quinta-feira, 16 de junho de 2011

LdS - Livro I - Capítulo 19 – Traição




O mosteiro estava deserto. Com exceção dos cinco licantropos que haviam invadido o local, todo o contingente de Gadols que até outrora ocupava aquele lugar não existia mais. Uma base de ação Gadol havia sido destruída e os responsáveis por aquilo, que parecia ser algo impossível de se realizar, não estavam felizes com a sua façanha, antes lamentavam-se. O objetivo principal não tinha sido alcançado. Alice não fora resgatada. Eles haviam falhado.

Elizabeth e Nicole prestavam socorro a Demétrius enquanto Izabelle tentava acalmar o inconsolável Matheus. Não havia mais o que fazer naquele local, era hora de partir. Eles certamente deveriam virar lenda entre os licantropos, mas não era este o objetivo. O seu desejo era, tão somente, conseguir a liberdade de suas maldições. E aquele fiasco era desanimador. Não sabiam agora que passo tomar ou o que fazer.

Matheus estava inconformado pois sabia que não havia mais como solicitar o apoio daqueles licantropos que tanto já haviam sacrificado nessa sua busca por Alice. Agora que todos sabiam que ela estava sendo controlada pelos Gadols e que seu paradeiro era novamente desconhecido, ninguém mais se lançaria nessa empreitada. Por mais que desejasse a ajuda daqueles companheiros que agora ele já considerava seus amigos, sabia que era pedir demais que eles continuassem com essa busca infrutífera. Demétrius quase morrera naquela missão. Nicole e Elizabeth estavam visivelmente transtornadas com a possibilidade de perderem seu companheiro de longa data e amante. Aquele não era o momento nem o local para discutirem o próximo passo a se tomar. Eles deveriam partir, voltar para casa, essa era a melhor coisa a se fazer.

Diferentemente da forma como entraram, agora eles saiam pela porta principal, não havia razão para esconderem-se, todos os seus inimigos estavam mortos. Matheus usava as vestes de uma de suas vítimas já que seus trajes haviam se rasgado durante sua transmutação. Lenta e calmamente eles dirigiram-se até o acampamento improvisado, para reencontrarem Arthur e procurar um local descente para sepultarem Ulisses. Era a última homenagem que poderiam oferecer ao seu companheiro.

Mesmo com toda a carnificina que houvera dentro daquelas muralhas do mosteiro, eles ainda conseguiram ficar atônitos quando chegaram no acampamento e descobriram que Arthur estava morto. Alguém o assassinara enquanto eles estavam lutando. O corpo do experiente licantropo estava dilacerado. Haviam esquartejado Arthur como se ele fosse um animal. Eles não entenderam nada. Como os Gadols descobriram a posição de Arthur? Eles tinham certeza absoluta que haviam entrado sem serem percebidos e que só foram detectados no momento em que Arthur não conseguiu mais manter seu feitiço ativo. Demétrius ainda manteve contato telepático com Arthur até pouco antes do início do combate, portanto ele tinha plena convicção que seu companheiro não tinha sido abatido até o momento que eles começaram aquela carnificina. Com certeza, toda a segurança do local imediatamente dirigiu-se ao auditório onde toda a confusão estava ocorrendo, não havendo contingente disponível para se realizar, naquela hora, uma busca nas redondezas do lugar. Sendo assim, quem havia matado Arthur?

A resposta para esta pergunta não tardou muito para ser respondida. Enquanto eles ainda juntavam os pedaços do corpo de seu outro aliado morto, os responsáveis por aquela atrocidade resolveram revelar-se. Os cinco guerreiros sobreviventes foram cercados por outros cinco licantropos. Tratava-se do grupo liderado por Vicente. Eles cercavam os sobreviventes com armas em punho, os haviam rendido. Estava claro agora que o apoio de Morrison era uma grande farsa. Eles foram traídos.

