quinta-feira, 16 de junho de 2011

LdS - Livro I - Capítulo 21 – Recomeço




Os dias passaram-se de forma rápida. Matheus aos poucos foi aprendendo a amar Izabelle. Depois de tudo o que ele passara, o apoio vindo dela foi de suma importância para que ele reorganizasse sua vida. Agora eram apenas os dois tentando viver uma vida em conjunto longe de toda aquela guerra, de toda aquela loucura. E Matheus sentia-se realmente bem ao lado de sua nova companhia. Izabelle era uma mulher incrível e amava verdadeiramente Matheus. Seria uma vida feliz não fosse uma lembrança que teimava em atormentar a mente e o coração dele. Por mais que ele tentasse apagar o passado de suas lembranças, Alice continuava entranhada em seu íntimo, como uma tatuagem, não o deixando em paz um só momento. Era um fantasma que ele simplesmente não conseguia exorcizar. Izabelle percebia as súbitas mudanças de humor dele e tentava não se abalar com o poder que Alice ainda tinha sobre o coração de Matheus.

Depois daquela despedida no aeroporto de seus companheiros licantropos que retornavam para a Europa em busca de respostas e de alianças a fim de enfrentar as dificuldades que já se anunciavam grandes, os dois jovens decidiram por começarem um relacionamento. Matheus mudou-se de vez para a casa de Izabelle e ambos iniciaram um romance. No prazo de apenas dois meses os dois já sentiam-se ligados. Dentro do coração de Matheus já havia um lugar separado somente para ela. Foi um período agradável para ambos, sendo que até a guerra e a maldição pareciam apenas como uma lembrança antiga de uma vida passada. Na verdade, ambos desejavam esquecer todos aqueles problemas. Preferiam fingir que eram pessoas normais vivendo vidas normais, totalmente ignorantes do que se passava no submundo licantropo. Quem poderia condená-los por desejarem esquecer toda essa confusão que só lhes causava sofrimento?

Seus pesadelos com Shaladiel haviam sessado, agora ele que usava pendurado em seu pescoço o amuleto Gadol que pertencera a Alice. Em princípio Izabelle não gostou de ver que ele usava a joia, mas ela acabou se conformando por entender que aquele amuleto deixava o maior inimigo de seu amado bem distante.

Esse momento de tranquilidade foi importante para que Matheus achasse seu ponto de equilíbrio. Muitas coisas haviam acontecido em pouquíssimo tempo, sua vida tinha sido colocada de cabeça para baixo. Aquela trégua e a segurança que Izabelle lhe proporcionara foram essenciais para que ele tomasse uma decisão que mudaria completamente a sua vida. Ao fim do segundo mês que Matheus e Izabelle estavam juntos, ele resolveu que regressaria ao seu antigo mundo e que retomaria sua vida de volta. Apesar de ainda se culpar pela morte de Henrique, Matheus sabia que era o desejo tanto de seu irmão quanto de seu pai que ele assumisse os negócios da família. Ele pensou muito, ponderou bastante para tomar esta decisão e o apoio de Izabelle foi essencial para que se decidisse por voltar ao seu lar e enfrentar os problemas que lhe esperavam.

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Curiosamente as coisas se desenrolaram de uma forma mais simples do que Matheus imaginara. Contrariamente ao que ele pensava, a polícia não fizera ligação alguma entre ele e o assassinato de Henrique. Não haviam testemunhas que ligassem Matheus ao local do crime, já que todos os seus amigos pensavam que Matheus apenas tomara uma carona com o irmão até seu apartamento, sendo que, posteriormente, Henrique teria retornado sozinho para casa. Por questão de pura sorte - ou talvez fosse o destino - o sistema de monitoramento eletrônico da mansão estava danificado na noite do chamado de Selene, não registrando a entrada nem a saída de Matheus do local do crime.

Também Alberto não se manifestara sobre o fato de ter conseguido fazer contato com seu companheiro por telefone informando da morte de Henrique e da necessidade de sua presença para ajudar nas investigações do crime. Preferiu deixar a polícia pensar que Matheus havia desaparecido ou que estava, por alguma razão, incomunicável.

