Eles estremeceram ao ver Matheus em
seu pleno poder. Definitivamente não estavam preparados para
enfrentar aquilo. Ele era assustador, sabiam que seu poder havia
aumentado exponencialmente. Ondas de energia emanavam de seu corpo,
como se pequenas explosões de poder tivessem como origem aquele
licantropo postado bem à sua frente. Benjamim, em toda a sua
experiência de guerreiro, nunca vira nada parecido com aquilo e
pensava numa forma de fugirem antes que fossem destruídos por aquele
demônio.
- Nem pense em fugir, maldito! -
Matheus os encarava com uma confiança perturbadora. - Quando tiver
terminado com você não vai restar nem um pedaço pra servir de
alimento pros vermes da terra. Eu peço a você, Alice, que não se
intrometa nesta luta, porque não pouparei nem mesmo você, caso
queira me impedir de esfolar vivo esse criminoso que você chama de
mestre. - ele falava sério ao alertar Alice.
- Eu vim aqui para vingar-me. -
respondeu intrepidamente Alice. - Sua luta é comigo!
- Não. Não tenho porque lutar contra
você. Aliás, não conseguiria machucá-la mortalmente em combate,
eu sei disso. Peço que se afaste, pois não sei o que pode acontecer
se você tentar colocar-se entre nós. Você não tem o direito de
tentar impedir-me de matá-lo. A vida dele é minha e hoje tratarei
de ceifá-la para que mais ninguém sofra com seus atos covardes.
- Pois se pensa que me esconderia
atrás de uma garota está muito enganado, seu infeliz. Ainda que seu
poder tenha se intensificado sobremaneira, tenho comigo o poder dos
deuses para exterminá-lo da face da Terra. Venha e verá que os
Gadols não correm da batalha! - Benjamim colocava-se em posição de
combate preparando-se para defender-se de Matheus.
Mas, antes que Matheus se lançasse ao
ataque, Alice adiantou-se e partiu contra seu oponente. A jovem era
impetuosa e corajosa, mas nem um pouco prudente. Achava que seu poder
era superior ao de qualquer licantropo, mas logo pôde constatar, ao
atacar Matheus, que estava enganada.
Matheus esperou-a imóvel. Esperou até
o momento dela aproximar-se o bastante para tentar golpeá-lo
utilizando uma tonfa que ela carregava consigo. A arma era toda
construída em prata com uma ponta perfurante em sua extremidade. Ela
movimentava rapidamente a tonfa que emanava descargas de energia
azuis de sua superfície, semelhante a pequenos relâmpagos, enquanto
cortava o ar em movimentos circulares. O zumbido daquela arma era
impressionante, era como se milhares de pássaros estivessem em
revoada, emitindo ruídos constantemente. Para ele não foi difícil
esquivar-se do ataque, sua velocidade – que já era impressionante
para um licantropo – dobrara agora que estava sob o efeito do “Luar
de Sangue”. Não teve dúvidas, golpeou Alice no estômago com uma
potência que a fez voar a vários metros de distância. Uma pessoa
normal teria desfalecido instantaneamente, e mesmo Alice, que estava
utilizando um encantamento de proteção, ficou deitada sem fôlego,
ainda consciente, mas temporariamente fora de combate. Ele a atacara
sem a espada, poderia tê-la matado, mas não o fez. Antes deixou-a
incapacitada de intrometer-se na luta que estavam prestes a travar.
Alice não entendia seus sentimentos.
Seu coração queimava de desespero por querer estar próxima daquele
licantropo. Seu rosto a deixava intrigada, como se seu semblante lhe
fosse estranhamente familiar. Não entendia porque ficara tão tocada
ao vê-lo chorar desesperado a perda de sua companheira. Ela não
conseguiu atacá-lo, logo em um momento tão propício, momento em
que ele estava totalmente vulnerável, indefeso. Antes seu desejo foi
absurdo, ela sentira um impulso de consolá-lo, como se eles fossem
amigos, ou pior, como se eles fossem amantes! Alice estava muito
perturbada com esse turbilhão de emoções que teimavam em
atormentá-la sempre que ela dirigia seus pensamentos para a figura
daquele amaldiçoado. Mas agora ela não tinha o que fazer. Lutava
desesperadamente para tentar respirar. O golpe recebido no estômago
fora muito potente, nem mesmo o encantamento para aumentar sua
resistência às lesões foi capaz de protegê-la totalmente daquele
golpe. Por mais que se esforçasse para tentar levantar-se, ela
estava incapacitada. Precisaria de mais tempo para se recuperar e
isto ela sabia que eles não possuíam.
