Depois de algumas horas, eles já haviam se acalmado. Matheus ainda chorou muito a morte de Izabelle. Ficou por vários minutos acariciando os cabelos macios de sua companheira, olhando o corpo inerte daquela que ajudou-o a reencontrar-se quando estava perdido. Foi doloroso para ele sepultá-la ali naquele local, sozinha. Ele despediu-se com um beijo antes de deitá-la em sua cova e, juntamente com Alice, cobriu-a de terra. Matheus, como há muito tempo não fazia, ainda orou pela alma de sua querida e amada amiga e amante. Sabia que tinha um dívida com ela que ainda teria que ser paga. Ele, ao seu modo, a amou e não se deixaria esquecer os momentos que passou ao seu lado. Izabelle ensinou-o a ter esperanças, ensinou-o a ver que por mais que a vida seja cheia de duros golpes, não podemos simplesmente fugir de nossas responsabilidades e que devemos lutar sempre para que as coisas melhorem.
Alice também sepultou o corpo de seu
mestre Benjamim. Por mais que ela soubesse que havia sido usada por
ele para benefício de sua causa Gadol, ainda supria amor e gratidão
por aquele que a instruíra em suas artes de combate e magia. Não
fosse por Benjamim, possivelmente ela já estaria morta pelas mãos
dos próprios Gadols. Foi ele quem viu seu potencial e investiu,
ensinando-a tudo o que sabia sobre as artes dos caçadores. Alice
agora era uma das maiores guerreiras dentre os de sua geração e
possuía em suas veias o antigo e raro sangue da nobreza Gadol do
oriente. Com certeza seu desaparecimento e de seu mestre seria
rapidamente percebido pelas lideranças de sua ordem. Ela deveria
pensar rapidamente numa forma de sumir sem deixar rastros. Apesar de
agora conhecer sua origem, ela não queria mais continuar seguindo
aquelas pessoas que só conseguiam enxergar a ameaça dentro das
pobres pessoas assoladas pela maldição de Licaon. Havia
reencontrado seu grande amor e lutaria com todas as suas forças por
ele.
**********
Depois de tantos desencontros que o
destino armara, agora os dois estavam novamente unidos. E ambos
haviam passado por grandes transformações. Já não eram mais os
mesmos de antes do desaparecimento de Alice. Agora eram guerreiros
experientes em batalhas, adquiriram conhecimento de suas naturezas
sobrenaturais. A dor os havia endurecido os semblantes, mas ambos
conseguiram sobreviver a tudo e submergiram do mais profundo de suas
almas ainda com alguma luz em seus corações. Não tinham sucumbido
totalmente à escuridão e ao ódio, antes o amor os salvou de
tornarem-se pessoas sem alma movidas somente pela busca da
destruição. O amor que um nutria pelo outro os aproximou novamente
e seria o combustível que os ajudaria a completar a missão que o
destino reservara para ambos.
A semana seguinte ao reencontro de
Matheus e Alice passou de forma lenta. Matheus não conseguira
embarcar em seu voo na noite do confronto com Benjamim. O ataque
surpresa dos Gadols acabou por obrigá-lo a reformular seus planos. E
Matheus não teve pressa para reorganizar-se. Por mais que a situação
na Europa pedisse o seu rápido envolvimento, ele ainda prateou o
luto por Izabelle por mais alguns dias, precisava daquele tempo para
reorganizar seus sentimentos, para novamente se reerguer frente a
mais um duro golpe da vida. Tratou desta vez de deixar as coisas
acertadas na empresa. Elegeu um dos diretores para substituí-lo
durante sua ausência e informou seus amigos que iria viajar e que
não teria data para retorno. Acabou entrando em contato com os três
lobos gêmeos pedindo-lhes perdão pela demora em parti-lhes em
auxílio e informando-os do ocorrido naqueles últimos dias. Os três
acabaram entendendo-o e aceitaram o seu pedido de perdão. Haviam
ficado também tocados pela morte de sua amiga Izabelle. Ela era
realmente uma grande perda para o meio licantropo, uma amiga que
faria falta. Respeitaram o pedido de Matheus para ficar mais uma
semana no Brasil para reorganizar-se, para recompor seu emocional.
Ele deveria estar inteiro, precisaria estar em condições de agir
prontamente quando chegasse ao seu destino na Europa, não tendo
espaço nem tempo para prantear por mais ninguém.
Apesar da triste notícia da perda de
sua aliada e amiga, os três lobos gêmeos não ficaram incessíveis
à notícia do retorno de Alice. Aquela era realmente uma das poucas
notícias que mereciam comemoração naqueles dias de dúvidas e
apreensão. Os adversários estavam se articulando rapidamente.
Dentro de poucos meses a guerra iria explodir e eles eram os únicos
que poderiam fazer algo para evitá-la. E a presença de Alice lhes
trazia um novo ânimo, como se o som da corneta da cavalaria
estivesse sendo entoada em seu auxílio.