Vicente sorria. Trazia em seu rosto um sorriso sínico. Ele sabia o tamanho da surpresa que aquele golpe havia causado em seus falsos aliados, tinha conseguido enganar completamente aqueles dissidentes. Sua traição fora perfeita! Escondera seus pensamentos até mesmo de Demétrius. Agora ele curtia o efeito que causara ao grupo de forasteiros. Foi praticamente irresistível o desejo de zombar da ingenuidade deles:

- Vejo que foram mais longe do que imaginávamos. Eu poderia jurar que vocês seriam massacrados lá dentro, mas acabei me enganando. Afinal de contas, o poder dos Gadols não era tão grande assim como pensávamos. Foram vencidos por um grupinho liderado por um velho imprestável que já perdera o tino para o combate. - falava isso referindo-se a Arthur. - Isso é uma verdadeira piada! Hahahaha!... - Vicente gargalhava da queda dos Gadols e do resultado inesperado, mas muito bem vindo, conseguido pelos forasteiros.

- E-eu não entendi a causa da graça, Vicente. - Demétrius esforçava-se para falar, estava muito ferido. - Qual o motivo de sua traição? Se esperavam que fossemos destruídos, por que se deram o trabalho de nos trazerem até aqui para isso? Por que não acabaram conosco lá mesmo no seu vilarejo?

- Meu caro, Demétrius, não me decepcione com uma pergunta tão idiota como esta. Mas é de se esperar que não tenham entendido completamente nossos planos. Existem algumas peças do quebra-cabeças que vocês ainda não conhecem. Deixem então que eu revele a vocês toda a verdade, antes de destruí-los, para que vocês entendam como foram usados por nós para nosso proveito e morram com esse sentimento de indignação.

Vicente estava saboreando intensamente cada minuto. Seus olhos cintilavam de contentamento:

- Este é um segredo compartilhado entre os principais de nosso clã. Morrison nos revelou, somente a nós cinco, o que se passa entre os altos círculos hierárquicos de nossa organização. - fazendo uma breve pausa, ele começou a revelar toda a podridão que agora assolava a alta cúpula Lican. - Os novos líderes dos Licans, vendo que nosso clã estava perdendo poder em detrimento do rápido crescimento dos Nightkillers, achou por bem aliar-se a um outro grupo poderosíssimo para conseguir acabar de uma vez por todas com essa corja deprimente. Estamos prestes a presenciar algo que jamais aconteceu antes na história: Licans e Gadols, juntos, planejam varrer a escória Nightkillers da face da Terra! Esta é a chave para resolver todo o quebra-cabeças.

- Está nos dizendo que nosso antigo clã resolveu aliar-se aos nossos perseguidores para exterminar os Nightkillers e enfim reinarem absolutos sobre este mundo? Mas isto é loucura! Como é possível uma aliança tão absurda como está?! - Nicole estava indignada. Ela estava muito surpresa e revoltada com tudo aquilo. - Eles não veem que esta aliança é uma farsa? Que mais cedo ou mais tarde serão traídos pelos Gadols e será a vez deles perecerem? Este é um tratado de morte! Um dos dois lados irá sucumbir e deixará de existir após o fim deste acordo absurdo. Eles assinaram a sua própria destruição.

- Claro que nosso líderes tem a consciência que esta aliança, além de improvável, é uma atitude de certo modo insensata. Mas situações drásticas pedem atitudes drásticas. Os Nightkillers já dominam toda a parte oriental do planeta e avançam com uma força impressionante sobre a Europa. Se perdermos o controle daquela parte do globo estaremos fatalmente condenados a destruição. A alternativa encontrada, depois da deserção em massa promovida por covardes como vocês, foi a aliança com os Gadols. Não é de interesse de nenhum do dois grupos que os Nightkillers saiam vencedores nessa guerra. Os dois grupos obrigaram-se a trabalhar em conjunto para exterminarem esta ameaça iminente. Mas claro que nós entendemos que esta aliança é temporária e não esperaremos que os Gadols sejam os primeiros a quebrar este acordo. Nós estaremos prontos para iniciar o extermínio da ordem Gadol tão logo a ameaça Nightkiller esteja sob controle.

- Essa arrogância será a sua destruição. - Elizabeth não conteve-se ante toda aquela presunção Lican. - É sentir-se muito superior pensar que conseguirão destruir a todos tão facilmente.