Benjamim, como fizera na última
batalha frente a Matheus, conjurara uma barreira de proteção ao seu
redor que repeliria a presença de Matheus com a mesma intensidade
que viesse o seu ataque. Imediatamente após cuidar de sua defesa,
ele pôs-se a entoar outro encantamento, mas este agora seria um
movimento ofensivo. Ele iria utilizar seu recurso mais poderoso para
tentar defender-se daquela aberração licantropa. Era seu maior
trunfo que ele não ensinara a ninguém, nem mesmo a Alice. Esta
seria sua cartada final.
Matheus observava seu oponente que
preparava mais um encantamento enquanto aproximava-se lentamente da
barreira de proteção criada por Benjamim. Ele não via a hora de
poder agarrar o pescoço daquele velho entre as suas mãos.
Colocou-se frente a barreira e tentou atravessá-la sem sucesso. O
velho Gadol era esperto, tentava ganhar tempo, seu próximo feitiço
deveria ser algo poderoso, pensava Matheus. Ele viu com indiferença
quando o velho Gadol tocou o cano de sua pistola e a arma começou a
emitir uma luminosidade pálida de um azul semelhante à cor dos
raios de Selene durante a lua cheia. Matheus não estava disposto a
recuar por nada.
Benjamim terminara seu feitiço e via
com satisfação que seu adversário permanecia estático
observando-o frente à barreira de proteção invocada por ele.
Daquele modo seria fácil atingi-lo. E ele sabia que licantropo
nenhum resistiria a um ataque poderoso como aquele.
Alice tentava por-se de pé para
ajudar seu mestre, mas ainda não conseguia respirar normalmente,
fazendo um esforço incrível para manter-se consciente. Tentava sem
sucesso entoar um mantra de regeneração, mas sem fôlego era
impossível conjurar qualquer encantamento que fosse.
Enfim Benjamim puxou o gatilho e do
cano de sua arma saiu uma rajada de energia de proporções
gigantescas frente ao diâmetro do cano da arma. Era uma verdadeira
ogiva de energia de aproximadamente um metro de diâmetro que viajava
a uma velocidade alucinante. Àquela distância era totalmente
impossível para Matheus desviar-se daquele ataque arrasador. Ele
seria atingido e certamente seria aniquilado pelo impacto de tão
absurdo poder. Os Gadols eram seres surpreendentemente poderosos.
Benjamim
pensara que havia vencido ao ver a ogiva de energia atingir Matheus.
Não observara o que ocorrera milésimos de segundos antes de seu
ataque chegar em seu adversário. Matheus canalizara todo o seu poder
para a lâmina de sua wakizashi. Ela agora era uma espada de pura
energia, com sua lâmina sendo coberta pelo poder de um dos mais
poderosos demônios do planeta, Shaladiel. Matheus utilizara a
wakizashi para literalmente dividir a ogiva de energia de Benjamim ao
meio! Usara energia para repelir energia. Colocara toda a sua força
de vontade e poder na lâmina de sua espada e isto tornou-a um
prolongamento seu. Ambos eram agora um único ser. Matheus e sua
lâmina fatiadora vibravam na mesma frequência, partilhavam da mesma
essência. Ele sentiu com uma nitidez incrível o momento que a
lâmina da wakizashi tocou a ogiva de energia condensada, dividindo-a
ao meio, fazendo cada metade mudar de direção para chocarem-se a
vários metros dali.
Matheus já esperara demais. Dera a
oportunidade de seu inimigo tomar a iniciativa e ele falhara em seu
intento. Agora era a sua vez de atacar e ele não se daria ao lixo de
falhar também. Matheus avançou com o toda a convicção contra a
barreira de proteção de Benjamim, iria atravessá-la a qualquer
custo. Ele penetrou-a com extrema velocidade e resistiu à força de
repulsão que ela gerava. Sua roupa, no entanto, não resistiu e foi
totalmente desintegrada. O corpo de Matheus estava resistindo a uma
força incrível e em consequência pedaços de sua pele começaram a
se esfacelar. Ele todo se desintegrava enquanto avançava convicto
contra Benjamim. Esta seria a hora de sua vingança e feitiço algum
o impediria de concretizá-la.