Matheus só tivera o trabalho de justificar junto a polícia o seu desaparecimento e a sua demora em apresentar-se, o que era de se estranhar, já que a morte de seu irmão tivera certa repercussão na mídia. Nessa questão Izabelle o ajudou afirmando que ambos haviam viajando de carro para o Uruguai para visitar sua família e que passaram um tempo realizando uma excursão de aventura pela região. Os dois apresentaram documentação e recibos falsificados, bem como contatos no Uruguai que confirmaram a história. Toda a farsa fora combinada por Izabelle com alguns amigos licantropos radicados no Uruguai que deviam-lhe favores. Afirmaram também que haviam combinado de não levarem equipamentos eletrônicos, principalmente celulares, para que isso não os atrapalhasse em sua viagem de harmonização com a natureza. Ela afirmara que, como na época Matheus estava se recuperando de uma acidente, aquela viagem havia sido feita para ajudar-lhe na recuperação do corpo e da alma. Tentava soar como uma jovem desmiolada e espiritualizada, meio “desplugada” da civilização.

Apesar de certa desconfiança inicial, a polícia acabou por aceitar o álibi de Matheus, afinal de contas a história batia. Acabaram deixando-o livre para prosseguir com a retomada de sua vida. Ele agora poderia concentrar-se em tentar assumir o controle dos negócios da família.

O mais difícil para Matheus foi justificar-se junto aos seus amigos Diogo e Alberto sobre o seu desaparecimento. Eles tinham algumas informações que a polícia não teve acesso, sabiam que ele estivera com Henrique horas antes do ocorrido. Sabiam também que Matheus fora informado, por eles mesmos até, dos crimes ainda na época das investigações. E, principalmente, nunca haviam visto antes na vida o rosto de Izabelle. Portanto, sabiam que era mentira a história dele ter viajado com aquela garota para outro país, ainda mais estando ele ainda machucado se recuperando de um ataque de animal selvagem.

Como Matheus era muito reservado com sua vida, eles acharam por bem, naquele momento, não o interrogar sobre o seu sumiço. Esperavam que ele resolvesse se abrir sobre esse hiato que ocorrera justamente após a morte do irmão. Eles sabiam que os dois irmãos, apesar de todas as brigas, se gostavam e que provavelmente Matheus sofrera muito com a morte do único parente que ele ainda tinha. Na verdade não acreditavam que Matheus tivesse algum envolvimento com o crime, mas acharam estranho de mais o fato dele ter demorado tanto tempo para aparecer e retomar sua vida. De qualquer forma queriam o amigo próximo deles novamente e por isso engoliram toda aquela farsa.

Outro problema apresentara-se logo no seu retorno. O desaparecimento de Alice agora era um fato consumado, estando as autoridades investigando os fatos. Viviane não conseguira mais esconder a verdade dos pais de sua amiga e acabara por contar que a garota estava desaparecida. Matheus fora mais uma vez procurado para dar informações sobre o paradeiro da jovem, mas o álibe forjado por Izabelle servira também para afastar os holofotes dele. Alice sumira sem deixar rastros, mas ele não poderia ser culpado. Ele ainda chegou a ser acusado pela família da moça pelo desaparecimento, mas não houve o seu indiciamento por falta de provas.

Viviane ajudou-o como pôde omitindo tudo o que sabia, deixando todo o assunto de licantropos fora do conhecimento da polícia. Sabia que não lhe dariam crédito. Ela ainda ajudara Matheus ao confirmar que, pelo que sabia, os dois jovens não encontraram-se mais desde o acidente dele com o lobo. Afirmara ainda que a história contada à família da moça s obre Alice ter viajado com Matheus para passar um tempo longe, em alguma cidadezinha do sul de Minas, fora informada pela amiga enquanto as duas conversavam pelo telefone. Dessa forma ela não tinha como assegurar que os dois estavam realmente juntos. Assim Matheus conseguiu livrar-se da polícia.