- E por que deveríamos acreditar no contrário? Nosso plano é perfeito. E somente a alta cúpula conhece os detalhes. Peões estúpidos como vocês são facilmente manipuláveis. Foi muito fácil enganá-los. Nós já sabíamos da existência desta base Gadol. Aliás, eles operavam com nosso consentimento nesta área, apesar disto não nos agradar. Morrison foi praticamente obrigado por seus superiores a permitir que eles construíssem sua base de operações nas proximidades de nosso vilarejo. Já fazia um bom tempo que nós desejávamos expulsá-los deste local, mas nunca tivemos a autorização para isso. O aparecimento de vocês foi muito conveniente. Foi perfeito, na verdade. Vocês queriam invadir esta fortaleza e nós simplesmente permitimos que isso fosse realizado. Na verdade nossa expectativa foi ultrapassada quando vimos a sua vitória. Acho que tínhamos os Gadols em uma estima mais alta do que eles mereciam. Se soubéssemos que era tão fácil assim destruí-los, nós mesmos já teríamos dado um jeito neles, logicamente de uma forma oculta, sem alarde. Por esta razão é que eu acredito que eles não são motivo para preocupação.

- O que mais vocês sabem sobre esse grupo de Gadols? Existem outras bases nas proximidades? - Matheus não resistiu a oportunidade de perguntar sobre outros locais como aquele, sempre na esperança de encontrar Alice. - Um deles conseguiu fugir. Ele usou um feitiço e desapareceu. Para onde ele deve ter ido?

- Mesmo na iminência de sua morte você não consegue esquecer aquela sua namoradinha Gadol, garoto? Saiba que ela agora é uma deles e não exitará um estante que for em matá-lo. Como você gosta de se torturar! Infelizmente não temos acesso a tudo quanto os Gadols fazem, a localização de outras bases ou quais seus atuais planos. Apenas temos um acordo de não agressão e um compromisso de guerra contra os Nightkillers. A forma como eles trabalham é um segredo para nós. Mas soube, por Morrison, que existem outras bases nesse país, e que provavelmente seu quartel general fica em São Paulo, em plena capital. Se ele fugiu de um massacre, é provável que tenha ido para seu QG informar o ocorrido aos seus superiores. Pena que você não terá a oportunidade de tirar essa informação à limpo. - Vicente transparecia confiança.

- Não seja tão arrogante, Vicente! Assim como você está subestimando o clã Nightkiller e os Gadols, também está nos subestimando e eu garanto que você não conhece a nossa força. - falou Elizabeth já preparada para entrar em ação. - Vocês conseguem proteger Demétrius? - perguntou ela para Nicole e Izabelle. As duas acenaram positivamente com a cabeça entendendo o seu gesto. - Mostre a eles o demônio que devastou aquele mosteiro, Matheus. - Elizabeth sorriu confiantemente para ele.

O que se sucedeu logo depois foi um ataque rápido e devastador. Matheus, usando a velocidade que desenvolvera ainda instantes atrás dentro do mosteiro, foi para cima de Vicente. Ele riscou o ar com sua espada fazendo com que Vicente e seus companheiros recuassem assustados com seus movimentos rápidos. Elizabeth não estava mais dentro de domínios Gadols e o ódio misturado com a repulsa que ela sentia de toda aquela sujeirada deu-lhe o desejo de demonstrar aos seus adversários que seu antigo clã não era formado apenas de lixo licantropo. Ela fez o que normalmente só se permitia em momentos críticos, por achar arriscado não retomar seu controle. Elizabeth entrou em modo de simbiose com Helendril e transmutou-se na tão assustadora forma de lobo-demônio. Os guerreiros Licans, apesar de bons combatentes, não tiveram como fazer frente à Elizabeth em sua forma completa de simbiose. Ela apresentava-se como um enorme animal, com pelos castanho-avermelhados e garras enormes. Sua força e velocidade multiplicavam-se por cinco nessas condições – o que era mais que o suficiente para que ela massacrasse sem piedade os quatro Licans que postavam-se à sua frente. E foi isso que ela fez. Com golpes vigorosos de suas garras ela praticamente partiu ao meio suas vítimas. Matheus não teve dificuldades em deixar Vicente prostrado aos seus pés. O líder dos traidores estava ajoelhado com seus pés cortados implorando misericórdia quando Helendril chegou-se para terminar com aquilo. Vicente levantou seu rosto e viu o enorme lobo-demônio baforar uma golfada quente de ar em seu rosto. Os olhos de Vicente exprimiam terror. Helendril sorriu:

- Esse lixo Lican não aprende! Eu tenho nojo de você, verme.