Benjamim não acreditou ao ver que
Matheus sobrevivera ao seu ataque e que invadia sua barreira de
proteção. O licantropo avançou sobre ele como um lobo ataca um
coelho indefeso. No próximo instante Matheus já inçava Benjamim
pelo pescoço, sua mão pressionava a garganta do Gadol com uma força
que quase quebrou-lhe o pescoço.
- Agora chegou a tua hora, homem. Você
não sabe como desejei tê-lo em minhas mãos. - Benjamim sufocava.
Ele urinava-se de medo. - Reze para que, onde a tua alma for, não
existam mais de nós esperando para torturá-lo. - Matheus falou
estas palavras sem qualquer esboço de emoção. Estava frio como a
lâmina de sua espada.
O licantropo zumbiu sua wakizashi e
penetrou o ventre de Benjamim, rasgando-o de baixo para cima até
atingir-lhe a caixa torácica. O velho debateu-se e sangrou até a
morte olhando desesperado para os olhos implacáveis de Matheus. Ao
dar seu último suspiro, a barreira de energia desapareceu.
Alice assistiu a tudo impotente. Seu
mestre estava morto. O demônio que atendia pelo nome de Matheus
ceifara a vida de mais um Gadol. Ela não poderia deixar que isso
continuasse. Teria que fazer algo. Alice não sabia, mas pertencia a
uma nobre linhagem de guerreiros Gadols. Dentro dela havia o sangue
dos príncipes sacerdotes que combateram Licaon em sua loucura e
sobreviveram. Ela possuía um talento inato para a magia e um
potencial enorme para o uso de seu poder espiritual na batalha. Não
era à toa que Benjamim, um dos grandes guerreiros Gadols,
pertencente à elite de sua ordem, orgulhava-se de sua discípula.
Ela tinha o sangue nobre que outrora pensava-se que havia sido
extinto. Possuía todas as condições de tornar-se a maior guerreira
Gadol de seu tempo. E ela sabia disso. Não iria deixar a honra Gadol
ser destruída por aquele licantropo. Ela teria que agir, teria que
destruir aquela ameaça.
O corpo de Matheus regenerara-se
completamente. Sob o “Luar de Sangue” ele possuía os poderes de
Shaladiel e sua capacidade de regeneração. Ele ainda observava o
corpo inerte de sua vítima no chão quando Alice colocou-se mais uma
vez em posição de ataque. Aquele seria também o confronto final
entre ambos. O mal que Benjamim criou teria que ser aniquilado
completamente.
Matheus empunhou mais uma vez sua
wakizashi e partiu em direção à Alice. Em sua cabeça um turbilhão
de lembranças. Não conseguia pensar nela como sua inimiga, antes
sabia que aquela era uma Alice fabricada pelo poder da magia Gadol.
Mas mesmo assim, não se deixaria perecer e com isso morrer o sonho
de Izabelle. Teria que sobreviver, deveria ainda lutar ao lado de
seus amigos para eliminar a ameaça de uma guerra mundial capaz de
aniquilar a raça humana da face da Terra. Ele não tombaria naquele
lugar, não tinha este direito. Seus olhos exprimiam sua dor. Aquela
Gadol que se lançava contra ele era Alice, sua Alice. Como poderia
causá-la mal? Ela, quem ele tanto amava!
Alice corria emitindo um grito de dor.
Dor pelo seu mestre morto, dor pelo vazio em sua alma, dor por não
conseguir lembrar de seu passado, dor por não conseguir negar o
sentimento que sentia por aquele amaldiçoado. Ela conjurou mais um
feitiço. Sua tonfa novamente emitia rajadas de energia, sua
tatuagem, que ficava no pulso que segurava a arma, brilhava
intermitentemente numa frequência de alerta. Ela tentaria algo novo,
usaria duas técnicas ao mesmo tempo. Exorcizaria de uma vez por
todas aquele mal da Terra. Seu coração doía, seu peito parecia ser
capaz de explodir a qualquer momento, seus batimentos eram
acelerados. Ela mirou no peito de seu oponente e então golpeou.