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Apesar de ser o herdeiro de direito da empresa de sua família, o processo para assumir o controle dos negócios mostrou-se muito complicado. Os demais sócios, sem exceção, desaprovaram a presença de Matheus na frente da administração argumentando que ele não possuía experiência nem tampouco competência para tal trabalho. Apesar de Matheus deter 51% das ações, sua posição ficou altamente fragilizada. Ele até esperava por aquela resistência dos demais sócios em aceitá-lo como presidente, já que nunca se interessara pelos negócios da família e sua fama era a pior possível entre os conhecidos de seus pais. Mas ele não se abateu e mesmo contra todas as pressões assumiu o cargo de diretor geral. Aquilo foi algo que nem ele mesmo acreditava ser possível algum dia acontecer.

Com penas alguns meses que Matheus resolvera recomeçar sua vida ao lado de Izabelle, ele já havia reconquistado tudo o que havia perdido por anos de inconsequente rebeldia adolescente. Os fatos posteriores ao ataque de Demétrius que lhe transferiu a maldição de Licaon serviram para que ele enfim amadurecesse e aprendesse a aceitar a vida como ela se apresentava para ele. Era incrível como as coisas pareciam estar dando certo. Ele tinha razões de sobra para estar feliz. Ele verdadeiramente deveria estar feliz.

Só que ele não se sentia feliz. E aquilo o angustiava muito. Matheus se culpava por não conseguir se desligar de Alice. Por mais que ele quisesse esquecê-la, que quisesse ser inteiramente de Izabelle, que buscasse fazer sua companheira feliz, por mais que ele tentasse a todo custo fazer para Izabelle o mesmo bem que ela o estava fazendo, ele sabia em seu íntimo que não estava cem por cento entregue naquele relacionamento. E aquilo o desagradava terrivelmente. Ele não se perdoava por ainda pensar naquela que outrora tentou matá-lo. Matheus não se conformava em não conseguir amar Izabelle com a mesma intensidade que era amado por ela.

Mas até nisso ela se mostrava amável e compreensiva, deixando claro que já era feliz em poder expressar seu afeto e em ter a companhia de seu amado. Era uma mulher linda, ponderada, sensata e madura. Sabia como ninguém enlouquecer um homem na cama e se esforçava para agradar seu amante em tudo. De algum jeito Izabelle sabia entrara em sua vida com uma missão. Seria este o destino reservado para eles?

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As coisas pareciam estar bem, com os dois levando uma vida aparentemente normal, até que um simples e-mail resolveu por um fim naquela aparente tranquilidade. Tratava-se de uma mensagem de Demétrius pedindo aos dois que partissem para a Europa a fim de ajudá-los a organizar uma terceira força licantropa. Essa força alternativa teria o intuito de dar termo aquela guerra insana entre os dois grandes clãs de amaldiçoados antes que aquela disputa acabasse por trazer a ruína ao mundo todo.

Matheus preferiu ignorar aquela convocação de seu amigo e mestre. Estava farto de sangue, queria apenas ser um homem comum, com uma vida comum. Ele manteve aquela mensagem em segredo não participando a Izabelle o seu conteúdo. Seus antigos aliados que o perdoassem, mas aquela não era a guerra dele, pensou Matheus em seu egoísmo humano. Assim sendo, continuou levando sua vida como se nada estivesse acontecendo.

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Em outra cidade, um noticiário de TV dá um novo rumo aos acontecimentos na vida de Matheus. O destino quis que Alice assistisse a uma reportagem onde seu ex-namorado era entrevistado como o mais novo empreendedor e incentivador da cultura na cidade de Belo Horizonte.

Aquilo era tudo o que Alice estava buscando durante aqueles dias que se seguiram ao massacre de seus companheiros Gadols no “Mosteiro dos Cavaleiros da Lua”. Agora enfim ela descobrira o paradeiro de seu alvo. Não perderia mais nenhum minuto sequer, aquele amaldiçoado iria se arrepender amargamente pelo dia que ousara cruzar o seu caminho. Ele não sabia o que lhe estava reservado.

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