Com uma dentada ele arrancou a cabeça de Vicente. Os traidores tiveram seu castigo. Lentamente Helendril foi deixando Elizabeth reassumir o controle enquanto o lobo-demônio ia diminuindo de tamanho até transformar-se em uma loba de pelos acastanhados. Em pouco tempo Elizabeth estava novamente em sua forma humana, com seus longos cabelos cobrindo seu corpo nu. Ela logo tratou de recompor-se e eles cuidaram de enterrar seus mortos. Sua estadia naquele local havia terminado.

**********

No caminho de volta, Demétrius dormia no banco de trás de um dos carros. Nicole dirigia enquanto Elizabeth observava o estado de saúde de seu companheiro. Matheus viajava no outro veículo, logo atrás, com Izabelle como companhia e comentou com ela sobre o desejo de acerto de contas com Morrison:

- Deveríamos voltar àquele vilarejo para fazê-lo pagar por sua traição. Não vou me perdoar se ele continuar vivo.

- Calma, Matheus. Ainda não é a hora para isto. Primeiramente precisamos nos reorganizar. Eu também quero ajustar minhas contas com ele, mas, como estamos, não conseguiremos concretizar nossos objetivos.

- Você é sensata, Izabelle. Mas eu confesso que agora não sei mas o que fazer. Perdi totalmente a direção, não sei que rumo eu devo tomar. Meu coração quer continuar minha procura por Alice, mas não tenho condições de mais uma vez solicitar o apoio de meus companheiros numa busca tão inserta e perigosa como esta. Eles já fizeram muito por mim.

- Bem, este não é o momento para se discutir isto com eles. Acho melhor você esperar que Demétrius se restabeleça para que os três possam ponderar sobre ajudá-lo ou não. Eu imagino que, neste momento, a primeira resposta deles seja não, mas também acredito que com o tempo isto pode mudar.

- Eu gostaria muito de acreditar nisto, Izabelle. Mas eu não acredito. Estou pesando numa coisa. Não sei ainda como, mas preciso achar Alice. Estou pensando em partir sozinho em busca dela.

- Hum... difícil. Não acho que você teria sucesso sozinho.

Ela olhou para ele. Estava séria:

- Eu não sei o porquê de estar agindo assim, acho que fiquei louca,... mas se você não se incomodar eu parto com você nesta sua busca. Quem sabe no meio dessa aventura você descubra que o que você precisa está próximo de você. - nesse momento ela sorriu.

**********

Três semana após a chacina, em algum lugar da cidade de São Paulo, uma jovem lindíssima se recompõe após um exaustivo treinamento com armamento:

- Você está evoluindo muito rapidamente. Estou orgulhoso de você, minha filha. - O homem é um experiente guerreiro-sacerdote. Seu nome é Benjamim.

- Eu quero ser a melhor, mestre! Quero deixá-lo feliz assim como o senhor me faz feliz. - Ela sorri para ele sem saber que seu mestre é o culpado pelo vazio que ela não consegue dissipar de seu coração.

- Pois o que acha de treinarmos mais um pouco? Eu sei que você ainda sofre pelo que aconteceu com nossos irmãos, mas precisamos estar preparados para quando a guerra explodir nos quatro cantos da Terra. Nosso tempo está se esvaindo e você será de muita serventia.

- Não se preocupe comigo, mestre. Eu não preciso de descanso, tenho que aprender a dominar este selo o quanto antes. - ela olhava para a tatuagem em seu punho. - Quero estar muito melhor quando reencontrar aquele monstro para matá-lo com minhas próprias mãos. - seu semblante era grave, ela referia-se a Matheus.

Só que, contrário ao que ela pensava, não era o ódio por ele que não deixava aquele rosto sair de seus pensamentos, mas sim o amor que ela ainda sentia e que, lutando para permanecer vivo em seu interior, tentava desesperadamente lembrá-la de seu passado.

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