Ele não reagiu. Dentro dele ódio e
amor lutavam. E o vencedor de sua consciência não deixou que sua
arma fosse erguida e atacasse aquela jovem. Por mais que Matheus
odiasse os Gadols, o amor que sentia por Alice nunca o abandonou e
agora, mais uma vez, gritava alto dentro de seu peito para não
desaparecer. Ele não pôde fazer nada. Simplesmente fechou seus
olhos e esperou o impacto do golpe de Alice.
Ela o acertou. Sentiu quando a ponta
perfurante de sua arma atingiu o corpo de seu oponente. Ela não
sabia o porquê, mas fechara os olhos no momento final do ataque. Ao
abri-los deparou-se com a imagem de Matheus ajoelhado à sua frente,
ensanguentado, com os olhos cheios de lágrimas.
Alice agora o reconhecera. Ele era a
pessoa que a tinha feito sentir-se feliz como nunca outro alguém
fizera. Ele era o escolhido do seu coração, o seu amado. Agora ela
sabia, ele era a dor do vazio que gritava intensamente dentro do seu
peito. Ela estava em choque.
- Meu amor... - foi o que saiu da boca
de Matheus ao ver que Alice também caía de joelhos à sua frente.
No momento em que ela transpassara-o,
tudo o que existia dentro dela que há tempos havia sido escondido
fluíra com força para a superfície. O amor que sentia por ele era
mais forte que qualquer encantamento. Agora ela lembrava-se de todo o
seu passado. Lembrava-se do sentimento que possuía por aquele homem.
Seu coração inundou-se de remorso de arrependimento. Ela o
machucara, ela o fizera sangrar. E o pior de tudo, ela o fizera
sofrer. Agora ela via com clareza, havia sido usada por Benjamim em
proveito dos Gadols. Tudo o que aquele velho guerreiro lhe contara a
cerca de Matheus era mentira. Ela agora sabia, aquele era o homem por
quem se apaixonara e por quem abandonaria tudo. Sua respiração
estava ofegante. Ela estava atordoada com tamanha revelação. Alice
sentia seus sentimentos emergirem como lava expelida com força por
um vulcão. As lembranças se amontoavam em sua mente, chocavam-se
desordenadamente numa verdadeira avalanche. Lembranças felizes agora
retornavam, sentimentos valiosos que poderiam ter sido perdidos.
Ele mantinha-se ajoelhado, a cabeça
baixa. Uma poça de sangue formava-se à sua volta. Estava trêmulo,
sentia frio. Filetes de lágrimas escorriam de seu rosto. Ela o
abraçou. Apertou-o forte contra o seu corpo.
- Meu amor, me perdoe. Não sabia a
loucura que estava fazendo. - ela tentava desculpar-se. Seu coração
também sangrava com todo o sofrimento a ele causado. Estava
desesperada com a ideia de perdê-lo naquele momento.
- E-eu pensei que tivesse perdido você
para eles, Alice... E isto estava me consumindo, me matando dia após
dia.
- Não fale mais, meu bem, você está
ferido. - ela colocou a mão em seus lábios. - Deixe-me cuidar de
você. - ela o beijou, um beijo demorado, um beijo inundado de
saudade.
Ele deitou-se no chão. Ela retirou
com cuidado o bastão de seu corpo. O sangramento era intenso, algo
deveria ser feito rapidamente. Ela pôs-se conjurar um feitiço e
colocou a mão sobre o ferimento de seu amado. Aos poucos o ferimento
de Matheus foi se fechando até sumir por completo. O sentimento de
Alice não deixou-a golpear seu amado fatalmente. Ela atravessara-o,
mas seu ataque fora desviado no momento final. Algo a impedira de
atingi-lo fatalmente, algo dentro dela, dentro de sua consciência.
Atingira a lateral do abdômen de Matheus, não atravessando-lhe
nenhum órgão vital. Ele sobreviveria afinal.
Enquanto Matheus se restabelecia
deitado sobre as coxas de Alice, os pensamentos da jovem buscavam
longe em suas memórias. Iam ao início de sua lembranças quando ela
ainda era uma criança. Ela sabia o que havia acontecido, sabia o que
fizera com que o feitiço de Benjamim fosse quebrado. Com um pequeno
sussurro ela agradeceu, sabia que seria ouvida mesmo que não o
fizesse em palavras.
- Obrigada, Vovô, por me ensinar a
não ter medo de amar e a não desistir dele para ser forte. Não
fosse por isto, agora eu estaria totalmente perdida...

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