
superior pensar que conseguirão destruir a todos tão facilmente.
-
E por que deveríamos acreditar no contrário? Nosso plano é
perfeito. E somente a alta cúpula conhece os detalhes. Peões
estúpidos como vocês são facilmente manipuláveis. Foi muito fácil
enganá-los. Nós já sabíamos da existência desta base Gadol.
Aliás, eles operavam com nosso consentimento nesta área, apesar
disto não nos agradar. Morrison foi praticamente obrigado por seus
superiores a permitir que eles construíssem sua base de operações
nas proximidades de nosso vilarejo. Já fazia um bom tempo que nós
desejávamos expulsá-los deste local, mas nunca tivemos a
autorização para isso. O aparecimento de vocês foi muito
conveniente. Foi perfeito, na verdade. Vocês queriam invadir esta
fortaleza e nós simplesmente permitimos que isso fosse realizado. Na
verdade nossa expectativa foi ultrapassada quando vimos a sua
vitória. Acho que tínhamos os Gadols em uma estima mais alta do que
eles mereciam. Se soubéssemos que era tão fácil assim destruí-los,
nós mesmos já teríamos dado um jeito neles, logicamente de uma
forma oculta, sem alarde. Por esta razão é que eu acredito que eles
não são motivo para preocupação.
-
O que mais vocês sabem sobre esse grupo de Gadols? Existem outras
bases nas proximidades? - Matheus não resistiu a oportunidade de
perguntar sobre outros locais como aquele, sempre na esperança de
encontrar Alice. - Um deles conseguiu fugir. Ele usou um feitiço e
desapareceu. Para onde ele deve ter ido?
-
Mesmo na iminência de sua morte você não consegue esquecer aquela
sua namoradinha Gadol, garoto? Saiba que ela agora é uma deles e não
exitará um estante que for em matá-lo. Como você gosta de se
torturar! Infelizmente não temos acesso a tudo quanto os Gadols
fazem, a localização de outras bases ou quais seus atuais planos.
Apenas temos um acordo de não agressão e um compromisso de guerra
contra os Nightkillers. A forma como eles trabalham é um segredo
para nós. Mas soube, por Morrison, que existem outras bases nesse
país, e que provavelmente seu quartel general fica em São Paulo, em
plena capital. Se ele fugiu de um massacre, é provável que tenha
ido para seu QG informar o ocorrido aos seus superiores. Pena que
você não terá a oportunidade de tirar essa informação à limpo.
- Vicente transparecia confiança.
-
Não seja tão arrogante, Vicente! Assim como você está
subestimando o clã Nightkiller e os Gadols, também está nos
subestimando e eu garanto que você não conhece a nossa força. -
falou Elizabeth já preparada para entrar em ação. - Vocês
conseguem proteger Demétrius? - perguntou ela para Nicole e
Izabelle. As duas acenaram positivamente com a cabeça entendendo o
seu gesto. - Mostre a eles o demônio que devastou aquele mosteiro,
Matheus. - Elizabeth sorriu confiantemente para ele.
O
que se sucedeu logo depois foi um ataque rápido e devastador.
Matheus, usando a velocidade que desenvolvera ainda instantes atrás
dentro do mosteiro, foi para cima de Vicente. Ele riscou o ar com sua
espada fazendo com que Vicente e seus companheiros recuassem
assustados com seus movimentos rápidos. Elizabeth não estava mais
dentro de domínios Gadols e o ódio misturado com a repulsa que ela
sentia de toda aquela sujeirada deu-lhe o desejo de demonstrar aos
seus adversários que seu antigo clã não era formado apenas de lixo
licantropo. Ela fez o que normalmente só se permitia em momentos
críticos, por achar arriscado não retomar seu controle. Elizabeth
entrou em modo de simbiose com Helendril e transmutou-se na tão
assustadora forma de lobo-demônio. Os guerreiros Licans, apesar de
bons combatentes, não tiveram como fazer frente à Elizabeth em sua
forma completa de simbiose. Ela apresentava-se como um enorme animal,
com pelos castanho-avermelhados e garras enormes. Sua força e
velocidade multiplicavam-se por cinco nessas condições – o que
era mais que o suficiente para que ela massacrasse sem piedade os
quatro Licans que postavam-se à sua frente. E foi isso que ela fez.