Alice também utilizou daquele tempo
para reestruturar sua vida e resolver seus problemas que não eram
poucos. Havia sido dada como desaparecida por sua família já fazia
um ano. Teria que revê-los antes de partir para uma possível guerra
de onde talvez nunca voltaria. Resolveu então procurar seus pais
para tentar explicar-lhes o ocorrido. O reencontro foi emocionante e
difícil. Seus pais já haviam dado a filha como morta e ela teve que
esforça-se muito para contar-lhes com calma tudo o que se passou com
ela naquele período de seu desaparecimento. Alice não omitiu-lhes
nada. Contou sobre o que acontecera com Matheus e da maldição,
contou de seu sequestro realizado pelos Gadols, contou de como teve
sua memória apagada e de como recobrou-a. Enfim, ao longo de duras
horas de conversa, Alice convencera seus pais de que seu avô Hilal
não era louco e que ela também tornara-se uma Gadol.
E não foi somente Alice quem fez
revelações durante aquele dia. O pai de Alice acabou por confessar
que sempre soubera da razão pela qual seus pais fugiram da Turquia
para o Brasil. Confessou saber que seus ascendentes eram Gadols e que
ele também possuía o sangue dos guerreiros-sacerdotes em suas
veias, mas que preferira a ignorância por medo do que poderia vir a
acontecer com ele e sua família. Essa também fora a razão real
pela qual ele proibira seu velho pai de ensinar tais coisas à Alice.
Ele não queria que sua garotinha vivesse uma vida de sacrifícios,
privações e sofrimentos. Tinha ainda vivo em sua memória a dor de
perder praticamente todos os seus familiares em um único ataque
Lican. Apesar de ainda ser uma criança quando do ocorrido, ele ainda
trazia vivo em sua alma o trauma que aquela experiência produzira.
Agora seu medo concretizara-se e sua filha teria que partir para
combater numa guerra que ele sabia que poderia acabar com a
civilização conhecida transformando o mundo em um caos. Como a vida
era dura, enfim a filha desaparecida retornara, mas não para ficar
definitivamente. Teria que sair em uma jornada perigosa e sem certeza
do sucesso.
**********
Os dois estavam novamente frente à
frente. A sala de embarque estava lotada. Várias pessoas andavam de
um lado ao outro à procura de acentos, banheiros, comida ou
simplesmente um local para recarregar o celular, quem sabe?
Eles sabiam que poderiam não mais
retornar às suas casas, aos seus entes queridos. Mas não havia mais
volta, o destino os reuniu mais uma vez para que eles colocassem em
prática aquilo que foram treinados para fazer. Matheus e Alice se
uniram novamente para realizarem a viagem que ambos estavam
destinados.
- Espero que as coisas tenham ficado
bem entre você e sua família. - ele realmente estava sendo sincero
em seu comentário. Sabia o quanto a família era importante.
- Realmente bem eu acho que não
ficou. Quais pais ficariam tranquilos com tudo o que aconteceu? Mas
pelo menos agora eles sabem para onde estou indo, Matheus. Só não
sei se isto é mais reconfortante para eles. - ela estava pensativa,
sabia que havia deixado seus pais bastante preocupados.
- Não gosto quando você fica séria
assim. Seu rosto não combina com esta expressão tão dura. Deixe
que eu seja o rabugento do casal, certo? - ele tentava esboçar um
sorriso.
Ela toca-lhe os lábios. Sua expressão
se suaviza ante o olhar de carinho dele. Enfim ela o tem novamente ao
seu alcance. Parece um sonho como aqueles que ela tinha quando ainda
era uma menina. Depois de tudo, de todo o sofrimento, os dois estão
novamente juntos.
- Não sei como pude ficar tanto tempo
longe de você... - ela tenta dar um sorriso, está com a mente
longe, perdida em seus pensamentos, navegando em suas lembranças. -
Não sei como você pôde voltar a confiar em mim depois de tudo o
que aconteceu. - seu olhar é de remorso, uma expressão de
preocupação forma-se em seu semblante.
- Alice, eu te amo. Nunca deixei de
amar. Só lamento não poder viver em paz agora que tenho você de
novo ao meu lado. Sei que você está embarcando por vontade própria,
atendendo a um convite de Demétrius, mas não queria te envolver em
mais este problema...
- Meu amor, - ela apertou suas mãos
nas dele – este é um problema meu também. Não se esqueça que
estamos lutando por este mundo, pelas pessoas que amamos. Eu vim
porque não quero mais ficar um dia que seja longe de você.
Ele a abraça. Em seu peito o medo do
que os espera assombra seu coração. Não há mais o que se fazer.
Agora ambos terão que realizar o que lhes foi reservado. A porta de
embarque enfim se abre, as pessoas começam a se dirigir para o
avião. Eles seguram seus cartões de embarque e saem em direção ao
desconhecido, rumo ao “Velho Mundo”. O jovem casal era a peça
que faltava para que a engrenagem do destino pudesse agora trabalhar
à todo vapor. O amor daquele casal seria suficientemente forte para
vencer os desafios que os dois teriam que enfrentar?
Ele aperta a mão dela com força. Ela
abraça-lhe o braço e encosta a cabeça em seu ombro. Nada mais os
irá separar. Os dois nasceram para ficarem juntos.
Fim do livro I.

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