Com golpes vigorosos de suas garras ela praticamente partiu ao meio
suas vítimas. Matheus não teve dificuldades em deixar Vicente
prostrado aos seus pés. O líder dos traidores estava ajoelhado com
seus pés cortados implorando misericórdia quando Helendril
chegou-se para terminar com aquilo. Vicente levantou seu rosto e viu
o enorme lobo-demônio baforar uma golfada quente de ar em seu rosto.
Os olhos de Vicente exprimiam terror. Helendril sorriu:
-
Esse lixo Lican não aprende! Eu tenho nojo de você, verme.
Com
uma dentada ele arrancou a cabeça de Vicente. Os traidores tiveram
seu castigo. Lentamente Helendril foi deixando Elizabeth reassumir o
controle enquanto o lobo-demônio ia diminuindo de tamanho até
transformar-se em uma loba de pelos acastanhados. Em pouco tempo
Elizabeth estava novamente em sua forma humana, com seus longos
cabelos cobrindo seu corpo nu. Ela logo tratou de recompor-se e eles
cuidaram de enterrar seus mortos. Sua estadia naquele local havia
terminado.
**********
No
caminho de volta, Demétrius dormia no banco de trás de um dos
carros. Nicole dirigia enquanto Elizabeth observava o estado de saúde
de seu companheiro. Matheus viajava no outro veículo, logo atrás,
com Izabelle como companhia e comentou com ela sobre o desejo de
acerto de contas com Morrison:
-
Deveríamos voltar àquele vilarejo para fazê-lo pagar por sua
traição. Não vou me perdoar se ele continuar vivo.
-
Calma, Matheus. Ainda não é a hora para isto. Primeiramente
precisamos nos reorganizar. Eu também quero ajustar minhas contas
com ele, mas, como estamos, não conseguiremos concretizar nossos
objetivos.
-
Você é sensata, Izabelle. Mas eu confesso que agora não sei mas o
que fazer. Perdi totalmente a direção, não sei que rumo eu devo
tomar. Meu coração quer continuar minha procura por Alice, mas não
tenho condições de mais uma vez solicitar o apoio de meus
companheiros numa busca tão inserta e perigosa como esta. Eles já
fizeram muito por mim.
-
Bem, este não é o momento para se discutir isto com eles. Acho
melhor você esperar que Demétrius se restabeleça para que os três
possam ponderar sobre ajudá-lo ou não. Eu imagino que, neste
momento, a primeira resposta deles seja não, mas também acredito
que com o tempo isto pode mudar.
-
Eu gostaria muito de acreditar nisto, Izabelle. Mas eu não acredito.
Estou pesando numa coisa. Não sei ainda como, mas preciso achar
Alice. Estou pensando em partir sozinho em busca dela.
-
Hum... difícil. Não acho que você teria sucesso sozinho.
Ela
olhou para ele. Estava séria:
-
Eu não sei o porquê de estar agindo assim, acho que fiquei
louca,... mas se você não se incomodar eu parto com você nesta sua
busca. Quem sabe no meio dessa aventura você descubra que o que você
precisa está próximo de você. - nesse momento ela sorriu.
**********
Três
semana após a chacina, em algum lugar da cidade de São Paulo, uma
jovem lindíssima se recompõe após um exaustivo treinamento com
armamento:
-
Você está evoluindo muito rapidamente. Estou orgulhoso de você,
minha filha. - O homem é um experiente guerreiro-sacerdote. Seu nome
é Benjamim.
-
Eu quero ser a melhor, mestre! Quero deixá-lo feliz assim como o
senhor me faz feliz. - Ela sorri para ele sem saber que seu mestre é
o culpado pelo vazio que ela não consegue dissipar de seu coração.
-
Pois o que acha de treinarmos mais um pouco? Eu sei que você ainda
sofre pelo que aconteceu com nossos irmãos, mas precisamos estar
preparados para quando a guerra explodir nos quatro cantos da Terra.
Nosso tempo está se esvaindo e você será de muita serventia.
-
Não se preocupe comigo, mestre. Eu não preciso de descanso, tenho
que aprender a dominar este selo o quanto antes. - ela olhava para a
tatuagem em seu punho. - Quero estar muito melhor quando reencontrar
aquele monstro para matá-lo com minhas próprias mãos. - seu
semblante era grave, ela referia-se a Matheus.
Só
que, contrário ao que ela pensava, não era o ódio por ele que não
deixava aquele rosto sair de seus pensamentos, mas sim o amor que ela
ainda sentia e que, lutando para permanecer vivo em seu interior,
tentava desesperadamente lembrá-la de seu passado.

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